Deepfakes (ou Estamos Todos Ferrados)

Não é preciso muito para enganar os ingênuos nem aqueles que querem ser enganados. Nas últimas eleições, a mentira foi a plataforma eleitoral favorita dos vencedores – e, como é possível concluir pelo fato de terem vencido, uma estratégia eficaz. Mamadeiras com bicos em formato de pênis, kits gay, militares cubanos enviados para proteger Haddad, trouxinhas de maconha embaladas com a foto de Lula para arrecadar dinheiro para o PT… por mais absurda que fosse a mentira, não faltavam indivíduos dispostos a replicá-las usando montagens toscas, áudios amadores e imagens tiradas de contexto. Bastava uma rápida pesquisa no Google para desmascarar as farsas, mas a velocidade com que estas eram espalhadas pelo WhatsApp era imbatível.

Agora imaginem se, digamos, surgisse um vídeo no qual Lula (ou Ciro Gomes ou Marina Silva ou Boulos ou Haddad ou…) pudesse ser visto claramente dando um tapa em uma criança ou cheirando cocaína ou dizendo alguma barbaridade. Ora, se uma mera mensagem de texto já faz tantos estragos, o que um registro em áudio e vídeo poderia provocar?

Até hoje, os recursos e conhecimentos necessários para produzir um vídeo falso tornavam este tipo de fraude difícil para o uso cotidiano em campanhas eleitorais, mas o avanço dos softwares dedicados a este tipo de trabalho tem sido tão rápido que, em breve, pessoas com experiência mínima em manipulação digital poderão produzir suas próprias montagens.

Estou falando de deepfake, uma tecnologia que emprega a inteligência artificial para mapear as áreas do rosto de alguém e substitui-las pelo de outra pessoa a partir de fotos de referência. Como comentei no twitter outro dia, ainda em estamos em 2019 e os resultados alcançados já são impressionantes; quando as próximas eleições chegarem, tudo estará pronto para uma campanha repleta de imundície.

Incluo, abaixo, alguns exemplos que me impressionaram bastante (e notem, no primeiro, como a transformação do rosto de Bill Hader no de Schwarzenegger é feita com uma fluidez espantosa):

E, abaixo, um breve vídeo explicando o processo:

E aí? Exagerei no título alternativo deste post?

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Vídeos

4 Respostas para Deepfakes (ou Estamos Todos Ferrados)

  1. Carlos Zanella

    Nem precisa mais de deep fake – já é possível editar o que uma pessoa falou em um vídeo. É mais assustador ainda: https://news.stanford.edu/2019/06/05/edit-video-editing-text/

  2. Ryoko H.

    Não sei como vão usar, se vão usar, mas é estranho como nem tenho tanto medo disso, pois já vi o Jornal Nacional e o What’s Apps fazer um desastre completo a partir de frases mentirosas, sei lá se dá pra ir além do fundo do poço. Um vídeo, talvez, (TALVEZ) só vai fazer mais do mesmo. Aquele deepfake do Bolsonaro no corpo do Chapolin, por exemplo, é ruim pra carreira do Bolsonaro, e é praticamente um cartum feito em cima de algo real, portanto, quem fez ganhará qualquer processo na justiça, se houver. Usar isso com humor e crítica política é a saída. E seria interessante ver um vídeo onde o Bolsonaro ri quando perguntam se ele já transou com galinhas, e depois aparecer o próprio Bolsonaro em uma cena de Pink Flamingos. Aliás, já estou mexendo no FakeApp, criando jogos de smartphone. Da minha parte, na próxima eleição a esquerda vai ter “bala na agulha.” Garanto que não será só do lado de lá.

  3. Lia Lopes

    Rapaz, não dê ideia pro povo não.

  4. Bernardo Nunes Chefer

    Pablo, se me resta UMA GOTA de “esperança”, UMA ÚNICA GOTA, é em relação a repreensão e punição, por parte das instituições, aos casos mais relevantes, e logo no começo. mas aí eu penso nas instituições e me vem uma sensação de orfandade.
    Fui esperançoso até pouco tempo. Mas há dez vezes mais brasileiros ingênuos e que querem ser enganados do que eu imaginava.

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