Telas partidas

A primeira vez que notei Philip Seymour Hoffman, ele vivia um estudante riquinho cuja arrogância era evidenciada quase por subtexto: na superfície, ele se mostrava simpático ao seu humilde colega de turma, dizendo que este “precisava” vir esquiar ao seu lado, mas seus modos, seu sorriso e seu olhar exibiam um sadismo sutil enquanto se divertia por saber que o pobre rapaz não tinha como acompanhá-lo. Era 1992 e o filme em questão se chamava Perfume de Mulher. Sim, Al Pacino era o filme e Chris O’Donnell assumia o papel de protagonista, mas quando Hoffman encontrava-se em cena, tornava-se difícil não prestar atenção em sua composição cuidadosa que, a partir de certo ponto, passava a incluir uma complexa culpa diante do que estava obrigando o colega a sofrer. Ao final, fiz questão de decorar seu nome ao ler os créditos.

E há dois anos, me certifiquei de incluir o espetáculo A Morte do Caixeiro Viajante ao viajar para Nova York a fim de conferir os filmes do Oscar. Meu objetivo, claro, era assistir aos candidatos da Academia, mas considerei que ver Hoffman na Broadway era tão importante quanto conferir Pacino nos palcos – e trata-se de uma curiosa coincidência, considerando o que narrei no parágrafo anterior, que eu tenha assistido a ambos na mesma semana.

Ao ler sobre sua morte hoje, possivelmente por overdose, senti-me arrasado. Hoffman estava em seu auge criativo e possivelmente entrando numa fase na qual papeis fascinantes surgiriam em sua trajetória – como se já não bastassem suas atuações em obras como Sinédoque, Nova York, Boogie NightsMagnólia, O Mestre Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, para não citar diversos outros.

Enquanto tentava processar a notícia, a bomba: meu amado Eduardo Coutinho, o maior dos documentaristas que o Cinema já produziu e responsável por aquele que é meu filme brasileiro favorito (Cabra Marcado para Morrer) estava morto. Não, pior: havia sido assassinado. E, como se testando os limites do horrível, a informação final: a facadas e pelo próprio filho.

Não, Coutinho. Por favor, não assim.

Eduardo Coutinho era um cineasta de alma gentil. Ao mesmo tempo em que mantinha uma distância cuidadosa de seus entrevistados, permitindo que sua equipe fizesse as entrevistas preliminares e apenas se aproximando dos personagens no momento das filmagens, era também um diretor que rapidamente se apaixonava pelos donos das histórias que ajudava a contar – e, se não se apaixonava, ao menos os respeitava. Enquanto outros (fantásticos) documentaristas frequentemente encurralam, alfinetam, julgam e até podem se mostrar superiores aos entrevistados (estou pensando em Marcelo Masagão, Errol Morris em um ou outro momento e, claro, Michael Moore – todos diretores que admiro), Eduardo Coutinho era incapaz de preparar armadilhas para aqueles que enfocava. Aliás, não era este tipo de Cinema que ele fazia: o do tabloide, do espetáculo, do “te peguei!”. Em vez disso, Coutinho gostava de estudar a natureza humana, de buscar a beleza no prosaico, de extrair poesia do cotidiano de pessoas absolutamente comuns.

Seus documentários frequentemente usavam um ponto central que pudesse estruturá-los (religião, ativismo social, canções favoritas ou simplesmente um prédio) e, a partir daí, ele cavava narrativas. Aqui, comovia ao simplesmente revelar o sentimento de nostalgia e de perda trazido por uma música brega; ali, permitia que uma entrevistada expusesse todo o absurdo de sua crença, mas sem sentir o impulso de diminui-la por isso. No processo, costurava uma tapeçaria de folclores individuais.

Criava uma relação tão próxima dos entrevistados – e, de novo, logo após conhecê-los – que frequentemente podíamos ouvir seus personagens chamando-o carinhosamente de “Coutinho”, com uma intimidade que parecia sugerir anos e anos de cafezinhos compartilhados enquanto o diretor soprava a fumaça de seus inevitáveis cigarros.

Eu amava Eduardo Coutinho por me fazer amar tantos estranhos. Eu amava Coutinho por ser capaz de me fazer enxergar com doçura alguém que parecia sentir orgulho de ser ignorante. Eu amava Coutinho por me tornar mais humano.

Em 20 anos de carreira, encontrei com o mestre em três ocasiões: em 2002 ou 2003, durante o Festival de Tiradentes, quando o entrevistei para meu extinto programa na TV Horizonte em uma longa conversa de quase uma hora que cobriu toda a sua carreira. Alguns anos depois, voltei a vê-lo na Mostra de São Paulo e falamos por dez minutos. Finalmente, há cerca de dois meses, fui ao lançamento do livro sobre sua obra e, pudemos conversar brevemente (a foto abaixo ilustra este último encontro). Ali, repeti o que fizera nas duas vezes anteriores: disse a ele o quanto o admirava e amava por me fazer um ser humano melhor através de seus filmes. Disse a ele que Cabra era meu filme brasileiro favorito – e um de meus filmes prediletos, ponto. E completei declarando que sua humanidade era um privilégio de se testemunhar.

Naquela ocasião, diga-se de passagem, comprovei mais uma vez seu amor por histórias e por indivíduos: antes de assinar cada livro, ele pedia que a pessoa à sua frente falasse um pouco sobre si mesma, já que ele não podia dar um autógrafo sem conhecer brevemente quem o receberia. Isto provocou uma fila imensa, mas que acabava sendo recompensada pelo olhar atento e interessado do senhor de fofos cabelos brancos que, rouco pela idade e pelo cigarro, ouvia com a atenção fascinada de alguém que sabia que o próximo integrante da fila poderia conter a semente de um novo filme.

coutinhoeeu

postado em by Pablo Villaça em Cinema