Arte e Humanidade

A Arte pode ter natureza estética, pode ser pessoal ou ambas. A primeira tem, como foco, a experimentação com a linguagem e/ou com a plástica. A segunda se concentra na humanidade do artista e daquele que contemplará a obra criada. Criar é compartilhar. Sentimentos, ideias, ideologias, amores ou memórias, mas compartilhar. A mais pessoal das experiências pode ser surpreendentemente universal quando dividida com desconhecidos. Sofri por amor. Temi a morte. Estranhei o indivíduo no espelho. Odiei a mim mesmo.

Você também.

Um bom filme, um bom livro, uma boa música, um bom poema, uma boa peça, uma boa ópera, uma boa performance merecem este adjetivo por tocarem o outro. O que é estéril é esquecível; a boa Arte fecunda pensamentos, emoções e ideias. O sorriso da Gioconda é icônico não por ser antigo, mas por ser instigante. Ela sorri de mim, para mim ou comigo?

O artista se rasga por completo para a apreciação alheia. Expõe a mesma vulnerabilidade que todos tentamos esconder.

Mas há ramos na Arte e níveis de exposição. Um escritor, por exemplo, se expõe profundamente, mas à distância. Cada conto, crítica, livro ou roteiro que escrevo revela muito sobre mim, mas permaneço protegido pelo escudo desta tela ou do papel: fui ouvido sem ser visto. Tenho uma imensa cicatriz no abdômen e esta me constrange (embora represente a memória de minha quase morte), mas você não a enxerga. Acabei de expô-la, é fato, mas sem ter que erguer a camisa. Este é meu limite e, neste sentido, ter escolhido a escrita para me expressar é sintoma também de minha covardia.

Um ator não conta com esta proteção. Um ator expõe seu rosto e seu corpo ao lado de seus sentimentos. Vejo sua lágrima e entendo seu sofrimento. Enxergo suas rugas e reconheço sua mortalidade. O único filtro é o personagem, mas mesmo este habita um corpo real que está ali para nosso consumo. É preciso uma coragem infinita para se expor assim. E uma generosidade idem.

E há, claro, aqueles que se expõem na escrita e no corpo. Louis C.K. é um destes artistas.

Quando comecei a assistir a Louie, série escrita, montada, estrelada e dirigida por ele, esperei ver uma extensão de suas fabulosas performances como comediante stand-up. Esperava rir de experiências cotidianas que, trabalhadas no texto de um cômico talentoso, divertiriam com sua natureza prosaica e tola. Contudo, ao longo dos últimos quatro anos, Louie se tornou muito mais do que uma versão de sitcom; estabeleceu-se como um tratado filosófico sobre a condição humana. Sobre nossas fragilidades e nossas belezas. Sim, ri muito com Louie, mas também chorei. E, nesta quarta temporada, refleti muito sobre quem sou e como experimento certas ansiedades e sentimentos. Aliás, alguns episódios doeram tanto que, confesso, passei a temer pelo próprio Louis C.K.. “Não se mate, por favor”, me vi pensando ao final de certas cenas. E estava implorando isto ao artista, não ao personagem.

Não é à toa que, ao contrário de minhas explorações narrativas sobre Breaking Bad ou True Detective, me vejo com dificuldades de discutir Louie como experiência artística: ao falar sobre certo episódio desta temporada, por exemplo, me flagrei discutindo seus temas e as ideias inspiradas por estes, mal tocando em seus aspectos técnicos e narrativos – e agora, ao assistir aos dois episódios finais da quarta temporada, volto a me surpreender movido a escrever sobre… sentimentos.

Dividindo a cena com a excelente Pamela Adlon, C.K. converte esta hora final em um pequeno estudo sobre como nos entregamos ao outro quando nos apaixonamos e como expomos nossos medos justamente àqueles que detêm, naquele instante, o maior poder de nos ferir. Aliás, se há um tema que unifica este quarto ano de Louie é a busca pelo amor, pelo sentimento compartilhado, e os riscos que esta procura envolve – mas também suas recompensas. Há três ou quatro episódios, por exemplo, ao ter o coração partido pela namorada húngara que retornou ao seu país natal, Louie confidencia sua dor ao médico vivido de maneira estupenda por Charles Grodin e, em vez de ser consolado, ouve um discurso inesquecível sobre a beleza de um sentimento frustrado:

Dr. Bigelow (Grodin): Isto é que é amor. Sentir a falta dela e desejar morrer. Você tem tanta sorte; é um poema ambulante. Você preferiria ser algum tipo de… fantasia? É isso que você quer? Você não percebe que esta é a parte boa, que é isto que tem procurado esse tempo todo? Finalmente você conseguiu o que queria, este doce… pedacinho de amor. Doce, triste amor. E você quer jogá-lo fora. Você entendeu tudo errado.

Louie: Eu achei que esta fosse a parte ruim.

Grodin: Não! A parte ruim é quando você a esquece, quando você deixa de se importar com ela, quando deixa de se importar com tudo. A parte ruim ainda chegará, então aproveite seu coração partido enquando pode. Seu sortudo canalha, eu não tenho meu coração partido desde que Marilyn me abandonou, desde que eu tinha 35 anos de idade. O que eu não daria para ter meu coração partido de novo… Olha, eu não sei bem qual é seu nome, mas você deve ser a pessoa mais entediante que já conheci.”

Que passagem linda. E tão verdadeira. Sofrer por amor é viver. Há algo de terrivelmente comum na felicidade estável. Lembro de meus amores adolescentes e invejo meu eu de 15 anos de idade. Penso em nomes como Alessandra, Fernanda, Bruna, Laura, Luciana, Giovanna e Mariana e percebo que escrevia com mais vigor ao sofrer por elas. Todas marcaram de maneira diferente e permanecem comigo, mas aquela intensidade da dor por perdê-las dissipou-se. Percebo isto e me entristeço.

Assim, ver Louie se apaixonar por Pamela diante da câmera enquanto esta o desafia como homem, profissional e namorado é algo que me encanta. Vê-lo se abrir a ela com sua desajeitada declaração de amor me comove. Vê-la lutar contra os próprios bloqueios para explicar que não consegue verbalizar o que seu coração experimenta me toca.

Mas C.K. vai além. Há muitos episódios, ele explicou sua insistência em manter-se de camisa perto das namoradas, mesmo durante o sexo, por ter vergonha de seu corpo. Havia, ali, algo de claramente autêntico. C.K., o homem, é gordo e desajeitado. Sua sensibilidade e seu caráter não o tornam mais rijo ou musculoso. Doce ou não, sua barriga permanecerá flácida e caída. E ele seguirá embaraçado por isso.

Assim, ao vê-lo despir-se diante da câmera, testemunhei um artista que enfrentou sua maior insegurança para encontrar uma verdade universal. Um artista que se rasgou não só para me divertir, mas para me fazer refletir. E me vi comovido diante de sua coragem, de sua entrega, de sua sensibilidade e de sua honestidade.

Louie, nesta quarta temporada, deixou de ser apenas uma série; tornou-se uma terapia pública para seu criador e um espelho para seu público. Um espelho que refletiu um apelo por amor, compaixão e compreensão.

Refletiu, enfim, nossa humanidade.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê, Variados