Por que o Oscar parece amar filmes medianos?

Todos os anos, ao escrever sobre o Oscar e sobre as disputas envolvidas, busco lembrar os leitores de que se trata de uma eleição – e que, como tal, é influenciada pelo orçamento disponível para as campanhas feitas pelos estúdios, que investem pesado em seus candidatos promovendo festas especiais com exibição dos longas e presença do diretor e do elenco. Quando Tom Hooper venceu por seu trabalho pavoroso em O Discurso do Rei, apontei que ele, um britânico, havia se mudado para Los Angeles por três meses para fazer campanha.

Além disso, os estúdios cada vez mais se dedicam a fazer campanha negativa contra seus principais concorrentes – e este ano o principal alvo tem sido O Lobo de Wall Street.

No entanto, há uma outra questão importante que devemos considerar ao avaliar os vencedores na categoria de Melhor Filme: o fato de que raramente um filme que desafia o público costuma vencer. Não é à toa que produções que fogem do lugar-comum em termos de linguagem ou que abordam temas particularmente polêmicos jamais vencem. Quando apontei, por exemplo, que O Segredo de Brokeback Mountain, considerado favorito absoluto por muitos, tinha um caminho mais difícil do que se imaginava rumo à vitória, indiquei sua temática justamente como seu maior empecilho: era um filme importantíssimo, belíssimo, sensível, mas que abordava um tema que simplesmente incomodava muitos eleitores da Academia – que, demograficamente, vem envelhecendo rapidamente por ter membros vitalícios e só incorporar algumas dezenas de novos integrantes por ano.

Pois a questão principal que devemos levar em consideração na categoria Melhor Filme é a seguinte: filmes que dividem o público sempre perdem, mesmo tendo boa parcela de defensores radicais. Para vencer o Oscar, não adianta ter muitos defensores; é imperativo ter poucos detratores. Na realidade, a categoria principal da premiação tende a favorecer o lugar-comum, o café-com-leite. Filmes simpáticos, que não ameaçam, mesmo sendo medíocres ou irrelevantes como Arte.

Filmes como O Discurso do ReiGladiadorQuem Quer Ser um Milionário?Shakespeare ApaixonadoO Paciente InglêsConduzindo Miss Daisy e tantos, tantos outros.

A razão para isso reside no sistema usado pela Academia para definir o vencedor. É um sistema que favorece não exatamente aquele filme amado por certos grupos, mas aquele que inspira um sentimento de “É bonitinho” por parte da Academia como um todo. Para ilustrá-lo, recomendo o vídeo abaixo (em inglês, mas é fácil entender) e sugiro que jamais tentem usar o Oscar como sinônimo de qualidade. É um prêmio divertido e relevante do ponto de vista comercial e, sim, histórico (especialmente por ser tão antigo e por ser definido por membros da própria indústria).

Mas não se trata de uma Palma de Ouro, de um Urso de Ouro nem nada do gênero no que diz respeito ao seu valor artístico. Ao menos, não necessariamente, embora aqui e ali as duas coisas coincidam e provoquem um prazer inesperado nos cinéfilos dedicados.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Premiações e eventos