Projeto Breaking Bad – Trechos dos Capítulos 2 e 3

Abaixo, você confere breves trechos dos capítulos 2 e 3 do projeto Breaking Bad (para ter acesso aos textos completos, é só se tornar colaborador(a) do Cinema em Cena. Como? Clicando aqui!):

Capítulo 2:

(…)Num episódio marcado pelo humor – uma abordagem inteligente, já que suaviza a natureza sombria dos acontecimentos retratados -, a dinâmica entre Walt e Jesse começa se tornar cada vez mais clara, envolvendo as tentativas do primeiro de controlar a situação e a impaciência crescente do segundo ao ser tratado como subalterno (e é divertido notar a expressão de orgulho de Pinkman ao encontrar uma forma de prender Krazy-8 no porão). Da mesma maneira, o próprio vocabulário dos personagens ressalta as diferenças entre eles, sendo particularmente curioso como Walter procura diminuir a gravidade do que propõe ao sugerir “desincorporação química” para lidar com o corpo de Emilio, enquanto Jesse, numa postura quase infantil, tenta se livrar da tarefa ao dizer um comovente (mesmo que engraçado) “Sr. White, eu não sou bom com gente morta”. (E em uma discreta piada envolvendo odesign de produção e a cenografia, no início do episódio é possível perceber um cartaz na parede lateral da sala de aula que basicamente adianta o destino do ex-parceiro de Jesse ao trazer um esqueleto em um fundo roxo que exibe a palavra “decompose”.)

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 Não é coincidência, aliás, que Jesse apareça assistindo a um episódio de Os Três Patetas em certo momento, já que o roteiro de Gilligan inclui, nesteCat’s in the Bag…, piadas envolvendo humor físico (Jesse carregando o corpo de Emilio), humor de situação (o mal entendido inicial na conversa entre Skyler e Pinkman) e, claro, humor negro (o resultado da teimosia de Jesse ao lidar com o ácido). E mais: os realizadores também extraem graça do amadorismo de sua dupla central (como o pânico de Walt ao ver Krazy-8 na rua e o de Pinkman ao dizer “Por que diabos não o amarramos?”) e até mesmo da escolha das canções incidentais: quando Krazy-8 (Arciniega) vê seu captor e corre, sendo nocauteado ao trombar em uma árvore, ouvimos os seguintes versos de “You’re Movin’ Me”, de Clyde McPhatter, enquanto o rapaz é colocado, inconsciente, no carro do protagonista:

Baby, you knock me out

You know you’re movin me” 

Para completar, Gilligan claramente se diverte ao estabelecer como Walter não compreende o universo no qual está se metendo, já que acredita ser possível argumentar com um narcotraficante e assassino – um padrão de comportamento que se tornará recorrente, já que, ao longo das cinco temporadas, ele (sempre se julgando intelectualmente superior a todos) frequentemente agirá como se os que o cercam fossem estúpidos e susceptíveis aos seus poderes de persuasão (e muitas vezes estará certo).

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Capítulo 3:

Ainda assim, questões morais à parte, Walter já demonstra o pragmatismo marcante de sua personalidade ao finalmente concluir não ter mais opções – e, portanto, quando surge na porta que leva ao porão, já é retratado por Villalobos como um vilão mergulhado em sombras (e é interessante notar como, ao chegar no andar de baixo, ele se afasta da escada ainda oculto pela escuridão, como um monstro, embora mais cedo no episódio ali houvesse luz suficiente para iluminá-lo, como é possível perceber nas imagens abaixo).

E se o episódio não facilita o julgamento do espectador ao humanizar Krazy-8, a situação se torna ainda mais difícil graças à forma chocante com que sua morte é encenada: mesmo com cortes rápidos enquanto o rapaz e Walt giram em torno da coluna que mantinha o sujeito preso, a direção de Bernstein nos mantém próximos ao rosto do jovem enquanto a vida desaparece de seus olhos, tornando seu assassinato pessoal, quase intimista – e, com isso, a natureza cruel do ato do protagonista se torna inegável mesmo que este chore diante do que fez.

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O que nos traz ao desfecho do episódio e que poderia – para a sorte da família White (mas não para a nossa) – ter servido como encerramento da própria série ao mostrar Jesse chegando em casa e descobrindo que Walter havia limpado todos os vestígios de sua experiência com o mundo do crime. Assim, quando vemos o professor parado sobre uma ponte (representando, claro, a ligação entre seus dois mundos), percebemos que está refletindo justamente sobre que caminho seguir – uma ideia reforçada pelo belo plano que o traz contemplando duas pistas nas quais carros viajam em direções opostas.

postado em by Pablo Villaça em Cenas em detalhe, cinemaemcena, Séries de tevê