Lost 0607

(The hills are alive… with the sounds of spoilers…)

Michael Emerson acabou de garantir alguns prêmios de atuação com este episódio. E merecidamente. Desde que surgiu na segunda temporada, Benjamin Linus (então Henry Gale) se estabeleceu como um dos personagens mais fascinantes de toda a série – algo que se deve não apenas à belíssima construção de Emerson, mas aos roteiros de Lost, que sempre nos fizeram encarar aquele homem como um eterno mistério. Em meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica, chego a dedicar uma parte da aula de Narração ao personagem, explicando que sua complexidade é evidenciada pelo fato dele exercer as seis funções clássicas determinadas pelo modelo actancial de A.J. Greimas: Sujeito, Objeto, Destinador, Destinatário, Oponente e Adjuvante. Aliás, ele é um dos poucos personagens que consigo lembrar que cumpriram todas estas funções na mesma narrativa.

Provando que todos os episódios centrados em Linus se estabelecem como grandes momentos da série (ao contrário do que ocorre com Kate e com o casal Jin & Sun), este sétimo capítulo da última temporada finalmente permitiu que a estrutura da realidade paralela se mostrasse orgânica: em vez de se preocupar em introduzir novos personagens, as seqüências naquele universo reutilizaram vários (vários mesmo) indivíduos já conhecidos em contextos levemente distorcidos – mas não a ponto de se tornarem irreconhecíveis: Arntz continua chato, Alex encara Ben como uma espécie de figura paterna e Locke, como sempre, se dispõe a seguir/ajudar Linus. A única surpresa real é perceber como o personagem de Emerson agora se relaciona com o pai: em vez do ressentimento que o levou ao parricídio, Ben agora cuida do sujeito com dedicação absoluta – que, por sua vez, se revela um homem preocupado com o bem-estar do filho. Com isso, a realidade paralela finalmente funcionou ao permitir pequenas catarses que surgem como conseqüência do que já sabíamos sobre aqueles personagens.

Além disso, assim como naquele universo Ben se vê dividido entre a tentação do poder e o impulso de agir corretamente, na ilha percebemos como o "velho" Linus se arrepende de seus atos passados – o que, mais uma vez, nos leva a celebrar sua decisão na realidade paralela como uma redenção que, na linha original, ele jamais conseguirá totalmente. Mas mais importante do que isso: pela primeira vez em toda a série, não questionei nem por um segundo a veracidade do que saía da boca de Benjamin Linus quando, entre lágrimas, expôs sua dor e arrependimento diante da perda de Alex e da morte de Jacob. E quando Emerson, com a voz trêmula e olhos marejados, disse que iria de encontro a Locke porque este era o "único que o aceitaria", eu, como espectador e testemunha da trajetória ambígua daquele homem maniqueísta, me comovi com seu sofrimento ao constatar o isolamento que recebeu em troca de seus atos.

E se isto já seria o bastante para transformar o episódio num dos grandes momentos da série, a impressão só se reforçou graças à espetacular cena envolvendo Jack e Richard Alpert e que serviu para que o primeiro (em mais um grande instante de Matthew Fox) expressasse sua conversão absoluta à natureza misteriosa de Jacob e da própria ilha. O antes cínico e racional Jack agora não hesita em apostar a própria vida em sua Fé recém-conquistada, o que representa um dos maiores e mais eficazes arcos dramáticos de todo o projeto.

Pela primeira vez – e graças à qualidade deste episódio – senti realmente uma angústia forte por saber que teremos apenas mais 11 episódios desta série magnífica e desde já inesquecível.

postado em by Pablo Villaça em Sem categoria