Ah, jornalistas…

Johnny Depp concedeu uma entrevista à roqueira Patti Smith para o último número da Vanity Fair (a propósito: há dois anos, escrevi sobre o documentário que aborda a vida de Smith). Até aí, tudo bem. Em certo momento da conversa, porém, ele faz o seguinte relato (tradução minha):

“Eles não o toleravam. Eles simplesmente não o toleravam.”, diz Depp a respeito da reação da Disney à sua controversa composição (do pirata Jack) Sparrow. “Eu acho que foi Michael Eisner, então presidente da Disney, quem disse: ‘Ele está arruinando o filme!’.” Depp revela a Smith, no entanto, que permaneceu indiferente à histeria do estúdio. “Executivos do primeiro escalão perguntavam ‘O que há de errado com ele? Ele é algum tipo de deficiente mental? Ele está bêbado? A propósito: ele é gay?’. E então eu cheguei a dizer para uma mulher da Disney: ‘Mas você não sabe que todos os meus personagens são gays?’ – o que realmente a deixou nervosa”.

Este não é um relato novo: há anos que Depp se diverte com casos sobre a reação dos executivos da Disney ao seu Jack Sparrow. Além disso, para qualquer pessoa com a mínima capacidade de interpretar textos, fica claro que sua afirmação sobre seus personagens serem sempre gays foi uma provocação feita à executiva do estúdio – e seria preciso um completo imbecil para interpretar o que ele disse literalmente.

Um imbecil ou um jornalista sem ética em busca de uma chamada sensacionalista que rendesse pageviews ao seu site.

Entra o site Vírgula, do UOL:

“Todos os meus personagens são gays”, diz Johnny Depp à revista” – mancheteou o site (na realidade, eles escreveram “Todos meus”, mas não resisti à tentação de corrigir a frase capenga). A “reinterpretação” do depoimento do ator, no entanto, não se restringiu à manchete:

“Em dado momento da conversa, ele comenta também sobre a estranheza de seus personagens – excelente para um ator em busca de desafios – e do diferencial de cada um deles. E conclui: “Todos os meus personagens são gays”.”

Com isso, o Vírgula (numa matéria assinada por um certo “Vítor Angelo”) não se contentou em tirar a frase de Depp do seu contexto original, aproveitando também para criar um novo contexto que transformasse a fala do sujeito em uma declaração completamente inverídica acerca de sua carreira e de seus personagens.

Uma atitude sem a mínima ética que, claro, foi imediatamente recompensada com uma chamada de capa do UOL:

postado em by Pablo Villaça em Série Jornalistas