A Confederacy of Dunces e Born Standing Up

Ao longo dos anos, tentei diversas vezes ler A Confederacy of Dunces, livro que John Kennedy Toole escreveu em 1969, mas que só viria a ser lançado em 1980, bem depois de seu suicídio e graças aos esforços de sua mãe e do escritor Walker Percy. Infelizmente, eu sempre acabava abandonando o livro depois de 50 ou 100 páginas – algo relativamente incomum em meus hábitos como leitor. Finalmente, depois de três ou quatro anos desde minha última tentativa, decidi atacar as 405 páginas escritas por Toole e, talvez pela primeira vez, compreendi exatamente o que havia me levado à desistência no passado: o protagonista. Eu simplesmente não havia conseguido lidar com Ignatius J. Reilly, o insano, preconceituoso, obeso e repugnante anti-herói da narrativa. Vê-lo descrever suas funções fisiológicas, sua “válvula” que se fecha sob qualquer contrariedade e acompanhar seus monólogos repletos de delírios de grandeza não é tarefa fácil – e, assim, fui derrotado inúmeras vezes. Da mesma maneira, a imensa quantidade de personagens secundários e de tramas paralelas me incomodavam terrivelmente, já que sempre que a história parecia engrenar, Toole cortava para outro núcleo.

Mas o mais grave é que eu estava tentando ler o livro em uma tradução para o português.

Pode soar presunçoso, mas A Confederacy of Dunces é um trabalho que só funciona realmente em seu idioma original, já que Toole escreve com a voz de cada personagem: se os discursos de Reilly são compostos com uma cadência intensa e vocabulário repleto de grandes palavras e insultos (“mongolóide” é uma de suas favoritas), o pobre Burma Jones, faxineiro de um bar sem classe, tem seus discursos grafados pelo escritor de maneira reveladora (“You ain got nobody to come in and mop your flo. Whoa!”), ao passo que o policial Mancuso, que em certo momento pega uma gripe quase fatal, surge nas páginas dizendo coisas como “You udder arrest. Patrodeman Madcuso. Uddercover. Cubb alogg wid me. You udder suspiciudd.”. Com isso, Toole praticamente leva o leitor a enxergar aquelas pessoas através da maneira característica com que se comunicam, o que é notável.

Mas mais do que isso: contando com mais de uma dúzia de personagens importantes, A Confederacy of Dunces aos poucos vai revelando a genialidade por trás de sua estrutura aparentemente desconjuntada – e quando o livro chega ao clímax, a vontade que tive foi a de aplaudir a construção precisa do autor, que amarra todos os elementos de forma inteligente e surpreendente. Como se não bastasse, Toole usa sua divertida história (e o livro é hilário) para fazer críticas sociais e políticas importantes – especialmente se considerarmos a época em que concebeu sua obra.

É lamentável, portanto, que seu suicídio tenha nos privado de novos livros – e não duvido que viesse a receber outros prêmios Pulitzer quem fizessem companhia ao que ganhou postumamente por este seu fabuloso esforço.

“A Confederacy of Dunces”, John Kennedy Toole
Grove Weidenfield, 1980
405 páginas

Se precisei de várias tentativas para finalmente mergulhar na lógica de A Confederacy of Dunces, o contrário ocorreu com esta autobiografia do ator/roteirista/escritor/comediante/músico Steve Martin: em apenas uma sentada, devorei seu relato sobre os anos que passou fazendo stand-up – uma experiência que há muito eu não vivia. Relativamente curto com apenas 208 páginas, Born Standing Up (que no Brasil ganhou uma edição intitulada “Nascido para Matar… de Rir”) faz um objetivo apanhado da infância de Martin, de sua relação problemática com o pai severo e de seus primeiros flertes com o show business, quando, aos 13 anos, começou a trabalhar como vendedor de guias na Disneylândia. 

Usando o acesso ao parque para brincar, mas também para se tornar próximo dos artistas locais, Martin logo se encantaria com números de mágica, aprendendo a fazer vários deles e se tornando vendedor de uma loja de truques de ilusionismo – o que eventualmente o levaria a conceber uma apresentação solo que combinaria mágica, números musicais (ele aprendeu sozinho a tocar banjo ainda jovem) e piadas. Sem jamais tentar se passar por “artista íntegro em dificuldades financeiras”, o autor relata com leveza mesmo os momentos mais complicados de sua trajetória – e fiquei particularmente surpreso ao perceber como Martin sempre se envolveu com mulheres belíssimas e interessantes mesmo quando ainda era um artista pobre e desconhecido (curiosamente, depois de atingir a fama, ele praticamente se isola em função da cicatriz psicológica deixada pela frieza de sua família).

Hábil ao explicar como construia seus espetáculos e a lógica por trás de sua comédia, Martin acaba criando aqui quase um manual de stand-up – embora seu senso de humor nonsense e essencialmente visual (“I’m a wild e crazy guy!” era, afinal, seu bordão mais famoso, ao lado de seus “pés malucos” que disparam em danças inesperadas) talvez não seja traduzido de forma tão eficiente para o formato escrito (algo que ele mesmo reconhece em vários momentos).

Escritor econômico, mas obviamente talentoso, Steve Martin leva o leitor à impressão final de que, ao virarmos a última página, realmente tivemos a oportunidade de mergulhar no início de sua carreira e de conhecer a fundo sua lógica e suas inspirações como artista. E passar a admirá-lo ainda mais é algo que se torna, assim, quase inevitável.

“Born Standing Up: A Comic’s Life”, Steve Martin
Scribner, 2008
208 páginas

 

postado em by Pablo Villaça em Livros