A Mulher no Livro de Granito

O som do cascalho sob seus pés era um de seus favoritos no mundo. Respirou fundo, fechou os olhos e ergueu o rosto para sentir o calor do sol. Sorriu e voltou a caminhar.

O cemitério era lindo.

Já estivera em muitos cemitérios. Sempre que visitava uma cidade nova, fazia questão de conhecer dois lugares: o mercado público e o cemitério. No primeiro, testemunhava a cor local, entreouvia sotaques em conversas animadas e sentia os cheiros particulares do lugar; no segundo, mergulhava um pouco em seu passado, via rostos que já não existiam e imaginava a vida que deixara de ser.

E ao longo dos anos, constatara que não havia dois mercados ou dois cemitérios iguais. Ainda assim, nada o preparara para o de Saint-Paul-de-Vence.

Localizado na Riviera francesa, o vilarejo datava da Idade Média e se tornara uma atração turística precisamente pelo charme das pequenas edificações que, situadas no alto de uma montanha e ladeadas pelos grossos muros do que fora uma fortificação, vigiavam todo o imenso e belo vale ao seu redor. Boa parte dos espaços havia sido ocupada por pequenas galerias de arte e por charmosos restaurantes, mas ainda era possível perceber que muitas famílias ocupavam as antigas casas de pedra – e, o mais importante para ele, mantinham o velho cemitério ativo.

Situado ao sul do vilarejo, este se projetava sobre o vale abaixo, trazendo antigas sepulturas que pareciam equilibradas à beira de declives que ofereceriam aos seus ocupantes uma vista invejável caso não estivessem presos em suas residências de cimento e cegados pelo inconsciente eterno.

Mais comprido do que largo, o cemitério se estendia por cerca de duzentos metros a partir da muralha de Saint Paul de Vence e podia ser dividido em três níveis separados por uma pequena escadaria e por uma inclinação natural do terreno, trazendo lápides que iam de conceitos elaborados (e caros) a outras surpreendentemente simples e que traziam apenas os nomes dos falecidos em alto relevo sobre uma placa plana de cobre.

Ele se aproximou do pequeno portão de metal verde, no qual um mapa rudimentar do local era exibido, e notou que este destacava a localização do túmulo de Marc Chagall: a partir da entrada, deveria virar a primeira à direita e depois à esquerda. Embora seu interesse por cemitérios nada tivesse a ver com o local de repouso de nomes famosos, percebeu que gostaria de ver onde o pintor estava enterrado.

Considerando a relação problemática que Chagall mantinha com a própria herança judaica, ficou surpreso ao perceber a quantidade de pedras deixadas por visitantes sobre sua sepultura; por outro lado, a abundância de moedas de um centavo norte-americano não o espantou: turistas vindos dos Estados Unidos tinham o hábito de deixá-las em qualquer túmulo famoso que visitassem ao redor do planeta. Hesitou sobre a possibilidade de abaixar-se e pegar uma pedra para colocá-la ao lado das demais, mas decidiu que respeitaria a indefinição do morto sobre sua religião e abandonou a ideia. Notou, então, que um grupo de turistas japoneses se aproximava para visitar o artista e se afastou rapidamente.

Fez, a seguir, o que costumava fazer nestas visitas, passando a ler os nomes e datas de nascimento e morte presentes nas lápides. Interessava-se principalmente por aquelas que traziam pequenos retratos de seus ocupantes, pois sentia que isto conferia maior realidade às suas histórias, transformando aqueles nomes em pessoas de carne e osso. Conseguia imaginá-los sorrindo, chorando, vivendo. Às vezes, chegava mesmo a derramar algumas lágrimas diante de certas fotos, dependendo do que lia em suas expressões.

Questionava-se se aquele era um exercício saudável, mas convencia-se de que, como escritor, extraía no mínimo alguma inspiração da experiência.

Sob a sombra de uma sebe, viu a sepultura da família Maeght e admirou sua simplicidade. Mais cedo, estivera na fundação que levava o nome do casal formado por Aimé e Marguerite e lera, num painel, como haviam decidido criar aquele espaço após a morte do filho Bernard, aos 11 anos de idade – mas, de alguma forma, ver seus nomes inscritos em mármore e ler suas datas determinantes era algo que os tornava mais palpáveis.

Este era um efeito colateral inevitável de suas visitas a cemitérios, aliás: ler epitáfios como “Ao nosso pequeno filhinho Remi” trazia a tragédia da vida de desconhecidos que vieram em outra época para perto de seu próprio cotidiano – e isto o ajudava nas projeções de seus textos e, gostava de crer, o tornava mais humano.

Nada, porém, que o preparasse para a descoberta que faria em alguns minutos e que ocuparia boa parte de seus pensamentos nos dois anos seguintes de sua vida.

Afastou-se do túmulo da família Maeght e desceu os degraus para o segundo nível do cemitério. Decidira visitar o vilarejo num impulso ao descobrir que, por engano, marcara seu retorno ao Brasil com um dia de atraso, prendendo-o a Nice por mais 24 horas. A passagem por Saint-Paul-de-Vence, contudo, estava se revelando um dos pontos altos de sua viagem.

Família Papillon. Lorious. Goletto.

E então viu a foto.

Envolvido por uma moldura oval prateada, estava o retrato de uma mulher jovem e sorridente. Vestindo um terninho cinzento (ou que parecia cinza, já que a imagem estava em preto-e-branco), ela olhava para a câmera enquanto trazia sobre a cabeça uma espécie de véu branco que se abria para lhe revelar o rosto. Talvez aquela imagem fosse da cerimônia civil de seu matrimônio, já que não usava o vestido tradicional – embora a grande rosa branca sobre o terno, acima do seio esquerdo, sugerisse alguma formalidade.

Seus lábios eram finos e abriam espaço para os dentes que tornavam seu largo sorriso tão encantador e que levava suas maçãs do rosto a se projetarem e a exibirem um rubor que era perceptível mesmo em tons de cinza. O cabelo, preto e curto, surgia numa franja encaracolada sobre a testa, ao passo que as sobrancelhas bem delineadas protegiam seus olhos escuros.

Foram os olhos que o capturaram. Ladeando o nariz estreito, quase classicamente grego na forma como se encurvava sobre a boca, seus olhos eram expressivos como poucos – e se evocavam algum sentimento, era o de tristeza, embora sorrissem.

Olhos tristes tendiam a ser os mais belos. E os dela eram, neste aspecto, maravilhosos.

Estudou a pequena escultura sobre a lápide que, feita em pedra de granito, exibia o formato de um livro aberto que trazia as palavras “A mon épouse chérie. Votre mari dévoué.” em uma página e a foto da garota na outra sobre seu nome e suas datas de nascimento e morte:

Bette Michelet
1932-1961

29 anos tinha Bette ao morrer. E morrera 13 anos antes de ele nascer. Não chegaram a coabitar o planeta, mas ele agora a conhecia. Observou pensativo o retrato por alguns minutos e, sentindo-se triste, decidiu retornar ao hotel.

Despertou no dia seguinte pensando em Bette. Tomou o café da manhã e passou cerca de duas horas na piscina tentando se distrair. No banho antes do almoço, descobriu-se sob a ducha depois de meia hora distante no passado ao imaginar o cotidiano da moça.

Retornou ao cemitério naquela tarde e tirou algumas fotos do túmulo. Precisava saber mais sobre aquela jovem esposa morta tão precocemente e também sobre o marido que a chamara de “querida” no granito.

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Digitou “Bette Michelet” no Google, entre aspas, para garantir o nome exato seria investigado pelo buscador. Pensara em incluir “Saint-Paul-de-Vence” na busca, ou sua data de morte, mas desistiu: queria encontrar a maior quantidade possível de resultados.

Descobriu apenas cinco – e obviamente nenhum deles era sobre “sua” Bette. Havia uma norte-americana com este nome na Flórida que aparecia sob o título “Wonder who’s calling you?” – um site que aparentemente oferecia o serviço de revelar os titulares de contas de telefones celulares. Além disso, o Google trouxe duas listagens que incluíam “Le cousin Bette”, de Balzac, ao lado de “Le peuple”, de Jules Michelet. Em compensação, falhara em encontrar uma única menção à Bette Michelet enterrada no sul do vilarejo medieval mais famoso da Riviera.

Suspirou, frustrado, e tentou buscar “Bette” e “1961”. Nada.

A Internet, em suas quase 50 bilhões de páginas indexadas pelo Google, se recusava a reconhecer que a moça existira.

Olhou para o relógio e constatou que, se quisesse pegar o avião, deveria se apressar. Jogou na mala as duas camisas que usara em sua rápida passagem por Saint-Paul e guardou os objetos de higiene pessoal na mochila. Sentou-se na beirada da cama e encarou o chão.

E percebeu que não podia partir sem tentar descobrir mais sobre Bette Michelet, que morrera há 54 anos.

Pegou o telefone para ligar para a companhia aérea e sentiu um frio na barriga ao olhar pela janela do quarto e notar que conseguia divisar, ao longe, a silhueta borrada do cemitério no qual se encontravam os restos de sua nova e inesperada obsessão.

(fim da primeira parte)
(parte 2)

postado em by Pablo Villaça em Livros, Variados