The Normal Heart e o mundo em 2014

Ontem, assisti a The Normal Heart, produção da HBO dirigida por Ryan Murphy e baseada na peça homônima de Larry Kramer. Infelizmente, é sintomático que um filme poderoso como este tenha sido produzido para a TV; Hollywood ainda se acovarda diante de temas como os tratados ali. Originalmente encenada em 1985, nos primeiros anos do pânico da AIDS, a peça foi oferecida a estúdios por mais de uma década sem que nenhum deles tivesse coragem de produzir uma versão para as telonas – e isto mesmo com Barbra Streisand, que detinha os direitos de adaptação e encontrava-se no auge da carreira, tentando viabilizar o projeto.

Assim como o excelente Minha Vida com Liberace (que também foi produzido pela HBO quando nenhum estúdio quis financiar o projeto), The Normal Heart é um filme franco sobre a homossexualidade e sobre como o preconceito permitiu que gays morressem aos milhares. Num mundo perfeito, ele seria exibido para os adolescentes nas escolas, servindo a dois propósitos simultâneos:

1) Mostrar como o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é natural, doce e tão importante quanto o amor entre duas pessoas de sexos opostos; e

2) Para ilustrar como a incapacidade da sociedade em aceitar o item anterior leva ao descaso que custou e custa a vida de tantos.

Enquanto a AIDS era considerada um problema gay, praticamente nada se fez (o doc ACT UP – Unidos pela Raiva, embora falho, mostra isso bem). E o trágico é que estamos em 2014 e ainda há seres repugnantes como Bolsonaro, Feliciano e Malafaia que disseminam a intolerância e o ódio. E como provavelmente verão nos comentários abaixo, amar e/ou desejar alguém do mesmo sexo invariavelmente provoca respostas raivosas de religiosos que não sabem o que é empatia.

E são estes religiosos, donos de um moralismo deturpado que vê o sofrimento de gays como punição em vez de como a dor de um semelhante, que impedem que obras como The Normal Heart sejam apresentadas aos jovens que poderiam ser salvos por ela. E que barram qualquer iniciativa de humanizar aqueles que são por eles desumanizados.

Pois eu garanto que, se existisse, Deus abraçaria todo tipo de amor e rejeitaria todo tipo de intolerância, preconceito e ódio.

Mas ainda somos primitivos. Discriminamos quem ama e bombardeamos crianças por um pedaço de chão. Tudo em nome de credos irracionais.

Às vezes, bate uma imensa vergonha de nossa espécie.

postado em by Pablo Villaça em Filmes, filmes, filmes, religião