A Feiura Está nos Olhos de Quem Vê

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes, Política, Premiações e eventos | 2 comentários

“Há quanto tempo a gente não faz um bom filme no país?”, perguntou Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, em mais um ataque à indústria audiovisual da nação que deveria representar em vez de se preocupar apenas com os interesses e problemas de sua própria família cercada de acusações criminosas que vão de fraude a envolvimento com milicianos e assassinatos.

É uma boa pergunta. A resposta: provavelmente um ou dois dias, já que a produção cinematográfica brasileira vem atravessando um de seus melhores períodos – ao menos, até o momento, já que Bolsonaro parece determinado a destruí-la.

Mas posso ser mais específico. Só ESTE ANO, DOIS filmes brasileiros receberam prêmios importantes no mais prestigiado festival do mundo. Já no Festival de Brasília, que aconteceu no início do mês e no qual fiz parte do júri oficial, tivemos obras fantásticas como A Febre, Alice Junior, Rodantes, Um Filme de Verão, O Tempo que Resta e Batalha.

A indagação por sinal, fala tudo sobre Bolsonaro e nada sobre o Cinema brasileiro, que é um dos mais inventivos do mundo e reconhecido nos principais festivais. (Aliás, já tem filme nosso selecionado para a próxima Berlinale, que cobrirei.) Que um presidente ataque a produção cinematográfica do próprio país já é inacreditável; que demonstre uma ignorância tão grande quanto à qualidade desta, inaceitável e chocante. Bolsonaro é uma criatura orgulhosa da própria estupidez; sua tosquice está em seu DNA.

Já nosso Cinema tem puro talento no seu.

Aliás, uma pequena (e incompleta) lista de apenas alguns dos filmes brasileiros lançados em 2019 (no circuito ou em festivais) e que deveriam trazer orgulho a todos nós. Em ordem alfabética:

Alice Júnior
Anna
Bacurau
Batalha
Beco
Bixa Travesty
Breve Miragem de Sol
Chão
Chorão: Marginal Alado
A Cor Branca
Currais
Deslembro
A Febre
Fendas
Um Filme de Verão
Guerra de Algodão
Homem Livre
Indianara
No Coração do Mundo
Onde Quer Que Você Esteja
Organismo
Pacarrete
A Parte do Mundo que me Pertence
Pastor Cláudio
Rodantes
Siron – Tempo Sobre Tela
O Tempo que Resta
A Vida Invisível

Isso tudo EM 2019. Hollywood, que produz muito mais filmes anualmente, não gerou uma lista extensa, sólida e DIVERSIFICADA como esta. Mesmo. Vocês não vão encontrar dois filmes nesta lista que se pareçam um com o outro – estética ou tematicamente.

O Cinema brasileiro vai muitíssimo bem. Apesar dos nossos governantes.

Só não enxerga isso quem é muito vira-lata ou muito ignorante. Ou ambos.


A propósito: todos os gastos do Cinema em Cena com cobertura de festivais são bancados por mim mesmo – e o site também mantém colunistas remunerados, gerando empregos. Se quiser nos apoiar, agradeço imensamente; para saber mais, é só ir em http://www.catarse.me/cinemaemcena.

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Ágatha

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 1 comente

Não há morte de criança que não seja uma tragédia – seja por acidente ou doença, acaso ou genética. No entanto, quando esta ocorre por ação do mesmo Estado que deveria protegê-la, à tragédia se junta a revolta.

Ágatha Félix tinha oito anos de idade. Mesmo vivendo uma realidade distante do conforto da classe média, certamente se divertia com brincadeiras infantis, curtia ver desenhos animados e colorir. Ficava amedrontada diante da agulha ao ser vacinada, empurrava com a língua os dentinhos de leite amolecidos para mostrá-los aos adultos e desejava poder brincar com as bonecas que via na tevê. Corria com as amiguinhas, ficava orgulhosa ao vestir uma roupinha nova e comemorava a nota boa da prova de matemática. Tinha sonhos agitados e cheios de aventuras, sentia-se feliz ao ganhar um abraço apertado dos pais, dos tios ou dos avós e pensava no que seria quando crescesse. Talvez tivesse medo do escuro e do estrondo de trovões. Talvez.

Mas indubitavelmente tinha medo do som de helicópteros.

É aí que a breve vida de Ágatha se distanciava das crianças de classe média: para estas, a visão de um aparelho que mesmo sem asas sobrevoava a cidade era algo quase mágico, uma curiosidade; para meninos e meninas como a pequena Ágatha, contudo, ele representava o prenúncio do pânico. Estivesse em casa, na rua ou na escola, a menina sabia que lá de cima viriam estouros capazes de destruir e matar. Ainda jovem demais para compreender que não deveria ser obrigada a viver aquele pesadelo, que sua realidade difícil era resultado de séculos de desigualdades motivadas pelos interesses egoístas de indivíduos e corporações que a viam como simples número, Ágatha provavelmente chorou de medo várias vezes, encolhida junto à parede ou sob a cama, enquanto esperava o ruído das hélices e das metralhadoras diminuir e desaparecer.

Enquanto meninas brancas de sua idade em bairros horizontais se preparavam para ir ao balé, à aula de inglês ou de natação, Ágatha aprendia a olhar para baixo ao avistar um policial fardado. Talvez ela imaginasse um futuro no qual seria médica, advogada ou presidenta, sem saber ainda como todos os seus caminhos estavam se tornando cada vez mais tortuosos e repletos de obstáculos à medida que qualquer programa de inclusão era desmontado por gente mais interessada em manter os privilégios de quem já tinha todos do que em oferecer qualquer apoio a quem não tem nenhum.

Ágatha deveria ter tido tempo de descobrir a vida e curti-la. Deveria estar aproveitando o sábado para brincar.

Em vez disso, está numa mesa de metal do IML com um rombo em suas costas diminutas causado pelo tiro de um policial militar aplaudido por um governador sociopata. Até o fim do dia, ela estará debaixo da terra e terá deixado um vazio no coração de seus pais que solidariedade alguma será capaz de preencher.

A morte de Ágatha é a morte do Brasil, um país controlado por “cidadãos de bem” que se certificam de que seus pobres assim permaneçam e que, por desprezá-los e se negarem a enxergar sua humanidade, os tratam como inimigos.

Eu queria poder acreditar que Ágatha agora é um anjinho; é com desespero que reconheço, porém, que é apenas uma estatística.

Equívocos e Limites

postado em by Pablo Villaça em Política | 4 comentários

Há um buraco no meu peito com o formato do Brasil.

É um vazio opressivo, que me angustia e me torna uma fração do que já fui. Um espaço oco, mas pesado, que me arrasta para o fundo de mim mesmo, que me afoga na consciência do muito que foi perdido e do que tanto que ainda será. Cada notícia inacreditável sobre a crueldade, o egoísmo e a desumanidade deste governo de sádicos adiciona algumas toneladas à âncora que me puxa para baixo.

Eu queria ser mais forte, creiam. Extrair ânimo do desastre, energia de cada ataque sofrido. Mas temo ter atingido meu limite. Despertar todos os dias se tornou um processo de pré-pânico diante do que descobrirei assim que me conectar à Internet. Qual terá sido a nova declaração odiosa do presidente? Qual elemento de suporte social terá sido desmontado agora? Que medida destrutiva terá sido implementada? Qual absurdo terá sido dito por algum ministro? Que desmando coordenado por figuras que deveriam prezar a Lei terá sido revelado?

O pior, contudo, é constatar como a lógica de intolerância, raiva e violência típica da família Bolsonaro vem contaminando o país como uma epidemia de preconceito, ignorância e rancor: indivíduos que serão alguns dos mais prejudicados pelo desmonte do Estado vomitam estupidez enquanto aplaudem a destruição do próprio futuro, convencidos que estão de que os interesses dos poderosos se alinham aos seus, de que se ao menos desejarem com muita força e se esforçarem bastante um dia farão parte da “elite” – falhando em perceber que as regras impostas por esta criam um campo desnivelado que torna o jogo injusto e impossível de vencer. O “mercado” – sempre prometendo que seus ganhos se tornarão aqueles dos mais vulneráveis, mas sempre falhando de alguma forma em cumprir o acordo – tem natureza sociopática; seu interesse único é o do lucro cada vez maior e que, por assim ser, jamais repassou ou repassará para a ponta seus ganhos. “Se desregularem as companhias aéreas, a passagem ficará mais barata”, “se desregularem as petrolíferas, o combustível ficará mais barato”, “se desregularem a telefonia, a Internet ficará mais barata”. E de novo e de novo e de novo tudo se torna mais caro, com pior qualidade e com menos alternativas.

Enquanto isso, os mais prejudicados pelo capitalismo selvagem gritam com ódio contra os “comunistas” e reproduzem mentiras repetidas por uma mídia controlada por aqueles que, minoria numérica, dependem da alienação da sociedade para conseguirem os votos que elegerão os representantes que atenderão os interesses da elite. “Comunista quer que todos sejam pobres”, “comunista quer pegar o que pertence a quem trabalha para entregar a quem nada faz”, “comunista não quer que ninguém tenha Iphone”, comunista isso e comunista aquilo. Porque o capitalismo, como sabemos, é um sistema justo que quer o bem de todos.

“Se o socialismo funciona, por que Cuba é pobre?”. E o Haiti é o quê? E por que metade da população mundial recebe menos do que 2,50 dólares/dia? (Aliás, 80% da população recebem menos de 10 dólares/dia.) Por que há cerca de um bilhão de crianças em situação de miséria no mundo? Por que um quarto da população mundial vive sem eletricidade? E mais de 800 milhões de pessoas passam fome?

E um dado curioso: entre 2002 e 2015, a desigualdade econômica no Brasil vinha caindo todos os anos, mas, de 2016 em diante (hum… o que será que aconteceu em 2016?), ela voltou a aumentar – e nos últimos dois anos, a renda da metade mais pobre da população caiu assustadoramente, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou consistentemente. Isso é sinal de que o capitalismo funciona?

(Só por desencargo de consciência, já que há muito desisti de dizer o óbvio, o socialismo não quer “tomar” dinheiro e propriedade de quem trabalha e nem quer que todos sejam igualmente pobres ou ricos – uma impossibilidade matemática. O que a esquerda deseja é diminuir a desigualdade a ponto de impedir que existam famintos, oferecer apoio à parcela da população que pouco tem (educação, saúde, infra-estrutura básicas) e criar condições para que alguém que nasceu na miséria possa sobreviver, estudar e melhorar de vida. A “meritocracia” é linda para quem nasceu com recursos, mas para quem se alimentou mal desde a infância e não podia estudar direito por estar desnutrido e doente, trata-se de um conceito de puro sadismo.)

Por que a esquerda se associa a pautas humanitárias enquanto a direita se preocupa com o “mercado”? Para mim, esta é a diferença ideológica essencial entre os dois campos – e aquela que me mantém lutando.

Ou tentando lutar. Porque estou, como já disse, no limite.

Ao contrário daqueles que vêm saltando do barco do bolsonarismo ou que saltaram do trem do ódio à esquerda depois de anos trabalhando para demonizá-la (e que agora se assustam diante do monstro da direita que criaram), minha batalha é antiga: fundei grêmio, dirigi D.A., militei em todas as eleições, me empenhei contra as canalhices de Aécio, lutei contra o golpe, fui às manifestações contra Bolsonaro, fiz campanha por candidatos de esquerda (de todos os partidos) e desde a vitória do cão venho me empenhando para denunciar seus horrores. Neste caminho, fui processado (por Aécio, inclusive), ameaçado, insultado e até mesmo atacado nominalmente pelo próprio presidente em todas as suas redes sociais. Comprometi minha carreira e minha saúde mental e física.

Antes que digam que estou tentando cantar minhas próprias virtudes, contudo, já me encarrego de dizer que é precisamente o contrário: se algo ficou claro é que minha jornada é de fracasso. Tudo isso para entregar aos meus filhos um mundo pior. Não sei como indivíduos tão medíocres intelectualmente conseguiram se sair vitoriosos, mas o fato é que Moro está aí, aparentemente imune a todas as evidências de suas ilegalidades reveladas pela VazaJato, e Bolsonaro segue demolindo o Estado, a democracia e a cultura apesar de já ter cometido diversos crimes de responsabilidade em apenas sete meses. A impotência diante de tudo isso não é uma sensação, mas uma realidade.

E se quem me acompanha sabe que sempre procuro encerrar meus textos com uma nota de otimismo, desta vez sinto em desapontá-las(os), mas o estoque aqui acabou. Nunca desistirei de lutar ou de denunciar o terror de Bolsonaro, mas já desisti de ter sucesso na empreitada.

Para ser sincero, mal estou conseguindo vencer o passar dos dias.

No entanto, mantenho os pés no chão e sigo caminhando. Por uma questão de sobrevivência, tento me convencer a me afastar um pouco do cotidiano do país e me concentrar no Cinema, mas me conheço o bastante para saber que esta é uma resolução que nunca dura muito tempo (se por consciência social ou por temperamento autodestrutivo, não sei).

De todo modo, peço desculpas se desaponto quem me lê. (Por outro lado, sou indiferente aos que celebram minha fragilidade; se há algo positivo em tudo isso, é que pareço ter finalmente aprendido a ignorar a opinião de canalhas.) Eu gostaria muito de ser mais resiliente, mas neste momento não consigo.

Se o Cinema antes era minha profissão, agora terá que ser meu salva-vidas. Por sorte, esta é uma função que a Arte sabe desempenhar bem.

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Update: se isto vai soar cínico ou oportunista, peço perdão e digo apenas para que ignorem, pois não é a intenção. Nunca adiciono essas coisas em meus textos, mas… enfim. CASO apreciem meu trabalho e o Cinema em Cena, convido a visitarem nossa página no Catarse em www.catarse.me/cinemaemcena. Mas caso prefiram ignorar isso, sem problema. Mesmo. Hesitei muito em acrescentar este “P.S.” e só o fiz algum tempo depois de publicar o texto porque… bom, sou assim.

Deepfakes (ou Estamos Todos Ferrados)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Vídeos | 4 comentários

Não é preciso muito para enganar os ingênuos nem aqueles que querem ser enganados. Nas últimas eleições, a mentira foi a plataforma eleitoral favorita dos vencedores – e, como é possível concluir pelo fato de terem vencido, uma estratégia eficaz. Mamadeiras com bicos em formato de pênis, kits gay, militares cubanos enviados para proteger Haddad, trouxinhas de maconha embaladas com a foto de Lula para arrecadar dinheiro para o PT… por mais absurda que fosse a mentira, não faltavam indivíduos dispostos a replicá-las usando montagens toscas, áudios amadores e imagens tiradas de contexto. Bastava uma rápida pesquisa no Google para desmascarar as farsas, mas a velocidade com que estas eram espalhadas pelo WhatsApp era imbatível.

Agora imaginem se, digamos, surgisse um vídeo no qual Lula (ou Ciro Gomes ou Marina Silva ou Boulos ou Haddad ou…) pudesse ser visto claramente dando um tapa em uma criança ou cheirando cocaína ou dizendo alguma barbaridade. Ora, se uma mera mensagem de texto já faz tantos estragos, o que um registro em áudio e vídeo poderia provocar?

Até hoje, os recursos e conhecimentos necessários para produzir um vídeo falso tornavam este tipo de fraude difícil para o uso cotidiano em campanhas eleitorais, mas o avanço dos softwares dedicados a este tipo de trabalho tem sido tão rápido que, em breve, pessoas com experiência mínima em manipulação digital poderão produzir suas próprias montagens.

Estou falando de deepfake, uma tecnologia que emprega a inteligência artificial para mapear as áreas do rosto de alguém e substitui-las pelo de outra pessoa a partir de fotos de referência. Como comentei no twitter outro dia, ainda em estamos em 2019 e os resultados alcançados já são impressionantes; quando as próximas eleições chegarem, tudo estará pronto para uma campanha repleta de imundície.

Incluo, abaixo, alguns exemplos que me impressionaram bastante (e notem, no primeiro, como a transformação do rosto de Bill Hader no de Schwarzenegger é feita com uma fluidez espantosa):

E, abaixo, um breve vídeo explicando o processo:

E aí? Exagerei no título alternativo deste post?

A Promessa e a Realidade

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Mundo, Política | 12 comentários

O mundo hoje é um lugar pior do que era há 10 anos. É triste constatar isso, já que o ideal seria seguirmos num processo de melhora coletiva como espécie, mas negar o óbvio é impossível: em todo o planeta, governos com viés nacionalista, xenofóbico e autoritário vêm assumindo o poder graças a campanhas consistentes de demonização do que é “diferente”. Insuflar o ódio é mais fácil do que estimular o afeto – o primeiro envolve apenas fechar os olhos para o próximo; o segundo, investir numa relação que reconheça o próximo como igual.

Relendo posts que publiquei no Facebook há muitos anos com o objetivo de ver o que valeria a pena arquivar neste espaço renascido, fui tomado por uma melancolia crescente ao perceber como os problemas sobre os quais escrevia em 2012 hoje soam quase triviais se comparados aos que passaram a nos atormentar. Se antes havia meia dúzia de criacionistas querendo ver dinossauros e homens convivendo em dioramas em museus de História Natural, agora há milhares de terraplanistas insistindo que a negação de sua “teoria” é resultado de uma conspiração global – e, sim, usam a palavra “global” sem aparentemente perceber a ironia da situação.

Em 2012, Bolsonaro era uma aberração vista como tal; hoje, é uma aberração que ocupa a cadeira de presidente da república. Onde erramos? Como este futuro distópico virou presente?

Particularmente, deposito parte da responsabilidade sobre as redes sociais. Há (vários) outros fatores, é claro, mas tenho convicção de que espaços como o Facebook e o Twitter tornaram possível a coordenação de narrativas falsas usadas para despertar e inflamar o medo de boa parte da população, já que este frequentemente é seguido pela raiva. Medo da “ditadura gayzista“, do comunismo (como se tivéssemos retornado à década de 50), das “feminazis” que querem destruir o patriarcado, das minorias dispostas a tomar tudo dos homens brancos cis heterossexuais.

Minha queixa não é contra a Internet em si, percebam; a democratização da informação e a facilidade na comunicação obviamente trouxeram avanços indiscutíveis – e por alguns anos gloriosos, entrar na rede representava a possibilidade de descobrir o mundo, fosse”visitando” o Louvre e apreciando suas obras, fosse pesquisando em bases de dados antes fora de alcance. Se havia um ponto negativo reconhecido universalmente, este residia no baixíssimo nível dos comentários publicados em portais e sites e que todos reconheciam como o esgoto da web.

Pois as redes sociais serviram justamente para transformar os comentários no centro da Internet.

A partir daí, todos aqueles que viviam isolados na escuridão de seus porões repletos de intolerância puderam descobrir seus pares, empoderando-se mutuamente e passando a vomitar sua irracionalidade sob a luz do dia. Aos poucos, a desinformação se tornou estratégia destes grupos e, com isso, a maior virtude da rede se perdeu à medida que a mentira passou a ocupar o mesmo espaço dos fatos. A era da pós-verdade se estabeleceu e, no meio de toda a confusão, tudo perdeu a credibilidade. E se ninguém é mais fidedigno, aqueles capazes de gritar mentiras em maior volume ganharão.

E estão ganhando.

Como conceito, a Internet era a promessa de um mundo melhor; na prática, contudo, comprovou apenas que não éramos evoluídos o bastante para lidarmos com o poder que trazia.

Acho que nunca seremos.

Lá e de volta outra vez

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Editorial, Sem categoria, Variados | 67 comentários

A escrita é fruto da prática. É como um músculo que, exercitado, se mostra capaz de carregar mais e mais peso; ignore-o, porém, e logo perceberá ter dificuldades para desempenhar tarefas antes consideradas fáceis.

Neste sentido, as redes sociais são como um sofá confortável e tentador no qual nos deitamos para um cochilo e, quando nos damos conta, doze horas se passaram: com sua natureza de gratificação instantânea, seja através de RTs ou de likes, elas seduzem também por sua efemeridade, já que, abrigando palavras que em pouco tempo ficarão no passado da timeline, estimulam certa preguiça na estruturação do texto. Um tweet, com seus 280 caracteres (ou mesmo uma thread), tem vida útil de pouco mais de meia hora, ao passo que um post no Facebook, mesmo durando um pouco mais, logo é enterrado pelo algoritmo do site.

O arquivo de um site ou de um blog, por outro lado, permanece vivo; algo embaraçoso publicado em 2012 pode ser encontrado com facilidade através não só do Google, mas das tags, da indexação por meses ou por uma navegação simples por páginas passadas. Irrelevantes ou não, os textos ficam – e ter consciência disso é um estímulo (ou uma coação) para construí-los com cuidado.

Meu primeiro blog – já chamado “Diário de Bordo” – surgiu em 2005 e, programado por meu irmão Daniel (numa era pré-templates e na qual o WordPress era tudo, menos intuitivo), logo se tornou uma de minhas plataformas favoritas. Se no Cinema em Cena eu tinha o espaço para críticas cinematográficas, no blog eu podia escrever sobre o que bem entendesse, incluindo reflexões sobre a Sétima Arte que não se encaixavam bem em lugar algum do site. Poucos anos depois, em 2008, fiz a transição para o WordPress (perdendo três anos de arquivos) e, entre junho daquele ano e julho de 2016, publiquei 1.751 posts, embora ao final estes surgissem cada vez mais espaçados.

Se antes, ao ter minha atenção capturada por algo, eu buscava desenvolver a ideia de modo cuidadoso e mais aprofundado, com o Twitter passei a disparar meia dúzia de tweets e considerar o serviço feito. Além disso, quando sentia ter mais a dizer, compunha de forma rápida um post no Facebook e clicava em “publicar”, sem encarar aquilo como algo que se tornaria parte de fato do meu histórico profissional, já que, na prática, estava produzindo conteúdo para um espaço que não era meu.

Pois agora resolvi caminhar na contramão: se vou escrever algo, que seja para um veículo que de fato me pertence; depender da boa vontade dos algoritmos da corporação de Zuckerberg é estupidez, é levar uma rasteira todos os dias e voltar a dançar perto de quem a aplica.

Assim, retomo este espaço com a esperança de que, além de tudo, me traga o estímulo necessário para escrever, escrever e escrever.

Se serei lido ou não, se aqueles habituados ao Facebook e ao Twitter se sentirão estimulados a passar por aqui com regularidade, bom… veremos. O que sei é que, destes 25 anos de estrada, quase 22 foram dedicados à construção do meu pequeno canto na Internet com o Cinema em Cena e este Diário de Bordo. E sinto que é hora de voltar a cultivá-los.

Ficarei feliz se tiver sua companhia.

Xenogenesis

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Foi com este curta-metragem que James Cameron deu início à sua carreira de diretor:

Despertares

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Supercut.

Teoria, Linguagem e Crítica – 58a. Edição – Rio de Janeiro

postado em by Pablo Villaça em cinemaemcena, Curso | 1 comente

A primeira edição do Teoria, Linguagem e Crítica em 2016 não poderia ter sido melhor: revi alunos que se tornaram amigos, amigos que se tornaram alunos, ganhei presentes (sempre é bom, né?) e passei uma semana em uma de minhas cidades brasileiras favoritas. Preciso dizer mais?

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,55 (quinquagésima-sétima); 4,48 (quinquagésima-sexta); 4,38 (quinquagésima-quinta); 4,40 (quinquagésima-quarta);  4,45 (quinquagésima-terceira);  4,43 (quinquagésima-segunda); 4,29 (quinquagésima-primeira); 4,44 (quinquagésima); 4,66 (quadragésima nona); 4,33 (quadragésima oitava); 4,48 (quadragésima sétima); 4,50 (quadragésima sexta); 4,56 (quadragésima quinta), 4,62 (quadragésima quarta), 4,51 (quadragésima terceira), 4,37 (quadragésima segunda), 4,39 (quadragésima primeira), 4,75 (quadragésima), 4,67 (Trigésima nona), 4,61 (Trigésima oitava), 4,62 (Trigésima sétima), 4,7 (Trigésima sexta), 4,53 (Trigésima quinta), 4,44 (Trigésima quarta), 4,58 (Trigésima terceira), 4,62 (Trigésima segunda), 4,54 (Trigésima primeira), 4,44 (Trigésima), 4,65 e 4,63 (Vigésima nona – Tarde e Noite), 4,49 e 4,47 (Vigésima oitava – Tarde e Noite), 4,48 (Vigésima sétima), 4,73 (Vigésima sexta), 4,51 (Vigésima quinta), 4,62 (Vigésima quarta), 4,57 (Vigésima terceira), 4,71 (Vigésima segunda), 4,64 (Vigésima primeira), 4,62 (Vigésima), 4,68 (Décima nona), 4,58 (Décima oitava), 4,20 (Décima sétima), 4,40 (Décima sexta), 4,62 (Décima quinta), 4,57 (Décima quarta), 4,47 (Décima terceira), 4,57 (Décima segunda), 4,76 (Décima primeira), 4,22 (Décima), 4,33 (Nona), 4,45 (Oitava), 4,07 (Sétima), 4,44 (Sexta) e 4,27 (Quinta). Estas avaliações incluem os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,98 
Conteúdo: 4,95
Didática: 4,95
Estrutura do curso: 4,7

Média geral: 4,64

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,87.

Para concluir, a foto tradicional de formatura. Em função do grande número de alunos, tive que dividir a turma em dois grupos para as fotos:

002s

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Uma breve história dos palavrões no Cinema

postado em by Pablo Villaça em cinemaemcena, Vídeos | Comente  

Supercut interessante que se propõe a ilustrar quando cada palavrão fez sua estreia no Cinema.