A Mulher no Livro de Granito – Parte III

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Foi um dos anos mais longos de sua vida. Junho pareceu ter 90 dias; julho, 120. Agosto, setembro e outubro passaram um pouco mais rapidamente, mas não muito. Em novembro, com o fim do ano se aproximando, começou a pensar nos preparativos para a viagem que faria em maio. Nas festas de fim de ano, pensava apenas em Bette Michelet. À meia-noite de 31 de dezembro para primeiro de janeiro, lembrou-se de sua foto.

Em fevereiro, a ansiedade deu lugar à angústia. O que estava pensando? Como pudera acreditar que alguém iria retornar ao cemitério em 28 de maio para honrar alguma data aleatória? Quem poderia garantir que não se tratara de um ato de gentileza casual, que alguém deixara a rosa apenas por deixar? Antes de voltar ao Brasil, certificara-se de que a flor não havia sido levada por Anunciata ou por Hubert, mas eram apenas dois habitantes numa vila que certamente tinha algumas centenas de residentes – isto para não contar as centenas de turistas e milhares de pessoas que residiam na região. Por que atribuíra tanta importância a uma trivialidade?

Em março, se deu conta de que caso estivesse certo em supor que a pessoa que deixara a rosa conhecia de fato a mulher na foto, ela certamente teria mais de 65 anos – provavelmente, mais de 70. E nesta idade… não é incomum morrer ou adoecer subitamente. E um ano é uma eternidade. Assim, ainda que a pista fosse promissora, não era absurdo supor que esperaria à toa por alguém que já teria morrido ou estaria em um hospital.

Abril passou como um relâmpago.

Para evitar riscos, decidira embarcar para a França no dia 20, chegar em Saint-Paul-de-Vence no dia seguinte e montar uma vigília no cemitério a partir do dia 23. Talvez a pessoa que deixara a rosa decidisse adiantar sua visita e ele não queria correr o risco de retornar ao Brasil incerto sobre ter se desencontrado. Voltaria da França carregando certeza na bagagem: a de saber quem fora Bette Michelet ou a de que jamais saberia. Sem “ses”.

Os vinte primeiros dias de maio duraram dez anos. E, de repente, ele estava em Saint-Paul-de-Vence.

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Visitara Anunciata no dia seguinte à sua chegada e também tentara falar com Hubert, mas ele deixara o vilarejo para morar em Cannes. Em seu lugar, uma senhora com ar impaciente ocupava o lugar atrás da escrivaninha e o olhava quase com hostilidade.

Caminhou pelas ruas estreitas de Saint-Paul, percorreu suas galerias de arte e almoçou num restaurante cuja varanda se abria para o vale que cercava a vila. Sentiu-se feliz por estar ali, mas também inquieto. Um ano é muito tempo para se pensar em uma pessoa que estava morta há mais de meio século.

Chegou ao Le Hameau por volta de 19 horas, tentou relaxar na banheira por cerca de uma hora e decidiu dormir. Para sua própria surpresa, percebeu ao despertar no dia seguinte que conseguira cair no sono sem a imensa resistência que havia previsto.

Sentindo-se orgulhoso de seu planejamento, chegou ao cemitério às 10 da manhã carregando uma pequena cadeira dobrável de metal, seu notebook e um livro. Encontrou um lugar adequado entre dois túmulos que oferecia uma boa visão do portão de entrada e da sepultura de sua Bette. O que mais o agradava é que, para conseguir enxergá-lo, qualquer um que entrasse teria que olhar diretamente em sua direção e para baixo. Para todos os efeitos, estava quase escondido. Claro que se alguém passasse por aquele caminho específico o veria e estranharia a imagem de alguém numa cadeira de praia em um cemitério, mas nada podia fazer a respeito. Se questionassem sua presença ali, fingiria estar desenhando – uma das vantagens de estar num lugarejo conhecido pela abundância de artistas.

Não tinha esperança de que algo acontecesse, no entanto, e se preparava para horas e horas de tédio. Trouxera algumas baterias extras para carregar o telefone, que assumiria a função de distraí-lo com games caso enjoasse do livro, mas sabia que seriam dias de espera torturante.

E assim foram.

Isto, porém, não o impedia de experimentar uma ansiedade imensa sempre que precisava ausentar-se do cemitério por alguns minutos para ir ao banheiro ou comer algo – e sempre retornava quase correndo e com o coração disparado enquanto temia descobrir uma rosa branca sobre o túmulo e a constatação de que jogara um ano no lixo.

Mas nunca encontrava a rosa à sua espera.

Dormiu pouco mais de duas horas entre os dias 27 e 28, tamanha era sua expectativa.

Às nove da manhã, estava diante do cemitério mesmo sabendo que o portão só seria aberto em meia hora. Tinha plena consciência de que aguardara 365 dias numa aposta insana cujo resultado provavelmente conheceria dentro de algumas horas.

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Dez. Dez e quinze. Dez e meia. Onze. Meio-dia.

Não conseguia sequer fingir estar interessado no notebook, no celular ou no livro. Encarava o portão como se este fosse um imã e seus olhos, puro metal. Sentia a boca seca, mas não queria beber um só gole de água por temer precisar ir ao banheiro. Por outro lado, parecia imune à fome e nem sequer cogitara tocar em algum dos sanduíches que trouxera.

Nunca detestara tanto a ideia de turismo. Cada visitante que buscava o túmulo de Chagall ganhava sua antipatia imediata por provocar pequenos saltos em seu coração. Começava a duvidar que chegaria vivo ao final da tarde.

E a cada vez que consultava o relógio, experimentava a certeza de ter feito a aposta errada. Ninguém viria.

Às 14h35, notou uma figura que não se parecia com uma turista. Era uma mulher de cerca de 50 anos que, carregando uma cesta de vime, caminhava com a familiaridade de quem já estivera ali muitas vezes. Porém, o que mais o intrigou é que parecia conhecê-la. Mas de ond…?

Não.

Não, não, não, não.

Era a jovem senhora que abordara em seu primeiro dia de investigação. A que cuidava do túmulo do… marido? Pai?

Do irmão. Sim, era ela. Claro.

Como pudera se esquecer dela? Falara de sua busca, apontara o túmulo e ela chegara a caminhar até ele e a observá-lo por algum tempo. Ela havia deixado a rosa. Sem motivo algum a não ser um impulso gentil. Que acabara lhe custando um ano de ansiedade.

Observou, com vontade de chorar, a mulher caminhando em direção ao local em que Bette Michelet repousava desde 1961. Esperou vê-la tirar uma rosa branca do cesto e depositá-la diante do livro e sentiu raiva dela, de Bette e de si mesmo.

A mulher passou direto pelo túmulo e se dirigiu ao do irmão.

Óbvio. Por que iria transformar em hábito a cortesia pontual? Provavelmente não voltara a repetir o gesto e nem sequer se lembrava de tê-lo feito algum dia.

Respirou fundo, olhou para o chão e percebeu que iria mesmo chorar.

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Teria que confirmar com ela, sabia. Perguntaria se ela se lembrava de ter deixado uma rosa branca naquela sepultura e, ao ouvir o “sim, ela me inspirou pena. Morrer tão jovem, coitadinha”, voltaria ao hotel, arrumaria as malas e esqueceria Bette Michelet, seu devotado George e Saint-Paul.

Tomou impulso para se erguer da cadeira metálica.

E viu uma idosa frágil atravessar o portão do cemitério.

De alguma maneira, soube imediatamente que era quem estava esperando. Sem surpresa, acompanhou seus passos lentos até o túmulo de Bette. Viu sua mão se erguer e enxergou a rosa branca. Quando se deu conta, já não respirava há quase um minuto, como se hipnotizado por aquela mulher. Ouvia o coração estourando em seus ouvidos. Se não estivesse sentado, sentiria as pernas vacilando sob seu peso.

A mulher permaneceu diante da lápide por cerca de meia hora. Não parecia rezar nem nada do gênero. Apenas passava a mão suavemente sobre a foto no livro de granito. Quando ela se virou para ir embora, ele notou que seu rosto estava coberto de lágrimas.

Saltou da cadeira e, se controlando para não assustá-la, buscou medir a velocidade dos próprios passos até interceptá-la.

– Com licença…

Ela parou e olhou para cima. Tinha olhos de um azul tão claro que flertavam com o branco. Seu rosto era o de uma pessoa acima dos oitenta anos, mas ele não tinha certeza de como transmitia esta informação, já que não era enrugado como seria o esperado. Algo em sua postura, em seu olhar, em sua… alma – diria, caso acreditasse neste conceito – passava esta impressão.

– Desculpe incomodá-la. Eu…

Havia preparado cuidadosamente sua abordagem, seu discurso, mas agora que estava diante da pessoa que esperara ver por um ano, sentia a língua travar.

– … Não sei exatamente como explicar.

Ela o encarava com uma expressão apreensiva.

– A senhora… conheceu Bette Michelet?

Os olhos da velhinha exibiram surpresa por alguns segundos. E, então, um sentimento surpreendente tomou conta de seu rosto: raiva.

– Eu conhecia Albertine. Albertine Pontier… Michelet.

“Albertine”?

– Sim, eu… estou falando da mulher na foto que aparece naquele livro. Sobre o túmulo que a senhora acabou de visitar.

– Albertine. O nome dela era Albertine.

Ela voltou a andar e, num impulso, ele voltou a se colocar à sua frente.

– Desculpe, eu… é que o livro dizia “Bette”. Eu não sabia que seu nome era Albertine. Aliás… nem o registro do cemitério informa isso, então…

– Você consultou o registro do cemitério? – agora ela parecia intrigada. – Por quê?

Ele respirou fundo. Era hora do discurso que havia ensaiado.

De forma tristemente atrapalhada para alguém que preparara tanto aquele monólogo, ele explicou de onde era, como descobrira o túmulo de Bett… de Albertine e como ficara fascinado por sua foto. Narrou sua visita aos cartórios em Nice, à administração do cemitério, à prima de George e ao filho deste. Contou da rosa. E de sua longa espera.

Concluiu o que tinha a dizer e ficou em silêncio enquanto ela o encarava. Sabia que ela o estava julgando. Avaliando se deveria confiar naquele estranho que lhe contara uma história absurda.

E, de repente, constatou que o olhar intrigado da misteriosa senhora se transformara em algo diferente. Algo que parecia… compreensão.

Ela… entendia.

– Você visitou o filho de George?

– Sim.

– George está morto?

– Sim.

Os olhos da mulher se encheram de água. Ela também conhecia a história de amor de George e Bette, a devoção daquele marido que perdeu sua amada tão precocemente. Ela sabia o quanto ele sofrera.

As palavras que ela disse a seguir vieram como uma bofetada:

– Que bom. Que ele apodreça no inferno.

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Uma semana depois, ele estava no pequeno, mas aconchegante apartamento da velha senhora em um bairro na periferia de Paris. Após seu chocante desabafo no cemitério de Saint-Paul-de-Vence, ela se recusara a dar qualquer informação sobre Bette – ou Albertine, como insistia em chamá-la. Disse precisar pensar sobre o que o brasileiro pedia e perguntou onde estava hospedado. Prometeu telefonar em dois ou três dias com uma resposta, positiva ou negativa. E exigiu que ele a deixasse partir sem mais perguntas.

Ele não tinha opção. Tentou pedir seu telefone ou endereço, mas ela se recusou. Repetiu apenas que ligaria com uma resposta.

Temendo afastá-la de vez, ele se despediu. Tinha certeza de que jamais a veria novamente.

Dois dias depois, contudo, ela ligara de Paris, lhe dera um endereço e informara que o esperaria na quarta-feira seguinte, às 16 horas.

E agora ele se sentava em seu sofá e via, na pequena mesa de centro, um antigo álbum de fotografias recheado de retratos de sua anfitriã.

Seu nome era Marguerite Labrousse. E conhecera Albertine desde a adolescência.

– Ela era adorável. Uma moça delicada, de alma inocente. Tinha o sorriso mais lindo que você pode imaginar.

– Eu notei isso na foto.

Ela empurrou um pratinho de salgados em sua direção. Ele pegou um e agradeceu.

– Para alguém que sofreu tanto, ela era incrivelmente alegre.

A sra. Labrousse virou as páginas do álbum e encontrou uma foto pequena, que apontou para o escritor.

– Aqui ela tinha cerca de 17, 18 anos. Esta ao lado sou eu. Éramos vizinhas.

– Como se conheceram?

– O pai de Albertine abandonou a família quando ela tinha cerca de cinco anos. A mãe, depois de tentar criá-la sozinha, acabou se cansando e a deixou com uma prima, que era nossa vizinha em Saint-Paul. Na verdade, num bairro que fica a poucos quilômetros do vilarejo principal. Albertine tinha então 12 anos, quase 13. Pouco tempo depois, recebemos a notícia de que sua mãe havia morrido aqui em Paris. Atropelada ou algo assim. Nunca mais ouvimos falar de seu pai.

