RioFilme e o Cinema Pinte-com-Números

Cinema é Arte coletiva. Sempre digo isso aos alunos dos meus cursos e é também uma filosofia que empreguei nos dois filmes que dirigi. Em ambos, os créditos finais trazem os dizeres “Um filme de…” seguidos pelos nomes de todos os integrantes da equipe. Eu posso ter escrito e dirigido ambos, mas eles jamais teriam saído do papel sem a colaboração preciosa de todos aqueles profissionais talentosos. Neste sentido, o Cinema é radicalmente diferente da Literatura, por exemplo, que em último grau surge do sofrimento solitário diante da tela em branco.

No entanto, há uma diferença gigantesca entre “Arte coletiva” e “Arte em comitê”. Na primeira, há colaboração, troca de ideias, visões pessoais que se concretizam a partir da cooperação; na segunda, há o dever de ajustar-se a uma decisão arbitrária ou burocrática que parte não da inspiração ou da motivação interna e criativa do artista, mas da necessidade de chegar a um consenso. E no consenso reside, por natureza, o lugar-comum.

Recentemente, li em algum lugar (perdoem o lapso; realmente não me lembro a fonte) as considerações de um jornalista sobre por que os roteiros das superproduções tendiam tanto à mediocridade. A constatação óbvia: como os longas devem atrair público dos mais diversos países, que, por sua vez, têm especificidades culturais contrastantes, estes roteiros não podem se arriscar em criar personagens e tramas que tragam sutilezas e subtextos, pois estas seriam inevitavelmente perdidas e ou mal compreendidas por espectadores de algum lugar do mundo. A solução, claro, é permanecer no meio-termo, no menor denominador comum.

Este é o Cinema em Comitê por excelência.

Um conceito que, inacreditavelmente, a RioFilme parece interessada em abraçar.

Em artigo recente de O Globo, o diretor comercial da RioFilme, Adrien Muselet, revelou os resultados de uma pesquisa encomendada pelo órgão para avaliar o gosto cinematográfico do carioca. Que surpresa: embora apenas 5% e 3% apreciem dramas e documentários, respectivamente, nada menos do que 24% surgem como “fãs incontestes” dos filmes de ação. As comédias ficam em segundo lugar, com 22%.

Claro. Óbvio. A RioFilme nem precisava ter desperdiçado dinheiro com esta pesquisa; bastava perguntar a qualquer um com dois ou três neurônios funcionais e uma mínima experiência com Cinema.

O que espanta, portanto, não é o resultado obtido, mas as conclusões às quais chegaram Muselet e Sérgio Sá Leitão, secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro: a RioFilme deve investir mais em filmes de ação e menos em dramas e documentários.

Ok, esqueçamos, por um segundo, que a RioFilme é uma empresa que trabalha com recursos públicos e nasceu justamente com o propósito de incentivar o Cinema carioca. Voltarei a esta questão daqui a pouco. Antes, permitam que eu cite uma passagem específica da matéria de O Globo:

“Sá Leitão e Muselet concordam ainda em outro ponto: acreditam que, se o cinema nacional apostar na produção de filmes de ação, poderá abocanhar um mercado que hoje perde para filmes estrangeiros. Muselet lembra que os filmes de ação costumam ter mais potencial de exportação do que os de comédia.”

Hollywood deve estar tremendo de medo.

Ora, “abocanhar” mercado é algo importante, sem dúvida, mas deve ser um objetivo secundário de uma empresa que nasceu, segundo seu próprio site, para atuar na “revitalização do Cinema Brasileiro” – algo que, em 1992, era o mesmo que dizer “ressuscitar”, já que nosso Cinema havia sido basicamente destruído por Fernando Collor e pelo cineasta Ipojuca Pontes quando decidiram extinguir a Embrafilme. Revitalizar, contudo, implica justamente na necessidade de estimular a linguagem, não de engessá-la com determinações prévias sobre o que o público quer ou não ver.

Assim, é com espanto e mesmo com repugnância que vejo Muselet, importante executivo de uma empresa voltada para a criação cinematográfica, dizer algo como “Quem faz cinema faz aquilo que gostaria de ver, e não aquilo que o grande público espera.” – uma frase que soaria belíssima caso não fosse uma reclamação, uma crítica.

Fazer algo diferente do que o grande público espera é justamente o que empurra o Cinema para o futuro. É o que dá origem a obras como TatuagemElaSinédoque New YorkAcossado Cidadão Kane em vez de manter a Arte se repetindo com Até que a Sorte nos Separe 2Transformers 4 Jogos Mortais 21.

No entanto, mais importante do que isso é observar que estes últimos filmes, justamente por atraírem um público maior, já contam com a força do mercado. São precisamente aqueles primeiros que precisam do apoio de empresas como a RioFilme e das verbas públicas que trazem. A RioFilme não tem a obrigação do lucro recorde e é isto que a torna tão importante para projetos que se arriscam. Prendê-la ao formulaico, a filmes criados como resposta a um “X” marcado em um formulário de pesquisa, representa condenar inúmeros artistas, narrativas e histórias ao limbo do mercado.

A Argentina, que Muselet classifica como sendo “boa naquilo que também fazemos”, alcançou um sucesso internacional maior do que o nosso – embora produzindo bem menos filmes por ano e tendo uma linguagem menos diversificada – não por tentar se ajustar a interesses do mercado, mas por desenvolver uma linguagem própria que esconde, na aparente simplicidade de suas produções, uma riqueza tocante de temas e histórias. Gastamos infinitamente mais para produzir algo como Até que a Sorte nos Separe 2 do que os argentinos gastaram para fazer uma obra como Medianeras, O Filho da Noiva ou Leonera. 

Nossos cineastas estão entre os melhores e os mais criativos do mundo. Não me canso de dizer isso. Mas Cinema é uma arte cara.

Cara demais para que desperdicemos tempo e dinheiro no lugar-comum e deixemos de investir naqueles que querem torná-la melhor, mais rica e mais complexa.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões