Louie e a Garota Gorda

A Arte tem um potencial infinito. Pode divertir, emocionar, aterrorizar, levar à reflexão e à autocrítica. Tem a capacidade de, por um momento, levar um humano a se colocar na pele de outro. Permite que experimentemos o mundo a partir da visão de alguém que enxerga a realidade de forma completamente diversa à nossa. Pode provocar um sorriso doído através de uma piada que, mesmo divertida, traz em seu centro uma realidade que machuca.

O contrário é possível, claro: há quem faça arte (com minúscula mesmo) para humilhar, para reduzir, para trazer todos a um nível basal de humanidade. Há quem faça piada para tentar estabelecer a própria superioridade: você é nordestino, é preto, é mulher, é gay; eu vivo no rico Sudeste, sou branco, homem, heterossexual. HA! Você pode ser Danilo Gentili, por exemplo. É mais fácil por ser medíocre e destrutivo. E haverá quem ria de você. As pessoas, de modo geral, não são exigentes com seus artistas.

Mas, por outro lado, você pode ser Louis C.K. e criar algo sublime como o terceiro episódio da quarta temporada de “Louie”.

O que C.K. faz ali como diretor, roteirista, montador e protagonista é algo único: astro do próprio show, ele é humilde, humano e generoso o bastante ao se retratar como um homem que, diante de uma mulher fantástica, inteligente e vivaz, jamais passa de sua superfície e a julga por aquilo que ela tem de menos relevante: seu corpo. Colocando-se na posição ficcional que ele sabe ter tantas vezes ocupado na vida (e não só ele: me enxerguei na feiúra fútil do “Louie” do show e me reconheci, triste, na tolice de sua superficialidade), C.K. cria um episódio no qual é abordado repetidas vezes pela garçonete do bar de standup que frequenta, rejeitando-a sempre por considerá-la gorda (ela é). Finalmente, sentindo-se meio culpado e mesmo curioso acerca da garota, que se apresenta sempre divertida e articulada, ele aceita passar uma tarde com ela – e, numa sequência ágil que constrói as horas que passam juntos, percebemos claramente como ela é uma companhia adorável, vemos seu lindo sorriso ao compartilhar detalhes de sua vida com o companheiro de passeio e percebemos como Louie se encontra à vontade ao seu lado.

E é então, que, numa troca de reflexões sobre a natureza dos encontros românticos, Vanessa (vivida lindamente por Sarah Baker) comenta que tudo é mais difícil ainda para uma “mulher com cerca de 30 anos e gorda” – o que inspira Louie a, num impulso ao qual todos já cedemos, responder com uma mentira supostamente bem-intencionada, mas que machuca justamente por soar como um gesto condescendente e vazio: “Você não é gorda”.

O que vem a seguir representa um dos momentos mais belos que já testemunhei em uma produção para a tevê: um quase monólogo que, num longo plano de sete minutos, traz Vanessa rasgando a própria alma para Louie e para o espectador enquanto explica por que aquela é uma mentira tão dolorosa e expondo a crueldade de uma cultura que se detém na superfície de um indivíduo e ignora a riqueza que este traz em seu interior e que poderia facilmente encantar qualquer um se fôssemos simplesmente capazes de valorizar a essência no lugar da maquiagem. Sem jamais forçar um sentimentalismo tolo (Vanessa não chora, não grita, não interpreta), C.K. e sua fantástica atriz (que, espero, será devidamente premiada pela obra de Arte que constrói aqui) dissecam a cultura da aparência, apontam o absurdo das prioridades invertidas e criam um instante de imensa humanidade e dor em meio a uma série que tem o humor como mote principal – e é precisamente por surgir neste contexto que aquela conversa soa tão real, tão rica e tão demolidora.

Aliás, o mais tocante é notar como, ao iniciar sua fala ao ouvir a frase sabidamente falsa de Louie, Baker não sugere raiva ou mágoa por parte de sua personagem. Em vez disso, seu olhar trai apenas… desapontamento. Uma profunda decepção ao perceber que um comediante que expõe suas fragilidade todas as noites no palco, falando inclusive sobre as inseguranças trazidas pela obesidade, se mostra tão cego à ferida que acaba de provocar. Louis C.K. é um homem gordo, sabe disso e convida os outros a rirem de seu corpo (o que não deixa de ser uma autodefesa). O que ele não sabe é que ser uma mulher gorda é algo completamente diferente.

Ou melhor: não sabe, mas quer no mínimo compreender a dura e dolorida realidade que ele mesmo cria (não: que todos nós criamos) para qualquer mulher acima daquele peso que, aprendemos nas capas de revista, seria o “ideal”. Ao final daqueles sete magníficos minutos, podemos até não absorver completamente o que aprendemos, mas certamente pudemos enxergar nossa própria postura fútil através dos olhos daquelas que julgamos.

E é triste perceber que o que vemos não é bonito como gostaríamos de crer.

Ao menos, há obras como estas que, ao erguerem um espelho fundamental diante de nossos olhos, projetam um reflexo mais profundo e revelador do que aquele que nos acostumamos a ver no cotidiano. Que bom que há a Arte. Que bom que há artistas como Louis C.K. e Sarah Baker. Que bom.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Variados