House of Cards – Terceira Temporada

Quando escrevi sobre a primeira temporada de House of Cards, explicitei meu entusiasmo não só pela complexidade de seu protagonista, mas pela própria maneira como a narrativa se desenvolvia. Aliás, de certa forma, a série demonstrou algo que costumo discutir em meus cursos: o fato de que o meio de exibição (e sua evolução) invariavelmente provoca alterações e estimula novas estruturas narrativas e recursos de linguagem. Ao ser desenvolvida como uma temporada lançada de uma só vez, House of Cards livrou-se da necessidade de prestar atenção às respostas e reações do público ou mesmo do imperativo de ter que pensar em cliffhangers que levariam o espectador a retornar na semana seguinte. Além disso, ao ver-se liberta do formato obrigatório de 42 minutos por episódio, ela pôde investir, em cada capítulo, o tempo estritamente necessário para avançar a trama e desenvolver seus personagens, sem ter que depender de encheções de linguiça, de barrigas ou de condensações de tempo. Há episódios de 42, 52 ou 57 minutos, dependendo das necessidades de cada um.

E mais: por saber que seu espectador já é assinante do Netflix, a série não precisa se preocupar com audiência, podendo devotar arcos inteiros a personagens que não são necessariamente aqueles que atrairiam mais a atenção do público – e, assim, perceber como o episódio de estreia da terceira temporada devota a maior parte de seu tempo a Doug Stamper (Michael Kelly) em vez de Francis Underwood (Kevin Spacey) é constatar a liberdade de roteiristas que optam pelo que é mais eficiente a longo prazo, não necessariamente ao que atrairá audiência imediata. E esta, diga-se de passagem, é uma opção que pode parecer frustrante a princípio (afinal, o personagem de Spacey é o atrativo principal), mas que acaba se justificando quando constatamos, ao final da 13a. hora, como o belíssimo arco dramático de Doug precisava daquela introdução.

Esta terceira temporada, aliás, é digna da primeira e um avanço considerável em relação à segunda, cuja irregularidade me desanimou a ponto de não me ver compelido a comentá-la neste espaço. Desta vez, os realizadores conseguiram um equilíbrio memorável, desenvolvendo os vários personagens sem jamais perder o foco da trama principal – e se Francis continua a se apresentar como um anti-herói vilanesco e instigante, é notável perceber como a série consegue despertar o interesse do espectador não só pelos secundários óbvios (como a Claire de Robin Wright), mas por figuras como Heather Dunbar (Elizabeth Marvel), cuja transformação ao longo dos 13 episódios é efetuada com calma, sutileza e verossimilhança: de uma uma mulher idealista que decide concorrer à presidência por motivos nobres e puros, ela gradualmente é corrompida pela natureza da política nos altos escalões, mostrando-se capaz de atos baixos que meses antes a enojariam.

Contudo, o mais curioso é perceber como House of Cards é hábil ao permitir que o público constate como Dunbar seria uma presidente potencialmente excepcional (ao menos nos dois primeiros terços da temporada), mas ainda assim mantenha-se fiel a Francis, que jamais deixa de ser um sujeito moralmente corrompido – algo que se deve também, claro, à performance magnética de Spacey, que também se beneficia de pequenos atos de humanidade de seu personagem que, mesmo raros, plantam aquela pequena dúvida essencial sobre a redenção de seu caráter. Empregando a quebra da quarta parede de maneira bem mais escassa do que nas temporadas anteriores, estes novos episódios ainda assim utilizam o recurso de forma orgânica e eficiente – e é particularmente interessante notar como, em ao menos dois momentos, Francis parece nos encarar não com o orgulho habitual, mas com uma raiva reveladora, como se ressentisse o fato de o flagrarmos em instantes de fragilidade (algo condizente com sua natureza).

Igualmente importante, também, é reconhecer como a temporada vai aumentando a pressão sobre o protagonista de forma inequívoca, despertando uma curiosidade surpreendente sobre como Francis será capaz (e se será capaz) de superar o número cada vez maior de obstáculos em seu caminho – e se há um ponto fraco é a maneira como ele parece criar novos obstáculos desnecessariamente, afastando, com sua arrogância, aliados importantes (um erro de cálculo grosseiro e pouco condizente com sua natureza calculista).

Encerrando com um episódio que, como no primeiro da temporada, investe um tempo surpreendente (e que se revela fundamental) em uma personagem que não víamos há muito tempo, House of Cards ainda consegue comover com o encerramento de um arco que tinha tudo para ser chato ou frustrante (afinal, não envolve diretamente o protagonista) e, em vez disso, toca não só pelo destino de uma jovem, mas também (e isso é – narrativamente – digno de aplausos) pelos sentimentos do homem que a destrói.

E mesmo que, ao contrário das temporadas anteriores, esta não traga um desfecho que poderia até funcionar como conclusão da série, o resultado é bom o bastante para que ignoremos o anticlímax da conclusão e apenas torçamos para que os próximos treze episódios cheguem logo.

postado em by Pablo Villaça em Séries, Séries de tevê