Ela estudou a foto da amiga.

– O estranho é que Albertine parecia… grata. Não por ter sido abandonada, claro, mas por ter encontrado um lugar para ficar. A prima de sua mãe, a senhora Mercier, não era afetuosa, mas também não era agressiva. Albertine a ajudava em casa, já que ela nunca se casou, e acabou sendo quase uma filha adotiva. Digo “quase” porque elas jamais tiveram de fato uma relação de mãe e filha. Moravam juntas, mas não trocavam confidências nem nada assim. Mas acho que eram felizes. Espero que tenham sido.

A mulher suspirou.

– E então George apareceu. Suponho que tenham se conhecido no mercado ou numa feira da Igreja ou algo do gênero. O que sei é que Albertine, que já tinha 21 anos, se apaixonou. Falava deste rapaz fantástico que lhe prometia o mundo, uma família e todo o resto. E a prima de sua mãe… bom, acho que ficou aliviada por encontrar um marido para ela. Ao menos, não pareceu oferecer qualquer resistência à ideia de casamento. Seis meses depois, eles se casaram numa cerimônia civil simples e Albertine se mudou para a casa de George.

Ela fechou o álbum e recostou na poltrona.

– O que aconteceu então?

– Aconteceu que fiquei anos sem vê-la. Ela simplesmente sumiu. Não ia a eventos da cidade, a festas de conhecidos em comum ou mesmo ao mercado. Como também acabei me casando nesta época e passei a me preocupar com minha própria família, já que logo engravidei, acabei… – sua voz tremeu. – Acabei… me esquecendo de Albertine.

Ao longo das horas seguintes, Marguerite acabou contando o restante da história.

Cinco anos se passaram até que voltasse a ver a amiga. Seu marido, Jean-Baptiste, fizera uma festa para comemorar a inauguração de uma pequena mercearia que estava abrindo ao lado de um amigo e, para sua surpresa, George e Albertine subitamente surgiram à sua frente.

Marguerite mal pôde conter o choque diante da aparência da outra. Albertine estava terrivelmente magra, com olhos fundos e ar exausto. Os cabelos, antes tão bem cuidados, encontravam-se ralos e desalinhados. Sua pele trazia rugas demais para alguém com apenas 26 anos de idade.

Mas o que mais a entristecera fora perceber que o sorriso da amiga, antes sua característica mais encantadora, agora estava destruído. Seus dentes incisivos superiores já não existiam – e ela tentava despistar a falta destes cobrindo a boca, constrangida, sempre que falava. E jamais sorria.

Como ela pudera mudar tanto em apenas cinco anos?

Infelizmente, uma festa não era a melhor ocasião para que pudessem conversar com calma. Ansiosa, Marguerite perguntou se poderia visitá-la.

– Amanhã à tarde. – respondeu Albertine. – George irá a Nice depois do almoço e poderemos ficar sozinhas.

Pouco depois, George surgira com ar desconfiado e, puxando a esposa pelo braço, anunciara que já estava tarde e que deveriam partir.

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A vida de Albertine se transformara em pesadelo basicamente a partir do momento em que chegara ao seu novo lar após assinar a certidão de casamento. Assim que entraram em casa, George anunciara que, como sua esposa, ela deveria obedecê-lo e servi-lo sem questionamentos. Mesmo surpresa com a mudança de atitude do homem que até então a tratara com gentileza, a jovem se esforçou para racionalizar tudo como uma tentativa de estabelecer um lar tradicional. Ele proveria; ela cuidaria do lar, do marido e, logo, das crianças.

Mesmo agindo com secura, ela não a agredia fisicamente. Não a princípio. Quando ela engravidara, poucos meses do casamento, ele passara até mesmo a se mostrar mais delicado. Até que ela sofrera um aborto espontâneo por volta da nona semana. Ao vê-la sangrando e com dor, ele simplesmente virara as costas e a deixara sozinha.

Ela enterrou o feto no quintal e chorou a noite toda na casa vazia.

Ao retornar dois dias depois, George agiu como se nada houvesse acontecido e perguntou o que havia para o almoço. A antiga brutalidade retornou, mas agora mais intensa. Certo dia, quando ela atrasou alguns minutos para lhe servir o jantar, ele a atingiu com um tapa.

As agressões se tornaram recorrentes. Ela tentava ler o humor do marido e se afastar quando previa alguma explosão, mas não adiantava: ele parecia determinado a descontar sua frustração – nascida por qualquer motivo insondável – na jovem esposa. Havia dias nos quais ela já sabia, desde o amanhecer, que iria apanhar em algum momento. Só lhe restava esperar e torcer para que fosse apenas um tapa ou pontapé na perna.

Quando engravidou pela segunda vez, sentiu esperança de ver o marido voltar a exibir algum grau de doçura – ou, no mínimo, de ser poupada de novas surras. E, por algum tempo, George realmente pareceu se conter. Até que, por volta do terceiro mês de gravidez, ela não conseguiu se levantar para preparar o café da manhã por se sentir enjoada e foi retirada da cama a socos e pontapés.

Na mesma tarde, perdeu o bebê.

Estava casada há três anos e foi aí que sua existência realmente se converteu em pura tortura. Se já era impedida de sair de casa, agora chegava a passar horas como prisioneira em seu quarto, sem poder nem mesmo ir ao banheiro. George parecia se divertir ao encontrar novas formas de puni-la por sabe-se-lá-o-quê – e, em certa ocasião, tentara obrigá-la a engolir uma barata que encontrara na sala. “Vamos ver se assim você aprende a manter a casa limpa!”, dissera, desistindo apenas quando ela vomitou ao ter o inseto esfregado em sua boca.

Em determinada madrugada, ao voltar bêbado depois de uma noite ao lado dos amigos, ele a esmurrara com tanta força que acabara partindo seus dentes da frente. Ao ver o que havia feito, riu e comentou: “Ainda bem. Não aguentava mais ver aquele sorriso de cavalo”. Em seguida, virou-se para o lado e dormiu.

A consequência inesperada da perda dos dentes havia sido sua liberdade. Se antes se recusava a deixá-la sair de casa, George subitamente se mostrava ansioso para levá-la para todos os lugares.

Albertine não demorou a perceber que ele queria apenas humilhá-la ao exibir sua boca agora deformada. “Sorria, mulher!”, ele costumava berrar. “Mostre aquele sorriso que me conquistou!”.

Ela cobria a boca e tentava conter as lágrimas.

Não voltou a engravidar, mesmo sendo obrigada pelo marido a satisfazê-lo sexualmente quase todas as noites. Percebeu que ele a destruíra por dentro.

E foi então que, numa festa, reencontrou a amiga de adolescência.

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Ele ouvia incrédulo ao que Marguerite lhe contava. Como pudera julgar tão mal a história daquela pobre mulher e de seu marido? Como se permitira romantizar uma foto a ponto de criar um conto de fadas onde havia apenas o terror de uma jovem?

– No dia seguinte, eu fui até a casa de Albertine e ela me contou o que vinha sofrendo. Perguntei por que não abandonava aquele canalha, mas… ela tinha medo. Estava certa de que ele a mataria se ela tentasse deixá-lo. Além disso, nos anos 50, não era comum ver mulheres se divorciando. Especialmente num lugarejo como Saint-Paul.

– Mas… a senhora não pensou em avisar as autoridades? Denunciar George?

Ela encarou o brasileiro longamente.

– Eu não conseguia denunciar nem meu próprio marido.

Ficaram em silencio por um tempo que pareceu interminável.

– Ele… também…?

– Jean-Baptiste não era tão cruel quanto George, mas dizer isso é como desculpar um assassino por ao menos não ser um serial killer. Sim, ele batia em mim. E nas crianças. Tínhamos três filhos e ele não via problema em espancar até mesmo o pequeno Michel, com pouco mais de um ano de idade. Ainda assim, quando descobri o que Albertine vinha sofrendo… acredite… eu me senti agradecida por ser casada com Jean-Baptiste. Imagine isso.

Ela pegou um pequeno baú de madeira e o abriu. Sob algumas joias, um envelope amarelado forrava o fundo do objeto. Ela o puxou e o entregou ao visitante.

– Albertine e eu trocamos algumas cartas ao longo dos anos seguintes. Infelizmente, não guardei todas e me arrependo muito por isto. Mas guardei esta.

Ele pegou o papel com mãos trêmulas. Retirou o papel do envelope e viu a caligrafia cuidadosa de Albertine “Bette” Michelet. Jamais havia se sentido tão próximo da garota.

Minha querida amiga Marguerite,

sei que sente pena de mim. Não sinta. Acredite, estes últimos três anos desde que retomamos nosso contato têm sido um alívio. É como se depois de um longo período tenebroso no qual estive presa em uma solitária eu finalmente pudesse caminhar pelo pátio da penitenciária e conviver com outros seres humanos. Não, minto: em vários momentos, sinto-me livre e retorno à nossa adolescência ao rever seu rosto sempre tão terno, delicado e repleto de amor.

Além disso, sei que enfrenta suas próprias dificuldades. E vendo todo o esforço que faz para preservar seus lindos filhos, chego a agradecer a Deus por não ser capaz de trazer um descendente a este mundo. Eu não teria sua força para proteger minha família e sei que meu fracasso me destruiria. Admiro sua coragem, minha amada amiga. Frequentemente, quando George está num de seus humores destrutivos e desconta em mim as humilhações que acredita sofrer do mundo, fecho os olhos, penso em você e rezo para ter um décimo de sua força.

Lamento apenas que não possamos nos encontrar com mais frequência, mas George viaja cada vez menos a Nice e, como sabe, ele teria uma síncope caso descobrisse que mantemos contato. Assim, estas nossas correspondências clandestinas terão que continuar servindo como bálsamo provisório até que encontremos outra solução (aliás, não sabe como sou grata por seu esforço em buscar estas cartas e por deixar as suas em nosso pequeno esconderijo; sinto-me envergonhada por obrigá-la a tanto sacrifício, mas se antes George se divertia em expor o estrago que fez em meus dentes, logo passou a sentir vergonha por ser casado com uma mulher banguela. E, em vez de reconhecer que isto era culpa exclusivamente sua, agiu como sempre age: punindo sua fonte de embaraço).

O estranho é que ele surrou a raiva que eu sentia para fora de mim. Já não consigo odiá-lo. Ou temê-lo. Se sinto algo, é pena. George é um homem quebrado e, por saber disso, parecer querer ao seu lado uma mulher igualmente partida. (Não se preocupe: não estou romantizando o Sr. Ogro – como rio ao lembrar deste apelido que você cunhou, minha amiga! -; apenas concluí que investir qualquer tipo de sentimento em meu marido é perda tola de energia.)

E enquanto eu tiver meus livros, tenho para onde escapar. E estou certa de que um dia esta sombra se apagará. George não é o tipo de homem que atravessa a vida sem ofender alguém disposto a matá-lo. Durmo pensando que estou a uma briga de bar da liberdade.

(É horrível desejar que ele morra, eu sei. Mas também acredito que Deus perdoará esta minha fraqueza.)

Um dia, querida Marguerite, vamos passear juntar em algum lugar maravilhoso. Eu, você e seus lindos filhos, que me chamarão de tia Albertine.

Até lá, aguardo suas cartas com a ansiedade de sempre.

Sua,

Albertine. 11/07/1961”

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Colocou a carta sobre a mesa, olhou para Marguerite e só então percebeu que chorava.

– Ela morreu três meses depois. – disse a velha senhora. – Esta foi a última carta que escreveu.

Ele esfregou os olhos, tentando interromper as lágrimas, mas não conseguiu.

– Como… ela morreu?

Marguerite respirou fundo e estendeu as mãos num gesto de impotência.

– O que eu sei é que certo dia recebemos a notícia de que ela havia sido levada para o hospital. Segundo George, ao chegar em casa ele a encontrou inconsciente e, quando não conseguiu despertá-la, pediu ajuda. Depois, ele explicou que uns dois dias antes ela havia caído da escada, mas que insistira não haver se machucado, recusando-se a visitar um médico.

– A causa descrita na certidão de óbito foi “edema cerebral”. – ele conseguiu dizer, quase num sussurro.

– Eu sei. Disseram que a queda provocou o edema, mas que, por recusar a oferta de George para buscar ajuda, ela acabou se condenando.

– O desgraçado ainda conseguiu culpá-la pela própria morte.

Ela pegou a carta, devolveu-a ao envelope e guardou tudo no baú.

– Nunca vou me esquecer do rosto de Albertine no caixão. Minha querida amiga, tão adorável, tão linda, tão alegre, era uma massa inchada de golpes. Era possível enxergar a dor em seu rosto.

O escritor olhou para Marguerite, esperando ver lágrimas, mas percebeu que ela já chorara todas nos últimos 55 anos. Sua voz ainda registrava raiva pelo destino da amiga, claro, mas o pranto ficara no passado.

– Pobre Bette. – ele suspirou.

Não a chame assim! – gritou Marguerite com um ódio que o surpreendeu.

– Eu… desculpe… eu…

– Por que você repete o insulto que a torturava tanto? Já não bastava aquele… demônio humilhá-la? Você precisa insultá-la décadas depois?

Ele não conseguia compreender.

– Ins… insulto? Eu não… Não é o apelid…

– George não se contentava em machucar o corpo de Albertine; ele sentia prazer em destruir sua autoestima. Isso garantia que ela permanecesse sua prisioneira, sempre subjugada, sempre insegura. Isso fazia parte do prazer que aquele psicopata extraía do sofrimento de minha doce amiga.

– Mas… não entendo…

A mulher voltou a encará-lo.

A Bela e a Fera. O filme de Jean Cocteau. George adorava aquele filme. Ou fingia adorar. Desconfio que o que ele realmente amava era usá-lo para humilhar Albertine. Depois de partir seus dentes incisivos, ele dizia que ela se tornara idêntica à Fera do filme, que tinha os caninos projetados para fora da boca. Ele passou a chamá-la apenas assim.

A Bela e a Fera. La belle et la bête. “Bête”. Besta. Fera.

Bête.

Lembrou de Louis, filho de George, e da raiva que exprimira ao dizer que a mãe chorava ao ser “insultada” daquela maneira. Eram palavras que soavam idênticas, “bête” e “Bette”.

George não poderia ter colocado “Besta” na lápide de Albertine, claro. Então mandou escrever “Bette” como uma agressão final, uma humilhação sádica que resistiria ao tempo.

“A mon épouse chérie. Votre mari dévoué.”

Que tipo de pessoa seria capaz de algo tão perverso?

– Eu odeio aquela lápide. – ouviu Marguerite dizer baixinho, como se para si mesma.

Percebeu que precisava sair dali. Sentia-se sufocado. Mas tinha uma pergunta final:

– Por que 28 de maio?

– Como?

– Por que uma rosa branca no dia 28 de maio?

A velhinha sorriu pela primeira vez desde que a conhecera.

– Alguns meses depois da morte de Albertine, cheguei à conclusão de que precisava romper com aquele ciclo de violência. Se não por mim, ao menos por meus filhos e em honra à memória de minha amiga. No dia 28 de maio de 1962, enquanto Jean-Baptiste estava no trabalho, peguei as crianças, vim embora para Paris, contratei um advogado e consegui minha liberdade. E devo isso a Albertine. Ela me deu a coragem necessária para fazer o que deveria ter feito anos antes.

– E a senhora… não voltou a se casar?

– Não costumo cometer o mesmo erro duas vezes, meu filho.

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Na noite de 7 de junho, ele saltou o portão do cemitério de Saint-Paul-de-Vence por volta das 23 horas. Como demorava a escurecer naquela região, ele fora obrigado a aguardar mais do que esperado. Com a luz do celular apontada para o chão de cascalho, orientou-se até encontrar o túmulo de Albertine Michelet.

Num salto, subiu na sepultura. Avaliou como deveria proceder e posicionou os calcanhares de cada lado da página que trazia a foto de Albertine a fim de protegê-la, deixando exposta apenas aquela que trazia a mensagem de seu “devotado marido” e o insulto que este incluíra.

Segurou com as duas mãos a barra de ferro que trouxera, prendeu a respiração e atingiu com força a escultura. Parte do bloco de pedra se desprendeu e rolou para o lado. Desferiu mais dois golpes e viu, com prazer, o livro se partindo ao meio. Afastou as pernas e certificou-se de que a metade dedicada à foto e às datas de nascimento e morte de Albertine permanecia intacta. Em seguida, recolheu os fragmentos do sadismo de George e os atirou no vale abaixo do cemitério.

Não podia reescrever a trágica história da mulher de olhos tristes – embora fosse passar os meses seguintes preparando-se para colocá-la no papel -, mas podia ao menos apagar a mentira daquela página de granito que, décadas depois, ainda pesava sobre o que restava de seu corpo já tão machucado.

Beijou as pontas dos dedos e tocou a foto da moça. Depois de alguns segundos, afastou-se rapidamente.

postado em by Pablo Villaça em Variados