Festival do Rio 2014 Dia #04

Abraço ao aluno Thiago, que veio me contar, depois da sessão de Boyhood, que iniciará um curso de Cinema no próximo semestre (espero poder comentar seus trabalhos futuros).

E vamos aos filmes:

13) Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por Richard Linklater. Com: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Marco Perella, Jamie Howard, Andrew Villarreal, Barbara Chisholm, Cassidy Johnson, Landon Collier, Zoe Graham, Charlie Sexton.

Rodado ao longo de quase 12 anos, Boyhood – Da Infância à Juventude é um road movie no qual a estrada é o tempo: aqui e ali fazemos pequenas paradas, conhecemos novos personagens e situações e, então, seguimos em frente modificados. É um filme que compreende que somos o resultado de uma coleção de instantes mais ou menos memoráveis e que, portanto, somos seres fluidos por natureza – e que acompanhar estas mudanças é uma jornada fascinante.

Há, claro, precedentes no Cinema: a fabulosa série Up, de Michael Apted; os longas dirigidos por Truffaut e estrelados por Jean-Pierre Léaud (como Antoine Doinel); e o bom Todos os Dias, de Michael Winterbottom – que, como conceito, talvez seja o mais similar a esta obra de Richard Linklater por ter sido rodado ao longo de cinco anos em vez de consistir, como os demais citados, em uma série de longas autocontidos. Ainda assim, Boyhood faz Todos os Dias empalidecer em comparação ao contar uma história que, ao contrário daquela vista no longa de Winterbottom, investe mais em incidentes do que em uma trama particular. Não há, aqui, o drama de um pai presidiário ou algo neste sentido, mas sim o drama mais cotidiano (mas não menos impactante) de tentar tocar a vida mesmo diante de problemas financeiros, de brigas com o parceiro e de pequenos percalços quase triviais, como o embaraço de ter que ir para a escola com um corte de cabelo desastroso ou ser repreendido por um adulto.

Assim, à medida que Mason Jr. (Coltrane) vai envelhecendo, mudando a voz, ganhando espinhas e perdendo inibições, testemunhamos também as alterações vividas por sua irmã (interpretada pela filha do diretor) e vemos as rugas surgindo no rosto antes liso de Ethan Hawke – e o simples ato de presenciarmos as ações do tempo sobre aquelas pessoas já teria um apelo particular mesmo que Linklater não usasse a narrativa para discutir questões existenciais universais a partir das trajetórias criadas para aqueles personagens.

Admirável ao conseguir manter a coesão de sua abordagem narrativa ao longo do tempo da produção, Boyhood é inteligente, por exemplo, ao trazer o pai vivido por Hawke usando basicamente a mesma roupa e dirigindo o mesmo carro durante os primeiros anos retratados pelo filme, ilustrando de forma sutil o fato de o sujeito encontrar-se estacionado em sua maturação pessoal – e quando o vemos vestindo terno e exibindo um bigode que o envelhece, percebemos seu crescimento sem que isto tenha que ser verbalizado. Da mesma maneira, as oscilações de humor (e cabelo) de Patricia Arquette servem não só como referência das passagens de tempo, mas das dificuldades enfrentadas por uma mulher que, apesar de todo o esforço pessoal e da dedicação à família, parece fazer sempre escolhas equivocadas em sua vida romântica. Assim, mesmo que Boyhood tenha como foco o crescimento de Mason Jr., Linklater consegue, na periferia da narrativa, ilustrar também a trajetória de seus pais de jovens adultos a indivíduos se aproximando da meia-idade enquanto se preocupam em educar e orientar os filhos e encontrar um rumo para suas próprias vidas.

Além disso, é interessante constatar como o roteiro não ignora a importância de contextos geográficos e históricos na formação daqueles indivíduos – e a recorrência de Bíblias, armas de fogo e música country sugere a influência que a cultura do sul dos Estados unidos exerce sobre os personagens, queiram estes ou não, ao passo que as referências às disputas presidenciais ilustram o impacto que a postura ideológica dos pais pode ter sobre os filhos. Da mesma maneira, o longa evidencia, através da figura de um imigrante que certo dia mantém uma breve conversa com a mãe vivida por Arquette, como podemos provocar impacto sobre aqueles que nos cercam mesmo que jamais nos demos conta disso, já que momentos que muitas vezes soam prosaicos e desimportantes no instante em que ocorrem podem se revelar essenciais quando vistos em retrospecto.

Recheado de um humor doce que frequentemente nasce das interações da amorosa família que ocupa seu centro, Boyhood também é capaz de trazer passagens dolorosas que são concebidas cuidadosamente, sendo admirável, por exemplo, perceber como o problema do segundo marido de Arquette é inicialmente sugerido de forma sutil, quando o sujeito evita até beber diante dos filhos, até o instante em que sua raiva alcoolizada explode durante um almoço no qual não faz qualquer questão de esconder a bebida.

Porém, o mais recompensador neste lindo projeto é perceber como Mason, apesar de (ou precisamente em função de) todos os pequenos traumas que enfrenta, se torna um jovem adulto tão… bacana. Dono de um tom de voz gentil e sereno, de modos carinhosos e de uma personalidade repleta de curiosidade pelo mundo, Mason (e seu carismático intérprete) jamais deixa que esqueçamos do garotinho que se equilibrava perigosamente no balanço quando o vemos já barbado, prestes a partir para a faculdade e atormentado por ansiedades com relação ao futuro – e vê-lo crescer é tão emocionante quando acompanhar o envelhecimento de seus pais, já que, inevitavelmente, isto leva o espectador a refletir sobre a própria trajetória (e embora tenha o privilégio de seguir o crescimento de meus filhos Luca e Nina, confesso que a sensação é a de que tudo passou tão rápido quanto as ligeiras 2h45 deste Boyhood).

Construído como uma jornada de agoras que tornam o presente um conceito sempre dinâmico, esta tocante obra-prima encontra a síntese de seus temas no instante em que a Mãe, diante da constatação de que seu caçula agora é um adulto, suspira já nostálgica ao reavaliar a própria vida e revela ter achado que “haveria mais”. Pois a verdade é que sempre achamos.

E querem saber? Sempre haverá. (5 estrelas em 5)

14) Incompreendida (Incompresa, Itália, 2014). Dirigido por Asia Argento. Roteiro de Asia Argento e Barbara Alberti. Com: Giulia Salerno, Charlotte Gainsbourg, Gabriel Garko, Anna Lou Castoldi, Carolina Poccioni, Gianmarco Tognazzi, Justin Pearson, Alice Pea.

Peço que me perdoem, mas não vou perder um minuto sequer escrevendo sobre este filme detestável que parece acreditar que irritar o espectador com uma galeria de personagens detestáveis em situações detestáveis embalados por músicas detestáveis é a melhor maneira de fazer um estudo de personagem e de discutir inadequação, sentimento de exclusão e alienação parental. Não gostar de um longa é algo comum, mas desejar conferir a este forma humana apenas para poder socá-lo na cara é algo que exige um esforço descomunal. E Asia Argento conseguiu esta proeza. (1 estrela em 5)

 

15) Ida (Idem, Polônia, 2013). Dirigido por Pawel Pawlikowski. Roteiro de Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz. Com: Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Dawid Ogrodnik.

Selecionado pela Polônia como pré-candidato ao Oscar 2015, Ida tem início quando a personagem-título, até então conhecida como Anna, encontra-se prestes a fazer os votos de celibato e pobreza que a tornarão freira. É então que a madre-superiora de seu convento determina que, antes da cerimônia, a garota visite sua única parente ainda viva, uma tia cuja existência a noviça desconhecia. Ao encontrar a mulher, no entanto, a moça recebe de cara uma informação importante: é judia, seu nome real é Ida Lebenstein e seus pais morreram durante a Segunda Guerra.

E aí reside o drama central do longa roteirizado pelo diretor Pawel Pawlikowski ao lado de Rebecca Lenkiewicz: ambientado em 1962, o filme se passa numa época em que a vergonha histórica colossal dos eventos recentes ocorridos na Polônia ainda eram varridos para baixo do tapete e o antissemitismo insista em mostrar sua cara feia mesmo depois do Holocausto – e não é à toa que a madre insiste para que Ida parta em sua viagem, já que há, ali, a sugestão de que a religiosa nutre uma experiência de que a garota não retorne (especialmente considerando sua confissão de ter, ao longo dos anos, tentado mandá-la embora inúmeras vezes).

Porém, a tia de Ida, Wanda (Kulesza), também vive numa negação particular do passado, usando a aparição da sobrinha como pretexto para tentar finalmente enfrentá-lo – e, a partir daí, a narrativa assume uma estrutura de road movie enquanto as duas mulheres viajam para a vila na qual os pais de Ida moravam quando desapareceram. O que se segue é uma série de encontros com pessoas igualmente sofridas e deprimidas que, em maior ou menor grau, se mostram incapazes de seguir adiante. A única exceção, claro, é o saxofonista Lis (Ogrodnik), que recebe uma carona da dupla principal e cuja música parece atrair de forma sedutora a jovem noviça – algo que o diretor retrata de forma sugestiva ao trazê-la descendo uma escadaria (uma pequena jornada ao inferno?) para se aproximar daquele som tão irresistível.

Fotografado por Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal em uma razão de aspecto de 1.37:1 e em preto-e-branco, Ida usa estas duas escolhas para ressaltar a atmosfera opressiva de um país gravemente ferido pela Guerra – o que, somado à maneira com que os personagens são constantemente empurrados para a parte inferior do quadro, tornando-se pequenos e incompletos, ilustra sua insignificância diante de um Estado totalitário e o peso histórico que carregam sobre os ombros.

Enquanto isso, a veterana Agata Kulesza vive a juíza Wanda como uma mulher deprimida e atormentada pelo passado que emprega o sexo da mesma maneira com que usa o cigarro e a bebida: como ferramenta para esquecer, se distrair e se destruir. Por outro lado, a estreante Agata Trzebuchowska, dona de olhas grandes e profundamente escuros, evoca uma aura de ingenuidade e fascinação diante do desconhecido, embora gradualmente também pareça acusar o golpe das descobertas que faz. Ainda assim, é notável como, no ato final, um breve riso que escapa durante um jantar e o olhar perdido que exibe durante uma prece acabam por trair as profundas mudanças que a jornada provocou na garota.

O que nos traz ao memorável plano que encerra a projeção e que ilustra como, mesmo deixando uma longa e cansativa estrada – sua história e a do país – para trás, é o desconhecido à sua frente que representará seu maior desafio. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast