A Vida Imortal de Henrietta Lacks

Não há pesquisador no ramo das Biológicas que não tenha trabalhado com as células HeLa. Usadas desde o desenvolvimento da vacina contra o pólio até a avaliação dos efeitos de uma bomba nuclear sobre o DNA humano, as células HeLa vêm sendo empregadas em laboratórios de todo o mundo há cerca de 60 anos. Mas se o público leigo jamais ouviu falar destas células, o mais lamentável é saber que, até há pouco tempo, nem mesmo os cientistas tinham conhecimento, em sua maioria, acerca da origem destes valiosíssimos instrumentos de pesquisa – uma lacuna que o livro da norte-americana Rebecca Skloot procura preencher de maneira admirável.

Fruto de uma pesquisa que durou quase uma década, o livro resgata a memória de Henrietta Lacks (HeLa sendo, portanto, as iniciais de seu nome e sobrenome), que, morta em 1951 em função de um câncer devastador, deixou para trás quatro filhos pequenos que só viriam a descobrir a importância da mãe para a Medicina já adultos e quase por acaso. Pobre, negra e sem educação formal, Henrietta é retratada por Skloot como uma jovem alegre e mãe carinhosa que, fruto de uma infância infeliz, começava a encontrar algum tipo de felicidade quando, aos 30 anos, descobriu um tumor maligno no colo do útero que pareceu se alastrar de uma maneira absurdamente veloz – e foi justamente a natureza virulenta da doença que, de alguma maneira, disparou um processo similar à imortalidade nas células de Henrietta, tornando-as capazes de se reproduzirem in vitro de forma jamais antes vista. (Este processo, explicado de forma fascinante no texto, é relacionado à enzima telomerase, que reconstrói os telômeros presentes no fim dos cromossomos e que diminuem, em circunstâncias normais, à medida que as células se multiplicam, funcionando como uma espécie de marcador do tempo de vida destas.)

Intrigante como relato médico (e o ex-estudante de medicina presente em mim simplesmente adora este tipo de literatura), o trabalho de Skloot é magistral também em sua dimensão humana – e a maneira com que a escritora recria a vida de Henrietta da infância à morte, detendo-se com sensibilidade em sua doença e sofrimento, funciona não só como drama envolvente, mas como tributo a uma figura que, sem saber, tornou-se instrumental numa série de avanços científicos importantíssimos que beneficiaram toda a humanidade. Mas Skloot vai além ao discutir a bioética relacionada à utilização de material orgânico por cientistas, relatando também outros casos importantes que serviram como base para o estabelecimento de jurispridência sobre o tema.

No entanto, um dos principais elementos do livro diz respeito aos descendentes de Henrietta, que, humildes, jamais ganharam um centavo dos bilhões de dólares arrecadados com a comercialização das células da mãe – o que leva à triste ironia de perceber que os filhos da mulher tão importante para a Ciência não tinham dinheiro sequer para a compra de medicamentos. Skloot dedica particular atenção, neste sentido, à Deborah Lacks, filha de Henrietta que, ao longo dos anos, buscou preservar a memória da mãe e descobrir o que havia ocorrido com a irmã, enviada para  um sanatório aos cinco anos de idade. Além disso, o livro estabelece com precisão as consequências da ausência de Henrietta na vida das crianças, que, deixadas a cargo do pai e de uma parente particularmente sádica, carregariam sequelas físicas e psicológicas dos maus-tratos sofridos num lar quebrado.

Aliás, se há uma ressalva a ser feita com relação ao livro e ao trabalho de Skloot, esta está relacionada à proximidade excessiva da escritora com Deborah, já que, em vez de relatar a trajetória da família Lacks, a moça acaba se envolvendo com esta, o que acaba transformando a própria Rebecca em personagem importante da narrativa (e é incômodo perceber que, de certa maneira, acaba se tornando mais uma pessoa branca e privilegiada pelo destino a usar os Lacks como forma de ganhar destaque – mesmo que, é importante ressaltar, Skloot claramente esteja agindo com a melhor das intenções, chegando a criar uma fundação para dedicar parte dos lucros do livro à família de Henrietta. E, assim, repito: o único porém é sua decisão de se colocar como semi-protagonista do próprio livro.)

Estruturado de maneira pouco orgânica, muitas vezes interrompendo passagens fascinantes para saltar no tempo de forma frustrante, A Vida Imortal de Henrietta Lacks ainda assim representa uma leitura sempre envolvente e instigante, merecendo aplausos também por finalmente trazer à luz uma mulher que, mesmo morta, foi explorada pela sociedade que já tanto a oprimira em vida.

“A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, Rebecca Skloot
Companhia das Letras, 2010
454 páginas

postado em by Pablo Villaça em Livros