Lars von Trier NÃO é nazista

Hoje você vai ler várias chamadas do tipo “Diretor Lars von Trier afirma ser nazista”; “Von Trier se identifica com Hitler”; “Von Trier arruína sua carreira”; e por aí afora. Estas manchetes irão até amanhã, quando os portais as substituirão por outras matérias igualmente sensacionalistas em busca de novos cliques e pageviews – e na próxima semana, ninguém mais falará sobre as declarações do cineasta, cuja carreira – adivinhem! – continuará a caminhar normalmente.

É isto que a imprensa faz: mastiga fatos e cospe polêmicas. Na era do ciclo de notícias 24 horas, que exige algo novo para atirar na cara do leitor/espectador a cada 60 minutos, qualquer fato que permita uma reinterpretação controversa assim será reescrito pelos jornalistas. É deprimente, repugnante, odioso, mas previsível.

Para início de conversa, qualquer um que compareça a uma coletiva de Lars von Trier já sabe que ouvirá afirmações potencialmente polêmicas. Isto já virou rotina para um diretor que, deprimido assumido, parece estar sempre na tênue fronteira entre a auto-destruição e a auto-promoção.

Dito isso, vejamos o que o cineasta realmente disse:

“A única coisa que posso dizer é que pensei ser judeu por um longo tempo e era muito feliz em ser judeu. Então conheci [a diretora judia] Susanne Bier e, de repente, não estava mais tão feliz em ser judeu. Isso foi uma piada. Desculpem. Mas acabou que eu não era judeu. Se eu fosse judeu, seria de segunda geração, mas, seja como for, eu realmente queria ser judeu – e então descobri que era nazista porque minha família era alemã. E isso também me trouxe certo prazer. Então, o que posso dizer? Eu entendo Hitler. Acho que ele fez coisas erradas, mas posso imaginá-lo sentado em seu bunker. Eu acho que entendo o cara. Ele não era o que poderíamos chamar de um bom sujeito, mas, sim, eu o entendo bastante e simpatizo com ele. Mas esperem aí! Eu não sou a favor da Segunda Guerra Mundial. E não sou contra judeus. Nem mesmo contra Susanne Bier. Sou a favor deles, mesmo que Israel seja um pé no saco. Como escapo desta última frase? Tá bom, eu sou nazista“.

Muito bem. Para qualquer pessoa com Q.I. de três dígitos, fica óbvio que von Trier estava sendo irônico ao se dizer nazista. E que sua “simpatia” por Hitler não dizia respeito ao anti-semitismo (e muito menos à Solução Final), mas sim com seus dias finais no bunker (um fenômeno comum que, por sinal, discuto em meu curso). Para completar, ser anti-sionista não é o mesmo que ser anti-semita, lembrem-se sempre.

A piada foi de mau gosto? Certamente. Desnecessária? Claro. Lars von Trier declarou-se nazista e “fã” de Hitler e do Holocausto? De forma alguma.

Mas é isso que vocês lerão nas próximas horas.

Até que, claro, alguma estrelinha seja fotografada sem calcinha por um paparazzi deitado na sarjeta e todos se voltem para o novo “escândalo” do momento.

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas