Meu Pequeno Cinéfilo (Não Mais Tão Pequeno)

Neste sábado, gravei um videocast ao vivo com o objetivo de responder a perguntas dos leitores. (Para ver como foi, clique aqui: falo sobre distinção entre montagem e edição, recomendo livros sobre Cinema e falo de uma antiga promessa.) Depois de concluído o papo, repassei as várias perguntas enviadas através do Twitter e do próprio YouTube a fim de ver quais não haviam sido respondidas – e, entre estas, alguém indavaga qual era o filme favorito de Luca, meu filho de 11 anos de idade.

Esta era uma questão que eu não fazia ao pequeno há muito tempo. Porque as crianças, de modo geral, tendem a eleger como favoritos os filmes que acabaram de ver – ou quase. Nina, por exemplo, já elegeu Alice no País das Maravilhas, O Estranho Mundo de Jack, Como Treinar Seu Dragão, Frozen, A Bela Adormecida, Cinderela e diversos outros – e seu irmão, por sua vez, já se apaixonou por obras que vão de Os IncríveisAlien – O Oitavo Passageiro, passando por De Volta para o Futuro, A Casa MonstroTubarãoPredador (não necessariamente nesta ordem cronológica). Porém, aos 11 anos de idade, ele já assistiu a um número suficiente de filmes para começar a formar seu próprio gosto e, portanto, era hora de repetir a pergunta – cuja resposta me surpreendeu. Sem hesitar, ele disse:

– Cães de Aluguel.

Eu havia apresentado a ele a estreia de Tarantino na direção há meses. E não fazia ideia de que o longa havia provocado uma impressão tão forte no pequeno. Depois de conversarmos um pouco sobre sua escolha, ele perguntou se eu não podia apresentar a ele um novo trabalho do cineasta (eu vinha evitando por considerá-los todos violentos demais; Cães de Aluguel era, de certa forma, o mais contido, e ele também já havia conferido Kill Bill). Assim, como eu estava interessado em rever Bastardos Inglórios há algum tempo, saquei o blu-ray do filme e fomos conferi-lo.

E Luca, mais uma vez, adorou.

– Acho que o Tarantino é meu diretor favorito.

– Ele é um bom diretor para se ter como favorito, meu filho. – comentei. – Mas você descobrirá outros que vão tornar a disputa mais apertada.

A partir daí, fiz o que sempre faço quando assistimos juntos a algum filme: discuti a obra com ele. Falamos sobre os temas, sobre as liberdades históricas (e o que Tarantino queria dizer com estas) e, claro, sobre sua linguagem. E foi então que meu filho fez uma pergunta que me pegou completamente (e mais uma vez) de surpresa:

– Tem um grito no filme que o Tarantino sempre usa. Ele é estranho. Você já notou?

Ele estava falando, claro, do Wilhelm Scream, que em Bastardos Inglórios surge quando, no filme-dentro-do-filme, o personagem de Daniel Brühl mata um soldado aliado.

– Você… reparou o grito?

– Reparei. É porque em Cães de Aluguel, quando o Sr. Pink está correndo na rua, eu tinha ouvido esse grito e achado muito exagerado. E aí, quando vi Kill Bill, no final do primeiro volume a Noiva mata um cara que grita do mesmo jeito. E hoje eu ouvi de novo.

Como pai, confesso, senti meu coração disparar de orgulho. E expliquei a ele a história daquele grito específico e mostrei a ele um clipe que costumo exibir nas aulas do A Arte do Filme: Forma e Estilo Cinematográficos, quando ilustro este efeito sonoro para os alunos. No entanto, Luca ainda tinha perguntas:

– Tá, mas por que o Tarantino usa em todo filme?

Isto nunca havia me ocorrido – e, de fato, nem sei se Tarantino usou o Wilhelm Scream em algum outro trabalho além destes três. Porém, a questão levantada por Luca me deixou feliz por denotar sua compreensão acerca de um princípio que tende a ser ignorado por boa parte dos espectadores: cada decisão tomada por um diretor, por menor que seja, tem um motivo. E ao perguntar por que Tarantino insistia em usar os gritos, Luca buscava uma explicação narrativa, mesmo sem ter consciência da natureza exata de sua inquietação.

Assim que pensei naquilo, porém, a resposta veio instantaneamente. Mas se há algo que aprendi como professor é que, muitas vezes, é melhor permitir que o aluno encontre a resposta sozinho do que entregá-la de bandeja. Com isso, perguntei:

– Lembra que papai já te explicou que todos os filmes do Tarantino são basicamente sobre uma coisa só?

– Lembro. Cinema.

– Hum-hum. E aí?

Ele me olhou por alguns segundos e sorriu.

– E aí que ele usa o grito porque acaba sendo uma brincadeira com Cinema e com a História do Cinema?

– That’s a bingo!

E lhe dei um beijo que certamente vai deixar sua bochecha com um roxo imenso.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cinema em seu máximo, Curso, Luca & Nina