A Importância da História (ou “Eu Lembro”)

Em uma entrevista concedida há dois dias e cuja leitura recomendo fortemente, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, fez uma observação bastante interessante sobre a postura política de boa parte da população mais jovem:

“Imagina um jovem de 18 anos hoje. Ele não sabe o que foi a era pré-Lula. Até mais. 25 anos. Uma pessoa de 25 anos hoje, tinha 12, 13, quando o Lula tomou posse. O que eles sabem? Quer dizer, se colocou um desafio muito maior, mas temos de conversar com a população sobre o que se avançou. Até para se apropriar dessas conquistas, as pessoas têm de saber o que era o Brasil antes dessas oportunidades surgirem. É um desafio grande. Uma coisa é explicar para uma pessoa de 40 anos o que era o Brasil antes do Lula e outra para uma pessoa de 25, porque ela não viveu. Ela não viveu o desemprego, a inflação, o apagão, falta de oportunidade educacional.”

É uma reflexão fundamental. Como já apontei algumas vezes, tenho ficado chocado com a quantidade de jovens que vêm assumindo uma postura reacionária, claramente de Direita, enquanto regurgitam clichês retóricos típicos das classes economicamente dominantes. Mesmo quando tentam assumir uma postura apolítica (“Não existe mais diferença entre Esquerda e Direita no país”, “Não tenho partido; sou contra tudo que está aí”; “Todo político é ocrrupto”), fica fácil perceber que se trata apenas de uma fachada, já que todas as críticas que fazem dizem respeito ao governo federal – mesmo quando estão discutindo temas subordinados às administrações estaduais e municipais.

Mas, a partir do que ponderou Haddad, me vi movido a indagar se estes jovens são de fato reacionários (algo ainda mais estranho e triste na juventude) ou se apenas não se lembram de como era o Brasil pré-2002.

Porque eu lembro. Lembro do Plano Cruzado com suas donas-de-casa fiscais de preço; do confisco da bolsa; dos apagões de FHC e sua dependência do FMI. Lembro de quando FHC obrigou o país a racionar luz. Lembro da falta de oportunidades na educação pública. Da falta de universidades (que poderia ser pior; já que ele cogitou acabar com as públicas). Lembro da inflação (que tantos dizem que FHC controlou, mas que na realidade subiu descontroladamente no seu mandato).  Lembro da compra de votos pra reeleição (200 mil/deputado). Lembro dos grampos telefônicos na era FHC. Lembro do Engavetador-Geral da União, que, ao contrário do que ocorre hoje, não permitia que as denúncias fossem investigadas. Lembro do vexame da “festa” dos 500 anos. Lembro do 1,6 BILHÃO que FHC deu ao Marka/FonteCindam (e lembro do Cacciola). Lembro do filho de FHC e seu envolvimento com a EXPO 2000. Lembro do massacre no Eldorado dos Carajás. Lembro da dengue descontrolada. Lembro dos reajustes de 580% na telefonia. Lembro do PIB ridículo. Lembro dos mais de 2 BILHÕES de fraude na SUDAM de FHC. Lembro de FHC chamando aposentados de “vagabundos” E o povo brasileiro de “caipira“.

Lembro, enfim, muito bem de como era este país até 12 anos atrás. Esta é a questão: não falo tanto de política porque gosto. Ao contrário: me dá dor de cabeça, me faz perder leitores e me prejudica profissionalmente.

Eu falo tanto de política porque preciso. Tenho dois filhos. Não quero pra eles o Brasil no qual cresci. Não quero retrocesso. E é por esta razão, por saber que tenho tantos leitores jovens, que me sinto na obrigação de passar a eles um pouco do que vivi e testemunhei.

Isso não é ativismo político; é apenas ser responsável como cidadão.

 

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política