Festival do Rio #12

Foram 57 filmes vistos e comentados neste espaço ao longo de 14 dias, resultando em 29.031 palavras escritas e um cansaço descomunal. Mas espero que tenham apreciado, pois em uma semana tudo recomeçará na Mostra de São Paulo, embora eu não possa prometer que irei conseguir escrever sobre todos os longas aos quais assistir durante o evento. Tentarei, porém.

Vamos aos três últimos títulos:

55) The Green Inferno (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Eli Roth. Com: Lorenza Izzo, Ariel Levy, Aaron Burns, Daryl Sabara, Sky Ferreira, Nicolás Martínez, Kirby Bliss Blanton, Magda Apanowicz, Matías Lopez.

O ciclo do canibalismo italiano, que conquistou fãs do horror e do gore nas décadas de 70 e 80 e atingiu seu auge com Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato (que vi – e curti – aos 15 anos de idade, mas jamais senti vontade de revisitar), não só é a inspiração óbvia de Eli Roth neste seu The Green Inferno como, se pensarmos um segundo sobre o assunto, é também uma influência inevitável na obra de um diretor cuja carreira se baseia quase toda em xenofobia e misoginia. Não é segredo, para quem acompanha meu trabalho há algum tempo, que nutro profundo desprezo por Roth, que sente um prazer inequívoco em submeter suas personagens femininas a todo tipo de humilhação imaginável e que enxerga o mundo fora dos Estados Unidos como uma selva repleta de criaturas monstruosas, mas, como crítico de Cinema, não posso negar que (predileções temáticas à parte) este é seu trabalho mais eficaz como realizador.

Roteirizado pelo diretor ao lado de Guillermo Amoedo, o filme gira em torno de um grupo de universitários norte-americanos que decide viajar para a Amazônia peruana com o objetivo de realizar um protesto contra uma construtora que está derrubando a floresta e destruindo uma tribo local. Ao retornarem da ação, porém, os jovens sofrem um acidente de avião e descobrem que a tal tribo não é particularmente boa em demonstrar gratidão, já que os nativos decidem… vocês já sabem.

Surpreendendo ao retratar a ação do grupo diante dos seguranças da construtora de forma tensa e ágil, Eli Roth também consegue conferir urgência e pavor à sequência que traz a queda do avião – e, mesmo não sendo tão fabulosos assim, estes dois momentos se encontram entre os melhores da carreira do medíocre diretor (e é sempre prazeroso ver um artista melhorando com o tempo, mesmo que este seja Eli Roth). Demonstrando um senso de humor negro eficiente que, de certa maneira, consegue aliviar o impacto gráfico da primeira execução por parte dos selvagens (quando a vítima é vista até mesmo com um legume na boca), Roth faz jus à natureza gore de suas principais influências ao incluir efeitos de maquiagem e próteses que transformam o desmembramento e o estripamento em um espetáculo à parte – e nem vou discutir a composição dos índios (que chamei de “selvagens” por serem assim retratados pelo longa), já que isto seria inevitável neste subgênero.

Por outro lado, se Roth descartou o principal elemento estrutural de Cannibal Holocaust (a narrativa construída a partir de imagens encontradas e que inspirou filmes como A Bruxa de Blair), poderia também ter ignorado seus elementos misóginos – mas, se o fizesse, não seria Eli Roth, não é mesmo? Assim, o diretor logo expõe seu machismo ao retratar duas garotas que se antipatizam por terem interesse pelo mesmo homem e em seguida acrescenta doses cavalares de misoginia ao criar, do nada, sequências que trazem três garotas sendo violadas pela líder da tribo, que, no clímax, volta a protagonizar uma sugestão gratuita de estupro.

Patético também nas tentativas do diretor de tentar fazer comentários políticos (a gag que encerra a projeção é ridícula e reacionária), The Green Inferno tropeça na obviedade do roteiro (a apresentação do colar da avó da protagonista é uma daquelas pistas que praticamente gritam por atenção) e pelo humor adolescente, já que, aos 41 anos, Roth já é bem velhinho para achar graça em uma garota sofrendo crise de diarreia explosiva no meio da selva. Por outro lado, a vilania de determinado personagem é tão absurda que acaba sendo empregada como piada recorrente, revelando novas dimensões a cada cena.

Povoado por atores pavorosos – o que talvez seja proposital, fazendo referência aos filmes originais, The Green Inferno é um longa de extremo mau gosto, é verdade, mas também divertido por se reconhecer como tal. E caso Eli Roth faça terapia e aprenda a respeitar o sexo feminino, talvez até possa vir a realizar algo relativamente memorável algum dia.

Eu sei, sou um eterno otimista.

Observação: os créditos finais trazem as contas no Twitter de vários integrantes do elenco e da equipe técnica. Não sei se isto é algo inédito, mas é algo que me chamou a atenção e que tem potencial para se transformar em tendência. (3 estrelas em 5)

56) Blue Jasmine (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Woody Allen. Com: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Andrew Dice Clark, Louis C.K., Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Max Casella, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard.

Depois de visitar Londres, Paris e Roma em seus três últimos filmes, Woody Allen retorna a Nova York (e a San Francisco depois de 40 anos – desde Sonhos de um Sedutor) em um drama eficaz que, assumindo a forma de estudo de personagem, inspira-se claramente em Uma Rua Chamada Pecado para criar aquela que provavelmente é a protagonista mais antipática da carreira do diretor. O que, acreditem, é uma das principais virtudes do projeto.

Iniciando com um plano pavoroso que traz um avião claramente digital cruzando a tela, Blue Jasmine nos apresenta à personagem-título (Blanchett), que, voando na primeira classe, insiste em contar sua história para a passageira do lado, uma velhinha que provavelmente iria preferir estar próxima ao Ted Striker de Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!. Acostumada à vida de luxo oferecida por seu marido Hal (Baldwin), Jasmine agora encontra-se na miséria desde que o sujeito foi preso por fraude, o que a obriga a se mudar para a Califórnia a fim de morar com a irmã, Ginger (Hawkins). Ambas adotadas, as mulheres não poderiam ser mais diferentes física e emocionalmente: enquanto Jasmine tenta superar um colapso nervoso, está acostumada a ser servida por todos e mal pode aceitar sua nova realidade, Ginger é uma criatura alegre, simples e com um leve complexo de inferioridade. Alternando a narrativa entre o presente, que traz a protagonista buscando se adaptar ao cotidiano de trabalhadora, e o passado, que revela as circunstâncias que a levaram até ali, Blue Jasmine é um filme capaz de provocar risadas pontuais, mas que jamais poderia ser confundido com uma comédia, apresentando-se verdadeiramente sufocante em vários momentos.

Insistindo nos flashbacks mesmo quando já somos capazes de compreender tudo o que ocorreu (ou quase; a estrutura tenta se justificar através de uma revelação de última hora), Woody Allen e o diretor de fotografia Javier Aguirresarobe (que colaborou com o cineasta em Vicky Christina Barcelona) buscam contrastar os dois momentos através das cores quentes que envolvem o universo de Jasmine em Nova York e a paleta fria e levemente dessaturada que a acompanha em San Francisco, expondo, assim, o fato de estarmos vendo o mundo através dos olhos daquela mulher – que, longe de aceitar a responsabilidade pelos atos do marido (para os quais se fez de cega), prefere enxergar-se como sua grande vítima.

Aliás, uma das principais tragédias de Jasmine é sua incapacidade de enxergar o óbvio: quando casada, negava-se a ver as traições do marido e seus crimes; agora pobre, insiste em ver apenas miséria no cotidiano humilde, mas alegre, da irmã. Vivendo uma variação de sua personagem em Simplesmente Feliz, Sally Hawkins é hábil, diga-se de passagem, ao ilustrar o otimismo de uma mulher que tem razões de sobra para ser amarga, incluindo a perda da pequena fortuna que ganhou na loteria depois de acreditar no fraudulento cunhado. Parecendo não se ofender com as agressões da irmã, Ginger procura apoiá-la e tenta até mesmo fazer jus à imagem que, supõe, a deixaria orgulhosa – um erro que acaba demonstrando que a infelicidade de Jasmine (representada no título original) pode ser contagiosa. Enquanto isso, Louis C.K. e Andrew Dice Clark, dois comediantes de estilos completamente diferentes um do outro, oferecem performances pequenas, mas significativas, ao passo que o talentoso Bobby Cannavale flerta descaradamente com o Stanley Kowalski de Marlon Brando em vários momentos da projeção – especialmente em um confronto no qual atira um telefone na parede e que remete à explosão de Brando durante um jantar em Uma Rua Chamada Pecado. Fechando o elenco secundário, Alec Baldwin interpreta o tipo sedutor e frio que se encaixa tão bem à figura de um estelionatário da alta sociedade.

Porém, por mais sólidas que sejam as performances dos colegas de Cate Blanchett, é mesmo a protagonista quem merece os maiores elogios em Blue Jasmine: encarnando a personagem como uma figura egoísta e fútil, Blanchett abraça os defeitos daquela mulher com entrega total, jamais temendo o julgamento do espectador e criando um retrato fascinante em sua humana repugnância. E se adiciono um “humana” antes de uma palavra tão pesada quanto “repugnância”, é porque a atriz é hábil justamente ao despertar nossa pena mesmo ao tomar algumas das atitudes mais reprováveis da narrativa, já que, por baixo daquela fachada de esnobismo e arrogância há uma mulher claramente danificada que precisa desesperadamente de socorro – e quando ela chora, aliviada, ao receber a ligação de um pretendente, percebemos o quão vulnerável e carente de aprovação ela realmente é.

