Festival do Rio 2014 Dia #03

Abraço ao aluno Jaime, que veio me cumprimentar após a sessão de Frank e que veio de Porto Alegre apenas para se entregar ao prazer de acompanhar este fabuloso festival.

E vamos aos filmes:

9) Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills (Beyond Clueless, Inglaterra, 2014). Dirigido e roteirizado por Charlie Lyne. Narrado por Fairuza Balk.

Nos últimos anos, os vídeo-ensaios se tornaram uma das formas de crítica cinematográfica mais populares na Internet – e não é à toa: quando bem realizados, eles conseguem expor, em poucos minutos e de maneira envolvente, similaridades entre obras que pareciam completamente distintas e padrões a partir de filmes diversos, ressaltando forças e fragilidades dos projetos analisados e ajudando o próprio espectador a treinar seus olhos para identificá-las por si só. Assim, não é surpresa que, nos últimos dois ou três anos, estes exercícios de análise tenham atravessado a fronteira para o formato de longa-metragem, capitaneados especialmente pelo trabalho do irlandês Mark Cousins.

Infelizmente, este Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills, dirigido por Charlie Lyne, divide muitas das características das obras de Cousins – e se digo “infelizmente” é porque, apesar da escala admirável de A História do Filme: Uma Odisseia, não posso me apresentar como um de seus fãs, já que Cousins frequentemente estabelece correlações absurdas entre filmes a fim de provar teses e interpretações que raramente sobrevivem a uma segunda análise.

Tomemos, como exemplo, os esforços de Lyne para estabelecer uma leitura particular a partir de longas que giram em torno de personagens adolescentes: em certo instante, ele defende a recorrência de certos tipos em obras absurdamente diferentes sem parecer perceber que, embora possam ser superficialmente similares, estes personagens normalmente se submetem às convenções do gênero no qual estão inseridos – o que torna a adolescente lobisomem sedutora de Possuída completamente diferente das Garotas Selvagens vividas por Neve Campbell e Denise Richards. Da mesma maneira, nas montagens recorrentes exibidas ao longo da projeção, Lyne cria paralelos que só se sustentam caso ignoremos o contexto das obras originais – e ao vermos diversas figuras cruzando piscinas em vários filmes, somos informados de que a ação simboliza um “renascimento” quando, de fato, não é difícil perceber que o simbolismo (quando existente) pode girar em torno de elementos tão distintos quanto angústia, morte, libertação ou opressão, numa complexidade temática que o documentarista opta por ignorar.

Ora, o maior pecado que um crítico ou um acadêmico pode cometer em sua análise é a desonestidade intelectual – e, em Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills, Charlie Lyne repete este erro em várias ocasiões, tentando forçar ideias em obras que não as sustentam (e, ao vê-lo classificar como “rebelião” a transformação experimentada pela protagonista de Ela é Demais, quando de fato esta representa uma breve entrega ao conformismo, é algo que insulta não só a inteligência do espectador como desrespeita o filme original, por mais tolo que este seja). Como se não bastasse, o sujeito trata como iguais longas que estão longe de sê-lo – e é inacreditável perceber uma tentativa de igualar títulos excelentes como Três é Demais e Meninas Malvadas a outros pavorosos como Jimmy Bolha e Um Show de Vizinha, que, mesmo quando estudados de perto, jamais oferecem a complexidade que Lyne tenta lhes atribuir.

Mas o maior pecado deste documentário reside em sua cegueira para o moralismo e o machismo de um gênero que constantemente se entrega a fantasias masculinas de dominação e punição da independência feminina, ignorando uma tendência que qualquer um relativamente atento perceberia em um segundo.

Considerando a competência de vídeo-ensaístas como Kevin B. Lee, Nelson Carvajal, Michael Mirasol e Matt Zoller Seitz, é uma pena que o primeiro contato de tantos cinéfilos com este tipo de análise cinematográfica ocorra através de profissionais tão falhos como Cousins e Lyne. Este subgênero do documentário merecia representantes melhores. (2 estrelas em 5)

 

10) Altman, um Cineasta Americano (Altman, Canadá, 2014). Dirigido por Ron Mann. Roteiro de Len Blum.

Basta notar a duração de Altman, um Cineasta Americano, 95 minutos, para constatar que este documentário de Ron Mann dificilmente poderia fazer jus a uma obra e a uma carreira tão complexa quanto à do diretor de M*A*S*H, Nashville, O Jogador e Short Cuts. Por outro lado, não deixa de ser decepcionante perceber que, ao longo da projeção, Mann não consegue oferecer um único insight sobre o cineasta, limitando-se a criar um filme que soa apenas como um “melhores momentos” de sua trajetória.

Iniciando o filme com uma explicação breve sobre a importância de Altman ao ressaltar o naturalismo em seus projetos, bem como seu hábito de subverter gêneros e usá-los para fazer insuspeitas críticas sociais, Ron Mann desperdiça uma galeria invejável de depoentes ao empregá-los com o único propósito de permitir que ofereçam outras definições acerca do personagem-título, ignorando que certamente poderiam presentear o público com relatos que certamente ofereceriam uma janela bem maior para sua personalidade do que as breves frases que ganham permissão de dizer. Ora, já sabemos que Robert Altman era um artista versátil, rebelde, inovador e que se mantinha como outsider em Hollywood – e ouvir atores como Elliott Gould, Robin Williams, Lily Tomlin e Sally Kellerman repetindo estas definições não as tornam menos óbvias.

Fazendo um breve resumo da trajetória do diretor – cujo início se deve a uma combinação de mentiras, cara de pau e muita sorte -, Altman, um Cineasta Americano passa rapidamente por suas contribuições para séries como Hitchcock Presents, Peter Gunn e Bonanza para enfim se concentrar em sua carreira no Cinema. Lamentavelmente, porém, a breve duração do documentário não permite que a retrospectiva se torne mais detalhada a partir daí, o que obriga Mann a praticamente saltar boa parte dos títulos memoráveis comandados pelo biografado – e quando alguém explica que Altman “nem sabia se conseguiria completar as filmagens de Popeye”, o filme subitamente já salta para a estreia daquele projeto sem se preocupar em explicar a natureza da crise enfrentada por Altman e como a contornou.

Soando quase amador ao empregar efeitos sonoros sobrepostos a fotos a fim de condensar ainda mais a cronologia (ao trazer a imagem de uma festa, por exemplo, Mann faz questão de ressaltar o evento com o ruído de uma rolha de champanhe estourando), Altman ainda comete a injustiça de ignorar a importância de críticos como Pauline Kael e Roger Ebert para a carreira do personagem-título, limitando-se a citar uma ou outra passagem dos textos destes. Em contrapartida, Ron Mann investe um longo tempo em apresentar uma imagem de arquivo que traz o patético crítico Gene Shalit, que pouco mais era do que uma caricatura desprezada pelos próprios colegas, atacando uma produção de Altman, o que, somado aos outros instantes nos quais faz questão de ressaltar que “os críticos detestaram” este ou aquele projeto, parece evidenciar um esforço por parte do documentário de estabelecer estes profissionais como inimigos do diretor – quando, na realidade, a crítica frequentemente o mantinha vivo artisticamente apesar da oposição dos executivos dos estúdios.

Interessante ao menos por trazer imagens de arquivo, curtas inéditos e registros da vida familiar do artista, Cineasta Americano é uma homenagem insuficiente cujo melhor momento se encontra justamente em seus primeiros minutos, quando exibe os títulos da filmografia de Altman projetados no céu, sugerindo que, mesmo etéreos como conceitos criativos, seus longas se tornaram incrivelmente sólidos e presentes na percepção de cinéfilos de todo o mundo. (2 estrelas em 5)

 

11) Frank (Idem, Inglaterra/Irlanda, 2014). Dirigido por Lenny Abrahamson. Roteiro de Jon Ronson e Peter Straughan. Com: Domhnall Gleeson, Michael Fassbender, Maggie Gyllenhaal, Scoot McNairy, Shane O’Brien, François Civil, Carla Azar.

Frank conta uma história tão absurda que esta só poderia mesmo ser baseada em fatos reais. Inspirado em um artigo escrito pelo excelente jornalista Jon Ronson, especialista em coletar e narrar passagens envolvendo personagens estranhos e à margem da sociedade, o roteiro co-escrito por este ao lado de Peter Straughan emprega o mítico Frank Sidebottom, criação do falecido comediante Chris Sievey, como âncora emocional de um longa que tinha tudo para se revelar um projeto ancorado em uma única gag visual, mas que, em vez disso, resulta numa narrativa que se equilibra muitíssimo bem entre a comédia e o drama.

Inserindo na trama um alterego do próprio Ronson, que de fato atuou ao lado do verdadeiro Frank, o filme acompanha Jon (Gleeson), um jovem aspirante a músico que, medíocre, passa os dias tentando compor canções a partir de tudo que vê ao seu redor. Certo dia, um acaso qualquer resulta em um convite para que toque teclado na banda ancorada por Frank (Fassbender), cujas estranhas composições empalidecem diante do fato de que seu intérprete insiste em usar uma imensa cabeça feita de papier-mâché não só nos palcos, mas 24 horas por dia. A partir daí, acompanhamos Jon, Frank e aquele estranho grupo (que ainda inclui a mal humorada Clara, vivida por Gyllenhaal) durante quase um ano enquanto se isolam em uma cabana a fim de gravarem um novo álbum.

Mas quem é Frank, afinal? Oscilando entre os papéis de líder de culto, músico ambicioso e simples lunático, o sujeito inspira os companheiros graças ao seu olhar sensível, que encontra inspiração em tudo que vê (sem tentar forçá-la, como fazia Jon), e uma serenidade que pode ser apenas resultado do fato de vermos apenas a expressão imutável e sorridente daquela gigantesca cabeça sorridente que cobre a sua própria. Aliás, é curioso como, ao longo da projeção, acabamos nos acostumando com aquela figura estranha, que se torna quase natural, e passamos a experimentar uma curiosidade crescente acerca da verdadeira natureza do homem por baixo da máscara. Não que sua aparência real importe (e este, mais uma vez, é o erro de Jon, que se concentra na pergunta errada), já que o que de fato intriga é a estabilidade psicológica do sujeito: quando ele descreve as expressões que ocupam seu rosto real, estará dizendo a verdade? Aos poucos, percebemos que o mais provável é que uma máscara congelada de tristeza e dor esteja sendo ocultada por aquela que exibe grandes olhos azuis pintados no papier-mâché – e que Jon não pareça perceber isto é a grande tragédia do filme.

Jon, diga-se de passagem, é um protagonista curioso: se inicialmente simpatizamos com sua insegurança e sua vontade de atingir espaços maiores do que sua humilde mesa de trabalho, gradualmente constatamos que o rapaz talvez não seja uma pessoa tão admirável como gostaríamos de acreditar, já que sua admiração por Frank parece revelar um desejo subjacente de explorá-lo para se promover. Sim, é comovente perceber como sorri, certa manhã, ao sentir-se aceito pelo grupo (especialmente considerando que o posto de tecladista da banda parece amaldiçoado como o de baterista da Spinal Tap), mas finalmente alcançamos um ponto no qual se torna impossível negar que aquele jovem por quem torcíamos se converteu num poço de inconsequente egoísmo, numa transição corajosa por parte do filme e de seu intérprete, Domhnall Gleeson (filho de Brendan).

E esta, afinal, é a diferença fundamental entre Jon e seus companheiros de banda: enquanto estes querem apenas se expressar, o protagonista busca simplesmente fama e reconhecimento, mesmo que não possua o talento necessário para merecê-los. Por outro lado, é intrigante notar como, aos poucos, o próprio Frank revela seu próprio desejo de reconhecimento; mas se o de Jon é obviamente motivado pelo narcisismo, o do personagem-título sugere uma profunda insegurança psicológica e emocional, levando-nos a temer por seu bem-estar mental caso seja novamente frustrado.

Neste sentido, é admirável observar como Michael Fassbender ilustra toda a complexidade de Frank sem poder empregar o recurso mais poderoso no arsenal de um ator: as expressões faciais. Em vez disso, ele modula a voz de Frank para que esta salte da empolgação criativa a um tom quase infantil ao mesmo tempo em que sua expressão corporal sugere um homem que, de forma similar, alterna entre o maníaco e o apático, evidenciando uma psique fragilizada e propensa à depressão.

E quando Fassbender finalmente pode usar o rosto, é notável que mantenha-se contido e quase inexpressivo (embora projetando uma infinidade de dores), já que, sem sua cabeça gigantesca, “Frank” é apenas uma figura trágica e frágil, ilustrando outro equívoco – entre tantos – que Jon comete ao não perceber que a visão romântica do artista atormentado e deprimido é admirável apenas para quem a enxerga de fora. Vista por dentro, esta traz apenas dor. (4 estrelas em 5)

 

12) O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man, Inglaterra/EUA/Alemanha, 2014). Dirigido por Anton Corbijn. Roteiro de Andrew Bovell. Com: Philip Seymour Hoffman, Grigoriy Dobrygin, Nina Hoss, Daniel Brühl, Rachel McAdams, Robin Wright, Rainer Bock, Mehdi Dehbi, Homayoun Ershadi e Willem Dafoe.

O Homem Mais Procurado é um thriller de espionagem feito por e para adultos. Cínico, melancólico e substituindo as sequências de ação da franquia James Bond por outras, extensas, que se concentram no laborioso e meticuloso trabalho executado por espiões que dependem mais de jogos psicológicos do que de armas para realizarem suas tarefas, o filme de Anton Corbijn remete diretamente, em tom e qualidade, ao recente O Espião que Sabia Demais, também baseado em um livro de John le Carré, criando um mundo cujos riscos constantes não conseguem despistar a melancolia de seus habitantes.

Retratando o universo da espionagem num mundo dominado pela paranoia do pós-11 de Setembro, o roteiro de Andrew Bovell tem início com a chegada, na Alemanha, de um imigrante ilegal checheno, o machucado Issa Karpov (Dobrygin). Com sua presença detectada pela Inteligência alemã, ele passa a ser seguido pela equipe do competente Günther Bachmann (Seymour Hoffman), que, incerto acerca dos objetivos de seu alvo, logo percebe que talvez este possa ser empregado como isca para um peixe maior: o empresário Abdullah (Ershadi), cujas obras de caridade talvez sejam fachada para organizações terroristas. A partir daí, Günther começa a cultivar uma rede de informantes para que possa chegar a Issa, eventualmente envolvendo-se com a advogada Annabel (McAdams) e o banqueiro Tommy Brue (Dafoe).

Fascinante precisamente ao retratar as estratégias empregadas pelo protagonista para manipular psicologicamente aqueles que podem lhe trazer informações importantes, O Homem Mais Procurado investe numa narrativa de ritmo estudado que jamais se apressa desnecessariamente, optando, em vez disso, por uma abordagem que busca retratar o processo exaustivo de Günther, que metodicamente usa um indivíduo para chegar a outro e assim por diante.

Dirigindo um carro velho e operando a partir de um escritório sufocante e desarrumado que divide com a parceira Irna (a sempre expressiva Nina Hoss) e o agente Max (Brühl, desperdiçado), Günther em nada vive o glamour que o Cinema costuma associar aos espiões internacionais. Em vez disso, seu cotidiano consiste basicamente em burocracia, brigas interdepartamentais e muito trabalho – e não é à toa que ele parece ter sempre um copo de uísque e um cigarro presos à mão. Comunicando-se sempre com uma voz rouca e cansada que revela um homem à beira da exaustão, Philip Seymour Hoffman constrói Günther como um indivíduo sereno e calmo que, em vez da intimidação, busca cultivar os informantes através da empatia, apresentando-se como uma figura paterna ou apenas como um burocrata com consciência social se isto se fizer necessário para convencê-los de suas boas intenções (e, justamente por isso, quando o sujeito explode percebemos a enormidade de sua frustração).

A riqueza na composição de Hoffman, contudo, reside no fato de que acreditamos nas boas intenções de seu personagem. Sugerindo uma capacidade de compreender até mesmo as motivações de um possível terrorista, Günther é um homem que não enxerga o mundo apenas em branco e preto – e é inteligente o bastante para perceber que a execução sumária de um suspeito provocaria apenas um buraco a ser ocupado por um outro criminoso cuja identidade agora desconheceriam. Parecendo deprimido e desiludido, o Günther de Philip Seymour Hoffman é uma criatura absurdamente complexa que, resultado do último trabalho completado pelo ator antes de sua trágica overdose, ressalta a dimensão da perda representada por sua morte precoce.

Fotografado por Benoît Delhomme em tons dessaturados que constantemente investem num cinza que complementa a melancólica atmosfera chuvosa do filme, O Homem Mais Procurado é mais um passo acertado do cineasta Anton Corbijn depois do ótimo Um Homem Misterioso e do excelente Control: respeitando a inteligência do espectador, o diretor jamais oferece informações mastigadas, permitindo que o público perceba gradualmente os riscos envolvidos na investigação do protagonista e as relações entre os vários personagens. Além disso, Corbijn, como de hábito, mostra-se hábil ao criar metáforas visuais que descartam a necessidade de diálogos expositivos – e o fato de o filme já abrir com uma linha d’água tranquila que eventualmente se torna instável em suas oscilações é um símbolo perfeito para os efeitos da chegada de Issa Karpov à Alemanha. Da mesma maneira, é fascinante perceber como o realizador enfoca uma conversa entre este e a advogada Annabel depois que esta é abordada por Günther, já que as divisórias de plástico que se interpõem entre ela e o cliente sugerem precisamente a barreira de mentiras (mesmo bem intencionadas) construída pelos espiões. Para completar, é admirável como Corbijn usa a profundidade de campo reduzida para sugerir constantemente a presença de alguém não identificado ao fundo das cenas, como se houvesse sempre a possibilidade de que as conversas mantidas pelos personagens estivessem sendo monitoradas por um desconhecido.

Demonstrando a habilidade de sua construção narrativa ao levar o espectador a interpretar um simples ato de assinar um documento como se este tivesse o impacto dramático de um tiro disparado à queima-roupa, O Homem Mais Procurado é, desde já, um dos melhores filmes do ano. E também um testemunho inequívoco de como todos perdemos com a morte de um ator tão fabuloso quanto Philip Seymour Hoffman. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast