Projeto Breaking Bad – S01E01 – Piloto

(Fuck you, Bogdan! Fuck you and your spoilers!)

Piloto

Dirigido e roteirizado por Vince Gilligan. Fotografia: John Toll. Montagem: Lynne Willingham. Música: Dave Porter. Design de produção: Robb Wilson King. Direção de arte: James Oberlander. Figurinos: Kathleen Detoro.

Com: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, R.J. Mitte, Steven Michael Quezada, Max Arciniega, John Koyama, Marius Stan.

“A Química é o estudo da mudança”, diz Walter White no episódio piloto de Breaking Bad, completando pouco depois: “É como a vida. (…) Crescimento, decomposição, transformação”.

Numa visão superficial, o personagem interpretado por Bryan Cranston poderia estar simplesmente cumprindo seu papel como professor da disciplina diante de um bando de alunos desinteressados; um olhar mais atento, porém, imediatamente perceberia que naquela fala estava contida a temática da própria obra criada por Vince Gilligan e que fascinaria espectadores durante os cinco anos seguintes ao enfocar a transição de Walter de um pacato e fracassado educador colegial até se tornar o cabeça cruel e implacável de um império das drogas.

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Abrindo o episódio (e, consequentemente, a série) com a imagem de um cacto e outros planos que ressaltam a aridez e a atmosfera sufocante do universo no qual estamos entrando, Gilligan (que também roteirizou e dirigiu o piloto) emprega uma introdução in media res, já atirando o espectador no meio da ação e imediatamente começando a construir uma ligação entre o público e seu protagonista, que surge apavorado, seminu (suas calças voadoras serão revistas na última temporada), perdido e numa situação da qual obviamente não tem controle algum. E se não há melhor maneira de estabelecer elo com um personagem do que ao colocá-lo em situação de vulnerabilidade, o realizador aqui não mede esforços para afundar Walter White na mais profunda delas: além de surgir já em fuga, quando o reencontramos três semanas antes, no primeiro flashback de Breaking Bad, descobrimos que se trata de um homem que, aos 50 anos de idade, suspira solitário diante de uma placa que celebra uma breve glória passada, encontra-se numa situação financeira precária que o impede de instalar um bom aquecedor de água em sua casa, obrigando-o também a dirigir um carro velho e cheio de problemas e a manter um segundo emprego no qual chega a ser humilhado por um aluno.

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Humilhação que, diga-se de passagem, é experiência recorrente em sua existência: seu cunhado Hank (Norris), embora o ame, não hesita em ridicularizá-lo em sua própria festa de aniversário (além de lhe tomar até mesmo a cerveja); sua esposa Skyler (Gunn) o masturba da maneira mais desinteressada possível (e ainda aponta sua incapacidade de ter uma ereção); seu plano de saúde precário o faz evitar o hospital mesmo tossindo por semanas e, como a cereja sobre o bolo, ele descobre estar com um câncer agressivo que deverá matá-lo em menos de dois anos. Quando esta revelação é feita, por sinal, já estamos torcendo para que qualquer coisa positiva aconteça na vida do sujeito – e isto será fundamental para que a série funcione, estabelecendo uma relação que se manterá importante durante as cinco temporadas. Não é à toa, aliás, que tantos fãs de Breaking Bad posteriormente viriam a defender todas as atitudes de Walter mesmo quando estas mereciam apenas repulsa, já que passaram a confundir a forte ligação emocional com ele estabelecida com a necessidade de justificar suas ações mais vis.

Mas não é só o (futuro anti-)herói que fascina já de imediato; uma das principais virtudes deste Piloto (sim, como é o padrão, este é o título do episódio) é sua capacidade de apresentar com eficiência os personagens: Skyler, por exemplo, surge como uma mulher segura e controladora que, firme, demonstra imensa dedicação à família, se esforçando para complementar a renda de casa através de pequenas vendas pela Internet, preocupando-se com a dieta do marido (e preparando uma festa-surpresa para este) e apoiando o filho Walter Jr. (Mitte), portador de paralisia cerebral, sem tratá-lo como inválido. Também descobrimos que a mulher é uma aspirante a escritora e que não mantém uma relação das mais amigáveis com a irmã Marie (Brandt), que, por sua vez, logo exibe claro amargor no trato com Skyler. Enquanto isso, o marido de Marie, Hank, apresenta-se expansivo ao fazer o tipo “macho-alfa”, trocando insultos fraternais com o parceiro Gomez (Quezada). Para finalizar, conhecemos também Jesse Pinkman (Paul), jovem impulsivo que, assim que volta a se envolver com seu ex-professor Sr. White (como sempre o chama, numa atitude de respeito curiosa mesmo que briguem constantemente), passa a virar saco de pancada do mundo – outro elemento que se tornará comum ao longo da série.

Ainda assim, o elemento mais fascinante no Piloto é perceber como Vince Gilligan, o designer de produção Robb Wilson King, a figurinista Kathleen Detoro e o diretor de fotografia John Toll já haviam cuidadosamente estabelecido a lógica visual de Breaking Bad durante a pré-produção do primeiro episódio – e nos minutos iniciais, ao trazer Walter pela primeira vez em sala de aula, os realizadores oferecem ao espectador uma orientação clara para a leitura da série através das garrafas que surgem sobre a mesa do protagonista e exibem as cores-chave que conduzirão a narrativa: azul, vermelho e verde (além, claro, de outras menores e igualmente importantes que surgem com tampas amarela, branca e verde).

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Azul, obviamente, é a cor dominante dos figurinos de Skyler e que costumeiramente se associará às tentativas de Walter de ser um bom pai de família (como ao surgir no lava-jato no qual ele trabalha para complementar a renda). Por outro lado, o vermelho se estabelece como a cor principal de Jesse Pinkman desde a primeira vez em que o vemos, apenas de cueca, escapando da polícia – e, além de associado à ideia de perigo, o vermelho também reflete a natureza passional do rapaz. E se Pinkman ocasionalmente também aparece envolvido em amarelo, é porque este (além de trazer a ideia de dinheiro) estará frequentemente ligado ao conceito de crime no universo de Breaking Bad, numa lógica que se manterá até mesmo em Better Call Saul, série à qual deu origem e onde as cores quentes aparecem invariavelmente presentes ao lado de personagens criminosos/perigosos (como o fazem aqui com Krazy-8). Completando a introdução, Marie já exibe aqui sua obsessão pelo roxo num capricho estético, mas o simbolismo tradicional desta cor – morte – é representado na gravata do médico e no próprio consultório no qual Walter recebe seu diagnóstico fatal.

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E Walter White? Ora, se a cor dominante da vinheta de apresentação e do logo da série é o verde (também presente nos créditos), é claro que, por uma questão de coesão narrativa, também será aquela associada ao seu protagonista. No entanto, a questão é tratada de forma mais complexa por Gilligan: a princípio, Walter veste tons pasteis e sóbrios (bege, marrom, etc), embora um pálido verde pontue alguns objetos de cena e indique seu futuro (como no guardanapo no café da manhã, em sua sala de aula e na cena na qual conversa com Skyler na cozinha, quando a bela direção de arte traz garrafas azuis ao lado desta e verdes ao lado daquele, além de ímãs de geladeira reveladores).

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 No entanto, o verde não apenas define o personagem, mas suas ambições (afinal, não se esqueçam de O Dinheiro, de Robert Bresson) – e não é coincidência que o sujeito encare, fascinado, uma bela mulher que, vestindo um verde intenso, se movimenta numa sedutora câmera lenta no lava-jato. Além disso, o verde é o resultado da mistura do Azul (família) e do Amarelo (o crime), passando, assim, a ser também o que marcará os figurinos de Walter durante boa parte da série, sendo posteriormente substituído pelo preto à medida que sua persona Heisenberg se torna mais forte e dominante. (O amarelo-“crime” também aparece quando Walt comete sua primeira infração ao roubar equipamento da escola – tanto em sua camisa quanto num cartaz situado apropriadamente ao lado de outro vermelho.)

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 Por outro lado, é claro que o esquema de cores é apenas um elemento narrativo entre tantos que Gilligan emprega com inteligência: além de usar um som dissonante recorrente para ilustrar o desconforto físico do adoentado herói, o diretor constantemente o situa no canto do quadro, sozinho e oprimido, chegando a trazê-lo diante de persianas que remetem a barras de uma prisão. Além disso, as marcas registradas visuais de Breaking Bad já surgem aqui, como os planos plongée (que enfocam personagens a partir de um ângulo alto) e aqueles rodados através de objetos ou superfícies (aqui, o fundo de uma lavadora de roupas). Isto para não nos esquecermos dos belos raccords, como aquele que liga o plano no qual Walt surge de “ponta-cabeça” (como sua vida) no aparelho de ressonância e aquele no qual vemos seu reflexo sobre a mesa do médico que o atende.

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 Já o roteiro se mostra hábil não só em seus recursos convencionais de construção de pista e recompensa (a menção ao gás fosfina feita por Hank e que culminará no envenenamento de Emilio e Krazy-8), mas ao trazer Walter já usando a família como motivação/desculpa para suas ações (“Eu só tinha vocês em meu coração”) ao mesmo tempo em que suas verdadeiras razões são expostas (“Eu me sinto acordado”). E se seu orgulho por cozinhar metanfetamina com grande qualidade já dá as caras, também sua dinâmica com Jesse é introduzida na chantagem que faz para que o rapaz trabalhe ao seu lado (“Ou te entrego à polícia”), bem como a natureza explosiva que passa a despontar depois de toda uma vida de repressão (sua briga com Bogdan, o ataque aos jovens que caçoam de Junior e, claro, sua reação à ameaça de Krazy-8).

Demonstrando também o talento para a escolha de canções incidentais que marcará seus melhores episódios, Breaking Bad encerra seu piloto com Walter novamente na cama com a esposa, mas curado de sua impotência sexual e de atitude enquanto ouvimos Mick Harvey cantando sua “Out of Time Man” e comentando a nova postura do protagonista: após o verso que apontava sua percepção de fracasso (“I’m running all in vain trying to catch this train”), encerramos nossa introdução ao seu universo ao som de

“Time don’t fool me no more

I throw my watch to the floor, it’s gone crazy

Time don’t do it again now I’m stressed and strained

Anger and pain in the subway train”.

 

Um “metrô” que, como os fãs da série já sabem, levará a estações de dor, destruição e arrependimentos.

 

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 Este foi o primeiro capítulo de um projeto ao qual dou início agora: o de analisar a construção narrativa de todos os episódios de Breaking Bad. Embora este piloto tenha sido publicado no blog, o restante da série será disponibilizado com exclusividade para os assinantes do Cinema em Cena – e para saber como se tornar colaborador do site, é só clicar aqui

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, Críticas, Séries de tevê