Festival do Rio #11

Abraços para o sr. Urina por não ter comparecido a nenhuma das sessões nas quais eu me encontrava hoje – embora eu tenha sido informado de que ele aprontou um pequeno escândalo em função do cancelamento de uma sessão e, claro, emporcalhou o chão do Vivo Gávea.

Mas vamos aos filmes:

51) Mapa (Idem, Espanha, 2012). Dirigido por León Siminiani.

Mapa é um documentário fascinante: iniciado pelo espanhol León Siminiani como uma busca terapêutica para superar o fim de um namoro, o filme eventualmente se torna um diário de viagem, uma reflexão sobre a cultura da Índia, um breve libelo político e, acima de tudo, um estudo sobre a própria linguagem cinematográfica e a análise metalinguística de sua própria criação.

Até completar o círculo e se tornar uma busca terapêutica para superar o fim de um novo namoro.

Divertido graças ao senso de humor sutil e à tendência de Siminiani em analisar seu próprio processo mental e artístico durante toda a duração do projeto, Mapa tem o título perfeito não só em sua conotação geográfica (por acompanhar a jornada do diretor pela Índia e, mais tarde, pela Espanha), mas também em seus diversos simbolismos, já que acompanha a trajetória emocional e criativa do cineasta.

Demonstrando possuir uma das maiores virtudes de um artista – a abertura constante a descobrir novos caminhos de expressão -, Siminiani vai descobrindo a estrutura de seu filme à medida que o constrói, nem sempre acertando, o que o obriga a retornar a caminhos antes abandonados, a repensar decisões e, principalmente, a se questionar o tempo inteiro. Assim, se em certo momento ele passa a observar a arquitetura neocolonialista de Calcutá, sua voz autocrítica (que ele batiza de “O Outro”) não demora a condená-lo por imprimir uma visão de burguês do Primeiro Mundo ao país que visita – e, no entanto, ao apontar sua câmera para a miséria que encontra, a mesma voz o acusa de tentar explorar a pobreza para conferir um caráter social ao filme.

A pressão autoimposta é tamanha que, em certos instantes, Mapa se resume a uma tela preta enquanto Siminiani se sente travado para filmar qualquer coisa, optando apenas por registrar suas ideias em breves letreiros. Já em outros pontos da projeção, o diretor deixa clara sua lógica estrutural ao anunciar que, farto de discutir morte, irá fazer um fade breve que leve a uma transição e permita a mudança do tema.

Assim, aos poucos o realizador vai conquistando o espectador não só através do humor e de suas neuroses, mas também por se mostrar tão franco quanto às suas inseguranças artísticas e pessoais. Abertamente carente, ele retrata o instante em que conhece uma mochileira da Dinamarca e se torna seu companheiro de viagem por alguns dias – revelando que, embora conversasse sobre a viagem em si, sua mente mantinha-se obcecada pela possibilidade de tê-la como namorada. Já em outro ponto da narrativa, Siminiani busca registrar as ações de uma vaca presa em um canal, sendo obrigado a lutar pelo controle do quadro com um garotinho que insiste em permanecer à sua frente, resultando em uma interação divertida e lúdica.

Sem tentar forçar um desfecho satisfatório em uma obra que, por sua própria natureza, jamais poderia ser concluída (posto que gira em torno da calmaria amorosa que humano algum alcança de fato), Mapa é um documentário que conquista por sua encantadora honestidade. (5 estrelas em 5)

52) Matéria Obscura (Materia Oscura, Itália, 2013). Dirigido por Massimo D’Anolfi, Martina Parenti.

Matéria Obscura é um documentário entediante sobre um assunto importante, o que é uma combinação lamentável. Buscando expor os efeitos danosos no ecossistema de uma região da Sardenha usada para testes de mísseis desde a década de 50, o filme de Massimo D’Anolfi e Martina Parenti tenta criar uma narrativa que não dependa de narrações ou depoimentos, permitindo que as imagens capturadas falem por si mesmas. Neste sentido, a dupla merece aplausos, já que o número de longas construídos preguiçosamente e que resolvem todos os problemas através do batido recurso do voice over é cada vez maior – e, portanto, é uma pena que o esforço seja tão malsucedido.

Sim, há passagens relativamente eficazes ao longo dos intermináveis 80 minutos de duração do filme, que comove, por exemplo, ao trazer um velho fazendeiro insistindo em cuidar carinhosamente de um bezerro que, nascido com deformações supostamente provocadas pela contaminação da região pelo tório presente nos experimentos militares, não consegue se alimentar sozinho – mas estes instantes estão espalhados em meio a extensas sequências que se resumem a mostrar vacas e ovelhas pastando ao som soporífero de seus sininhos e a imagens recorrentes de mísseis sendo disparados.

Com isso, ao final da projeção, em vez de sairmos da sala com a revolta que deveríamos sentir, ficamos apenas aliviados por termos sido libertados daquela experiência excruciante. (2 estrelas em 5)

53) Duo (Dvojina, Eslovênia, 2013). Dirigido por Nejc Gazvoda. Com: Nina Rakovec, Mia Jexen, Jure Heigman, Natasa Barbara Gracner, Matjaz Tribuson.

Em certo momento de Duo, longa esloveno escrito pelo diretor Nejc Gazvoda ao lado de Janez Lapajne, as duas personagens vividas pelas ótimas atrizes Nina Rakovec e Mia Jexen decidem trocar confidências, mas com um detalhe importante: cada uma fará a revelação em sua própria língua, que a outra não compreende. Abrindo-se por se sentirem seguras de que suas palavras trarão certo alívio ao serem ditas, mas sem que, no processo, exponham suas fragilidades, as moças se aproximam não por se conhecerem mais do que antes, mas por terem servido como catalisadoras de discretas catarses.

Delicado no desenvolvimento da relação entre as garotas, Duo é um filme capaz de alternar momentos de leveza com outros que surgem sufocantes, discutindo, no processo, a busca pela própria identidade e a difícil trajetória rumo à independência que a idade adulta deve trazer.

Tropeçando em alguns clichês que tentam conferir um drama maior do que o necessário à história e em planos óbvios que se esforçam para alcançar simbolismos tolos (como o instante no qual as asas de uma escultura de dragão surgem posicionadas atrás de Iben), o longa representa uma experiência simpática, mas esquecível. (3 estrelas em 5)

 

54) Guerras Sujas (Dirty Wars, EUA, 2012). Dirigido por Richard Rowley. Com: Jeremy Scahill.

Em fevereiro de 2010, uma festa familiar na pequena vila de Gardez, no Afeganistão, resultou em tragédia quando soldados norte-americanos chegaram ao local e dispararam suas metralhadoras contra os ocupantes da casa, matando dois homens (um deles, um policial treinado pelos próprios Estados Unidos) e duas mulheres grávidas. Pouco depois, o jornalista Jeremy Scahill, farto de cobrir apenas as notícias divulgadas oficialmente pela OTAN, ouviu falar sobre o incidente e partiu para Gardez, onde descobriu algo ainda mais assustador e revoltante: um vídeo que mostrava os soldados discutindo a versão que iriam apresentar para o massacre cometido, o que, somado ao fato de terem retirado as balas dos cadáveres usando facas, evitaria que fossem incriminados pelo que fizeram.

A investigação de Scahill culminaria na descoberta do sinistro Joint Special Operations Command (JSOC), um grupo militar secreto que se reportava diretamente à Casa Branca e tinha, como tarefa, executar alvos em países como Afeganistão, Iraque, Iêmen e até mesmo na América Latina, culminando no assassinato do primeiro cidadão norte-americano a mando do presidente sem que o sujeito houvesse sido indiciado ou julgado.

Construído na forma de um thriller político com toques conspiratórios e que poderia ter saído da imaginação de um roteirista na década de 70, Guerras Sujas é um documentário apavorante que comprova, através de fartas evidências, as ações criminosas do governo Obama, que, ao contrário de suas promessas de campanha, acabou intensificando a “guerra ao terror” ao conferir poder irrestrito ao temido JSOC – que, nas palavras de um de seus integrantes (que depõe se mantendo no anonimato), se “tornou um martelo gigante sempre à procura de um prego”.

Famoso por ter executado bin Laden, o JSOC surge aqui não como o comando heroico celebrado nas ruas por uma população em êxtase catártico com a morte do arquiteto do 11 de Setembro, mas como uma organização terrorista (“talibã norte-americano”, como diz alguém) que conta com o poderio e as fartas verbas ianques para caçar e matar cidadãos em todo o planeta sem prestar contas a quem quer que seja, resultando em massacres como o que ocorreu no Iêmen, quando 56 civis (incluindo 21 crianças) foram destruídos por um míssil.

Anunciando aos quatro ventos que seus enviados militares têm o dever de “conquistar os corações” dos cidadãos que vivem nos países invadidos, o governo dos Estados Unidos parece, através deste tipo de ação, estar apenas fomentando o ódio internacional – e não é à toa que a lista de 55 alvos da CIA logo é ampliada para outra contendo alguns milhares de nomes. Da mesma maneira, é sintomático perceber que a primeira vítima nascida nos Estados Unidos, o imame Anwar al-Awlaki, era um líder islâmico moderado que logo condenou os ataques de 11 de Setembro até que, ao fazer críticas às ações de seu país no Iraque e contra muçulmanos ao redor do mundo, tornou-se perseguido politicamente e acabou preso, passando 17 meses numa solitária e eventualmente sofrendo um atentado por parte do JSOC. Resultado: al-Awlaki tornou-se um radical, passou a incentivar jovens a declararem uma jihad contra os norte-americanos e acabou morto num ataque por drones. De novo: sem julgamento algum. Para piorar, seu filho de 16 anos acabou pulverizado em outro bombardeio pouco depois apesar de jamais ter tido envolvimento algum com as ações do pai.

Revoltado com todos estes fatos, o jornalista Jeremy Scahill tentou denunciar as ações do JSOC, mas sua visita a um comitê do congresso dos Estados Unidos foi ignorada por todos e suas participações em talk shows resultaram apenas em discussões típicas do infotainment contemporâneo, no qual o propósito é ganhar audiência através de berros e piadas.

O que nos traz a este documentário, que, ao lado do livro lançado pelo repórter, busca expor a verdade por trás dos “heróis” do JSOC. Trata-se de um filme impecável no que diz respeito à apresentação dos fatos e do processo investigativo de Scahill, mas que peca por tentar transformar o jornalista no centro da história, trazendo vários planos nos quais o vemos com olhar pensativo, comprando café ou fazendo anotações – elementos totalmente descartáveis que servem apenas para desviar pontualmente o foco da importante história que o sujeito quer contar. E que precisamos desesperadamente ouvir. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos