Festival do Rio 2014 Dia #05

Em primeiro lugar, quero mandar um abraço carinhoso ao leitor Renê, que compartilhou comigo uma lembrança de seu avô Ali que me comoveu bastante.

Bom… mas vamos aos filmes.

16) Garota Exemplar (Gone Girl, EUA, 2014). Dirigido por David Fincher. Roteiro de Gillian Flynn. Com: Ben Affleck, Rosamund Pike, Carrie Coon, Kim Dickens, Tyler Perry, Neil Patrick Harris, Patrick Fugit, David Clennon, Lisa Banes, Missi Pyle, Casey Wilson, Sela Ward, Scoot McNairy.

A crítica já está no Cinema em Cena e pode ser lida aqui.

 

17) Whiplash: Em Busca da Perfeição (Whiplash, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por Damien Chazelle. Com: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell, Nate Lang.

Imagine um filme que escalasse o sargento Hartman vivido por R. Lee Ermey em Nascido para Matar no lugar do Mr. Holland de Adorável Professor e terá uma ideia do que verá em Whiplash: Em Busca da Perfeição. Escrito e dirigido pelo jovem Damien Chazelle, de apenas 29 anos de idade (e também responsável pelo roteiro de – vá entender – Toque de Mestre), este longa representa uma experiência atípica ao levar o espectador ao riso com os excessos do mestre vivido por J.K. Simmons ao mesmo tempo em que provoca um profundo incômodo diante de seus métodos cruéis, conseguindo ainda, no processo, despertar uma discussão inesperada, mas relevante, sobre Educação e a fronteira entre incentivo e abuso.

Interpretado pelo excelente Miles Teller (que descobri em The Spectacular Now e que só melhora a cada novo trabalho), o jovem baterista Andrew Neyman tem o sonho de se tornar um dos maiores músicos de seu tempo. Para isso, consegue uma vaga no mais prestigiado conservatório do país e tenta atrair a atenção do regente mais célebre da instituição, o exigente e mítico Terence Fletcher (Simmons), que comanda uma banda de jazz considerada como berço de grandes profissionais. Aos poucos, porém, a disciplina militar mantida por Fletcher, que remete quase àquela do sargento Hartman já mencionado (com direito a um trompetista que, humilhado pelo condutor, chega mesmo a se parecer com o pobre soldado Pike de Nascido para Matar), começa a prejudicar o equilíbrio psicológico e emocional de Andrew, que passa a se dedicar aos ensaios de maneira quase autodestrutiva.

Explorando ao máximo um papel feito por encomenda para sua persona dominadora, J.K. Simmons praticamente se coloca entre os favoritos aos prêmios de atuação de 2014 ao encarnar Fletcher como um homem seguro de sua posição entre seus pares: ao entrar em um aposento, ele não abre as portas, mas as escancara como se um monarca estivesse invadindo a sala; ao selecionar um aluno para sua banda, anuncia a escolha como se concedesse o mais cobiçado dos prêmios; e ao conduzir os ensaios, trata seus pupilos com uma ferocidade que só se torna possível graças à certeza de que estes se submeterão aos abusos. Ao mesmo tempo, o Fletcher de Simmons é um homem capaz de demonstrar imensa sensibilidade, como ao chorar diante da execução perfeita de uma composição, e mesmo de gentileza, como ao conversar com a filha pequena de um amigo. Em contrapartida, suas interações com os alunos – e com Andrew, em particular – parecem sempre contar a semente de uma nova brutalidade, transformando até mesmo conversas aparentemente gentis em possíveis armadilhas psicológicas. Competente de maneira quase sobrenatural, Fletcher é capaz de identificar um instrumento levemente desafinado em meio a dezenas de notas e não hesita em protestar contra um erro grosseiro cometido por um músico ao ouvir apenas duas batidas.

Enquanto isso, Miles Teller evita a estratégia óbvia de converter Andrew em um herói típico ao mesclar sua natureza sonhadora com um toque excessivo de ambição e arrogância – e por mais que torçamos pelo sucesso do rapaz, não podemos deixar de notar como sua presunção se mostra danosa não só a ele mesmo, mas a todos que o cercam. Isto, claro, não compromete nossa admiração diante de sua dedicação absoluta ao instrumento, já que se entrega a sessões que cortam suas mãos sem levá-lo a interromper a prática. Com isso, a dinâmica que se estabelece entre Andrew e Fletcher é quase a de um casal disfuncional ou mesmo com componentes de sadomasoquismo, o que traz compreensíveis preocupações ao pai do garoto, vivido com doçura por Paul Reiser.