Desesperançado e triste até seu sufocante plano final, Blue Jasmine é um filme sem muitas nuances, mas eficaz ao não fazer concessões no retrato de uma criatura cuja beleza e elegância externas ocultam uma mulher irremediavelmente estragada por dentro. (4 estrelas em 5)

57) O Ato de Matar (The Act of Killing, Inglaterra/Noruega/Dinamarca, 2013). Dirigido por Joshua Oppenheimer.

A julgar pelo que vemos em O Ato de Matar, um documentário angustiante que traz ninguém menos que Werner Herzog e Errol Morris como produtores executivos, a Indonésia é uma distopia pior do que aquelas vistas em ficções como Elysium ou Uma Noite de Crime – para citar apenas dois exemplos recentes. Ali, em pleno 2013, genocidas são entrevistados em talk shows e seus métodos “humanos” de extermínio são celebrados em rede nacional sob aplausos da apresentadora e da plateia do estúdio enquanto a possibilidade de vingança por parte dos filhos dos mortos é descartada com um simples “Nós os mataríamos se tentassem”. Que, acreditem ou não, inspira risadas nos presentes.

Retrato chocante da dimensão que a maldade humana pode atingir ainda nos dias de hoje, O Ato de Matar parte de uma ideia que, no papel, poderia soar absurda: apontar a câmera para os responsáveis pela execução de cerca de dois milhões de pessoas na Indonésia e perguntar como realizaram a matança, oferecendo a eles a oportunidade não só de narrar o que fizeram, mas de reencenar seus crimes.

Sem jamais tentar pressionar os entrevistados ou acusá-los diretamente, o cineasta Joshua Oppenheimer apenas coloca aqueles indivíduos sob os holofotes, o que se revela mais do que o suficiente para que eles mesmos se apresentem inteiramente ao espectador. Focando especialmente em Anwar Congo, um simpático velhinho que lembra Nelson Mandela (fisicamente!), e seu amigo Herman Koto, o filme expõe o poder que estes homens ainda exercem ao trazê-los recrutando “atrizes” na rua para que estas interpretem suas vítimas durante o massacre ocorrido em 1965 – e o temor nos olhos das pobres mulheres, acreditem, não é resultado de técnicas de atuação. Da mesma maneira, Koto não hesita em aparecer diante da câmera extorquindo comerciantes locais e anunciando que decidiu se candidatar a um cargo eletivo por saber que, caso vença, poderá arrancar muito mais dinheiro dos executivos do país.

Estes momentos, contudo, empalidecem diante daqueles nos quais Congo reencena seus crimes, escalando-se como gângster (palavra que todos insistem em dizer que vem da expressão inglesa “homens livres”) por ser fascinado por este tipo de personagem, não demorando a revelar também que parte dos seus métodos de execução foi inspirada pelos filmes que via na juventude. Influente a ponto de visitar casualmente o governador do estado e o escritório de um dono de jornal (“Meu papel era fazer o público odiar os comunistas”, conta o sujeito, orgulho e demonstrando seu parentesco com certos grupos de mídia brasileiros), Anwar Congo é também um indivíduo cuja vaidade o leva a tingir os cabelos e a encomendar uma prótese dentária que ele coloca no lugar sempre que um momento importante se apresenta.

Ainda assim, talvez o mais chocante em O Ato de Matar seja constatar que, ao reverem as cenas que filmaram, aqueles homens não apenas não sentem remorso algum como ainda experimentam um claro orgulho diante de suas performances – e chega a ser enlouquecedor pensar que os instantes nos quais interpretam suas próprias vítimas serão o mais próximo que chegarão de ser punidos pelo que fizeram.

Culminando numa sequência musical mais do que apropriada por representar a fantasia saída da mente de um genocida, o documentário aponta que talvez aqueles canalhas tenham uma leve consciência da gravidade de seus crimes apenas nos instantes finais da projeção, quando, ao revisitar o local no qual matou tantas pessoas, Anwar Congo experimenta uma crise de vômito inesperada, como se seu corpo, revoltado com seu dono, tentasse expulsar fisicamente aquelas lembranças.

Logo, porém, o sujeito se recuperará e estará pronto para desfrutar o prestígio que ganhou através de sua sociopatia. (4 estrelas em 5)

Para finalizar, um breve videocast com um balanço dos melhores longas vistos durante o Festival:

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos