O Pastor

Denis Gárgula subiu no palco e preparou-se para iniciar sua pregação. Contava com um teatro gigantesco e olhava, satisfeito, para a plateia na qual cada poltrona se encontrava ocupada por um fã acrítico. Sabia que poderia dizer o que quisesse e ser ovacionado – e já preparava-se para berrar seus habituais protestos de “Censura!” caso alguém se aventurasse a acusá-lo de espalhar preconceito e ódio. Era uma estratégia infalível que conferia a ele simultaneamente os postos de carrasco e vítima.

E ele se tornara mestre em oscilar entre ambos de acordo com a necessidade do momento.

Feliz consigo mesmo, Gárgula segurou o microfone, abriu a boca e vomitou a primeira palavra.

—-

Exatamente naquele momento, numa minúscula sala localizada no mesmo edifício, uma jovem conversava com meia dúzia de conhecidos. Irritada com as posições conservadoras de Denis Gárgula, a moça elevou a voz e comentou, cansada, que o sujeito ao menos poderia embasar melhor suas posições – como um veterano que ele obviamente tentava emular em tom e estilo – em vez de buscar argumentos em publicações mensais.

A voz da garota, transportada pelas tubulações do prédio, chegou aos ouvidos de Gárgula em meio ao discurso que proferia, satisfeito, para sua claque.

Ele parou o que dizia.

Acostumado à bajulação constante, gastou alguns segundos tentando compreender o que ouvira. Aproximou-se do computador localizado na mesa ao lado do pódio e rapidamente acessou o cronograma do local e, identificando a sala da qual partira a “ofensa”, buscou os dados de sua ocupante. Leu rapidamente sua curta biografia, viu algumas de suas fotos e imprimiu uma delas. Já sorrindo por saber o que faria em seguida, agarrou novamente o microfone, piscou feliz para o assistente de palco Ramon (Q.I.: 142 pontos não utilizados) e caminhou até a ponta do palco.

Sem hesitar, levantou a foto que imprimira e disse:

– Vejam esta vadia.

A multidão encarou o retrato. Ninguém questionou o adjetivo que, como de hábito nos discursos de Gárgula, evidenciava uma misoginia patente.

– Não é uma vagabunda? Uma puta? Uma chupa-rola?

Qualquer observador imparcial da cena já teria ficado aliviado caso a turba houvesse hesitado por alguns segundos antes de reagir. Nem mesmo isto ocorreu, porém. Imediatamente, a massa de acéfalos saltou de suas cadeiras urrando, gargalhando e repetindo: “Vagabunda!”. “Puta!”. “Chupa-rola!”.

– Esta garota… sabem do que ela gosta?

– NÃO! POR FAVOR, NOS DIGA!

– De assassinos. De genocidas. De criminosos!

– VAGABUNDA!

Denis olhou em torno de si. Claro que não havia qualquer motivo para que supusesse que a tal jovem, cuja existência ele desconhecia até segundos atrás, realmente admirasse genocidas, mas isto não importava. O efeito era tudo, era o que importava.

– Querem saber como deixá-la excitada?

– SIM! – berrou a multidão.

– Querem saber como podem fazê-la ficar encharcada de excitação?

– SIM! POR FAVOR, NOS DIGA!

– Matem alguém! Ela não pode testemunhar um assassinato sem chegar ao orgasmo!

– VADIA! PUTA! CHUPADORA DE ROLA!

O sujeito voltou a erguer a foto da garota.

– Ela não é ridícula? Esta comunistazinha de merda não é pavorosa?

A multidão olhou para o retrato perfeitamente comum de uma jovem de vinte e poucos anos e enxergou ali um monstro, um objeto fácil de escárnio.

– CAFONA! BARANGA! HORROROSA!

Cada vez mais confiante, Denis Gárgula olhou para seus seguidores e, sem sequer considerar a dimensão dos seus atos, comandou:

– Pois esta vagabunda está ao nosso alcance. Está em uma sala a poucos metros daqui. E eu quero que vocês marchem até lá e, num coro poderoso e ensurdecedor, a chamem de “puta”.

– PUTA! PUTA! PUTA! – berraram as nada menos do que 5,3 milhões de pessoas presentes, incluindo inúmeras mulheres que deveriam ter reagido com asco diante do que o homem dizia.

– Sim, puta. A caminho, meus capang… assecl… fãs queridos! A caminho!

Sem saber o que vinha em sua direção, a garota que ousara criticar Denis Gárgula sorriu para um amigo. À distância, os primeiros gritos se fizeram ouvir.

—————————————————————————————————————————–

postado em by Pablo Villaça em Variados