Ciente de que a natureza de brilhante improviso do jazz só é possível graças a muito ensaio e ao talento descomunal dos músicos, Damien Chazelle concebe as sequências musicais de Whiplash com uma linguagem mais comum em filmes esportivos, trabalhando com o montador Tom Cross para estabelecer uma energia intensa que acompanha os ritmos em cortes que revelam detalhes dos instrumentos, olhares e movimentos dos músicos, ações do condutor e as mãos frenéticas que executam cada nota.

Bem-sucedido também ao evitar que as ofensas disparadas por Fletcher tirem o espectador do filme, já que conseguem até provocar o riso sem que isto diminua o impacto que as palavras têm sobre os personagens (como deveriam ter, já que são recheadas de homofobia e racismo), Chazelle finalmente chega à discussão central de seu longa ao levar o público a rechaçar os métodos do condutor ao mesmo tempo em que reconhece sua eficácia em elevar os músicos a um nível diferenciado. “Não há duas palavras mais danosas do que ‘bom trabalho’”, afirma Fletcher em certo momento – e considerando que, de fato, boa parte dos grandes gênios já produzidos pela Humanidade fizeram sacrifícios pessoais que muitos de nós considerariam excessivos, não é absurdo imaginar que haja certa razão na lógica do sujeito, mesmo que questionemos seus extremos. Não que ele aja apenas por virtuosismo, já que também é capaz de atos de chocante mesquinharia e frieza – mas, ainda assim, é inegável que, nos momentos-chave, seu amor pela música se revela infinitamente maior do que a raiva que nutre.

Trazendo uma sequência final que conduz o espectador ao fade out final de maneira espetacular, levando-nos a deixar a sala de projeção com uma sensação de entusiasmo único pela música e pelo talento que testemunhamos, Whiplash é um filme que faz jus à própria ambição e que certamente merece os aplausos de reconhecimento que seu protagonista tanto cobiça. (4 estrelas em 5)

 

18) Corações Famintos (Hungry Hearts, Itália, 2014). Dirigido e roteirizado por Saverio Costanzo. Com: Adam Driver, Alba Rohrwacher, Roberta Maxwell, Jake Weber.

Corações Famintos é um drama familiar durante o qual, num dos momentos mais intensos, o protagonista grita para a esposa um desesperado “Nosso bebê está no percentil 7!” ao se referir ao peso da criança. Em um filme menos seguro, esta fala poderia soar ridícula como mote narrativo, mas o diretor Saverio Costanzo, auxiliado por seus dois excelentes atores principais, consegue fazê-la ecoar como uma afirmação tão grave quanto se o sujeito houvesse acabado de constatar que seu filho era, na realidade, fruto de uma inseminação demoníaca.

Apresentando-nos ao casal principal, Jude (Driver) e Mina (Rohrwacher), em uma cena que surge como o oposto do tradicional “Meet Cute” das comédias românticas norte-americanas, embora se revele bastante divertida, o roteiro gradualmente altera a atmosfera da narrativa para o drama até aterrissar num surpreendente clima de terror psicológico que sufoca o espectador ao lado daqueles personagens. E isto a partir de uma situação longe do sobrenatural: passando a sofrer de algum distúrbio psicológico durante e após a gestação, Mina se convence de que a melhor maneira de criar seu filho é através de uma alimentação “pura”, sem carnes, laticínios ou qualquer outro produto que não consiga passar por seu crivo materno guiado pelo instinto. Assim, à medida em que a criança começa a se tornar subnutrida, o pai do bebê dá início a estratégias cada vez mais desesperadas para alimentá-lo.

E Saverio Costanzo consegue a proeza de manter uma tensão crescente a partir desta situação aparentemente tão pouco cinematográfica por incríveis 110 minutos. Para isso, ele e o diretor de fotografia Fabio Cianchetti criam uma lógica visual inteligente, diminuindo a distância focal das grandes angulares até um ponto no qual os personagens parecem caminhar completamente deformados pelo apartamento sufocante concebido pela designer de produção Amy Williams. No início, estas grandes angulares já provocam algum desconforto ao serem empregadas em closes (algo que Tom Hooper provavelmente amaria – embora, aqui, haja uma razão narrativa para a escolha, ao contrário do que ocorre em seus trabalhos), mas gradualmente, enquanto vão se aproximando do efeito extremo do “olho de peixe”, já surgem alterando a percepção espacial em quadros mais abertos nos quais a câmera frequentemente é posicionada em um ângulo alto, tornando tudo ainda mais incômodo.

Enquanto isso, a montadora Francesca Calvelli costura as passagens seguindo uma lógica episódica, pontuando a projeção com fades que, quando surgem, já condicionam o público a esperar uma situação ainda pior na sequência seguinte, servindo simultaneamente para indicar a passagem do tempo e para ressaltar a urgência crescente do que vemos. Da mesma maneira, já no primeiro ato Costanzo planta pequenas sugestões de que algo atípico (resisto em dizer “sobrenatural”, embora esta seja a sugestão) está por vir ao trazer Mina tendo sonhos recorrentes que, claro, desempenham um papel claro na construção do filme.

Ancorado por duas atuações intensas de Adam Driver e Alba Rohrwacher, que conseguem estabelecer um amor tão real entre estas duas pessoas que acaba por dificultar as ações que se tornam necessárias quando a vida de um bebê começa a correr perigo, Corações Famintos é um filme incomum que constrói um tom opressivo de terror a partir de uma situação absolutamente realista – e, neste sentido, um título apropriado para a obra no Brasil poderia ser O Bebê de Roseréxica.

Mas com uma dieta vegana no lugar do Diabo. (4 estrelas em 5)

 

19) Mommy (Idem, Canadá, 2014). Dirigido e roteirizado por Xavier Dolan. Com: Anne Dorval, Suzanne Clément, Antoine-Olivier Pilon, Patrick Huard, Alexandre Goyette.

Em várias ocasiões, já manifestei minha admiração pelo jovem diretor canadense Xavier Dolan ao escrever sobre Eu Matei Minha Mãe e Amores Imaginários e ao comentar brevemente Laurence Anyways e Tom na Fazenda durante coberturas passadas de festivais. Aqui, porém, Dolan cria talvez o mais irregular de seus trabalhos ao apostar num recurso de linguagem como centro da narrativa e ignorar um equívoco básico na construção de seus personagens.

O equívoco: ao contar a história do jovem delinquente Steve (Pilon), Dolan comete um erro de cálculo grosseiro logo no primeiro ato da projeção ao trazer o rapaz estourando em uma série de explosões racistas e misóginas – e se até então conseguíamos rir dos excessos do tresloucado sujeito (e o propósito claro do cineasta é que possamos rir do rapaz), a coisa perde imediatamente a graça diante da feiura do que ocorre. (E embora eu não costume prestar atenção à reação da plateia ao analisar uma obra, aqui não pude deixar de notar como o público que lotava a sala na qual eu me encontrava passou imediatamente a adotar uma postura fria diante do personagem, devotando seus risos apenas à mãe vivida por Anne Dorval.)

A partir deste tropeço, Mommy se compromete irremediavelmente, já que ainda traz inúmeras passagens que se concentram precisamente no comportamento de Steve, cujas caretas, trejeitos e diálogos se tornam pesos mortos na projeção. Por outro lado, se a dinâmica entre Dorval e Suzanne Clément mantém certa graça necessária para que possamos continuar naquele triste universo por longos 134 minutos, esta não é suficiente para que aceitemos facilmente o efeito colateral representado por Steve.

Para piorar, o recurso de linguagem adotado como núcleo da obra por Dolan não é dos mais inspirados: se já havia flertado com o 1.33:1 em Laurence Anyways e com a mudança da razão de aspecto durante a projeção em Tom na Fazenda, aqui o cineasta decide combinar as duas ideias e radicalizá-las, filmando num extremamente incomum 1:1 e transformando a tela em um caixote no qual os personagens se amontoam desajeitadamente em composições que acabam favorecendo uma estética vertical que, em certos instantes, quase remete àquela dos vídeos rodados com o celular na posição incorreta.

Sim, é fácil compreender que o diretor quer, com isso, sugerir a falta de horizontes e a limitação que prende aqueles pobres indivíduos a uma realidade que insiste em frustrar seus sonhos e aspirações, mas, depois de um tempo, o recurso passa a soar mais como um truque barato do que como algo essencial à narrativa. Em contrapartida, no único momento em que a tela se abre em um arejado 1.85:1, Dolan cria a sequência mais linda do filme ao ilustrar a fantasia de futuro da personagem-título – uma passagem tão linda e eficiente que quase justifica as mais de duas horas que passáramos presos ao formato anterior, já que é o contraste entre as razões de aspecto que ajuda a ressaltar a natureza sonhadora do que vemos naqueles breves minutos.

O problema é que, em essência, Mommy é um filme repleto de “quases”. E Dolan é melhor do que isso. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast