Exausto – mas Ebert me entusiasma

Os últimos quinze dias foram absurdamente exaustivos. Às vezes, tendo a esquecer que o dia tem apenas 24 horas e acumulo uma série de atividades e compromissos apenas para, no meio do processo, perceber que estou esgotado. Há algum tempo, o cineasta (e querido amigo) Helvécio Ratton me procurou perguntando se eu toparia escrever o pressbook de seu novo filme, o documentário O Mineiro e o Queijo – o mesmo trabalho que eu havia feito para seu belo Batismo de Sangue. Não é um trabalho que eu goste muito de fazer e por alguns motivos: é muito desgastante, exige bastante tempo, apenas a imprensa lê este material e ele logo é esquecido quando o filme é lançado, já que o que importa de fato é o longa. Porém, eu também tinha alguns motivos para aceitar: 1) sou fã incondicional de Helvécio; 2) Simone, sua esposa e produtora, é uma pessoa igualmente encantadora; e 3) Depois de receber uma cópia intermediária do filme, fiquei apaixonado pelo documentário. E topei, imaginando que seria mais simples do que o de Batismo – e mais curto (aquele tinha em torno de 50 páginas).

Subestimei a complexidade do assunto abordado por O Mineiro e o Queijo, já que seu pressbook ficou praticamente com a mesma extensão daquele que escrevi para Batismo. Mas Helvécio e Simone aprovaram e gostaram do resultado – e isso para mim é o que basta.

No entanto, ao mesmo tempo em que pesquisava e escrevia o pressbook, estávamos em intensa fase de pré-produção de Morte Cega, meu segundo curta. Reuniões com a direção de arte, de fotografia, figurinos, produção e, claro, ensaio com os atores: Maurício Canguçu, Carlos Magno Ribeiro e Geraldo Magela (o Ceguinho). Com produção entregue ao Guilherme Fiúza (5 Frações de uma Quase História), que conheci justamente através de Helvécio, o filme teve uma dimensão infinitamente maior do que a de A_ética, que se resumiu a oito pessoas trancadas num depósito durante três noites, trabalhando de graça e comendo pizzas compradas com os cupons fornecidos por nosso único patrocinador. Desta vez, a produção envolveu mais de 50 pessoas (chegamos a ter 32 pessoas no set), teve um custo consideravelmente maior (70 mil captados através da Lei Municipal) e envolvia diversas locações, figurantes, efeitos de maquiagem, dezenas de objetos de cena, figurinos e por aí afora.

Se somarmos ao pressbook e ao filme as obrigações no Cinema em Cena e, claro, a polêmica que tanto me desgastou na semana passada, posso dizer que dormi cerca de 5 horas diárias nos últimos 15 dias – e, claro, minha saúde pagou o preço: fiquei gripado, tive conjuntivite no último dia de filmagens e fui obrigado tomar corticóides duas vezes em um único mês.

Mas estou feliz: o pressbook agradou Helvécio e Simone, as filmagens me deixaram feliz e otimista e não deixei de escrever críticas em nenhuma das semanas anteriores. Além disso, arranjei um tempinho para produzir o curso em Curitiba no fim de setembro, que já está com mais de metade das vagas esgotadas.

Por outro lado, no domingo, meu amigo e mentor Roger Ebert assistiu a A_ética e me enviou o seguinte comentário, que compartilhei com os leitores no Facebook:

“Você é um verdadeiro diretor. Antecipo escrever sobre seu primeiro longa”. 

Fui ao paraíso e voltei.

Como se não bastasse, hoje li um trecho da autobiografia de Ebert e fiquei encantado por esta passagem, que transcrevo abaixo (tradução minha):

“Assisti a um número indescrítivel de filmes e esqueci a maior parte deles – espero. Lembro-me daqueles que valem ser lembrados e que dividem a mesma prateleira em minha mente; não existem “filmes antigos”. Em certo sentido, certos filmes “antigos” se libertam do conceito de “tempo”. Vejos filmes mudos, às vezes, e não sinto estar assistindo a obras velhas; sinto estar olhando para um “agora” que foi capturado, tempo preso numa garrafa. Quando vi os filmes mudos pela primeira vez, os atores me pareceram estranhos e datados; hoje soam mais… contemporâneos. O principal problema de um filme que tem 10 anos é o fato de não ter 30 anos. Depois que os penteados e os figurinos param de ser “datados” e começam a ser “históricos”, podemos dizer se o filme em si resistiu ao tempo”.

Quando eu aprender a escrever como Ebert, estarei realizado. Até lá, sigo tentando. 

Claquete final de “Morte Cega”. 1-7-1. Hum.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Livros, Variados