A compaixão como tática

“Vocês agem como se a esquerda tivesse o monopólio da virtude!”, costumam protestar alguns direitistas quando aponto que a inclusão social e pautas humanitárias que reforçam os direitos de minorias devem ser prioridade em qualquer governo que queira se dizer de esquerda.

Ok, é um protesto válido. Será que a direita também não poderia defender estas bandeiras?

Aparentemente, não a neodireita brasileira. Afinal, quando o ENEM incluiu uma questão sobre a violência contra a mulher, representantes desta neodireita imediatamente protestaram contra o que chamaram de “pregação ideológica esquerdista”, basicamente afirmando, eles mesmos, que a defesa dos direitos da mulher é (repito: de acordo com eles mesmos!) uma pauta de esquerda.

E o que esta mesma neodireita teve a dizer depois dos ataques em Paris?

Bom… basta apontar que “xenofobia” é uma palavra fraca para descrever as manifestações de boa parte destes perfis. Houve um “escritor” que chegou a defender AS CRUZADAS, enquanto outros diziam que o que ocorreu na França era mais uma razão “para derrubar a vaca da Dilma”. O consenso aparente entre estes indivíduos é o de que abrigar refugiados é beneficiar terroristas e que – como alguns até disseram nos comentários de meu post anterior aqui no FB (https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/739301856175043) – “praticamente todos os muçulmanos são terroristas ou apoiam o terrorismo”.

Ai, ai.

É esta a “virtude” que insistem possuir?

Na realidade, não sei o que me choca mais: a ignorância política e histórica ou a pura falta de empatia e compaixão.

Há 1,6 BILHÃO de muçulmanos no planeta. Eles respondem por quase UM QUARTO da população mundial. Se a “maioria” fosse terrorista ou apoiasse o terrorismo, poderíamos dar adeus à Humanidade. (Aliás, quando um sujeito afirmou, nos comentários, que nenhum muçulmano condenava os ataques, publiquei vários links que provavam o contrário, incluido este: http://qz.com/550104/muslims-around-the-world-condemn-terrorism-after-the-paris-attacks/). Já outros neodireitistas encaminharam links “comprovando” que o mundo islâmico era dominado por criminosos – e bastou uma rápida olhada em uma destas páginas para constatar que também atacava cotas raciais, tratava o aquecimento global como “fraude” e afirmava que o feminismo e o “gayzismo” querem “destruir a família”.

De novo: é esta a “virtude” que dizem possuir?

Não à toa, figuras como Malafaias não demoraram a postar ódio nas redes, basicamente afirmando que os cristãos representavam o “bem” e os muçulmanos, o “mal”.

Bom, como já escrevi há algum tempo, o simples conceito de religião me incomoda profundamente – especialmente quando esta tenta interferir no Estado. (“Ateu, não anti-Deus”: http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=2663) Porém, posicionamentos como estes, recheados de estupidez histórica, me obrigam quase a uma defesa do Islã, o que considero irônico de um ponto de vista pessoal. Em primeiro lugar, porque estas pessoas parecem ignorar as muitas contribuições de islâmicos ao desenvolvimento da ciência, por exemplo (e para o próprio MÉTODO científico de pesquisa, observação e experimentação) – e pergunte a qualquer astrônomo ou matemático sobre o papel de cientistas muçulmanos em suas áreas para ter uma ideia de sua importância.

Mas, mais do que isso, vem o absurdo do argumento de que apenas o islamismo deu origem a atos abomináveis. É preciso lembrar de grupos cristãos como a Ku Klux Klan? O IRA? É preciso lembrar do extermínio de povos indígenas? Da Inquisição? Cruzadas? É preciso lembrar como, no Brasil, líderes evangélicos pregam a intolerância? Reforçam o machismo e a homofobia?

Ou, saltando para outras religiões, é preciso lembrar como Israel está praticando sua própria versão do Holocausto na Palestina? (E os neodireitistas ficaram particularmente possessos com esta pergunta, sendo que até mesmo SOBREVIVENTES DO HOLOCAUSTO já fizeram a comparação: http://www.haaretz.com/israel-news/1.612072).

Aliás, nem os budistas escapam. Pesquisem o que monges budistas têm feito no Sri Lanka e em Myanmar e a ideia de que o budismo é apenas um poço de placidez irá se desfazer.

Em outras palavras: atos de crueldade indizível já foram perpetrados em nome de praticamente TODAS as denominações religiosas. Não é à toa que, como explico no texto que linkei mais acima, tenho tanta aversão ao conceito de religião organizada.

Para completar, há, como mencionei, a ignorância política: em fevereiro, o próprio ISIS, responsável pelos ataques em Paris, publicou um documento no qual afirmava que precisava acabar com a “zona cinzenta” composta por muçulmanos praticantes que condenavam o terrorismo. Para isso, a estratégia publicamente anunciada pelo próprio grupo era a de promover atos de terrorismo em países com refugiados islâmicos a fim de aumentar justamente o preconceito contra estes – que, atacados pelos ocidentais, finalmente teriam que se decidir entre abandonar a fé ou se unir aos fundamentalistas. (http://www.memrijttm.org/dabiq-vii-feature-article-there-is-no-longer-any-gray-zone-the-world-includes-only-two-camps-that-of-isis-and-that-of-its-enemies.html)

Em outras palavras: foi justamente para fugir destes malucos que os refugiados deixaram seus lares. Atacá-los, discriminá-los, odiá-los é fazer o jogo dos fundamentalistas.

Como bem lembrou meu amigo Matt Zoller Seitz, basta assistir a A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, para constatar como a opressão de fiéis pacíficos é uma maneira infalível de levá-los rumo ao extremismo.

Neste aspecto, demonstrar compaixão pelos refugiados não é só uma atitude humana, mas também a melhor estratégia a longo prazo.

E eu ficaria muito feliz se a esquerda não detivesse o “monopólio” sobre isso.
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postado em by Pablo Villaça
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