Por que o MinC está certo em autorizar Maria Bethânia a captar 1,3 milhão para seu blog

Se eu fosse um troll querendo irritar propositalmente meio mundo, este seria o título de um post dedicado a defender o deferimento do projeto de Maria Bethânia.

Mas não sou e este post não fará isso.

Porque não há como defender um absurdo como este. Sim, a Lei Rouanet é, hoje, um dos principais mecanismos fomentadores da cultura brasileira. É um sistema imperfeito, repleto de falhas, mas é o que temos – e, bem ou mal, tem conseguido viabilizar uma infinidade de projetos importantíssimos que, de outra maneira, jamais sairiam do papel e que, ao saírem, se revelaram contribuições importantíssimas para a história cultural de nosso país. No entanto, é preciso que haja bom senso na avaliação das rubricas aprovadas – e esta foi claramente a falha grosseira aqui cometida.

Em primeiro lugar, há que se observar uma perversão do sistema representada pelo modo de captação em si: dos 1,3 milhão de reais aprovados, nada menos do que 130 mil reais (ou 10%) ficarão com a empresa responsável pela captação. É um valor ofensivo quando consideramos que é um dinheiro saído do bolso do contribuinte para, a rigor, apoiar um projeto de cunho cultural – não para enriquecer uma empresa (ou, em muitos casos, laranjas) que fez a intermediação do negócio. A porcentagem da comissão deveria ser bem menor – e deveria, também, ter um limite quanto aos números absolutos relativos a cada projeto. 130 mil reais é um valor indecente. (Update: há um teto – ainda absurdo – de 100 mil reais por projeto.)

Dito isso, é importante avaliar o projeto de Bethânia. Esqueçamos, de cara, a interpretação ridícula da Foxlha, sempre disposta a criar factóides, de que o dinheiro tem como objetivo a criação de “um blog”. Colocado nestes termos, é claro que a revolta se torna maior, já que todos aqui sabem que o custo de criação de um blog – mesmo com software e layout proprietários – não chegaria a 5% do valor aprovado. Não, o projeto prevê a produção de 365 vídeos, o que é bastante diferente.

Ignoremos, por um momento, o valor de produção e manutenção do blog em si e consideremos que todo o dinheiro seria investido na produção das peças. R$ 1,17 milhão (já descontados os 10% dos captadores) dividido por 365 resultaria em um valor bruto de R$ 3.205 reais por vídeo – algo muito mais razoável de se aceitar, mesmo que o interesse despertado por um projeto como este junto à população seja mínimo (algo que não devemos jamais levar em consideração, posto que a lei não pode e nem deve tentar avaliar subjetivamente o alcance popular de uma iniciativa cultural, o que prejudicaria artistas dispostos ao choque e ao novo).

A pergunta, então, deveria ser: três mil reais por vídeo é um valor tão absurdo assim? Impulso inicial de quem sabe como é caro produzir audiovisual: não, não é. (Especialmente porque não estamos falando de um vlog produzido por um Felipe Neto da vida em seu quarto na casa da avó enquanto vomita obviedades, mas de algo protagonizado por uma das maiores representantes de nossa música e dirigido por um de nossos cineastas mais bem-sucedidos, Andrucha Waddington.)

Mas basta analisar a lógica por trás da produção para ver que, sim, o valor é absurdo. Porque, a rigor, não estamos tratando de 365 produções individuais que envolverão pré, filmagem e pós isoladas, mas de um grande projeto que envolverá estas três etapas em um momento único (e se não for assim, então os produtores são picaretas e desorganizados). Dita o bom senso que todos os vídeos provavelmente serão produzidos no espaço de um ou dois meses e que não terão, individualmente, mais do que 3-5 minutos cada – e a não ser que cada peça seja ambientada em um cenário absurdo como um dos braços do Cristo Redentor, uma base submarina e a Lua, é lógico supor que o grosso do trabalho será feito em estúdio.

Igualmente razoável é imaginar que a montagem dos vídeos não será uma destas loucuras experimentais que envolverão centenas de horas de pesquisas de imagens de arquivos, já que o projeto é centrado em Maria Bethânia e mantê-la fora de campo seria uma ofensa ao contribuinte.

Temos, então, uma ou duas semanas de diárias de estúdio, produção de figurinos, cenários (estou pensando grande), equipe de filmagem (reduzida,  já que não posso acreditar que Waddington vá investir em uma decupagem muito complexa para 365 vídeos de Internet) e as dezenas de horas de ilha de edição (e repito: estamos falando de vídeos de 3-5 minutos envolvendo Bethânia recitando poesias).

Um milhão, cento e setenta mil reais por isso?

Aí, sim, a palavra “absurdo” pode ser dita com propriedade. (E não como a Foxlha e tantos outros blogueiros apressados fizeram ao repetir uma acusação sem qualquer embasamento ou estudo mais detido da natureza da projeto.)

Claro que, para ser completamente justo, eu (na verdade, qualquer um) só poderia bater o martelo nesta acusação depois de estudar a planilha de custos apresentada pelos proponentes ao Ministério da Cultura. Mas ainda assim, considerando a logística da produção e uma experiência básica em audiovisual, a conta ainda soa exageradamente salgada e fora de propósito.

Especialmente quando consideramos que Bethânia já foi beneficiada pelo MinC há pouco tempo depois que uma comissão do ministério deu parecer negativo ao seu pedido de captação apenas para que Juca Ferreira ignorasse a opinião de seus próprios técnicos e concedesse à cantora a autorização para captar outra fortuna.

Bethânia é – e me perdoem o clichê faustosilvano – um monstro sagrado de nossa cultura. Mas isto não quer dizer que ela tenha o direito de enfiar as mãos em nossos bolsos desta maneira – especialmente por um projeto que qualquer produtor competente faria (e muito bem feito) por um terço do valor aprovado.

E a vocalista do Doces Bárbaros certamente concordaria comigo quanto a isso.

Update: Para ler o projeto aprovado, clique aqui (154,53 kb). (Obrigado ao Otávio Ugá por enviá-lo.)

Observação: 600 mil reais para a “diretora artística” (leia-se: Maria Bethânia). Inaceitável. (E observem que, sem este valor, o custo aproximado fica em torno do 1/3 que calculei em meu post.)

Update 2: O valor inicial do projeto era 1,8 milhão. O MinC aprovou “só” 1,3 milhão. Deveria ter cortado mais fundo; o projeto é bom, mas não a este preço.

Update 3: O leitor Narcélio Filho, nos comentários abaixo, aponta que o texto enviado pelos proponentes ao MinC inclui trechos retirados da Wikipédia sem citação da fonte. Esta história fica mais patética a cada minuto que passa.

Update 4: A cópia da Wikipedia é mais patética do que imaginei. Sabe aquele aluno que cola na hora da prova e, sem notar, escreve coisas como “Assim como vimos no capítulo 27” ou “Vide apêndice 3”? Pois é, os proponentes do projeto fizeram coisa parecida no seguinte trecho:

“Entre os filmes estão o longa-metragem 2 filhos de Francisco, de Breno Silveira, que teve uma bilheteria de mais de 5,3 milhões de espectadores aos cinemas em 2005, maior público do cinema brasileiro nos últimos 25 anos.[carece de fontes?]”

“Carece de fontes”?

Update 5: Recebi de uma fonte que prefiro manter anônima, a fim de evitar problemas para a mesma, a planilha de custos readequada do projeto. Há várias modificações feitas em função do valor menor aprovado (cerca de 500 mil reais), mas o que mais me chamou a atenção é que o valor destinado à própria Maria Bethânia, inacreditáveis 600 mil reais, permaneceu inalterado. A justificativa apresentada no projeto que recebi:

“Segundo resposta à diligência: De forma a readequar o orçamento, propomos novos valores para a remuneração da artista Maria Bethânia (antes designadas somente como direção artística total R$ 600.000,00), da seguinte forma:
Direção artística: R$ 100.000,00
Seleção de textos e pesquisa: R$ 135.000,00
Atuação em vídeos (365 videos): R$ 365.000,00
(Total: R$ 600.000,00)”

Update 6: O cineasta Jorge Furtado, um de nossos melhores e mais subestimados, escreveu um post em seu blog defendendo o projeto. Acompanho o blog de Furtado desde o início e é a primeira vez que discordo dele – e é uma discordância das mais significativas e por vários motivos:

1) Furtado, como homem inteligente, comete uma falsidade que não faz jus ao seu próprio histórico político ao argumentar que o projeto não envolve dinheiro público, mas apenas o direito dos realizadores “se humilharem” diante dos empresários (pobrezinhos). Ora, ele sabe muito bem que a renúncia fiscal é, por definição, dinheiro público: em vez de ir para os cofres do Estado, parte do imposto vai para o projeto, permitindo que as empresas transformem tributos em verba publicitária, já que sua marca será associada a um projeto cultural.

(Pra esclarecer: não tenho absolutamente nada contra isso. Como falei lá em cima, a Rouanet é imperfeita, mas viabilizou uma infinidade de projetos maravilhosos. E se permitir que as empresas divulguem suas marcas é um incentivador para que isto ocorra, ótimo. Mas não vamos fingir que não se trata de dinheiro público.)

2) Furtado parece acreditar que devemos dinheiro a Bethânia por seu histórico como artista. Sugere até que, em circunstâncias ideais, o governo deveria dar o 1,3 milhão de reais para a cantora com um “buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão”. Desculpe, Furtado, mas o único dinheiro que, como fã de Bethânia, devo a ela é aquele que já entrego ao comprar seus CDs. Seguindo esta lógica absurda, deveríamos depositar fortunas nas contas não só de Bethânia, mas de Fernanda Montenegro, João Gilberto e – por que pararmos por aí? – dos herdeiros de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Noel Rosa e companhia.

3) A atitude lamentável de Furtado em colocar no mesmo balaio todos aqueles que criticaram o projeto. Aparentemente, eu, com meu histórico de defesa esquerdista, agora sou irmão de alma de serristas, da Foxlha, Veja e etc. Em vez deste reducionismo ofensivo, Furtado talvez devesse analisar o projeto em si – como fiz neste post – em vez de usar generalizações que tentam despistar a essência do problema (como os absurdos 600 mil reais previstos apenas para Bethânia).

4) Prefiro nem comentar a argumentação de que os protestos revelam “preconceito contra a Internet” (minha carreira foi construída aqui) e “contra baianos” – apenas porque uma meia dúzia de imbecis resolveu fazer piadas a respeito da naturalidade de Bethânia.

Lamentável. Esta defesa cega só pode ser fruto de um corporativismo, de um coleguismo incapaz de críticas. Porque Furtado é um homem inteligente demais, íntegro demais, sensato demais para aprontar uma dessas. Continuo fã, mas a admiração incondicional se quebrou um pouco.

Update 7: Uma outra revelação grave relacionada ao projeto original: o texto apresentado ao MinC pelos proponentes traz a seguinte passagem ao descrever a equipe envolvida:

Agência de conteúdo para celular: Aorta Entretenimento
Empresa de Belo Horizonte especializada em aplicativos e produção de conteúdos para novas mídias. Em
seu portfolio de clientes, estão grande empresas como Claro, Oi, Globosat, Ig, Skol e Vivo.”

Pois o coordenador do núcleo de webradio da Aorta, meu amigo Rodrigo James, respondendo a uma indagação minha via twitter, fez o seguinte (e surpreendente) comentário:

“E se eu te falar que a gente nem sabia que tava lá? Foi surpresa pra todo mundo”.

A coisa só piora.

Update 8: Jorge Furtado deixou um comentário abaixo esclarecendo suas posições questionadas aqui. Peço que leiam, por gentileza.

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Variados
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