O Mercado Não Vale Mais que Nossas Vidas

Em vários estados dos Estados Unidos, os fabricantes de móveis são obrigados a aplicar anti-inflamáveis em tudo que produzem. No entanto, a maioria dos estudos indica que estes produtos não possuem resultado prático algum e que – o pior – provocam diversas doenças graves que vão desde infecções respiratórias até diversos tipos de câncer, tornando crianças particularmente vulneráveis aos seus efeitos.

E por que o uso destes produtos se tornou obrigatório? Simples: nas décadas anteriores à proibição de se fumar em lugares fechados, vários incêndios eram provocados por guimbas deixadas acesas enquanto os fumantes dormiam. Pressionadas a modificar os cigarros para que estes se apagassem rapidamente quando não estivessem sendo fumados, as corporações que os fabricavam contrataram empresas de publicidade e lobistas para que vendessem ao público que a responsabilidade era dos móveis que pegavam fogo, não do produto que INICIAVA os incêndios. A estratégia funcionou e virou lei.

Corta para a década passada. Com os estudos que comprovavam que os anti-inflamáveis provocavam doenças graves e não evitavam incêndios, advogados representando a sociedade civil entraram com processos para que as leis obrigando sua utilização fossem revogadas. Na audiência final, depois do depoimento de vários cientistas, um cirurgião plástico foi chamado para depor e relatou como havia atendido um bebê que, vitimado pelo fogo que tomou conta de seu berço quando sua mãe deixou uma vela acesa ao seu lado, morreu depois de agonizar por semanas.

O depoimento tocante e chocante foi o bastante para que a lei fosse mantida.

Em primeiro lugar, o tal depoimento não tinha qualquer valor científico, apenas apelo emocional. Mas este nem era o problema mais grave: dois jornalistas do Chicago Tribune descobriram que o tal médico havia repetido o mesmo depoimento, com mudanças significativas, em várias audiências similares. Questionado sobre isso, ele revelou que não acontecera de fato, tratando-se apenas de uma “anedota”. Como se não bastasse, ele havia sido pago para depor por um certo “Citizens for Fire Safety”  que vivia combatendo a iniciativa de se retirar anti-inflamáveis dos móveis.

Mais alguma investigação revelou que o tal instituto era financiado pelos três maiores fabricantes de anti-inflamáveis dos Estados Unidos.

Este caso, narrado no excelente documentário “Merchants of Doubt”, é um exemplo ilustrativo da principal estratégia das grandes corporações: com o objetivo de conseguirem o que desejam, elas aprenderam a usar a propaganda para trazer a opinião pública para o seu lado. No entanto, como não podem ganhar as pessoas com base em seus argumentos, já que estes são frágeis e incorretos, plantam dúvida, medo e conceitos genéricos como “liberdade” ou outros absurdos como “ambientalistas são comunistas disfarçados” na mente da opinião pública.

Outro exemplo presente no filme envolve a questão do aquecimento global: embora 99,9% dos cientistas que estudam o clima apontem que o aquecimento é provocado pelo homem e que deve ser combatido de forma urgente, as grandes empresas que trabalham com exploração de petróleo e carvão conseguiram levar parte da população a negar esta conclusão através de – mais uma vez – confusão, conceitos genéricos e preconceito. Criaram um documento assinado por 31.400 cientistas que “discordavam” do diagnóstico – e muitos jornalistas reproduziram esta discordância sem investigar os nomes dos tais cientistas, que incluíam “Charles Darwin”, personagens da ficção e “experts” que NUNCA haviam praticado ciência. A lista era tão fajuta que foi publicamente rechaçada pela mais importante instituição científica dos Estados Unidos.

Mas o estrago já estava feito: para estes vermes, vencer a batalha é algo impossível – e eles sabem disso -, então buscam apenas adiar qualquer tipo de lei que limite a poluição que criam. Enquanto isso, a Terra caminha para um ponto sem volta.

Como disse Noam Chomsky em seu artigo “Democracia de Mercado em uma Ordem Neoliberal”, para as corporações, “o lucro deve ser privatizado, mas o custo e os riscos devem ser socializados”.

Esta é a lógica da direita, que prega um mercado sem regulamentação (ou cuja parca regulamentação possa ser manipulada por lobistas) ) e privatização sem limites – e alguns podem até dizer que isto é mera questão de ideologia, mas prefiro acreditar se tratar de uma questão de simples falta de humanidade.

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UPDATE: De maneira previsível, alguns “libertários” (mais sobre este termo daqui a pouco) vieram defender a necessidade de se deixar o mercado livre, sem regulamentação, usando o caso dos antiinflamáveis como exemplo. O que convenientemente ignoram é que esta legislação foi colocada em prática JUSTAMENTE em função do esforço da indústria de tabaco para NÃO ser regulamentada.

Se fossem deixadas sem regulamentação, as corporações agiriam apenas com o instinto sociopata que as domina e que determina o lucro acima de tudo.

Quanto ao “libertário”, é interessante notar como defendem liberdade para o mercado às custas dos indivíduos – e não é à toa que um dos discursos genéricos que fazem para mover a população é precisamente o de que o Estado quer tirar a “liberdade” da sociedade ao tentar regular as empresas. Exatamente como é ilustrado por “Merchants of Doubt”.

Ao menos esses caras se mostram coerentes em sua falta de humanidade.

postado em by Pablo Villaça em Política