Drácula, o Morto-vivo

Drácula, o Morto-vivo é tão ruim que seus editores se sentiram compelidos a incluir, como posfácio, depoimentos dos dois autores tentando explicar quais eram suas intenções ao escrever o livro. Ironicamente, a principal delas era buscar coibir o crescente desvirtuamento da natureza do personagem depois de décadas de exploração feitas por filmes, livros e adaptações teatrais concebidas por artistas não ligados a Bram Stoker, responsável pelo clássico publicado em 1897 – e, assim, é triste que justamente um sobrinho-bisneto de Stoker assine a co-autoria desta que é uma punhalada no legado do escritor.

Cometido por Dacre Stoker e Ian Holt (um pesquisador que dedicou sua vida a Drácula, aparentemente não tendo aprendido nada no processo), o livro revela-se pavoroso do início ao fim, pecando em todos os aspectos: a trama é ridícula, os personagens são terrivelmente desenvolvidos, a estrutura é falha e o estilo é digno de um pré-adolescente empolgado em assinar uma fan fiction de Bakugan.

Desvirtuando completamente os heróis do livro original, Stoker e Holt não só transformam Jonathan Harker, Jack Seward, Arthur Holmwood, Abraham Van Helsing e Mina Harker em criaturas aborrecidas e que nada lembram aqueles criados por Bram, como ainda alteram, em retrospecto, a natureza das ações dos personagens no clássico, convertendo Drácula em um herói injustamente perseguido pelos demais – e até mesmo a destruição de Lucy Westenra pelo vampiro é revista aqui como uma tentativa desesperada de salvá-la das transfusões mal-sucedidas feitas por Van Helsing. Além disso, a dupla de autores não hesita em alterar várias das características clássicas dos vampiros estabelecidas pelo escritor irlandês – e se é aceitável que derivações do gênero tomem tais liberdades, isto se torna absurdo numa obra que se pretende continuação direta daquela obra seminal.

E como Stoker e Holt justificam todas estas alterações? Inacreditavelmente, incluindo o próprio Bram Stoker como personagem deste livro e sugerindo que Drácula não passou de um plágio descarado cometido pelo escritor, que teria escutado a história narrada por um dos heróis originais, que, portanto, apresentou Drácula como vilão de maneira cínica e mentirosa. Além disso, Stoker é retratado aqui como um sujeito excessivamente vaidoso e estúpido – e se este é o tipo de “tributo” que Dacre pretendia fazer ao antepassado, só posso imaginar que tipo de insulto cometeria caso buscasse ofendê-lo.

Investindo um tempo enorme em personagens secundários que nada acrescentam à trama (incluindo o próprio Stoker e outras figuras verídicas jogadas no livro apenas para mostrar que seus autores fizeram alguma pesquisa), Drácula, o Morto-vivo ainda traz uma vilã caricata que, como se não bastasse, revela um moralismo alarmante por parte dos escritores: lésbica e liberada sexualmente, a condessa Elizabeth Bathory se coloca como a “inimiga de Deus”, sendo combatida pelo principal guerreiro do Senhor, o próprio Drácula, que se mostra romântico e casto – um jogo de princípios morais conservadores que atravessa toda a história.

Aborrecido e repleto de furos e incoerências, o texto dos dois homens ainda cheira a literatura barata, apelando para descrições patéticas e cafonas de “corpos voluptuosos” e diálogos sofisticados como “Prepare-se para morrer, sua piranha!” (mesmo).

Se queriam preservar o legado de Bram Stoker e de seu magnífico livro, Dacre e Holt conseguiram apenas golpeá-lo com o similar a uma estaca de madeira. Por este atentado em forma de sub-literatura, Dacre Stoker merecia ser banido da família.

“Drácula, o Morto-vivo”, Dacre Stoker e Ian Holt
Ediouro, 2010
480 páginas

postado em by Pablo Villaça em Livros