Festival do Rio 2014 Dia #07

Hoje foi o dia em que fui mais abordado por leitores – e, infelizmente, o cansaço me impede de lembrar os nomes de todos. Então, deixo um carinho para a Danielle, o Renato e os dois Vitors enquanto espero que os demais me perdoem pelo esquecimento.

E os filmes…

24) Bem Perto de Buenos Aires (Historial del miedo, Argentina, 2014). Dirigido e roteirizado por Benjamín Naishtat. Com: Jonathan Da Rosa, Tatiana Giménez, Mirella Pascual, Claudia Cantero, Francisco Lumerman, César Bordón, Valeria Lois, Elsa Bois, Edgardo Castro, Mara Bestelli.

A impressão que tive ao assistir a este Bem Perto de Buenos Aires é a de que o diretor estreante Benjamín Naishtat, impressionado com o clima criado por nosso Kléber Mendonça Filho em seu magistral O Som ao Redor e intrigado por seus temas, resolveu transformar em um longa-metragem a sequência de pesadelo na qual vemos uma multidão de miseráveis saltando os muros da classe média. Infelizmente, esta sua alegoria sobre as culpas e ansiedades da classe média alta surge como uma obra sem vida, foco ou profundidade, resultando num dos piores filmes que vi nesta edição do Festival do Rio. (1 estrela em 5)

 

25) Vietnã: Batendo em Retirada (Last Days in Vietnam, EUA, 2014). Dirigido por Rory Kennedy. Roteiro de Mark Bailey e Keven McAlester.

O cessar-fogo no Vietnã assinado por Nixon em janeiro de 1973 não foi, ao contrário do que muitos acreditam, o momento definitivo no qual os Estados Unidos perderam aquela guerra. Não, a derrota, muito mais trágica e embaraçosa, veio cerca de dois anos depois, quando as forças do Vietnã do Norte chegaram a Saigon enquanto os últimos norte-americanos no país fugiam desesperados para evitar caírem nas mãos dos inimigos.

O que este ótimo documentário reconta, porém, é uma pequena história de heroísmo em meio ao caos e que, mesmo não redimindo as ações do exército ianque naquele país, ao menos resgata e honra iniciativas individuais que resultaram em alguns milhares de vidas salvas.

Ancorado em depoimentos de fuzileiros, pilotos de helicóptero, refugiados vietnamitas e de figuras como Kissinger e McNamara, Vietnã: Batendo em Retirada parte do acordo assinado por Nixon e de como sua renúncia serviu de incentivo para que os norte-vietnamitas o quebrassem, abordando, então, os planos de evacuação concebidos pelo governo dos Estados Unidos e o completo despreparo no qual se encontravam quando chegou o momento de implementá-los.

Cientes de que os tanques do Vietnã do Norte entrariam em Saigon a qualquer momento, os funcionários da embaixada dos EUA iniciam manobras clandestinas, sem autorização de seus superiores, para retirarem seus contatos sul-vietnamitas do país, já que certamente seriam executados caso capturados – e é revelador como o congresso norte-americano se recusa, neste momento delicado, a liberar a verba fundamental para implementar uma evacuação em larga escala. Com isso, o embaixador Graham Martin (que havia perdido seu único filho durante a guerra e que, talvez por isso, parecia se recusar a aceitar a queda de Saigon) determina a retirada do maior número possível de refugiados com a ajuda dos helicópteros que deveriam transportar seus funcionários, recusando-se a abandonar a embaixada até que todos tenham sido levados dali.

Ilustrado por imagens de arquivo que indicam um exaustivo e excepcional trabalho de pesquisa feito pelos realizadores, o documentário parece trazer registros de praticamente todos os principais incidentes mencionados pelos entrevistados – da derrubada de uma árvore que tinha valor simbólico no centro da embaixada até a visão inacreditável de fuzileiros dos EUA empurrando helicópteros para fora do porta-aviões a fim de abrir espaço para que outros pudessem pousar com mais refugiados. Além disso, os entrevistados relembram passagens curiosas, como a determinação para que queimassem um milhão de dólares em espécie a fim de evitar que o dinheiro fosse tomado pelos norte-vietnamitas (uma tarefa que levou oito horas para ser completada) e a manobra heroica de um piloto sul-vietnamita que, depois de transportar sua família para um navio dos Estados Unidos, atirou seu helicóptero ao mar, saltando segundos antes do impacto (ele escapou com vida).

Ainda assim, apesar de todos os esforços humanitários feitos por aqueles indivíduos, Batendo em Retirada não consegue deixar de encerrar sua narrativa com a memória trágica daqueles que foram deixados para trás – especialmente dos 420 sul-vietnamitas (incluindo dezenas de crianças) que foram levados a acreditar que seriam levados para fora do país, permanecendo no pátio da embaixada aguardando por helicópteros que jamais viriam.

E encerrando a participação dos Estados Unidos naquela guerra da mesma maneira como esta começou: cruel e desastrosamente. (4 estrelas em 5)

 

26) O Estopim (Idem, Brasil, 2014). Dirigido e roteirizado por Rodrigo Mac Niven.

Basicamente, temos uma PM que pune boa parte da nossa população pelo inafiançável crime de pobreza. Tratando os moradores das favelas como insetos que podem ser esmagados por incomodarem os “cidadão de bem” com sua presença abjeta, as forças policiais – e aqui generalizo movido por estatísticas, não por preconceitos – parecem encarar as favelas e as periferias como um campo de batalha no qual qualquer indivíduo sem farda é um inimigo em potencial. É uma existência sofrida que nós, os privilegiados brancos de classe média (e daí pra cima), só podemos visualizar em pesadelos – e não sei o que faria caso tivesse que ver um policial apontando um fuzil na direção de meus filhos apenas com o propósito de me intimidar para não denunciá-lo.

Dirigido por Rodrigo Mac Niven, O Estopim é um documentário amplo e ambicioso que, partindo do desaparecimento do pedreiro Amarildo, em 14 de julho de 2013, faz uma análise da conjuntura política e social que gerou uma polícia cuja brutalidade corriqueira as classes mais favorecidas só passaram a testemunhar de fato quando foi dirigida aos manifestantes de junho de 2013 – e se os PMs agiram daquela maneira mesmo com as câmeras do mundo voltadas para suas ações, podemos apenas imaginar o que fazem nas favelas, sempre localizadas no ponto cego da mídia.

Incluindo entrevistas com cientistas políticos, delegados, advogados, ativistas de direitos humanos e líderes comunitários, o filme analisa desde a origem da lógica perversa do bater-e-torturar como recurso “investigativo” e punitivo durante a Ditadura até a situação aparentemente sem solução que temos hoje, que submete a população mais miserável a uma tortura psicológica (quando não física) constante – e é bastante sintomático que determinada operação protagonizada pelos policiais militares seja batizada de “Paz Armada”, num ato falho que, no paradoxo do nome, já reflete a visão da corporação.

Não é à toa, portanto, que o delegado que investigou inicialmente o desaparecimento de Amarildo revele, durante a projeção, que a pergunta que mais ouvia de amigos e parentes era se o pedreiro era ou não traficante, como se isto justificasse seu destino. Aliás, foi justamente por conhecer esta mentalidade propagada pela mídia e absorvida pelas classes dominantes que os responsáveis pela morte do sujeito imediatamente adotaram a estratégia de tentar criminalizá-lo, sendo auxiliados por grandes veículos jornalísticos que venderam a teoria de envolvimento da vítima com o tráfico enquanto ilustravam suas matérias com fotos que traziam Amarildo com ar ameaçador. Esta atitude irresponsável, criminosa, que equivale a um segundo assassinato, acaba servindo de respaldo para que aberrações como os Bolsonaros possam vomitar seus discursos de ódio – e um dos momentos mais revoltantes de O Estopim traz um discurso de Flávio Bolsonaro no qual vitimiza os PMs acusados de matar Amarildo ao mesmo tempo em que retrata o pedreiro como criminoso.

Fotografado com maestria por Neto de Oliveira, que mantém sua câmera sempre em movimento ao retratar os estreitos becos da Rocinha e que já inicia o longa com um plano plongé sensacional, o filme peca apenas por trazer desnecessárias recriações da tortura à qual Amarildo foi submetido, como se precisássemos desta encenação para constatarmos a barbaridade cometida. Mas isto é um pecadilho diante de todas as colossais virtudes do documentário, que, ao final, deixa clara nossa cumplicidade subentendida na tragédia, já que, de modo geral, todo favelado assassinado pela polícia acaba se tornando traficante postumamente, mesmo que não o fosse em vida.

E que boa parte da população aceite estas execuções como naturais, sendo as vítimas falsamente acusadas ou não, é sintoma de uma sociedade profundamente adoentada em sua alma. (5 estrelas em 5)

 

27) Sangue Azul (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Lírio Ferreira. Roteiro de Lírio Ferreira, Fellipe Barbosa, Sérgio Oliveira. Com: Daniel de Oliveira, Caroline Abras, Sandra Corveloni, Milhem Cortaz, Laura Ramos, Rômulo Braga, Matheus Nachtergaele, Paulo César Pereio e Ruy Guerra.

Sangue Azul é lindo, poético, profano, romântico, triste e mágico. Dirigido por Lírio Ferreira, o filme nos apresenta a personagens que sofrem sem ter muita certeza sobre por que doem tanto, mas que, nos intervalos do sofrimento, bebem, riem e se amam profundamente. Esta é uma obra apaixonada pelo universo que retrata, mesmo que este não seja igualmente valorizado por aqueles que o habitam – e o fato de chegarmos ao final da projeção com um irrefreável desejo de mergulharmos em suas águas mesmo que cientes da melancolia que experimentaremos é um testemunho da eficácia da narrativa.

Escrito por Ferreira ao lado de Fellipe Barbosa e Sérgio Oliveira, Sangue Azul tem um início felliniano ao trazer um circo sendo erguido com determinação por um grupo de artistas supervisionados pelo dono da empreitada, o ilusionista Kaleb (Pereio). Prestes a iniciar uma temporada em uma ilha “situada entre o Brasil e a África”, aqueles artistas desempenham seus números com amor e dedicação – e, entre eles, encontra-se Zolah (Oliveira), que, nascido ali, foi entregue ainda criança a Kaleb por sua mãe (Corveloni). Ao rever a irmã Raquel (Abras), porém, Zolah experimenta uma atração intensa (e, claro, proibida) que talvez explique os motivos que o levaram a ser abandonado na infância. Enquanto isso, os demais integrantes da trupe experimentam suas próprias mudanças durante o tempo que permanecem na ilha, cuja história é recontada pelo sábio Mumbebo (ninguém menos do que Ruy Guerra).

Rodado em Fernando de Noronha, o longa explora magnificamente bem as lindíssimas locações através da fotografia de Mauro Pinheiro Jr., que cria uma paleta de cores supersaturadas que ressaltam não só a geografia local, mas também os ótimos figurinos de Juliana Prhyston. Da mesma maneira, as cenas que retratam os números do circo devotam um olhar quase mágico àqueles artistas, ao passo que a bela trilha de Pupillo ajuda a construir uma atmosfera evocativa que vai do melancólico ao romântico em uma batida. Aliás, se há algo que Sangue Azul tem de sobra é amor por seus personagens, levando o espectador a desejar conhecer aquelas pessoas e a conviver com elas.

Centralizando a narrativa em torno do Zolah, o filme é beneficiado pela excelente performance de Daniel de Oliveira, que encarna o personagem como um indivíduo que encara o sexo como mecanismo de prazer imediato, mas também de fuga – e não é à toa que praticamente todas as cenas que o trazem transando com alguém (e são muitas) retratam o sexo de forma mecânica e nada romântica, já que esta postura reflete seu hábito de sentar-se sobre o canhão do qual é disparado em seu número, como se tivesse um falo imenso e impessoal entre as pernas. Emocionalmente retraído, Zolah é um homem com dificuldades de processar a dor de ter sido abandonado e de desejar a própria irmã – e, portanto, quando finalmente se entrega a um choro dolorido, este sai de forma desajeitada, em pequenas convulsões, como se o sujeito vomitasse sua dor em vez de expeli-la através de lágrimas. Em contrapartida, sua relação com Raquel revela uma vontade de pertencimento única, o que o leva a enfrentar sua maior fobia ao mergulhar (literal e metaforicamente) no universo da garota.

Enquanto isso, os companheiros do protagonista percorrem suas próprias trajetórias, desde o atirador de facas Gaetan (Nachtergaele), que se mostra cada vez mais instável, a Kaleb, cuja admiração pelo Johnny Strabler vivido por Marlon Brando em O Selvagem acaba por transformá-lo em uma aparição que, devidamente vestido em uma jaqueta de couro e surgindo em uma moto, acusa Zolah de evitar “mergulhar” (isto para não mencionar o fato de que, como os companheiros de Strabler, o circo de Kaleb altera a estabilidade da comunidade que visita – o que se torna evidente através da posição da câmera ao enfocar Raquel e o marido na cama, que se altera a cada cena até trazê-los de ponta-cabeça).

Criando aquele que talvez seja o casal gay mais improvável da História do Cinema brasileiro (Pereio e Cortaz), Sangue Azul ainda presenteia o público com uma das cenas mais lindas que a Sétima Arte produzirá em 2014: a dança-luta-sedução que Zolah e Raquel protagonizam sob a água em um longo plano no qual se abraçam, se afastam, se agarram e flutuam em meio à agua cristalina de Fernando de Norinha, dando vazão a um desejo proibido que, mais tarde, o velho Mumbebo reconhecerá em cada espectador ao encarar o público de forma cúmplice, mas levemente acusatória.

E certeira. (5 estrelas em 5) 

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast