Festival do Rio 2014 Dia #02

Abraço carinhoso aos leitores Vinícius, Karina, Fernanda e Alexandre, que vieram conversar comigo durante os intervalos das sessões ontem.

Bom, vamos aos filmes:

5) A Corrente do Mal (It Follows, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell. Com: Maika Monroe, Olivia Luccardi, Keir Gilchrist, Lili Sepe, Bailey Spry, Jake Weary, Daniel Zovatto.

Uma vizinhança calma num entardecer de outono. Ruas vazias, um ou outro vizinho chegando em casa com compras e folhas acumuladas nas sarjetas. Subitamente, a porta de uma das confortáveis casas se abre e uma garota dispara para fora numa corrida que se torna desajeitada em função dos saltos altos que ela calça. Desesperada, ela vasculha em torno de si e inicia outra fuga de algo que o plano aberto não consegue revelar por alguma razão. O que está havendo? Do que ela foge? Por que o desespero?

É assim que começa A Corrente do Mal, escrito e dirigido por David Robert Mitchell e que se revela um terror cada vez mais raro: aquele que, mesmo recaindo em clichês do gênero vez por outra, jamais se torna óbvio em seus sustos e prefere apostar na atmosfera de tensão crescente do que em momentos que tentam levar o espectador a saltar na poltrona através de acordes altos e súbitos na trilha sonora. Além disso, ao contrário de tantas obras similares, este longa não se torna pior à medida em que descobrimos o que há por trás de seu mistério – que, logo um personagem nos informa, consiste em uma espécie de maldição transmitida através do sexo e que condena o infectado a ser perseguido por algum tipo de espírito capaz de assumir qualquer aparência e que, mesmo caminhando de forma lenta, é inexorável em sua marcha de destruição, eventualmente alcançando sua vítima ao desgastá-la emocional e psicologicamente.

Não é preciso ser um grande estudioso de semiótica, aliás, para compreender as intenções de A Corrente do Mal: por mostrar-se como um inimigo que pode surgir a qualquer momento, jamais pode ser detido, adota qualquer forma e sempre alcança seus alvos, o vilão concebido por Robert Mitchell é claramente um símbolo da própria Morte e da passagem de tempo que acaba por nos entregar aos seus braços. Ao mesmo tempo, o fato de ser uma maldição que se contrai pelo sexo, a criatura tem, claro, certo teor moralista tão comum no gênero terror, embora, aqui, as coisas se tornem mais interessantes quando percebemos que, nos momentos-chave, o tal espírito parece assumir as feições dos pais de suas vítimas – e, num filme praticamente sem adultos, estas aparições súbitas das figuras de autoridade em instantes de destruição acabam por evidenciar a tentativa do roteiro de ilustrar, através do sobrenatural, as angústias, culpas e ansiedades adolescentes não só dos personagens, mas do próprio espectador (tenha este a idade que tiver).

Para ressaltar esta atemporalidade de sua mensagem, vale apontar, o design de produção do longa investe em detalhes que tornam a própria ambientação da trama difícil de ancorar em uma época específica: embora celulares sejam raros (ou mesmo inexistentes), uma personagem usa um leitor de textos similar ao Kindle ao mesmo tempo em que os aparelhos de tevê vistos em tela trazem desajeitadas antenas e aqueles seletores de canais redondos que emitiam um tactactac ruidoso ao serem girados. Da mesma maneira, quando um casal vai ao cinema, o local traz uma cortina vermelha gigantesca e se revela um palácio de projeção do tipo praticamente inexistente hoje em dia – e, para tornar tudo ainda mais curioso, conta com um músico tocando uma pianola ao lado da tela.

Enquanto isso, o diretor David Robert Mitchell adota uma estratégia narrativa inteligente ao frequentemente empregar panorâmicas lentas que vão revelando o ambiente em torno dos personagens gradualmente – e, ao contrário de boa parte dos colegas de gênero, que apostam em quadros fechados para sustos súbitos, aqui o cineasta investe em planos abertos justamente por saber que qualquer pessoa que surja caminhando em algum ponto da tela levará o espectador a uma tensão imediata. Por outro lado, os interiores são rodados de maneira claustrofóbica (em cenários apropriadamente enfumaçados) com o propósito de estabelecer o fato de que os heróis podem se encontrar em um beco sem saída caso o vilão surja de repente.

Investindo numa trilha com componentes eletrônicos que parecem fazer uma homenagem apropriada a John Carpenter e ao seu Halloween, A Corrente do Mal também acerta ao incluir momentos importantes de alívio cômico ao reconhecer o absurdo da situação vivida por aqueles jovens – e não deixa de ser divertido constatar, por exemplo, como um adolescente não hesitará em ir pra cama com uma bela mulher mesmo que saiba que isto o condenará a ser perseguido por um espírito que caminhará lentamente em sua direção até alcançá-lo e matá-lo (quem nunca?).

Impecável também em seu desfecho – outro ponto no qual boa parte dos filmes do gênero tendem a ir para o lugar comum do susto final -, A Corrente do Mal é uma obra que comprova que, nas mãos de um bom diretor, um longa de terror é uma obra de arte tão digna e memorável quanto o mais lacrimoso dos dramas de época. (4 estrelas em 5)

6) Blind (Idem, Noruega, 2014). Dirigido e roteirizado por Eskil Vogt. Com: Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali, Marius Kolbenstvedt, Stella Kvam Young.

Ao assistir a este Blind, frequentemente me lembrei de uma frase de Dziga Vertov sobre as potencialidades da montagem: “Construí um aposento com doze paredes que filmei ao redor do mundo”. Esta fluidez física permitida pela montagem, aliás, já resultou em experimentos narrativos brilhantes em obras que vão de O Ano Passado em Marienbad (e Resnais, diga-se de passagem, era um mestre em criar mágica com seus cortes) ao curta A Movie, de Bruce Conner – e se cito estes exemplos magistrais ao lado deste trabalho escrito e dirigido pelo norueguês Eskil Vogt, é porque realmente acredito que mereça figurar nesta lista.

Responsável também pelo roteiro do excepcional Oslo, 31 de Agosto, Vogt cria aqui um experimento narrativo que gira em torno de Ingrid (Petersen), uma mulher que se torna cega já na idade adulta em função de uma doença que jamais é identificada. Sem ter forças para sair de casa, ela passa os dias em seu apartamento, passando a desconfiar de que ocasionalmente seu marido retorna silenciosamente para observá-la. Ao mesmo tempo, a moça, cada vez mais insegura por não contar com as informações visuais que poderiam tranquilizá-la com relação às intenções daqueles que a cercam, passa a imaginar o conteúdo de conversas que o companheiro pode estar mantendo na Internet – entregando-se, também, a um exercício de escrita que se concentra em um casal que pode ou não ter bases na realidade.

É justamente este “pode ou não” que torna Blind tão fascinante: no mundo escuro de Ingrid, afinal, tudo “pode ou não” – e, assim, quando ela se estica para tentar tocar o teto (que se encontra a uns três ou quatro metros de altura), Vogt e o montador Jens Christian Fodstad incluem um plano-detalhe que traz a mão da protagonista quase encostando no alto embora saibamos que isto seria impossível. Da mesma maneira, como a garota perde as referências espaciais, isto acaba se refletindo em seus relatos e, quando ela surge descrevendo uma passagem que traz dois homens conversando em um café diante de um painel de vidro, os planos e contraplanos frequentemente sugerem que os interlocutores se encontram em espaços diferentes: um pode estar no café enquanto o outro surge em um trem em movimento apenas para, no segundo seguinte, o primeiro aparecer em um ônibus enquanto o segundo retorna ao restaurante.

Este exercício de montagem, porém, jamais resulta em uma narrativa de difícil compreensão ou mesmo entediante. Ao contrário: justamente por experimentar com o espaço da mise-en-scène, Blind se converte em uma obra memorável a partir de uma história que, em si, não ofereceria grandes promessas. Aplicando com precisão os momentos em que a narrativa mergulha na subjetividade mental da protagonista, o filme ainda consegue cruzar a fronteira entre suas fantasias e a realidade – e constantemente somos surpreendidos pelos raccords brilhantes concebidos pelo montador Fodstad, que, num corte rápido, consegue mudar o gênero de um personagem ou alterar todo o ambiente em torno de duas pessoas que conversam casualmente.

Intrigante também em seu design sonoro, que reflete a confusão de Ingrid ao não conseguir confirmar visualmente sons que suspeita ter ouvido (uma rajada de balas, por exemplo, que não é acompanhada da costumeira gritaria que se seguiria), Blind é uma obra fabulosa que usa o potencial da montagem para mergulhar o espectador em uma narrativa ao mesmo tempo coesa e profundamente experimental. E não é à toa que, em certo instante, Ingrid diga gostar de ouvir a tevê por saber que, na maior parte do tempo, as imagens não são necessárias para acompanhar com tranquilidade o que se passa nas produções criadas para esta mídia – imagens que, neste filme protagonizado por uma cega, são absolutamente essenciais. (5 estrelas em 5)

7) Coração Mudo (Stille hjerte, Dinamarca, 2014). Dirigido por Bille August. Roteiro de Christian Torpe. Com: Ghita Nørby, Morten Grunwald, Paprika Steen, Danica Curcic, Jens Albinus, Vigga Bro, Oskar Sælan Halskov, Pilou Asbæk.

Esther é uma mulher já idosa que, vitimada pela mais cruel das doenças (a esclerose lateral amiotrófica), não consegue se acostumar com a ideia de perder sua independência e sua dignidade em seus dias finais no planeta – e que, com a concordância da família, decide cometer suicídio antes que seu corpo enfraqueça a ponto de tornar a ação inviável. Assim, ela reúne as filhas, os companheiros destas, seu neto, sua melhor amiga e o marido para um último final de semana antes que encerre a própria vida.

Basta ler o resumo da trama principal de Coração Mudo, logo acima, para desconfiar de que este filme escrito por Christian Torpe e dirigido por Bille August se revelará um melodrama dos mais apelativos – mas esta impressão seria profundamente incorreta. Evitando as lágrimas fáceis, o longa opta por descartar momentos de maior maniqueísmo a fim de se concentrar na dinâmica entre os membros daquela família amorosa, mas longe da perfeição. Assim, ao longo dos 96 minutos seguintes, a narrativa sugere conflitos recorrentes, segredos do passado, possibilidades surpreendentes para o futuro e instantes de humor inesperados ao acompanhar uma galeria de personagens multifacetados que são vividos com sensibilidade pelo coeso elenco.

Ancorado de certa forma pelos contrastes entre as duas irmãs Heidi (Steen) e Sanne (Curcic), Coração Mudo não demora a estabelecer como as mulheres parecem diferentes em tudo, da idade às personalidades: se a primeira é controladora e parece ter uma vida estruturada, a segunda, bem mais jovem, insiste em um namoro cheio de idas-e-vindas e se mostra emocionalmente descontrolada – e é recompensador acompanhar as mudanças eventuais em seus comportamentos à medida em que o fim de semana caminha para o fim. Enquanto isso, a própria Esther (Nørby) mantém a narrativa centrada graças à forma objetiva com que encara o próprio fim: sim, ela teme o que (não) virá, mas sabe que o que viria seria infinitamente pior, o que lhe permite até mesmo brincar com o que está por vir de maneira surpreendente.

Não que estas brincadeiras disfarcem a gravidade do que está para acontecer – e é comovente, por exemplo, perceber o desespero de Heidi para que possam viver “um dia significativo”, como se pudessem forçar a criação de memórias e instantes de catarse emocional apenas porque o tempo para vivê-los se encontra limitado. Ao mesmo tempo, quando vemos Esther ao lado de seu dedicado e amoroso marido Poul (Grunwald), somos levados a imaginar que tipo de conversa um casal que se encontra junto há décadas teria ao saber que um deles partirá em breve.

Aliás, é precisamente ao se encontrar no fato de que Esther está vivendo uma série de últimos momentos que Coração Mudo se torna tão eficiente do ponto de vista dramático. É tocante, por exemplo, perceber como aquela frágil senhora decide cochilar após despertar não por querer dormir mais um pouco, mas para experimentar a sensação de acordar uma última vez – e, de forma similar, é impossível não constatar o caráter de despedida que qualquer objeto assume, por mais prosaico que seja, quando sabemos que não voltaremos a vê-los (e ver Esther passando as mãos gentilmente no encosto das cadeiras nas quais se sentou por anos sem jamais notá-las de fato é algo que transmite esta finitude sem qualquer necessidade de diálogos expositivos que enfraqueceriam a ideia).

Tornando-se ainda mais melancólico graças à beleza das locações empregadas e da linda fotografia de Dirk Brüel (que contrapõe os interiores com luz quente e aconchegante à frieza da paleta que abraça os personagens em seus instantes de fraqueza), Coração Mudo é um filme que oscila com segurança entre a nostalgia, a melancolia e o humor – e a sequência envolvendo uma roda de maconha é memorável em sua hilária humanidade. Além disso, o design de produção revela uma inteligência sutil ao decorar a casa de Esther com relógios que parecem quase onipresentes, levando o espectador a sentir, quase subliminarmente, a passagem cruel do tempo.

Mas é mesmo em seus instantes de doçura que o filme de Bille August acaba por conquistar o espectador – e Coração Mudo é um drama maduro e paciente o bastante para compreender que, às vezes, não há imagem que emocione mais do que aquela que revela simplesmente a sensação gostosa de podermos, por alguns segundos, encostar a cabeça em alguém que amamos profundamente. (4 estrelas em 5)

 

8) Burying the Ex (Idem, EUA, 2014). Dirigido por Joe Dante. Roteiro de Alan Trezza. Com: Anton Yelchin, Ashley Greene, Alexandra Daddario, Oliver Cooper, Dick Miller.

Joe Dante é um cineasta que, ao longo da carreira, se mostrou um mestre em combinar humor e comédia de forma irreverente e eficaz. De Gremlins a O Buraco, passando por Meus Vizinhos São um Terror e episódios de Além da Imaginação e mesmo The Naked Gun (que daria origem a Corra que a Polícia Vem Aí), Dante criou uma filmografia que, mesmo claramente voltada a um público infanto-juvenil, jamais excluía os espectadores adultos, que sempre encontravam graça em suas brincadeiras de linguagem e mesmo na ingenuidade de boa parte de seu humor. Infelizmente, esta ingenuidade, que funcionou tão bem na década de 80, começou a mostrar certo desgaste nas obras que o diretor concebeu nos anos seguintes – e é justamente este o problema que impede que Burying the Ex, seu novo trabalho, se torne tão eficaz quanto boa parte de seus longas anteriores.

Inspirado em um curta escrito e dirigido pelo roteirista Alan Trezza, o filme conta a história de Max (Yelchin), um jovem que, trabalhando em uma loja de artigos de terror, namora a lindíssima, mas insuportável Evelyn (Greene), cuja obsessão pelo “ecologicamente correto”, somada à sua possessividade emocional, tornam a vida do rapaz infernal. É então que a moça morre em um acidente de trânsito, mas, ressuscitada por uma promessa de que passaria toda a eternidade ao lado do namorado, retorna como um zumbi, impedindo que Max possa se envolver com Olivia (Daddario) e irritando o meio-irmão do protagonista, Travis (Cooper).

Assumidamente tolo até mesmo ao trazer o artefato que ressuscita Evelyn como um diabinho de porcelana que solta fumaça e cujos olhos se acendem em um vermelho intenso, Burying the Ex é um daqueles filmes que trazem o herói consultando um manual de magia para descobrir como se livrar de um vilão e que não se furta de fazer piadas com fluidos nojentos que parecem sempre mirar a boca do protagonista – e isto não é necessariamente ruim, já que, aqui e ali, o longa realmente consegue arrancar boas risadas com seu humor despretensioso e óbvio.

Infelizmente, é esta obviedade que gradualmente torna a experiência menos memorável, a começar pela trilha sonora que faz questão de ressaltar cada piadinha (incluindo gongos quando um personagem segura uma espada) e pelos efeitos sonoros que transformam as lambidas sensuais de Evelyn em um espetáculo grotesco. Da mesma maneira, o design de produção jamais investe em qualquer tipo de sutileza: do escritório de Evelyn, que traz telefones, abajures e diversos elementos num verde chapado (que mais tarde cobrirá seu apartamento) até a decoração inicial da casa de Max, repleta de cartazes de terror, Burying the Ex é um filme que parece acreditar ser necessário atirar suas piadas na cara do público, o que acaba por prejudicá-lo (é difícil rir de uma gag quando seu autor faz questão de ressaltar como esta é engraçada).

Já o elenco, curiosamente, acerta ao investir em abordagens diametralmente opostas: enquanto Anton Yelchin se recusa (acertadamente) a assumir estar em uma comédia, vivendo Max com uma seriedade que torna, por contraste, sua situação mais divertida, Ashley Greene investe na caricatura absoluta, transformando Evelyn em uma namorada que se mostra monstruosa mesmo antes de retornar como zumbi. E se Alexandra Daddario fica presa ao ingrato papel de promessa amorosa, Oliver Coooper, que parece o resultado de uma transa de Seth Rogen e Jonah Hill, protagoniza seus bons momentos ao encarnar Travis numa figura divertidamente grotesca.

Assim, é uma pena que falte, ao filme, aquela atmosfera irreverente que caracteriza os melhores trabalhos de Joe Dante – e é triste constatar que, mesmo trazendo a infalível ponta de Dick Miller, Burying the Ex é uma produção que poderia ter sido comandada por qualquer outro diretor. (3 estrelas em 5) 

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast