Brasil Bizarro

Que Brasil bizarro, este atual: políticos acusados de todo tipo de crime desejam reduzir a maioridade penal para “coibir a criminalidade” enquanto posam de bastiões da ética para acusar os oponentes. Jovens vão às ruas pedindo a volta dos militares. Torturadores são abordados em busca de selfies. A nata paulistana bate panela “contra a corrupção”, mas mantém os utensílios nos armários da cozinha sempre que os acusados são do partido que governa seu estado. Um sujeito com histórico de envolvimento em escândalos preside o mesmo Congresso que tenta levar adiante o impeachment de uma governante cuja honestidade é reconhecida até mesmo por seus oponentes mais ferrenhos.

Mas, para mim, o mais inacreditável é perceber que, hoje, a direita tenta derrubar um governo cujo modelo econômico segue a mais pura cartilha conservadora enquanto a esquerda tenta proteger a mesma gestão que se afasta a passos largos de qualquer identificação ideológica com seus valores.

A política não é mesmo para amadores (ou para pessoas que valorizam a ideologia mais do que o pragmatismo). Ao escrever sobre o segundo turno das eleições, lembro-me de comentar que a polarização que estava ocorrendo poderia ter duas consequências: ou Aécio venceria e o projeto tucano que vendeu o país para interesses estrangeiros retornaria com força total ou Dilma seria obrigada a dar uma guinada à esquerda para preservar o apoio dos movimentos sociais e, consequentemente, sua governabilidade.

Tolinho.

O que eu não esperava é que Dilma vencesse e imediatamente passasse a adotar uma postura que os eleitores de Aécio certamente aplaudiriam caso não estivessem cegos de ódio. Já de cara trouxe figuras como Kátia Abreu para o governo, entregou a condução econômica do país ao diretor de um banco e passou a ignorar os mesmos movimentos de esquerda que foram decisivos em sua eleição.

A postura conciliatória de fazer acenos à direita (na realidade, uma flexão quase completa do ponto de vista econômico) não trouxe qualquer efeito para sua aceitação pelas elites e pelo tal rei Mercado. Ao contrário: a polarização se acentuou, manifestações de ódio se proliferaram e a irracionalidade se tornou parte recorrente do debate político.

“Treze anos de PT arruinaram o Brasil!”, dizem eles, ignorando que este período marcou a maior diminuição da desigualdade na História do país, a retirada do Brasil do mapa da fome, um crescimento econômico que trouxe investimentos de todo o mundo, que elevou o país à posição de 7ª maior economia do mundo (éramos a 13ª quando FHC deixou o governo) e que sobreviveu até mesmo à crise mundial de 2008, uma das piores de todos os tempos. (E isto é só o começo:http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=4418)

“O PT quer implementar uma ditadura comunista!”, dizem eles, ignorando que a tal “ditadura” aparentemente nunca chega – mesmo depois de 13 anos e sucessivas vitórias nas urnas – e que chamar de “comunista” um governo cuja política econômica é conduzida por um banqueiro é um sinal de profunda ignorância ou de puro mau caratismo.

“Esse é o governo mais corrupto de todos os tempos”, dizem eles, ignorando que os maiores escândalos de corrupção (em termos de escala, de efeitos e de dinheiro envolvido) ocorreram nos anos FHC e que, ao contrário do que ocorre agora, nada foi apurado, ninguém foi julgado e muito menos punido. Aliás, este é o mesmo padrão ainda hoje: as mesmas empreiteiras que doaram dinheiro para a campanha de Dilma, levando sua campanha a ser investigada, doaram ainda MAIS à campanha de Aécio – mas aí, tudo bem, nada de errado. (Recentemente, ao ter mais uma irregularidade de suas contas de campanhas apontada, o PSDB alegou ter se “esquecido” de incluir um dado – e, de novo, tudo bem, nada de errado.)

Mas estas são as mesmas pessoas que insistem em falar da “fortuna” de Lulinha, que repetem o que sai na VEJA (a do boimate, do “racismo acabou” e da conta de Romário na Suíça) como verdade absoluta. São as mesmas que condenam Paulo Freire, reconhecido por todo o mundo, mas amam Mises, que escreveu que o luxo dos ricos e a desigualdade econômica são necessários para a evolução da sociedade.

São as mesmas pessoas que acusam o governo de ter impulsos ditatoriais, mas agem de forma fascista ao agredirem quem veste a cor vermelha, se diz de esquerda ou defende a manutenção da ordem democrática – e quando chamadas de “fascistas”, contrapõem dizendo que isto é ridículo, já que “fascismo só pode ser de esquerda”, numa demonstração tão profunda de ignorância histórica que a discussão se torna impossível.

No entanto, querem saber a pior parte? É constatar que boa parte do que eles gostariam de ver acontecendo num governo tucano já está acontecendo no governo Dilma. Claro que eles não enxergam isso, já que por trás do discurso “anti-corrupção” esconde-se a verdadeira razão para que gritem tanto ódio: a repulsa pelo PT (não por ser um partido de “corruptos”, mas por ser um partido nascido da esquerda) e por quaisquer ideais que preguem inclusão social.

Mas nós, da esquerda, enxergamos a diferença. (Ao menos aqueles que não estão igualmente cegos pela própria retórica.) E o que vemos é o abandono de um projeto que trouxe resultados tão importantes nos últimos doze anos. Quando um governo de esquerda começa a pregar “austeridade”, arrocho, cortes em programas sociais e de educação e nem sequer discute a taxação de grandes fortunas… bom, é porque não é mais de esquerda.

Há algum tempo, escrevi que, embora a economia apresentasse problemas, estávamos longe da crise que a mídia anunciava em suas manchetes. E apontava, também, que esta crise poderia se tornar uma profecia auto realizada caso levasse o país a absorver uma narrativa de recessão, passando a agir de acordo com esta crença. Soma-se a isto uma política econômica que – seguindo os padrões históricos – decide punir da classe média para baixo em vez de exigir que os donos das grandes fortunas façam sua parte para combater o problema.

Repatriar bilhões sonegados? Não. Implementar a CPMF, que realmente impactaria apenas os que realizam transações de vulto? Não. (Aqui o governo até começou a tentar, mas desistiu em função de sua inépcia ao lidar com figuras como Cunha.) Aumentar impostos a partir de um certo patamar de patrimônio? Não. Taxar as igrejas? Claro que não. (Ao contrário: o Congresso de Cunha aumenta as isenções destas mesmas igrejas, que – vejam só – constantemente usam esta falta de taxação para sonegar impostos ao oferecer “bônus” para pastores ou atuar na lavagem de dinheiro. Um estratagema do qual o próprio Cunha é acusado de se beneficiar.)

A cada novo corte que o governo Dilma faz no social, me afasto mais. E realmente não consigo compreender como a presidenta pode caminhar na contramão do bom-senso, afastando os que a defendem e entregando seu governo nas mãos dos que a desprezam.

Quero um governo de esquerda – e, infelizmente, este não é o governo Dilma.

Porém – e aí reside o verdadeiro conceito de democracia – eu defenderei intensamente seu direito de chegar até o fim de seu mandato. Discordar de um governo (ou mesmo sentir-se traído ideologicamente por este) não é base para impeachment. Aliás, nem mesmo a mais pura incompetência serviria como justificativa para retirá-la do poder (não, não chego ser tão severo quanto sua competência).

Independentemente do que dizem os fascistas de plantão, que chamam o golpe de 64 de “Revolução” e apelidam Bolsonaro de “Bolsomito”, gente demais sacrificou a própria vida para trazer a democracia de volta. Respeitá-la é o mínimo que podemos fazer em troca.

postado em by Pablo Villaça
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