“Hiroshima, Meu Amor”, meu amor

Revi hoje, depois de muitos anos, o lindo Hiroshima, Meu Amor, longa de estreia de Alan Resnais. Trata-se de um filme absurdamente influente e no qual o cineasta emprega vários dos recursos de montagem vanguardistas que usara em seus trabalhos em curta e média-metragem – especialmente Noite e Neblina (aliás, uso cenas de ambos em meu curso de Forma e Estilo Cinematográficos – não à toa, na aula sobre Montagem). A arte da montagem, diga-se de passagem, é ilustrada de maneira brilhante em Hiroshima – e não só nos cortes em si, mas nos momentos em que o cineasta decide empregar, no lugar do corte seco, fusões lentas. O que me encanta nestas últimas é a capacidade não só de tornar o tempo em algo fluido, saltando da memória para o presente (os resultados das lembranças em quem a personagem é hoje), mas também nas associações emocionais e psicológicas que a fusão, com a sobreposição momentânea de imagens, cria.

Tomemos, como exemplo, duas passagens do longa. Na primeira, a atriz vivida por Emmanuelle Riva encontra-se na cama com seu amante japonês (Eiji Okada) quando rememora seu primeiro amor, um soldado alemão que encontrava-se na cidade em que ela morava.

Assim, saltamos da memória da moça…

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…até o presente, quando encontra-se deitada ao lado do novo amado:

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O brilhantismo do uso da fusão nesta transição, contudo, reside justamente na criação de uma imagem transitória que nos transporta do passado ao presente e que é representada desta maneira:

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Ao planejar cuidadosamente a composição dos quadros e a decupagem da sequência, Resnais cria um símbolo perfeito para a situação da garota, que não consegue se envolver emocionalmente com o amante japonês por ainda estar coberta pelos traumas deixados por seu relacionamento com o alemão – que, portanto, surge como um fantasma entre Riva e Okada.

Da mesma maneira, em outro instante, ao trazer a protagonista discutindo a morte de seu primeiro amor, o diretor salta do passado, que exibe o jardim de onde um atirador disparou contra o rapaz…

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… ao presente, no qual a atriz hesita em se entregar ao novo romance justamente por temer esquecer o anterior e provavelmente por encontrar-se amedrontada diante da possibilidade de voltar a se ferir:

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E aqui, mais uma vez, a transição através da fusão cria uma imagem intermediária de tirar o fôlego, mesmo que dure apenas um segundo, ao usar as colunas do jardim para sugerir grades que mantêm a moça aprisionada em função do trauma:

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E pensar que esta foi a estreia de Alan Resnais como longa-metragista. Não é uma felicidade que, aos 91 anos, este gênio continue em atividade?

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Cinema em seu máximo, Clássicos