Fazer comédia não é fácil

Sempre tive imenso interesse por comédia e pelo stand up em especial. Li e leio constantemente sobre o assunto e me considero um relativo conhecedor da História, da evolução e dos grandes nomes do stand up. Assim, é com certa segurança que posso dizer: Louis C.K., George Carlin, Richard Pryor, Bill Hicks, Andy Kauffman, Lenny Bruce, Russell Peters, Eddie Murphy, Sarah Silverman, Steven Wright, Sam Kinison, Ricky Gervais, Chris Rock, Dave Chappelle, Eddie Izzard, Cedric the Entertainer, Lewis Black e Bill Maher – nenhum destes grandes comediantes construiu carreira no stand up fazendo humor fácil ou politicamente correto. Ao contrário de outros grandes nomes como Seinfeld, Steve Martin, Robin Williams, Albert Brooks, Bill Cosby, Johnny Carson, Jim Carrey, Mitch Hedberg e David Cross, que fazem (ou faziam) uma comédia mais observacional e “limpa” (ou, no caso de Martin, surreal o bastante para fugir de categorizações fáceis), os integrantes da lista inicial primam por extrair do desconforto ou da quase ofensa a centelha cômica perfeita.

Seja Pryor comentando sobre a necessidade do primeiro presidente negro de manter-se em movimento para evitar ser baleado, Murphy imaginando Mr. T como um amante gay ou Bill Hicks exaltando a importância de artistas que se entregam ao sexo e às drogas, o fato é que a comédia, quando realizada com inteligência, pode cruzar fronteiras que uma retórica mais sisuda jamais ganharia permissão para atravessar. Se alguém dissesse que crianças judias não ganham presente no Natal por não acreditarem que Jesus era o filho de Deus, a acusação de anti-semitismo (ou, no mínimo, de estupidez) seria justificada, mas quando Sarah Silverman pergunta se “Claus” (leia-se: Santa Claus ou “Papai Noel”) é um “nome alemão” e canta “Você fez uma lista e eu a chequei duas vezes / E não há ninguém chamado Silverman, Moscowitz ou Weitz”, percebemos o absurdo da lógica religiosa e rimos do comentário sem receio de sermos rotulados de preconceituosos.

Pois não deve haver limite nos temas abordados na comédia – e sim na forma com que esta é desenvolvida. Em outras palavras: o Holocausto não é verboten (desculpem, não resisti) como tópico de stand up, mas o comediante disposto a abordá-lo deverá ter inteligência o bastante para fazê-lo de forma que: 1) Ofereça algo de relevante sobre o assunto; 2) Seja genuinamente engraçada (claro); e 3) Não transforme suas vítimas em piada barata.

Algo que Gervais fez de maneira brilhante, por exemplo, ao imaginar uma conversa entre Nietzsche e Hitler:

Enquanto isso, o brasileiro Danilo Gentili, comentando os protestos da tola “nata paulista” contra a implementação de uma estação de metrô em Higienópolis, bairro com grande população de judeus, opta por soltar no Twitter a seguinte “piada”:

– Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz!!!

De uma só tacada, Gentili transformou a verdadeira questão (a postura ridícula da elite conservadora paulista) em uma piada anti-semita gratuita, tola e que não só não fugia completamente da discussão que a inspirara como ainda ridicularizava cruelmente os seis milhões de judeus mortos por Hitler. Como se não bastasse, o excesso de exclamações ainda demonstra que o timing cômico reside até em detalhes como a pontuação, já que o “!!!” sugere um tom auto-congratulatório que torna o tweet ainda mais estúpido e sem graça.

O problema de Gentili (e, de modo geral, do humor de seus companheiros de CQC) não é abordar temas polêmicos, mas sim não saber fazê-lo. Figuras como ele, Rafinha Bastos, Marcelo Tas ou os integrantes do Pânico vão sempre direto ao menor denominador comum, pensando na piada mais óbvia e atirando-a sem reflexão no mundo, tentando ganhar destaque pelo volume de gags, não pela qualidade destas ou pela reflexão que poderiam inspirar.

Aliás, já que falei em Bastos, o sujeito, que se vangloria por fugir do “politicamente correto”, não parece perceber que há uma diferença gigantesca entre ser ofensivo e engraçado. Em uma apresentação recente, por exemplo, ele resolveu adotar o “estupro” como maneira de tentar soar corajoso em seu humor ao cruzar barreiras. Até aí, ok. O bom comediante deve mesmo buscar desafios. Mas qual foi a “piada” criada por Bastos?

– Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço.

Em primeiro lugar: cadê a piada? Não, sério: onde está a piada? Provavelmente, no “feia pra caralho”, já que comediantes medíocres como Bastos costumam apostar no palavrão e no choque como forma de garantir risadas fáceis (e infelizmente conseguem, já que certa parcela da audiência parece sempre ter parado na adolescência, quando falar palavrões era algo fabuloso por si só). Fora isso, não há nem mesmo a tentativa de uma piada ali.

Agora vejam o que o fabuloso Louis C.K. faz com o tema “estupro”:

Ele não só “defende” o estupro em certas circunstâncias como ainda, unindo três temas explosivos (estupro, pedofilia e o Holocausto), diz que, se voltasse no tempo e encontrasse Hitler ainda criança, estupraria o garoto.

Esta é a diferença entre alguém que sabe usar o humor como arma, escudo e provocação, e alguém como Bastos ou Gentili, que acha que ofender de maneira adolescente um grupo de pessoas é engraçado por natureza.

Neste sentido, a comédia stand up é como um espetáculo envolvendo carros em alta velocidade: deveria ser deixada para os profissionais.

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Vídeos