Life Itself – Capítulo 09: Blackie

Lendo “Life Itself”, do ídolo, mentor e (que orgulho dizer isso) amigo Roger Ebert, mantive basicamente duas reações: choros e sorrisos. O choro começou já no início, quando Roger escrevia sobre o pai, e se manteve até o final; já os sorrisos vinham não apenas de suas histórias e lembranças, mas da maneira elegante e belíssima com que ele construía suas ideias e frases ao longo da narrativa. Roger é um escritor nato; o que ele possui não é apenas “habilidade”, mas talento. Se um dia conseguir escrever com um décimo de seu talento, serei um homem feliz.

Aliás, como não há previsão de uma versão em português (o original pode ser adquirido aqui; há versão em audiobook também), pedi autorização a ele para traduzir um de meus capítulos favoritos – e Roger graciosamente a concedeu.

“BLACKIE

Toda vez que vejo um cachorro em um filme, penso a mesma coisa: eu quero aquele cachorro. Vejo Skip ou Lucy ou Shiloh e por um momento não consigo nem mesmo pensar sobre a história do filme, apenas no cachorro. Quero pegá-lo, acariciá-lo, levá-lo para passear e dizer a ele que é um bom cãozinho. Quero amá-lo e quero que me ame. Tenho um espaço vazio dentro de mim que só pode ser preenchido por um cão.

Não por um gato. Já tive gatos e gostava deles – mais do que eles gostavam de mim. Mas o que quero é amor incondicional e portanto quero um cachorro. Quero fazer de sua vida um prazer. Quero coçá-lo atrás das orelhas e coçar sua barriga quando ele se deitar. Quero estender sua cauda gentilmente para que o cão possa ver que realmente tem uma bela cauda. Quero lavá-lo com shampoo e atirar-lhe pedaços da comida sob a mesa e deixá-lo compartilhar as novidades com outros cães que encontrarmos pela rua. Quero que ele lata ao ouvir a campainha, que fique feliz ao ver meus amados, que dê a patinha e que pareça preocupado se eu estiver deprimido. Se eu jogar uma bola, quero que o cão a traga de volta e peça que eu a atire novamente.

Se você leu os livros de Travis McGee escritos por John D. MacDonald, se lembrará de Meyer, o economista cabeludo que vivia em um barco. Ele foi jantar com alguns novos donos de barco em uma marina e, ao retornar, McGee perguntou a ele como os sujeitos eram:

– Eram um tédio. – disse Meyer. – Sabe o que é uma pessoa entediante?

– Estou certo de que me contará, Meyer.

– Uma pessoa entediante, Travis, é alguém que te impede de desfrutar a solidão sem, em troca, te oferecer companhia.

Para mim, este é o problema com gatos. Se eles me seguem pela casa toda, não é porque querem brincar, mas sim porque algo comestível pode aparecer ou porque eu talvez os entretenha. Se estas perspectivas parecerem remotas, um gato simplesmente ficará onde está, contemplando-me preguiçosamente enquanto deixo a sala, se lamberá um pouco e voltará a dormir. Tive gatos que batizei de Gato Branco, Gato Laranja e Fã de Esportes; eram todos ótimos gatos e tudo mais, mas tanto fazia para eles se eu existia ou não. Depois que nos casamos, Chaz confidenciou que não gostava que os gatos pulassem sobre a mesa durante o jantar e ficassem encarando-a enquanto comia.

– Eles não vão comer nada a não ser que você deixe a mesa. – expliquei.

– A questão não é essa! – ela respondeu.

Percebi que uma das peculiaridades femininas é que não querem que seu jantar esteja remotamente próximo às pequenas e inquisitivas patas que antes estiveram ocupadas em uma caixa de areia. Homens já não ligam tanto para isso.

Nunca conheci um cão que não implorasse por comida à beira de uma mesa. Se há um cachorro que não faz isso, é porque teve toda a sua cachorrice arrancada pelo medo. Mas um cão não é um ladrão sorrateiro como um gato. Não rouba algo e sai correndo, a não ser que uma oportunidade irresistível se apresente. Um cão é uma companhia para o jantar; ele fica deliciado em ver você comendo, acredita que esta é uma ideia excelente e quer se certificar de que sua comida esteja deliciosa como você merece. Você tem uma compulsão psicologicamente poderosa em oferecer um pedaço a ele, particularmente quando o cão terá convulsões de tanta gratidão. Os cães se lembram de todos os favores que você já fez para eles e guardam estas lembranças em um banco de memórias intitulado Por Que Meu Humano É um Deus.

Mal consigo passar por um cachorro na rua sem desejar acariciá-lo. Se você permitir que eles primeiro cheirem sua mão lentamente, geralmente permitirão que os acaricie. Alguns sujeitos elogiarão o cachorrinho de uma moça bonita a fim de poderem cantá-la; já comigo a questão é estritamente a de conhecer o cachorro. Passar um tempo de qualidade ao lado de um cão me acalma e me deixa contente. Li um artigo no site “Salon” que explicava este fenômeno: a amizade entre Homem e Cachorro libera uma substância na corrente sanguínea de ambos – e é por isso que gostam tanto da companhia mútua. A substância é chamada oxitocina. Você já está à minha frente: sim, leitor, é o componente associado à emoção chamada Elevação.

Tive dois cachorros na infância, Blackie e Ming. Tinham estes nomes porque as freiras dominicanas nos diziam que cães não têm almas e que seria um pecado contra o Espírito Santo batizá-los com o nome de um santo. Isto me fez correr até a enciclopédia, já que nunca havia ouvido falar de um Santo Roger, embora provavelmente fosse soar estranho dar meu nome a um cão. Você não iria querer sua mãe gritando pela porta da rua para toda a vizinhança ouvir: “Roger, tire a cara da lata de lixo e entre em casa!”. Por sorte, havia um Santo Roger Niger em Beeleigh Abbey, então o dilema não existiu. Ele foi consagrado bispo de Londres em 1229, então o assunto estava resolvido. Blackie era meio beagle e meio spaniel. Ming era pequinês. Mas não um pequinês miniatura, esclareço logo: ele tinha um bom tamanho e se dedicava com paixão a perseguir coisas, mastigar coisas e latir para tudo que não pudesse ser perseguido ou mastigado. Sabe como associamos certas memórias a livros? Nunca poderei olhar para “Os Filhos de Sánchez”, de Oscar Lewis, sem lembrar que Ming devorou vários centímetros de sua lombada.

Em Ming depositei a atenção que foi negada a Blackie. A tragédia de Blackie foi não ter sua entrada permitida em casa; meu pai não deixava – e não porque não gostasse de Blackie: “Filho”, ele disse, “você escolheu uma época péssima para trazer um animal para casa. Acabamos de Instalar Carpete em Todos os Aposentos”. De alguma maneira, eu podia ouvir as maiúsculas desde o “I” de “Instalar”. Carpete em Todos os Aposentos era um negócio importante no final da década de 40, bem como janelas panorâmicas, que eram sempre descritas como Janelas Panorâmicas. Dá para perceber que nos mantínhamos atualizados em nossa casa. No entanto, faz parte da natureza de um cachorro se interessar por carpetes e a ameaça que isto representava ao Carpete em Todos os Aposentos era particularmente alarmante para meu pai, já que Se Algo Acontecesse Com o Carpete Teríamos que Arrancá-lo Inteiramente.

Blackie vivia em nosso quintal e por um verão abençoado fomos um cão e seu garoto, correndo por toda a vizinhança – pois cães e garotos corriam livremente naqueles dias. Ele ia a jogos de baseball comigo e perseguia minha bicicleta até o mercado de Harry Rusk e íamos ao parque. Ele conhecia todos os meus amigos. Blackie tinha seu próprio e ativo círculo de amigos, incluindo seu irmão Pimenta, que morava na casa de Karen Weaver, ao lado da nossa, e Sinuca, um dachshund que morava na rua Maple com Jackie Yates. E então as folhas do outono começaram a cair. Logo era inverno e a neve cobria o chão. As férias acabaram, Pimenta e Sinuca foram morar dentro de casa e, como abrigo, Blackie ganhou minha velha casinha de brincar, que, instalada no quintal, tinha uma casinha de cachorro em seu interior e alguns cobertores. “O pelo dele o protegerá no inverno”, disse meu pai. Mas Blackie passava dias e noite longos no frio e na solidão – e eu estava intensamente a par disso. Blackie ouvia o som do ônibus escolar e começava a latir para mim e eu corria para o jardim para consolá-lo, já que ele não parava de ganir. “Sinto muito, Blackie. Eu sinto muito”. Meu coração estava partindo, mas eu não podia ficar do lado de fora para sempre. Quando entrava e sentia o ar quente me abraçando, sentia-me devorado por dentro. Eu o havia traído. Mas entendia que meu pai tinha suas razões.

Talvez por isso Shiloh – O Melhor Amigo tenha me afetado tanto. O pai naquele filme estava essencialmente correto. Certo ano, exibi Shiloh no Ebertfest, festival que fundei na Universidade de Illinois, e nosso convidado era o grande ator Scott Wilson, que interpreta o recluso caçador de esquilos que age de forma tão cruel com o cão. Depois do filme, convidamos crianças da platéia para subirem ao palco e uma garotinha timidamente perguntou a Scott: “Moço, por que você é tão mau?”. Scott poderia ter respondido que era apenas um ator interpretando um papel, mas demonstrou um instinto perfeito ao dizer: “Querida, eu não sei. Mas aprendi a lição”.

Alguns meses depois do exílio de Blackie, o pai de Jackie Yates, um bom homem, mencionou ao meu pai que Blackie latia quase a noite toda sob sua janela. Eu sabia que isso era verdade, pois seus latidos solitários me mantinham acordado. Às vezes, eu abria a janela e dizia: “Está tudo bem, garoto!”, mas sabia que não estava tudo bem e que minha voz apenas despertaria mais lamentos. Eu tentava espiar através de minha cortina e às vezes, sob a lua, via que Blackie estava parado do lado de fora de sua casinha olhando com reprovação para minha janela. Através da porta do quarto, eu ouvia trechos de conversas vindos da sala, à noite: “Nunca para de latir… o garoto… o cachorro… Roger ama aquele cachorro… Eu sei, eu sei… Bob Yates… também me mantém acordado…“.

Anunciaram que minha prima Bernardine de Stonington tinha me convidado para uma visita. Isso implicava em minha primeira viagem de avião em uma nave DC-3 da Ozark Air Lines para Decatur. Quando voltei, sentamos no carro no aeroporto e minha mãe disse: “Há algo que seu pai quer te contar” – e eu sabia o que era e meu coração começou a gritar: “Blackie!”. Blackie tinha fugido de casa. A dez quarteirões da rua East Washington, 410, ele correu na frente de um carro dirigido por Enos Renner, marido de Frances, grande amiga de minha mãe. Os Renners ligaram para nossa casa depois de lerem sua coleira. Fiquei sentado no carro sabendo que era mentira. Algo se quebrou dentro de mim. O que Blackie estava fazendo a dez quarteirões de casa? Por que ele havia sido convenientemente atropelado por um carro dirigido por uma testemunha que já conhecíamos? Em casa, caí na cama e chorei, sabendo que Blackie não havia sido morto – ao menos não pelo carro de Enos Renner -, e que poderia estar chorando por mim no canil naquele momento. Ou poderia estar morto.

Esta é a história de Blackie. Ming morreu de ferimentos de batalha: pulou de minha cama para pegar uma mosca, caiu de mau jeito e partiu a coluna. Suas pernas traseiras ficaram paralisadas. Meu amigo Hal Holmes sugeriu que talvez pudéssemos fazer um carrinho para que ele pudesse se arrastar, mas ambos sabíamos que não funcionaria. Nesta época, eu tinha cerca de vinte anos. Nunca mais tive outro cachorro. Nunca me pareceu que seria justo com o cão: eu estava sempre viajando, chegava tarde em casa e suas refeições seriam esquecidas, ninguém poderia levá-lo para passear e assim por diante. Hoje em dia já não faz mais sentido: Chaz está ocupada em tomar conta de mim. É assim que as coisas são. Não há como eu ter um cachorro. 

Mas sempre haverá um espaço vazio dentro de mim. Um que tem mais ou menos o tamanho de Blackie.”

postado em by Pablo Villaça em Livros