Melhor que o Filme

(Esclarecimento ético: Fernando Ceylão é um amigo. Dito isso, como verão abaixo, seu livro é muito foda – algo que pretendo discutir com adjetivos mais elegantes e convincentes do que o que acabei de empregar.)

Em “Melhor que o Filme”, o ator/humorista/roteirista/diretor Fernando Ceylão consegue um feito admirável: cria um livro multifacetado que experimenta não só com diversos gêneros, saltando de textos cômicos a outros mais dramáticos, como ainda brinca com a própria linguagem, fazendo comentários pontuais sobre o próprio texto (como ao manifestar seu prazer ao usar parênteses, por exemplo) e investindo na metalinguagem. Estes exercícios, aliás, já começam na contracapa, que traz a reprodução de pedidos de frases elogiosas para a própria contracapa, e se espalha para as orelhas do volume, que oferecem um conto sobre… orelhas.

O mais notável, contudo, é observar a segurança de Ceylão como contista: aqui, ele assume a voz e a personalidade de uma camisa polo para narrar sua vida na primeira pessoa; ali, adota os clichês tão comuns em matérias “jornalísticas” de veículos como a Caras para criar uma narrativa surrealista com toques de horror existencial ao mesmo tempo em que trata tudo com a superficialidade de uma revista que insiste em informar a idade e a profissão de seus personagens-celebridades. E, no entanto, nada disso soa como experimentação gratuita, já que, alimentando o humor e a lógica dos textos, surgem observações profundamente humanas e universais sobre nossas inseguranças, aspirações e também nossos pontos cegos diante da realidade alheia. Em certo texto, por exemplo (“A Espera”), Ceylão acompanha a ansiedade crescente de uma mulher que aguarda o telefonema de um possível paquera e, num texto que representa a fluidez dos pensamentos da personagem, traz momentos de humor que surgem justamente do reconhecimento de como somos capazes de pensamentos profundamente preconceituosos – e o fato de os rechaçarmos não elimina o fato de que nos ocorreram:

“Eu vou acordar a babá da Clarinha. Vou bater papo com a babá. Perguntar se na comunidade elas fazem alguma coisa pra esperar passar o tempo enquanto o homem não liga. Na comunidade não tem essas frescuras, elas vão lá e dão. A classe média é o problema. Rico e pobre vai e dá, vai e faz o que tá a fim. Até incesto pra eles, é… Ai, que horror.”

A passagem acima é um exemplo perfeito do estilo do autor: não só o uso da palavra “comunidade” é algo empregado com inteligência ao ilustrar a arrogância com que a patroa se apropria de um termo a fim de se sentir inclusiva e tolerante (o que o pensamento seguinte contradiz) como o “Ai, que horror” final escancara sua autocrítica tardia de classe média que adora se enxergar melhor do que é.

Além disso, o livro revela Ceylão como um escritor capaz de construções que – e aqui falo como alguém que vive de escrever – despertam profunda inveja. No conto “Um Romeu Feio”, por exemplo, ele discute seu carinho por “casais feios” (algo que, acreditem, ele desenvolve de maneira tão delicada que jamais se revela ofensivo) e pontua:

“O casal feio atravessa o mundo na calma dos que estão fora da competição.”

E imediatamente entendemos o que ele quer dizer enquanto apreciamos a bela analogia. Da mesma maneira, em outra passagem, ele nos apresenta a um sujeito que, para evitar brigas, deixa a namorada acreditar estar sempre certa – um dilema que ele traduz como:

“É como se eu namorasse um ditador, mas deixasse ele pensar que estamos numa democracia.”

Mas que isto não leve à impressão de que “Melhor que o Filme” é um apanhado de histórias centradas em torno da experiência do autor como homem branco heterossexual (ou seja: um privilegiado por natureza). Sim, em certo momento ele pode discutir como ter crescido na Tijuca moldou sua persona, mas em outros ele assume com naturalidade os pontos de vista de todo tipo de personagem, tratando-os com respeito e complexidade.

Enquanto desperta o riso.

Depois deste livro, Fernando Ceylão já pode seguramente acrescentar “Autor” aos vários substantivos separados por barras que abrem este texto, pois fez por merecer.

Melhor que o Filme, Fernando Ceylão
Memória Visual, 2014
174 páginas

postado em by Pablo Villaça em Livros