O Amor nos Tempos do Chat

Viu a luz verde surgir na janela de chat do Facebook e congelou.

Na verdade, sabia que não era uma luz verde; apenas um círculo colorido indicando que a outra pessoa encontrava-se online e não havia bloqueado a possibilidade de ser chamada para uma conversa – e embora o verde tivesse um significado universal de “siga em frente”, ele experimentava um sentimento de quase pânico diante da possibilidade de dar o passo seguinte.

Era mais velho. Anacrônico, de certo modo. Mesmo na juventude, flertar era uma dificuldade constante. Não que fosse inseguro ou tivesse algum complexo, pois não se tratava disso. Tinha apenas um imenso receio de constranger o alvo de sua atenção.

Sabia que as mulheres eram constantemente empurradas contra a parede – e se esta fosse apenas metafórica, já seria um alívio. Na rua, eram importunadas sem qualquer consideração por sua privacidade; online, eram “fair game”. A última coisa que queria era ser mais um da matilha e perturbar a garota enquanto esta navegava pelo Facebook em busca de atualizações dos amigos, de links interessantes ou de conversas casuais sobre esportes, séries ou livros.

Mas a luz verde o atraía como se fosse uma mariposa prestes a se eletrocutar numa lâmpada.

A lâmpada, claro, era adorável. Ele conversara com ela algumas vezes pessoalmente, mas só amenidades. Nos dias seguintes, porém, havia agido como um adolescente impulsivo e stalkeado suas redes sociais: lido atualizações, clicado nas músicas que compartilhava, visto algumas fotos. E a julgava cada vez mais encantadora.

Deveria ter exercido alguma autodisciplina. Ela certamente o consideraria velho demais, invasivo demais, sem noção demais.

Fechou a aba do navegador e foi ao Netflix. Vá assistir a algum filme. Ou talvez a um episódio de Demolid…

Estava novamente no Facebook.

Porra. “Controle-se!”.

A luz verde continuava acesa.

“Não é um sinal de avance. É um aviso de que ela pode ser chamada para conversar. Só isso. Mas talvez não seja uma boa id…”

13 de abril. 00:22.

Ei. Obrigado por aceitar.

Hein? Por que mandara a mensagem? Não, não, não.

13 de abril. 00:39

De nada! 🙂

Dezessete minutos para responder. E ela estava online o tempo todo. É claro que ela não tem interesse algum. Óbvio. Pare por aqui.

13 de abril 00:40

Você está na faculdade ainda?

“Você percebeu o que acabou de perguntar? Se ela está na faculdade? Só por ter que perguntar isso, você já deveria se envergonhar. Quinze anos de profissão, o senhor tem. Quinze. É um homem de quase meia-idade. Ela está começando a vida. Não seja um clichê.”

“Mas ela é tão adorável. Será que isso deveria ser mesmo um empecilh…”

Agora estava agindo como Gollum.

13 de abril 00:47

Não, me formei há dois anos. Trabalho com jornalismo e faço pós.

Respirou aliviado. Ela não é uma criança.

O que deveria escrever a seguir? Pressionou algumas teclas, iniciando a frase seguinte, mas parou ao ler

…digitando

Ela estava mandando uma mensagem. Interrompeu a digitação e aguardou.

O “digitando” desapareceu. Ela havia parado de escrever? Será que vira que ele também estava escrevendo e decidira esperar para ver que mensagem ele mandaria? Ou havia mudado de ideia e decidido não prosseguir com a conversa?

Não sabia mais como se comportar nessas situações.

Sem ter ideia do que fazer, comentou sobre a cor do cabelo da garota.

“O quê? Idiota.”

A luz verde se apagou.

————————————–

Dois dias se passaram. Ele sentia-se perdido. Nem tanto pela aparente rejeição, mas por não ter ideia de como reagir a esta. Quando jovem, o “não” era dito inequivocamente: um virar de rosto negando um beijo, um “você confundiu as coisas”, um “pare”. No Facebook, o “não” era o silêncio. Que ele temia interpretar erroneamente. E se ela estivesse apenas tentando encontrar a melhor maneira de continuar o flerte?

Alguém ainda usava a palavra “flerte” ou ele estava sendo machadiano?

Ela estava offline. Ou o havia bloqueado? Por que as coisas agora eram tão complicadas?

“Na realidade, são mais simples. Antes, você precisaria encontrar com ela em algum lugar. Uma festa, uma boate, um bar. Ou conseguir o telefone, ligar e pedir para falar com ela. Agora, o contato estava ali. Voce sabia, pela luz verde (não é uma luz!), que ela estava do outro lado da tela.”

Mas não podia ver seu rosto, ler sua expressão e avaliar sua reação.

17 de abril 01:05

Estou com a impressão de que te ofendi.

Queria pedir desculpas, mas não estava convicto de que ela havia se ofendido.

17 de abril 01:06

Imagina! Não ofendeu de maneira alguma. Considerei um elogio.

Um minuto pra responder. Significaria algo?

Riu sozinho. Em sua adolescência, jamais lhe ocorreria cronometrar o tempo de resposta para tentar mensurar o grau de envolvimento da outra parte. Será que esta era a regra nos dias de hoje ou ele estaria superinterpretando tudo?

17 de abril 01:07

Ah, que bom. Porque foi. Atrapalhado, mas foi. 🙂

Merda. Deveria ter esperado mais de um minuto para responder. Mas não gostava de jogar. Embora o jogo fosse excitante.

Percebeu que gostava quando sabia que havia um jogo em andamento, mas não quando estava incerto sobre a existência de um. Flertar era bom, mesmo quando havia uma negativa aparente por baixo de uma aceitação, mas era doloroso quando a rejeição era clara. Estaria envolvido no primeiro tipo ou no segundo?

No segundo. Óbvio. Você é velho. Ela tem a vida toda pela frente.

17 de abril 19:30

Trabalha onde?

De novo o trabalho. Por que perguntara aquilo?

Porque era seguro. Numa situação de emergência, poderia dizer que estava apenas curioso com relação às atividades profissionais dela. Como se ela fosse acreditar.

17 de abril 19:34

Faço freela. Estou escrevendo para duas revistas.

Queria abraçá-la. Beijá-la. Levá-la para viajar e mostrar o mundo para ela.

Iria chamá-la para jantar. Isso. Ela poderia rejeitar, claro, mas ao men…

digitando.

Prendeu a respiração. É, voltara à adolescência.

17 de abril 19:37

Bom, estou indo jantar. A gente se fala.

Não, não, não.

17 de abril 19:38

Você ficou ofendida, né? Relendo a conversa, acho que passei a impressão errada.

Patético. Ele havia passado exatamente a impressão que queria passar: a de que havia se encantado por ela. Covarde.

17 de abril 19:41

Claro que não. Achei normal.
Digo: não achei nada de mais.

Ele fracassara. Sem nem saber exatamente se ela havia realmente entendido o que ele queria ter dito. Talvez…

17 de abril 19:42

Bom… beijo. Até.

“Até”??? Não havia algo mais eloquente a dizer??

17 de abril 19:42

Até.

O círculo verde desapareceu.

E, com este, uma luz dentro dele se apagou.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados