A Arte Em Luta

Quando Diderot e d’Alembert editaram a Encyclopédie, na segunda metade do século 18, incluíram em seus mais de 30 volumes o que consideravam todo o conhecimento acumulado da Humanidade, transformando a obra na culminância do movimento iluminista que, um século antes, começara a defender a razão e o conhecimento como elementos motores da espécie, enfrentando a dominância opressiva e obscurante da religião. A França confirmava, assim, o posto de centro do Iluminismo, plantando, em seu território, um farol cujos fachos lançavam curiosidade, iniciativa intelectual e o interesse pelo debate como formas de melhorar o planeta.

Em 2015, a mesma França viu doze de seus habitantes – incluindo cinco cartunistas – abatidos pelo fogo da mesma ignorância religiosa que começou a enfrentar há mais de 350 anos.

Não sou um grande fã de religiões de modo geral. Como disse o físico Steve Weinberg, “com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém, para que uma pessoa boa faça uma coisa má, é preciso religião”. Ainda assim, usar o que ocorreu hoje em Paris como desculpa para atacar o islamismo é injusto e tolo. Seria o mesmo que julgar toda a Comédia por Danilo Gentili ou todos os roqueiros por Lobão e Roger. Não: a atrocidade cometida hoje tem a religião como desculpa, mas a sociopatia como razão. A mesma sociopatia que, por exemplo, levou o norueguês Anders Breivik a tirar a vida de 77 pessoas em nome de uma ideologia islamofóbica, pró-sionista e antifeminista.

Não é coincidência, portanto, que grupos fundamentalistas costumem atrair tipos mentalmente desequilibrados; o trágico é que há milhares destes à disposição ao redor do mundo esperando apenas uma ideologia, um credo ou um bordão qualquer que justifique sua propensão à violência.

Já do outro lado das metralhadoras encontravam-se artistas. Indivíduos que ganhavam a vida apontando o ridículo do radicalismo, da cegueira religiosa, da estupidez que leva irmãos de espécie à mútua e desnecessária destruição. Indivíduos que rebatiam às ameaças com piadas, com o humor, com o intelecto.

Com desenhos.

Viam as barbaridades cometidas ao redor do planeta em nome desta ou daquela religião e as criticavam com traços que cortavam na carne da hipocrisia e iam direto ao coração apodrecido dos interesses vis, particulares, egomaníacos e sociopatas de seus líderes. Golpes certeiros, claro, mas simbólicos, racionais e que permitiam que seus alvos permanecessem íntegros e pudessem responder.

Este é um dos papeis fundamentais da Arte, que pode funcionar como uma arma poderosa, mas essencialmente pacífica – e rebatê-la com violência é tática de covardes que reconhecem a fragilidade dos próprios argumentos. Por isto me desagrada tanto a máxima de que “a pena é mais forte do que a espada”: a comparação é tola e desigual. A primeira busca desafiar, argumentar, debater; a segunda quer apenas calar.

Mas calar uma ideia é impossível – e, não por acaso, a morte dos cartunistas do “Charlie Hebdo” imediatamente deu origem a dezenas de cartuns enlutados, além de comprovar a acurácia dos trabalhos dos artistas mortos, que obviamente atingiram os pontos fracos dos terroristas que, em retorno, decidiram simplesmente abater aqueles que os haviam desmascarado.

E assim, no berço do Iluminismo mais uma sombra se abateu sobre a Humanidade em um ano que, brincamos todos na virada, simbolizava o futuro colorido da trilogia estrelada por Michael J. Fox. Mas que, na prática, se aproxima bem mais da distopia pessimista e totalitária de O Planeta dos Macacos.

postado em by Pablo Villaça em Política, religião, Variados