Autópsia de um Boato

Durante os últimos meses, a CBF (Central de Boataria do Facebook) espalhou imagens e textos apócrifos afirmando que o Brasil comprara a Copa como maneira de manter o povo artificialmente feliz e, assim, beneficiar (claro) a presidente Dilma Rousseff. Eram boatos patéticos, obviamente fabricados por uma direita que vem se especializando cada vez mais em disseminar o ódio e a desinformação através de perfis como “TV Revolta” e de uma rede de comentaristas pagos (informação da Foxlha de São Paulo) para povoar qualquer espaço interativo com ataques ao governo federal.

Pois bem: o Brasil perdeu. E feio. E agora?

Simples: espalhem boatos de que o Brasil vendeu a Copa. 

Nas últimas 24 horas, recebi o texto abaixo através de whatsapp, facebook e email. O mais inacreditável é que, em alguns casos, leitores me enviaram o texto perguntando se a “informação” ali contida poderia ser verdadeira. Por um lado, confesso que me espantei que alguém pudesse sequer cogitar que o texto fosse verídico, tamanha sua estupidez; por outro, preciso admirar o cuidado com que as informações foram construídas justamente para tentar convencer os mais ingênuos ao criar uma plausibilidade superficial e, principalmente, ao compreender os aspectos emocionais dos leitores-alvos – algo que analisarei logo abaixo apenas como um exercício para que possamos compreender melhor a lógica por trás deste gerador de boatos.

Primeiro, o texto:

“Talvez, isso explique a razão do jogador Maxwell ter declarado a seguinte frase: ‘Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas’.

Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por terem sido eliminados a Copa do Mundo de futebol, no Brasil. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.

Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa. Os jogadores titulares foram avisados, às 13:00 do dia 08 de Julho (dia do jogo contra o Alemanha), em uma reunião envolvendo o Sr. José Maria Marin (na única vez que o presidente da federação brasileira compareceu a uma preleção da seleção), o Técnico Scolari e o Presidente da FIFA, Joseph Blatter. Os jogadores reservas permaneceram em isolamento, em seus quartos ou no lobby do hotel. A princípio muito contrariados, os jogadores se recusaram a trocar o hexa-campeonato mundial por sediar a Copa do Mundo em 2022 novamente.

A aceitação veio através do pagamento total dos prêmios, US$700.000,00 para cada jogador, mais um bônus de US$400.000,00 para todos os jogadores e integrantes da comissão, num total de US$ 23.000.000,00 vinte e três milhões de dólares) através da FIFA. Além disso, os jogadores que aceitarem o contrato com a empresa FPAR nos próximos 4 anos, terão as mesmas bases de prêmios que os jogadores de elite da empresa, como Cristiano Ronaldo e Messi.

Mesmo assim, William se recusou a jogar, o que obrigou o técnico ‘Felipão’ a escalar o jogador Bernard, dizendo que havia escalado o jogador do Chelsea no treino apenas para confundir os jornalistas alemães.

A sua situação só foi resolvida após o representante da FPAR ameaçar retirar seu patrocínio vitalício ao jogador, avaliado em mais de US$90.000.000,00 (noventa milhões de dólares) ao longo da sua carreira.

Assim, combinou-se que o Brasil seria derrotado durante o segundo tempo, porém a apatia que se abateu sobre os jogadores titulares fez com que a Alemanha, que absolutamente não participou desta negociação, marcasse, em sete falhas simples do time do país sede da copa.

O Sr. Joseph Blatter, presidente da Fifa, cidadão franco-suíço, aplaudiu a colaboração da equipe brasileira, uma vez que o campeonato mundial trouxe equilíbrio à copa do mundo e evitou que o Brasil se distanciasse das demais seleções.

Garantiu que a seleção canarinho teria seu caminho facilitado para o hexa-campeonato de 2018. Por gentileza passem esta mensagem para o maior número possível de pessoas, para que todos possam conhecer a sujeira que ronda o futebol! Desde, já agradeço, Um abraço.

FONTE: Gunther Schweitzer Central Globo de Jornalismo.”

Ai, ai.

Em primeiro lugar, a pergunta óbvia: quem é Gunther Schweitzer? Ele existe? Trabalha para a Globo?

Sim, existe. Não, não trabalha.

O nome de Schweitzer é conhecido dos fãs de futebol por ter sido associado à denúncia sobre a final de 1998 em um email espalhado durante a Copa de 2002. Ora, então Schweitzer certamente é alguém que conhece os bastidores do futebol e já vem tentando expor seus podres há anos, correto? Errado. O sujeito é um simples personal trainer que, em 2002, recebeu um email apócrifo com a denúncia e a passou pra frente, cometendo o equívoco de deixar sua assinatura automática ao fim do texto – o que bastou para que se tornasse um funcionário da “Central Globo de Jornalismo” e fonte extremamente confiável daqueles que acreditam em conspirações. Aliás, quem conta isso é o próprio Schweitzer nesta entrevistaque levei exatamente três segundos para encontrar através do Google.

Muito bem: desmascarada a “fonte”, vamos ao texto em si para que possamos perceber como a manipulação traz uma certa “ciência” em sua construção narrativa.

Apostando já na desconfiança natural que todos temos com relação à CBF e à FIFA, o texto tem início com uma citação – um recurso dissertativo clássico para estabelecer desde o início um tom de verossimilhança: se alguém disse algo publicamente, deve ser verdade. Em outra busca rápida no Google, é fácil perceber, contudo, que a tal fala é atribuída a jogadores como Maxwell, Leonardo, Thiago Silva, Cafu, Roberto Carlos ou qualquer outro que se encontre mais célebre no momento. Mas as aspas trazem ao texto um suposto peso de denúncia por parte de quem sabe o que fala – e este é o objetivo.

A seguir, o autor usa um recurso psicológico e emocional tão básico que, confesso, me espanta que a maior parte dos leitores não perceba sua artificialidade: ao dizer que “Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por serem eliminados da Copa”, o propósito óbvio é estabelecer uma conexão, um vínculo, uma cumplicidade com o leitor. “Veja, estou triste como você. Sou brasileiro como você. Nossas emoções foram manipuladas; sofremos sem precisar, meu amigo!”. Com isso, o autor traz o leitor para perto de si, como se dividisse não só sua dor, mas fosse também uma vítima inocente que, por acaso, descobriu o que realmente aconteceu – uma informação que ele agora compartilhará, de amigo para amigo, com você, permitindo que descubra também o que se passa por trás das cortinas.

“O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.”

Aqui há um misto de esperteza e profunda tolice. A “esperteza” é citar órgãos de imprensa conhecidos e respeitados, conferindo credibilidade à confidência (tudo bem que “dello” é grafado incorretamente, mas ignoremos). A tolice é tentar convencer o leitor de que este lerá “em primeira mão” algo que está sendo “investigado”. Ora, o princípio mais básico de uma investigação jornalística é o sigilo: apure, comprove e depois publique. Acreditar que uma investigação tão grave quanto esta seria publicada em forma de denúncia “em primeira mão” exige não só ingenuidade, mas desconhecimento total de como o jornalismo opera.

Por outro lado, é preciso aplaudir a construção da frase “assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos”, já que esta planta, de maneira relativamente sutil, a ideia de que estamos lidando com fatos e de que é uma questão de tempo até que as “provas” os comprovem.

“Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa.”

Afirmação veemente. Não duvide. Está escrito, então é verdade. (Vocês se surpreenderiam com o número de pessoas que aceitam algo como verdade apenas porque leram.)

A partir daí, a “denúncia” traz detalhes da negociação – e ao envolver nomes como os de Marin e Blatter, que já despertam suspeitas em função das várias denúncias reais ligadas às suas ações, o texto pega emprestada a credibilidade das investigações verídicas feitas sobre ambos. E isto é de uma imensa canalhice, já que, por tabela, acaba fragilizando-as com a própria mentira.

Os elementos que se seguem beiram o ridículo: os reservas foram mantidos à distância, os titulares inicialmente se mostraram “muito contrariados” e… ah! Jogada ao acaso, quase que como um detalhe, a motivação para que vendêssemos a Copa: a possibilidade de sediarmos o evento novamente em 2022. Novamente o texto usa um escândalo real (a possível manipulação na eleição do Qatar como sede) para seus próprios objetivos, o que, de novo, é profundamente desonesto e ainda compromete a percepção pública acerca de denúncias reais que mereciam ser levadas a sério.

O texto, então, explica que cada jogador receberá 700 mil dólares para vender o jogo – e se considerarmos o salário médio da seleção, é divertido imaginar que os atletas aceitariam entregar a Copa por algo que, comparado aos seus ganhos normais, é quase uma esmola (daí a tentativa de tornar a coisa mais plausível através da oferta de um “contrato com a empresa FPAR”). O texto não se preocupa em explicar, porém, o que acontecerá com os jogadores que não “aceitarem o contrato”. Serão executados numa queima de arquivo?

Há, ainda, detalhes sobre uma possível recusa de William (jogando com a imagem de bom garoto que ele ganhou não só pela pouca idade, mas pelos comerciais de guaraná que narravam sua trajetória) e outras bobagens sobre como a “apatia” dos jogadores explicaria o placar final – o que, mais uma vez, é um recurso psicológico curioso ao trazer certo conforto aos torcedores inconformados com um resultado tão humilhante. “Claro que tinha que haver uma explicação para a goleada! O Brasil jamais perderia de sete a um!”.

A denúncia encerra com a “fonte” (cof-cof) e com um pedido para que as “informações” ali contidas sejam espalhadas. Não custa nada passar um email adiante, custa? Especialmente se este traz, no início, um “Será?” que indica que você não está comprando totalmente a ideia (claro que não! Você é um cético, é racional, questionador!), mas, como cidadão, acha importante repassar a denúncia.

O problema é que não é “importante”. Ao contrário: é extremamente prejudicial, tóxico, destrutivo. É contribuir para um clima de instabilidade que atrapalha o país como um todo, beneficiando apenas aqueles que têm a ganhar justamente com esta desestabilização. Ser cidadão não é “repassar denúncias”; é agir responsavelmente, como adulto, em vez de contribuir, através da própria apatia, para o projeto político de quem quer que seja.

E, na dúvida, vá ao Google. É fácil, te poupa do embaraço e te blinda contra a manipulação.

Passe esta mensagem para o maior número de pessoas. Desde já agradeço.

Fonte: Pablo Villaça, Cinema em Cena

postado em by Pablo Villaça em Política, Variados