Festival do Rio 2014 Dia #06

Um grande abraço aos meus alunos Melina Alvarez, Miguel e Luca, que vieram falar comigo durante os intervalos do festival.

Já os filmes…

20) A Vida Privada dos Hipopótamos (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Maíra Bühler e Matias Mariani.

A ideia inicial dos diretores Maíra Bühler e Matias Mariani era a de realizar um documentário sobre estrangeiros que se encontram nas penitenciárias brasileiras – um plano que a dupla alterou quando, durante a pesquisa, entrou em contato com o norte-americano Chris Kirk, cuja história atraiu a atenção dos cineastas a ponto de se tornar o centro do projeto.

E durante a maior parte de A Vida Privada dos Hipopótamos compreendemos a decisão: Kirk é um excelente contador de histórias e, surgindo sempre com um sorriso aberto e com os olhos grandes e claros exibindo uma alegria imensa de ser ouvido, parece realmente merecer o posto de protagonista de seu próprio filme. Explicando que sua trajetória rumo à prisão começou quando ouviu falar sobre os hipopótamos importados para a Colômbia por Pablo Escobar e que passaram a fazer parte do ecossistema local, Kirk explica que logo decidiu visitar aquele país quando, já em seu primeiro dia, conheceu a bela V., com quem iniciou um relacionamento turbulento que durou cerca de dois anos.

Neste ponto, Bühler e Mariani embarcam na narrativa de seu personagem, que passa a ditar os rumos da história – e, com isso, a maior parte da projeção é dedicada à passagem de V. pela vida do sujeito. Retratada como uma mulher misteriosa (algo ressaltado pelas fotos e vídeos que parecem prestes a revelar seu rosto, mas nunca chegam a fazê-lo), a garota parece envolver o ingênuo norte-americano e a manipulá-lo com maestria, sendo divertido perceber como, em retrospecto, Kirk se mostra atento aos sinais estranhos que o relacionamento gerava (algo que enlouquece seus amigos, que surgem assistindo à sua entrevista em certo ponto). Além disso, como já sabemos que história de Chris terminará na cadeia, sentimos uma ansiedade crescente com relação aos incidentes que o levaram até ali e que certamente devem envolver V., já que ela domina a narrat…

… não. O envolvimento da moça é, no máximo e com muita boa vontade, apenas periférico na prisão de Kirk. E, assim, a pergunta é: por que diabos passamos cerca de 60 minutos ouvindo histórias sobre a garota?

É precisamente isto que transforma A Vida Privada dos Hipopótamos em uma experiência tão frustrante apesar de prender nossa atenção e de criar uma boa expectativa em torno do protagonista durante boa parte do tempo: o documentário não só engana o público com sua estrutura como ainda não justifica a mudança no foco do projeto, já que, por melhor que Chris Kirk seja pra contar sua história, a verdade é que esta não se revela particularmente interessante no fina das contas.

No processo, claro, há passagens memoráveis (como sua reflexão acerca da futilidade de uma vida suburbana de classe média), mas, no final das contas, há sempre o fracasso final em fazer jus à expectativa que cria. Fã assumido de con artists (trapaceiros), Chris Kirk aparentemente aplicou um golpe perfeito ao sugerir que tinha algo na manga quando esta trazia apenas um vazio completo. (3 estrelas em 5)

 

21) Obra (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Gregorio Graziosi. Roteiro de Gregório Graziosi, Paolo Gregori e José Menezes. Com: Irandhir Santos, Júlio Andrade, Lola Peploe, Marku Ribas, Sabrina Greve, Marisol Ribeiro, Christiana Ubach.

Obra é uma meditação triste sobre reconstruções, recomeços e o peso do passado. É um filme com ritmo lento, estudado, que reflete a personalidade anestesiada de seu protagonista. É também um longa que usa a maravilhosa fotografia contrastada, com suas sombras duras e opressivas, para criar não só uma atmosfera melancólica, mas também ricos símbolos que desenvolvem seus temas de forma elegante. E, como se não bastasse, é também uma obra estrelada por Irandhir Santos, um dos melhores intérpretes de nosso Cinema.

Dirigido pelo estreante Gregório Graziosi com a segurança de um veterano, o filme acompanha o arquiteto interpretado por Santos enquanto este supervisiona um grande projeto erguido em terreno pertencente ao avô e acompanha a restauração dos afrescos de uma igreja importante em sua região. Prestes a se tornar pai, ele é acometido pela mesma hérnia de disco que atormentou seu pai e seu avô, passando a enfrentar também um dilema grave quando seu mestre de obra (Andrade) descobre doze ossadas enterradas no terreno que abrigará a construção.

A partir daí, Obra acompanha este protagonista de gestos lentos e natureza triste enquanto lida com a esposa, com o pai, com o funcionário e com a vida em passagens que constroem menos uma história e mais uma meditação acerca de nossas trajetórias no planeta, que, mesmo tão breves, se mostram tão conturbadas por ao mesmo tempo sustentarem a pressão de um passado individual e familiar e terem o dever de construir o suporte do futuro ao qual nos dirigimos. Não é à toa, por exemplo, que é justamente a coluna do arquiteto que acusa a maldição familiar, comprometendo sus movimentos e sua locomoção – e tampouco é acaso que sua esposa estrangeira, que carrega seu filho na barriga, tenha como profissão a investigação do passado da cidade, estudando sítios arqueológicos que a tornam mais apta a analisar a história local que seu marido, que tenta fugir desta.

Aliás, já nos primeiros minutos de projeção o sujeito aparece explicando a alguns alunos que algumas construções, por mais sólidas que pareçam, acabam tendo que ser demolidas quando o desgaste dos anos e a falta de planejamento compromete suas estruturas – um monólogo que, claro, é acompanhado de imagens de implosões projetadas sobre o corpo do próprio professor, que certamente se divide entre a atração do recomeço e a responsabilidade para com o passado.

Mas é mesmo a lindíssima fotografia em preto-e-branco de André Brandão que torna Obra tão memorável: mantendo o personagem de Irandhir Santos constantemente nos cantos dos quadros, que frequentemente também surgem com composições que ressaltam uma opressão cada vez maior (paredes que se estendem para o infinito, corredores estreitos, áreas escurecidas por estarem bloqueadas por alguma estrutura), o diretor de fotografia ainda concebe imagens esteticamente irrepreensíveis – e vários quadros vistos aqui poderiam ser impressos e emoldurados.

Estabelecendo também uma ótima rima visual entre os arranha-céus cobertos por névoas que abrem a projeção e a cidade já visível que a encerra, ilustrando a trajetória do arquiteto, Obra é um filme que faz jus à sua proposta ambiciosa.

Além disso, já falei que traz Irandhir Santos e, só por isso, merece destaque. (4 estrelas em 5)

 

 

 

22) Aloft (Idem, EUA/França, 2014). Dirigido e roteirizado por Claudia Llosa. Com: Jennifer Connelly, Cillian Murphy, Mélanie Laurent, Oona Chaplin, Peter McRobbie, William Shimell, Zen McGrath, Winta McGrath.

Como é possível que um filme protagonizado por duas atrizes tão lindas e competentes quanto Jennifer Connelly e Mélaine Laurent seja também tão tolo e desinteressante? Dirigido e escrito pela peruana Claudia Llosa (A Teta Assustada), o longa acompanha Nana (Connelly), uma viúva que, mãe de dois filhos, encontra-se atormentada pela doença grave que acomete o caçula. Buscando como último recurso a ajuda de um curandeiro, ela acaba sendo apontada por este como capaz de realizar suas próprias curas. Enquanto isso, numa narrativa paralela situada muitos anos depois, encontramos seu filho mais velho, Ivan (Murphy), que nutre imenso ressentimento pela mãe e decide acompanhar uma jornalista (Laurent) que pretende entrevistá-la.

Saltando de uma linha temporal a outra sem lógica aparente, Aloft não consegue sequer usar este batido recurso para criar alguma curiosidade com relação aos personagens, já que desde o princípio fica bem claro o que aconteceu e até mesmo o que acontecerá. Como se não bastasse, os personagens criados por Llosa são vazios e unidimensionais: Ivan é movido pelo ressentimento; Nana, pela dor do passado; Jannia, pelo desespero. Para piorar, nenhum de seus dramas pessoais é minimamente resolvido pelo roteiro, que até tenta incluir um plano de Ivan com expressão serena, mas sem se interessar em compreender como isto se tornou possível depois de uma conversa tão frustrante com a mãe.

Sem foco até mesmo ao discutir o conceito de cura sobrenatural que ele mesmo introduz, Aloft vale por um ou outro momento mais eficiente (como a jornada noturna sobre o lago congelado), mas nada que justifique o talento (e a beleza) do trio principal. (2 estrelas em 5)

 

23) Remake Remix Rip-off (Idem, Turquia/Alemanha, 2014). Dirigido por Cem Kaya.

Entre as décadas de 60 e 80, o Cinema turco chegou a atingir a incrível marca de cerca de 300 filmes produzidos por anos – obras que eram consumidas com paixão pela população e produzidas em tamanha abundância que as salas de exibição se limitavam a anunciar “filmes novos” na marquise, sem se preocuparem em informar os títulos. Por outro lado, durante boa parte da década de 70, a indústria local contava com apenas três roteiristas. Assim, como dar conta da demanda?

Simples: copiando sucessos norte-americanos. A partir daí, o diretor Cem Kaya, realizando um excelente trabalho de pesquisa, ilustra Remake Remix Rip-off com dezenas de obras que praticamente se limitam a variações de Drácula em Istambul, Tarzan em Istambul, Rambo em Istambul, O Exorcista em Istambul, E.T. em… mas vocês já entenderam. Trazendo entrevistas com diretores e atores da época (alguns dos quais nem se lembram de ter atuado em certos projetos, já que era comum um ator ter mais de 500 ou 1.000 filmes no currículo), Kaya pinta o retrato de uma indústria que ignorava completamente o conceito de direitos autorais, mas que, no processo, transformou a colagem e o plágio em uma arte em si mesma.

Despertando constantes gargalhadas através das cenas resgatadas destas produções (cowboys na Turquia?!), o documentário retrata também a dedicação e o amor daqueles profissionais pelo que faziam, sendo obrigados, pela falta de recursos, a improvisarem constantemente, criando dollies ao prenderem barras de sabão nos pés de estruturas que então deslizavam em estruturas molhadas ou mesmo roubando pedaços de celuloide que traziam sequências de longas norte-americanos que, então, eram inseridas em projetos locais. Além disso, basicamente todas as trilhas que embalavam estes filmes vinham de temas compostos por John Williams, Henry Mancini e Nino Rota – e o tema de O Poderoso Chefão, em particular, pode ser ouvido em centenas de projetos.

Resgatando também a importância do cineasta Yilmaz Güney para os Cinemas turco e o mundial (discuto sua carreira em meu curso “A Arte do Filme”, por sinal), Remake Remix Rip-off consegue nos fazer rir dos esforços de seus personagens sem com isso ridicularizá-los. Ao contrário: no processo, passamos a respeitar até mesmo a incorrigível picareta daqueles malucos apaixonados pela Sétima Arte. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast