Homens Negros Não Podem Correr

Um deles vestia uma camisa do Atlético; o outro, uma camiseta cinza. Ambos usavam bonés. Tinham em torno de 30 anos. Caminhavam por uma rua do Caiçara, em Belo Horizonte, quando viram o ônibus que iriam pegar se aproximando e, num impulso, dispararam em direção ao ponto.

Mal tinham corrido quatro metros quando foram abordados por um camburão da PM e viram armas saindo da janela do veículo e apontadas para suas cabeças.

Eles haviam se esquecido de uma regra básica de nossa sociedade: homens negros não podem correr.

Ao menos, não em público.

Quatro policiais desceram e, com as armas ainda apontadas para os dois amigos, puxaram seus braços com força – braços que os dois sujeitos já haviam levado automaticamente para trás da cabeça.

O motorista do ônibus parou atrás do camburão enquanto os aspirantes a passageiros eram revistados com brutalidade.

Do meu carro, assisti atônito à cena. Inicialmente assustado – não em função dos “ameaçadores” corredores, mas ao ver armas apontadas em público -, logo vi o susto ser substituído por imensa revolta. Era patente o racismo envolvido: fosse eu o homem correndo pela rua, os PMs dificilmente me abordariam daquela maneira.

No entanto, o que mais me doeu não sequer o ato da polícia, mas a reação dos dois amigos: ao verem armas apontadas para seus rostos, eles simplesmente fizeram um aceno negativo resignado com a cabeça, como se dissessem “Não é possível; será sempre assim?”, e assumiram a postura para a revista sem que ninguém ordenasse.

Revistados, entregaram os documentos e apontaram para o ônibus, explicando por que haviam corrido. Os policiais se entreolharam, fizeram um comentário inaudível e atiraram os documentos de volta, quase com desprezo.

Do ônibus, o motorista acenou para os dois amigos num gesto de “venham!” e abriu a porta. Havia esperado por eles ao perceber o que ocorrera.

Também era negro.

Segui com o carro e passei ao lado da viatura. Havia esquecido de prender o cinto de segurança, mas ninguém me incomodou.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano