O tropeço de um pai

Hoje, levei Luca para visitar o Festival Internacional de Quadrinhos em BH. O pequeno anda cada vez mais interessado em HQs e, assim que contei a ele que o evento estava de volta à cidade, passou a insistir para que eu o levasse. Não era necessário insistir; passear com ele é sempre algo que me deixa alegre.

Já no pavilhão do festival, passamos por uma dupla similar à nossa: um pai em torno dos 40 anos que caminhava ao lado do filho de 10 – e, neste instante, ouvi o primeiro dizer:

– Só você mesmo para me fazer vir a um festival de quadrinhos, meu filho.

Foi dito com tom de afeto enquanto o sujeito passava a mão na cabeça do garoto, que sorriu de volta para o pai. E foi o jeito com que o menino sorriu que me fez pensar. Não era um sorriso falso, mas tampouco refletia alegria. Era… um sorriso. Uma resposta.

Entendi, claro, o que o tal pai quis dizer com aquela frase: “Eu te amo tanto, meu filho, que faço tudo por você. Saiba disso.”. Foi uma declaração de carinho, uma verbalização da dedicação para com o filho. Ele queria que o garoto soubesse como era importante. Não se tratava de uma cobrança, de um desabafo ou algo do gênero. No entanto, assim que vi o rosto da criança, percebi que era a coisa errada a dizer.

Pior: percebi que  já cometera aquele erro em algumas ocasiões.

Pois o fato é que crianças são perfeitamente capazes de ler subtexto – e o daquela afirmação era, de certo modo, uma confissão sobre o sacrifício relativo de estar ali. O menino estava alegre por visitar o festival e queria que o pai dividisse aquele sentimento. Ao ouvir o que o outro dissera, porém, esta alegria se partira um pouco; havia a companhia do pai e isto era prazeroso, claro, mas de certa forma agora havia a sombra da obrigação.

O menino não queria se sentir grato ao pai por levá-lo ao festival de quadrinhos; queria sentir, em vez disso, que este compartilhava sua felicidade por visitar o evento. A criança desejava dividir com o pai seu encantamento pelos quadrinhos.

Aquele sorriso amarelo do garoto doeu em seu pai, que percebeu na hora o que fizera. Sei disso porque aquele pai era eu.

E fiz questão de deixar claro para Luca, a partir daquele instante, o quanto estava curtindo folhear e comprar revistas e discutir edições antigas, publicações favoritas e arcos antigos com meu filhote, já tão crescido e muito mais versado naquela forma de expressão artística que eu. E não era fingimento; eu realmente adorei a tarde. Melhor: percebi que Luca notou minha alegria.

Ao final do dia, quando deixamos o festival, seu sorriso era completo, imenso e feliz. Eu sorria da mesma maneira.

E jamais repetirei o erro de fazer parecer que ele me deve alguma gratidão por dividir comigo seus interesses. Eu é quem devo a ele a felicidade de um dia como hoje.

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina