Cotidiano

Os seios de Angelina Jolie

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 87 comentários

Angelina Jolie é uma boa atriz. No entanto, quando lemos seu nome, o que nos vem à mente em primeiro lugar não são suas performances ou mesmo seu ativismo político, mas sua beleza física. Não é à toa que tantas atrizes ao longo dos anos buscaram papéis nos quais pudessem se esconder sob maquiagem pesada: ocultavam sua perfeição para que pudessem, paradoxa e finalmente, ser vistas sob esta. Somos rápidos em julgar pela aparência – e as mulheres, em particular, encontram-se frequentemente no banco dos réus: belas ou não, são avaliadas pela conformação dos ossos da face, pela pele sobre estes, pelo índice de gordura e pelas curvas. Só então – e talvez – nos preocupamos com sua essência como indivíduos.

Se isto ocorre com a secretária de nosso dentista, com a caixa do supermercado, com a advogada no fórum, com a médica no consultório e com a universitária em sala de aula, imaginem o escrutínio ao qual uma estrela internacional como Jolie é submetida – especialmente se considerarmos que seu corpo é também seu instrumento de trabalho. Para boa parte dos homens ao redor do planeta, ela não é sequer um ser humano, mas um conjunto agradável de seios, pernas e lábios. Sua personalidade é um inconveniente, não um atributo. Muitos destes machos vieram parar neste post porque o Google, enganado pelo título, respondeu suas consultas movidas a hormônio com um link equivocado.

Não que apreciar a beleza seja, por si só, algo que poderíamos classificar como “errado” – somos quem somos, afinal, e buscamos o belo por natureza. O problema surge quando esta beleza inspira o que temos de mais feio: a desumanidade.

Há pouco, Angelina Jolie anunciou, num artigo publicado no New York Times, ter se submetido a uma mastectomia dupla depois de descobrir, graças a uma avaliação genética, ter 87% de chances de desenvolver o mesmo tipo de câncer que matou sua mãe, Marcheline Bertrand, aos 56 anos de idade. Beirando os 40, Jolie decidiu que o risco era alto o bastante para justificar uma medida profilática extrema e retirou os seios. Pensou em sua saúde e em sua família, não na carreira ou na vaidade. Ser um cadáver bonito não é grande consolo.

Sua decisão, porém, imediatamente inspirou machos a saírem das cavernas em postura revoltada. No portal G1, por exemplo, os comentários – invariavelmente publicados por homens – iam do adolescente “Tomb Raider ficou sem peitos!” ao profundamente ignorante “Alguns parentes meus morreram de infarto. Agora tenho que tirar meu coração?”. Entre acusações de “falta de fé” por parte de evangélicos, Jolie também foi condenada pela “automutilação”.

Porém, foi mesmo em minha página no Facebook que li o comentário mais ilustrativo:

“Coitado do Brad Pitt.”

Por que o considerei tão simbólico? Porque, ao contrário dos demais, representa a reação imediata até mesmo de muitos homens que condenariam sem hesitar os demais comentários.

Há algum tempo, escrevi sobre minhas próprias falhas ao encarar as lutas femininas – e uma destas batalhas diz respeito justamente à tendência do universo masculino de encarar as mulheres como adorno, como peças de decoração ambulantes. Angelina Jolie é mãe de seis crianças, ativista, artista, feminista e, acima de tudo, um ser humano que naturalmente quer prolongar o máximo possível a já tão curta estadia no planeta – mas para boa parte dos homens, ela é simplesmente um brinquedo sexual com o qual fantasiar e o prêmio que Brad Pitt ganhou por ser Brad Pitt. E que agora está defeituoso, perdeu o valor, partiu-se. É um troféu amassado depois de cair da estante.

Aparentemente, 13% de chances de jamais desenvolver o câncer que já lhe custara a mãe representam uma estatística boa o bastante para justificar a manutenção de seus tão cobiçados seios. E como ela se atreve a arruinar a fantasia masculina daqueles que jamais se encontrarão sequer no mesmo edifício que a atriz – e muito menos em sua cama? Cerca de 400 mil mulheres morrem em função do câncer de mama por ano (há 50 mil casos novos por ano só no Brasil), mas, para muitos machos, estes números se traduzem não em vidas perdidas, mas apenas em 800 mil seios a menos no mundo.

Ler as reações à decisão absolutamente pessoal de Angelina Jolie é ter acesso a um mundo de chauvinismo e falta de empatia. É retornar não à década de 50, mas à Idade Média. É perceber a infinidade de homens que enxergam o corpo feminino como um objeto que possuem – mesmo que apenas para admiração à distância.

É esquecer que Angelina Jolie – ou qualquer outra mulher – é muito mais do que um par de seios.

Graças à Ciência, a atriz agora poderá respirar com mais tranquilidade por ter melhorado suas chances de acompanhar o crescimento dos filhos. Pena que não haja medida profilática (ou mesmo tratamento) para o câncer de caráter. Muitos homens se beneficiaram de algo assim.

Update: Poucos dias depois de Jolie anunciar a dupla mastectomia, sua tia morreu em função do mesmo tipo de câncer de mama que matou sua mãe.

O Vazio que Fere

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 10 comentários

A morte é um espaço subitamente vazio em nosso cotidiano. De um momento para outro, os itens mais prosaicos ganham contornos míticos: uma poltrona que costumava oferecer descanso às pernas de quem partiu assume a característica de um trono vacante; a pasta que carregava se torna um símbolo de sua vida; o celular agora abandonado, um catálogo de memórias, relacionamentos e compromissos para sempre adiados.

Solitário, o quarto se converte num museu, num santuário: ali a pessoa amada deitava-se todas as noites para sonhar; naquela cadeira no canto sentava-se para ler (e ainda me lembro de sua expressão concentrada diante dos versos de Drummond); no armário, as roupas colecionadas ao longo da vida carregam seu cheiro e mesmo os vincos formados pelas dimensões particulares de seu corpo.

Sobre a mesa do escritório, os fósseis de suas preocupações rotineiras: um bloco de anotações com telefones desconhecidos que devem ter lhe parecido terrivelmente importantes mesmo que por alguns segundos, contas de gastos agora misteriosos, um nome (“Fabrícia”) que pode significar qualquer coisa ou nada. Provavelmente algo.

O último livro adotado da imensa estante encontra-se no centro da escrivaninha, com um pequeno vão entre as páginas 192 e 193 indicando as últimas palavras lidas de uma narrativa que permanecerá em suspenso.

Cada aposento da casa é um pequeno memorial. A mesa de jantar revela seu assento costumeiro, que adotava por apreciar a maneira com que a luz vinda da janela se derramava à sua frente; a tevê ainda sintoniza seu canal de filmes favorito. Uma breve consulta à programação do receptor do cabo revela uma pequena lista de atrações que havia programado para gravar: sua tola série policial (“É meu guilty pleasure.”), dois filmes de John Ford e, como um estranho invasor, um reality show sobre culinária. Se nos esforçarmos, podemos visualizar seu rosto concentrado ao apertar os botões do controle remoto, que sempre lhe pareciam um pequeno desafio tecnológico, e sua satisfação ao perceber que conseguira registrar os programas.

Que agora continuariam inéditos.

O copo sujo na pia da cozinha traz a marca de seus lábios agora para sempre cerrados. As frutas compradas dias antes e escolhidas com tanto cuidado agora apodrecerão como seu corpo.

A escova de dente, ainda úmida, revela a preocupação com aquelas que serão as partes remanescentes de seu cadáver.

Sua ausência súbita grita por toda a casa.

Neste sentido, a morte não é muito diferente do fim de um amor. Lembranças de um cotidiano de sorrisos, beijos, orgasmos, experiências compartilhadas e afeto são despertadas não apenas pelas óbvias cartas e mensagens de texto, mas também pelos mais improváveis elementos: um vídeo no YouTube que traz o comediante Norm MacDonald destruindo de improviso a ex-estrela de uma série adolescente; uma canção do Wilco ou do David Bowie; o som insistente de um app de mensagens do iPhone; a foto de um tênis sujo.

Esta é a maior angústia do luto: mergulhar quem o experimenta em um estado de espírito sempre susceptível a um golpe inesperado do passado. Sentimo-nos bem, curados, até mesmo felizes – e, do nada, uma besteira qualquer dispara aquele espaço da mente especializado em nos torturar com a perda sofrida, transformando o estômago em uma bola de ferro, enviando calafrios ao longo da coluna e arrancando lágrimas de lamento pela ausência de quem a morte ou um novo amor levou.

E percebemos, então, que todo aquele espaço não se encontra de fato vazio, mas repleto de saudades.

Triste mundo…

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Política | 9 comentários

… no qual o presidente de um país importante como os Estados Unidos precisa divulgar uma foto sua disparando uma espingarda para provar para os eleitores que gosta de armas, como se isto fosse uma virtude.

(Às vezes, o twitter faz falta. Só às vezes.)

Microconto verídico

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 1 comente

Toca o interfone. Atendo.

“Poderia falar com o homem da casa, por favor?”

Fico intimidado. E, envergonhado, respondo:

“Ele não está.”

Um Romance em 31 Tweets – Uma História Real

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 24 comentários

Noite de 9 de janeiro de 2013. Voo da United Airlines São Paulo-NY. Ainda na pista do aeroporto em Guarulhos.

9:37pm: “No avião, bela moça senta ao meu lado e IMEDIATAMENTE puxa papo. “Yes!”, penso. Dois minutos depois, ela descobre estar no lugar errado.”

9:38pm: “Agora puxou papo com o cara do assento atrás do meu, seu novo vizinho. Como pode me trair assim, bela do 19L?”

9:39pm: “Este foi o relacionamento platônico mais breve que já mantive. Bitch.”

9:40pm: “Aposto que ele vai te magoar, Bela do 19L. Ele tem voz de canalha.”

9:41pm: “É possível ser feliz conformando-se com um relacionamento? Sim, claro que é. Mas também é muito triste.”

9:42pm: “Quando se der conta de seu erro, Bela do 19L, será tarde demais. Já estou de olho na Loira do 17G.”

9:47pm: “‘Já viajei muito pros EUA e pro Canadá. Meu próximo destino é a Suécia.’, diz o Canalha do 19K. Pedante e insuportável.”

9:47pm: “Mas a Bela do 19L parece impressionada. Hum.”

9:49pm: “Ah, Bela do 19L, como pode ser tão volúvel? Depois de nossos dois lindos minutos juntos.”

9:53pm: “Vou stalkear o Facebook da Bela do 19L. Mas e se ela mudar o status para ‘Em um Relacionamento Sério com o Canalha do 19K’? Ficarei arrasado.”

9:55pm: “O Canalha do 19K não para de falar. É obviamente apaixonado pela própria voz.”

9:56pm: “‘A cidade fica a uma hora e meia de Toronto’, entreouço o Canalha do 19K dizer. ‘É muito linda. É onde nasceu o Justin Bieber’.”

9:57pm: “‘Onde nasceu o Justin Bieber’?!? Você deveria se dar ao respeito, Bela do 19L.”

9:59pm: “Vou inclinar minha poltrona para trás e deixá-lo desconfortável. De quebra, poderei ver a Bela do 19L pela fresta do assento.”

10:00pm: “‘Você vai ficar onde em Manhatman?’, perguntou o Canalha do 19K. E, sim, ele disse ‘Manhatman’.”

10:02pm: “‘O que você me recomenda visitar em Manhatman’?, perguntou a Bela do 19L. O Canalha do 19K é o anti-professor.”

10:03pm: “Oh. My. Fucking. God.”

10:04pm: “Ela perguntou o que a namorada dele faz. Subtexto clássico para perguntar se ele tem namorada. Ah, Bela do 19L, como pôde?”

10:05pm: “Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. REVIRAVOLTA!!!!”

10:07pm: “‘Meu namorado é advogado’, respondeu o Canalha do 19K. E, juro, engasguei com a água ao ouvir isso.”

10:10pm: “ESTOU TÃO FELIZ!”

10:12pm: “O Gente Boa do 19K é meu novo melhor amigo, embora não saiba disso.”

10:13pm: “Silêncio absoluto na fila de trás. A conversa morreu.”

10:15pm: “Vamos decolar em breve. Vai ser um longo voo pra Bela do 19L. Já eu me concentrarei na Loira do 17G. Quem sabe não saímos em Manhatman?”

Manhã seguinte, 10 de janeiro de 2013, sala de desembarque do aeroporto de Newark:

9:44am: “Enquanto espero a mala ao lado da esteira de bagagem, a Bela do 19L se aproxima: ‘Fez um bom voo?’, pergunta. ‘Fiz. Você?'”

9:46am: “Ela: ‘Ai, o cara do meu lado não parava de falar!’ (Pausa) ‘Você vai ficar em Manhatman?'”

9:47am: “Penso por alguns segundos e relembro nostálgico nossa história. Fomos felizes naqueles dois minutos, não fomos, Bela do 19L?”

9:48am: “Mas não adianta. Nosso amor já não pode mais ser. Ficará como uma lembrança triste de algo que não existiu, que morreu no berço.”

9:49am: “Tomo uma decisão. Olho para a Bela do 19L e, depois de um segundo de hesitação, digo: ‘Vou ficar na casa do meu namorado’.”

9:50am: “Por um milissegundo, registro a reação no rosto da Bela do 19L. É isso aí, moça – todos os homens do mundo são gays. Ao menos os seus.”

9:50am: “THE END”

Walter Navarro tenta parar o Tempo

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Série Jornalistas, Variados | 57 comentários

Tenho amigos queridos que trabalham no jornal O Tempo. Mais do que queridos: jornalistas talentosos que fazem o melhor trabalho possível em suas respectivas áreas. Não irei citá-los por não achar justo relacioná-los, mesmo que perifericamente, ao que discutirei abaixo, mas saliento que o caderno Magazine, em especial, é fruto de um trabalho de incrível competência e amor por parte de seus responsáveis.

E é por esta razão que Walter Navarro merece ir para a rua. Não apenas por vomitar preconceitos e, no processo, se apresentar ao mundo como um ser humano absolutamente repugnante, mas por sujar, praticamente sozinho, as páginas do caderno que seus colegas tão brilhantemente criam. E é por esta razão, também, que não escrevi uma linha sequer sobre o texto incrivelmente estúpido de José Robert Guzzo publicado na Veja sobre o movimento LGBT: está na Veja, que, historicamente, encontra-se sempre do lado errado de qualquer questão sobre a qual se manifeste – e é impossível poluir algo que já atingiu níveis tóxicos. (Além disso, Jean Wyllys já publicou a resposta definitiva a Guzzo.)

Neste sentido, Navarro é o cadáver em putrefação que flutua num lago límpido (eu iria compará-lo a outra coisa flutuante, mas isto apenas descreveria o que ele carrega na mente) e que precisa ser removido antes de contaminar a água de forma irremediável.

Em primeiro lugar, o contexto: em sua coluna semanal no jornal O Tempo – e cuja existência já me impressiona há tempos, já que o sujeito obviamente não sabe escrever, sendo péssimo não apenas em estilo, mas em gramática, ortografia e retórica -, Walter Navarro decidiu falar sobre um tema espinhoso que normalmente deveria ser deixado a cargo de pessoas que possuem algum conhecimento mínimo sobre História, Sociologia ou Caráter: a tragédia envolvendo os Guarani-Kaiowá, que, expulsos das próprias terras e mantidos distantes de suas raízes culturais em um pedaço minúsculo de chão que mal lhes permite a sobrevivência, publicaram uma carta chocante e comovente sobre a situação na qual se encontram.

Entra Walter Navarro, com a sensibilidade típica de um homem incapaz de compreender qualquer coisa que se mostre distante de sua realidade imediata.

Tem coisa mais chata, hipócrita, brega e programa de índio que este pessoal do Facebook adotando o nome Guarani Kaiowá?“, começa o colunista em seu espaço em O Tempo – e até aqui posso compreender suas motivações. De fato, o cyberativismo rende patetices risíveis e perigosas – e não são poucos aqueles que alteram seus sobrenomes por alguns dias no Facebook para manifestar uma “causa” que descobriram na web enquanto acreditam que isto os tornará admiráveis e engajados, quando, na verdade, apenas torna-os ainda mais passivos. Não digo, com isso, que todos que o fazem são “tolos” ou “ingênuos” (como alguns inicialmente interpretaram), mas apenas que este tipo de manifestação não deve substituir um envolvimento mais ativo nas causas defendidas.

Infelizmente, esta primeira frase é a única no texto de Navarro que faz algum sentido – o restante é uma enxurrada de imbecilidades, preconceitos e da mais profunda ignorância. Com um tom que ele acredita ser irreverente, mas que soa apenas como a mais profunda intolerância, o sujeito inclui afirmações como “Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, “Índio bom é índio morto”! “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”“; grafa “Barack (Obama)” como “Barak” (isto num jornal!); chama Rita Lee de “maconheira” para tentar desqualificar uma de suas letras pró-Índios; e arremata um longo e tolo parágrafo com a inacreditável sentença de que “Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra”.

De acordo com Walter Navarro, este grande antropólogo, historiador e filósofo, “(…)o Brasil é assim, uma mistura de índios flatulentos com criminosos portugueses“. E encerra, orgulhoso de seu “humor” que levaria até mesmo Rafinha Bastos a considerá-lo ofensivo: “A vadiagem dos guaranis kaiowá pelo menos é lucrativa. Ontem, troquei um canivete suíço (falso) por várias toras de mogno de sua reserva

Se J.R. Guzzo não fosse apaixonado por cabras, eu sugeriria que procurasse Walter Navarro, o asno. O filhotinho resultante desta união despertaria interesse de cientistas em todo o planeta e daria início a uma nova espécie: Intolerantis imbecilicus.

– X –

A repercussão do texto de Navarro, claro, assustou os donos de O Tempo, levando a um editorial claramente apavorado visando controlar os danos. Infelizmente, as palavras do editor Vittorio Medioli são atrasadas, poucas e leves demais. Embora diga que O Tempo errou ao permitir a publicação do texto, que traz “linguagem chula” (aparentemente, o grande problema da coluna, em sua visão), ele afirma que defenderá a permanência de Navarro como colaborador. Ora, considerando que Medioli é também fundador de O Tempo, isto não é defesa, é decisão.

O curioso é que, no mesmo editorial, ele escreve que insistiu “para “mais uma oportunidade” em outras ocasiões”, apontando o que todos já sabem: Navarro faz há muito tempo este tipo de discurso odioso. Quem acompanha o jornal já leu suas colunas misóginas, homofóbicas e racistas.

Para justificar a manutenção do sujeito, Medioli diz que o jornal defende “a liberdade de expressão”. Ora, ninguém está sugerindo que Navarro seja amordaçado ou impedido de se manifestar. Por outro lado, oferecer a ele uma plataforma para que divulgue suas ideias é algo reprovável e perigoso. Abomino Bolsonaro, por exemplo, mas não pretendo impedi-lo de jorrar seu ódio – mas tampouco ofereceria a ele uma coluna no Cinema em Cena.

Demitir um colunista como Walter Navarro não é cercear a liberdade de expressão; é apenas exibir discernimento suficiente para reconhecer que, em 2012, discursos como os dele são anacrônicos e inaceitáveis, denunciando uma natureza que merece o ostracismo, não divulgação. Homens como Walter Navarro devem ser encontrados berrando insanamente seu ódio e preconceito sobre um caixote no centro da cidade, não escrevendo (mal e porcamente) nas páginas de um jornal como O Tempo.

Update importante: um leitor aponta nos comentários abaixo que o editorial de Medioli é de 2010, o que comprova o que escrevi acima: Navarro já há muito espalha ódio nas páginas de O Tempo. Resta saber se o jornal continuará a ser leniente com o sujeito. Considerando que já assumiram publicamente os problemas provocados pelo colunista, a partir de agora só posso considerar os editores de O Tempo cúmplices do odioso “articulista” que sustentam.

Update 2: Em sua página no Facebook, o jornal O Tempo publicou o seguinte post por volta da meia-noite de hoje: “Informamos que o jornal O TEMPO decidiu afastar o colunista Walter Navarro do seu quadro de colunistas e que a Sempre Editora não compactua com nenhum tipo de preconceito e/ou manifestação preconceituosa. Reforçamos, assim, o nosso compromisso com o bom jornalismo.”

Ok, parece uma boa notícia. No entanto, o que exatamente é “afastar”? Demissão? Suspensão temporária? Com pagamento ou sem? Ou é apenas colocá-lo na geladeira até que todos se esqueçam de mais esta abominação que publicou nas páginas do jornal? Até que isto fique claro, hesitarei em celebrar.

No Metrô

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 18 comentários

Não era possível que ele realmente a estivesse olhando daquela forma. Há quase cinco minutos, porém, ele parecia fitá-la com concentração absoluta, como se ela fosse a única mulher naquele vagão de metrô. Ela já desviara os olhos, girara a cabeça para esconder o rosto, tentara enterrar-se sob o livro que carregava, mas, ao voltar a encará-lo, o olhar do homem mantinha-se nela.

A princípio, ao perceber o sujeito e confirmar ser o objeto de sua devotada atenção, sentira-se irritada. Avaliou estar sendo medida, estudada, julgada – o de hábito. Gradualmente, contudo, notou que a expressão do outro não era nenhuma daquelas normalmente associadas aos olhares que recebia: suas sobrancelhas não estavam congeladas num franzir crítico, seus lábios não traziam um sorriso de deboche e seus olhos não traíam reprovação. Ele apenas… a observava. Atentamente. Durante um microssegundo ela tivera mesmo a impressão de captar um leve aceno de cabeça, como se ele estivesse aprovando o que via.

Isto não era possível, claro. Ninguém a “aprovaria” apenas ao vê-la. Conversando, talvez – caso ignorassem seus dentes amarelos e irregulares -, mas não simplesmente pelo olhar.

Não era bonita e sabia disso. Sempre soubera. No passado, isto a incomodara muito. Ora, “incomodara”! Muito mais que isso: a fizera sofrer. Agora, no entanto, era apenas um fato de sua vida. Era feia e pronto. Não pensava mais nisso do que pensava, por exemplo, que sua cor favorita era o amarelo.

Para começo de conversa, era grande demais. Não alta, mas grande, com seus ombros largos e braços fortes. Com um metro e oitenta e oito centímetros de altura, sempre estivera duas ou três cabeças acima de praticamente todos os seus colegas de escola, sentindo-se constantemente aberta ao escrutínio alheio, como se a natureza a tivesse criado alta para expor ao mundo seu rosto nada gracioso.

E que o homem no metrô continuava a estudar.

Crescera ouvindo que “beleza era subjetiva” – algo que apenas crianças feias escutavam. Estava certa, porém, que não havia subjetividade que a tornasse bela. O nariz grosseiro, que herdara do pai, terminava num bulbo rosado e dividido ao meio por um vinco que apenas ressaltava seu tamanho – e que contrastava com os lábios excessivamente finos que por muitos anos ela tentara aumentar com delineadores e batons até finalmente desistir ao perceber que a boca era o menor de seus problemas. O queixo quadrado que, também dividido por uma linha profunda (e igualmente vindo do pai), se projetava adiante num ar desafiador a incomodava muito mais – e não havia maquiagem que pudesse disfarçá-lo. Da mesma maneira, as sobrancelhas grossas, que ela antes domara graças a horas de dor e depilação, agora cresciam sem controle, formando dois severos arcos sobre os olhos verdes que puxara sabe-se lá de quem apenas como uma piada de mau gosto do universo, levando-a a entreouvir, ao longo dos anos, diversas variações do comentário “Que desperdício, aqueles olhos!”.

Não se lembrava de quando chorara pela última vez ao ouvir algo assim. Nem raiva sentia mais; apenas cansaço.

Levantou os olhos do livro e novamente se surpreendeu ao perceber que o escrutínio persistia. Normalmente, àquela altura lançaria um olhar desafiador ao mal educado, mas nesse instante notou algo que a impediu de fazê-lo: seu coração estava disparado.

Experimentou um misto de surpresa e raiva diante da descoberta. Havia sofrido muito até conseguir anestesiar até mesmo seus reflexos involuntários. Não se permitia fantasias românticas ou mesmo reflexões sobre sua solidão.

Nunca tivera um namorado. Mesmo quando mulheres tão ou mais feias que ela encontravam seus pares em homens igualmente pouco atraentes (embora, vez ou outra, um sujeito bonito conseguisse enxergar algo único sob a aparência de uma conhecida desengonçada), ela permanecia sozinha em função de sua altura, que acabava por afastar até mesmo o menos exigente dos rapazes. Em uma única ocasião, tentara tomar a iniciativa e abordar um conhecido do bairro, mas o sorriso de escárnio, seguido pela vergonha de ser ridicularizada junto aos amigos deste, a haviam desestimulado de repetir o esforço. Com o passar dos anos, abandonara a pretensão de ser amada ou desejada. Masturbava-se de quando em quando ao sentir a alfinetada inesperada do desejo, mas não conferia muita atenção àquilo. Sabia de mulheres que tratavam a masturbação como um verdadeiro ritual, acendendo velas, tomando vinho e ligando alguma música, mas para ela, quanto menos tempo gastasse naquilo melhor, já que não conseguia evitar um certo sentimento de humilhação no auto estímulo, como se aquilo fosse o reconhecimento de que os únicos dedos que buscariam seu corpo seriam os seus próprios. Sonhava em atingir um ponto no qual não sentisse mais a necessidade do orgasmo.

Não era uma criatura amarga, contudo. Era capaz de rir e de se divertir com a família e os amigos. Amava os sobrinhos, filhos de seus dois irmãos mais jovens, e adorava ouvi-los dizer a palavra “tia”. Não saía com frequência, mas apenas por estar sempre exausta – e quando o fazia, contava e ouvia casos, gargalhava com piadas e aproveitava o momento como desculpa para crer-se feliz.

Gostava de morar sozinha e agora, aos 42 anos, julgava-se incapaz de dividir o pequeno apartamento com quem quer que fosse – homem ou mulher, amiga ou namorado. Não que corresse qualquer risco de que esta última opção se apresentasse.

Fingiu olhar o relógio e, em seguida, voltou-se sutilmente para onde o homem se sentava.

Sentiu-se profundamente desapontada ao encontrar o banco desocupado. Não o vira descer. Mas também que diferença faria se…

Ele agora sentava-se diretamente à sua frente. Mudara de lugar, atravessando o corredor, para ficar ali, próximo e diante dela.

O sujeito sorriu.

Agora seu corpo reagia enlouquecidamente, como se, após anos de anestesia emocional auto imposta, houvesse se esquecido de como deveria se comportar numa situação como aquela. Se sua mente fosse uma central de comando militar, luzes vermelhas de “Alerta!” estariam piscando rapidamente enquanto todos entravam em modo de pânico.

O coração disparado e o frio na barriga, ela compreendia; a vontade súbita de ir ao banheiro, nem tanto. Sua respiração tornara-se tão forte e os batimentos cardíacos, tão acelerados, que ela temia que ele pudesse perceber seu peito saltando sob a blusa.

O que ele queria, afinal? Era uma aposta feita com colegas que agora riam em algum lugar do vagão? Estudou todos os passageiros ao seu redor e não notou nada de atípico. Todos pareciam perdidos em si mesmos; a única exceção era o homem que a olhava.

Sentiu a blusa grudar em seu corpo com o suor nervoso que agora escorria por suas costas. Percebeu a testa úmida e enxugou-a com o dorso da mão, que em seguida secou na calça jeans escura que vestia. Passara a adotar o preto com frequência em seu vestuário desde que engordara, pois isto permitia que fugisse de roupas largas para gordos e usasse outras mais justas sem que as dobras flácidas de seu abdômen chamassem muito a atenção sob o tecido.

Algo que o suor agora expunha com crueldade através de manchas úmidas horizontais que desenhavam cada pequena banha sob a malha.

Puxou a barra da blusa para baixo e ajeitou-se no assento. Estava cada vez mais incomodada com o olhar do sujeito, mas, ao mesmo tempo, não queria que aquilo acabasse. Não tinha qualquer dúvida, agora: ela era o foco dele e a expressão que nele se apresentava era de… aprovação. Como isto podia ser realidade, não sabia, mas tinha certeza de sua interpretação: ele gostava do que via.

Ajeitou os cabelos e lamentou não ter voltado a pintá-los nos últimos meses. Sabia que não era bonita, mas também não precisava descuidar-se tanto. Aliás, se se esforçasse, poderia até mesmo parecer uns cinco anos mais jovem e isto já seria alguma coisa.

Depois de meses (anos?) sem pensar verdadeiramente em sua aparência, voltava agora a fazê-lo graças a alguns minutos sob o olhar de um estranho. Alguns instintos jamais morriam, pelo visto – por mais que soubesse de seu valor como mulher (mais: como ser humano!) e não se permitisse definir pela míope opinião alheia, agora queria desesperadamente ser aprovada por um indivíduo cuja existência lhe era desconhecida até três ou quatro estações atrás. Seria possível que algo inesperado assim acont…

“Tudo bem?”, ele disse repentinamente, sempre sorrindo.

Ela hesitou. Deveria responder o cumprimento ou fingir (apenas fingir) ignorá-lo? Talvez fosse melhor se

“Tudo”, surpreendeu-se dizendo.

“Posso?”,  ele perguntou, apontando para o lugar vazio ao seu lado. Ela acenou com a cabeça, tentando parecer indiferente, mas sabendo que traíra um largo sorriso.

“Meu nome é Ricardo. Você é…?”

Ela respondeu.

“Bonito nome.”

Ela sorriu, ciente de que se tratava de uma mera cortesia. Seu nome não era mais bonito ou feio do que qualquer outro.

 “Não sei se notou”, ele prosseguiu, “mas estou te observando há algum tempo.”

“Ah, é?”. Tentou simular surpresa, mas sua voz soou trêmula aos próprios ouvidos.

“É.”

“Hum”. Avaliou se deveria fingir voltar ao livro ou dizer algo. “Por quê?”

“Porque te achei muito interessante.”

Ela permaneceu muda, mas sentiu o coração atingir uma pulsação alta o suficiente para que pudesse escutá-lo ressoar em seu crânio.

“Muito interessante mesmo”, ressaltou o homem.

“Ah.”

“Alguém já deve ter dito isso para você, claro.”

“É.”, ela disse, sem saber o que responder.

“Imaginei.”

O ar no vagão parecia tornar-se rarefeito. Queria sair correndo e também permanecer ali.

Subitamente, um cartão surgiu na mão do sujeito. Ele o estendeu em sua direção e, sem entender muito bem o que ocorria, ela o segurou.

RICARDO MOURA
agente

Ela o encarou sem compreender.

“Sou de uma agência de modelos”, ele explicou. “Mas não uma agência comum. Se as outras agências se preocupam com modelos magras, loiras, que se parecem dublês de Barbie, nós nos especializamos em modelos de carne e osso. Pessoas com rostos reais.”

Ela sentiu o frio na espinha que, velho conhecido, a alertava para mais uma decepção.

“E você é perfeita para um comercial para o qual estamos escalando modelos nesse momento. É uma campanha grande para um clube de férias popular.”

“Popular.”

“Sim.”

“Você quer dizer… para gente feia.”

Ele riu de uma maneira que parecia tentar soar simpática.

“Claro que não. Mesmo porque você não tem nada de feia.”

Ela detectou a brevíssima pausa que denunciava a mentira.

“Popular é só isso: popular. Rostos comuns. Nada de Giseles Bündchens ou atrizes globais.”

Ela fingiu estudar o cartão apenas para não ter que encará-lo e denunciar sua dor.

“Bom… eu desço na próxima estação. Mas fique com meu cartão. Se tiver interesse, me ligue. Acho que tem boas chances de estar no filme. E o cachê é bom: 350 reais por um dia.”

Ele levantou-se e estendeu a mão, que ela apertou sem vontade.

“A gente se fala, espero.”

Dez segundos depois, ela encontrava-se novamente sozinha no vagão em movimento. O queixo tremia e as lágrimas eram contidas apenas pela raiva. Não do tal Ricardo, mas de si mesma, que, tola, mais uma vez permitira-se ser vulnerável à opinião alheia. Ela era melhor do que isso. Independia do mundo.

Ou assim queria pensar.

“Rostos reais” era um eufemismo, sabia. E o seu era o mais real dos rostos.

Ergueu-se e, equilibrando-se em meio aos solavancos do trem, aproximou-se da porta. No vidro, viu refletida a imagem grandalhona e grosseira que jamais aprendera a apreciar.

Olhou novamente para o cartão.

Aparecer na tevê seria tão ruim assim, afinal? Sabia que, no mínimo, isto seria assunto para algumas divertidas conversas com amigos e em reuniões familiares.

Rostos reais.

A porta à sua frente se abriu.

Ela guardou o cartão no bolso traseiro e pisou no chão da estação.

Herzog no metrô do Rio

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Cotidiano | 12 comentários

Hoje peguei o metrô no Rio no horário de pico. Despreparado para o que aconteceria, vi surpreso uma multidão correndo desesperada para dentro dos vagões em busca dos poucos bancos disponíveis. Fiquei com uma vontade irresistível de colocar algumas câmeras capazes de gravar imagens em centenas de frames por segundo para capturar a corrida por um lugar para sentar.

Posso imaginar perfeitamente a cena: de dentro do vagão vazio, vemos as portas se abrindo lentamente e as pessoas, em câmera lentíssima, se acotovelando e entrando aos empurrões. Cortamos para uma câmera no alto do vagão que, apontando para os bancos, mostram detalhes da disputa.

Entra a voz de Werner Herzog:

“It’s an spectacle of glory and survival. The inescapable need for a place to sit drives men, women and children to the edge of hostility, while the cold metal of the train is touched by hands looking for support in their fight and the hard surface of the sits waits for the asses of the winners”.

Orgulhosa efemeridade

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Vídeos | 10 comentários

Olhe-se no espelho. Sim, agora. Concentre-se nos seus olhos. Agora sorria para si mesmo. Estou certo de que, tenha você 18 ou 60 anos, reconheceu ali um pouco de quem foi anos atrás. E também de que percebeu o quanto mudou em pouco tempo.

Somos uma raça de vida breve. Se usamos a expressão “anos de cachorro” para transmitir o conceito de uma existência acelerada na proporção de 7 para 1, qualquer árvore, pedra ou grão de areia poderia conceber, se conscientes fossem, a ideia de “anos de humano” para demonstrar um ritmo ligeiro de passagem sobre o planeta. Para o universo, somos tão duradouros quanto moscas.

Pensei nisso ao assistir ao curta holandês abaixo, que cobre 100 anos de vida em um período de 150 segundos. Pedindo apenas que seus modelos dissessem suas idades para a câmera, o realizador expõe, de forma incrivelmente tocante, a brevidade de nossas existências – em um momento, vemos o rosto redondo, bochechudo e de olhos grandes de um bebê incapaz de dizer “um”; instantes depois, um senhor cuja calva parece prestes a se desfazer diante de nossos olhos, tamanha sua fragilidade, expele o número “95” com clara dificuldade. No entanto, o mais tocante é perceber como saltamos da aparência juvenil de pele viçosa às rugas e bolsas sob os olhos com rapidez: aos 20, vida, jovialidade e energia; aos 40, certo cansaço sob o sorriso; aos 60, resignação diante do envelhecimento; aos 80, manchas senis, flacidez e exaustão; aos 100, orgulho incontido por ter chegado tão longe.

Somando todos os modelos, 5.050 anos de experiências coletivas e amadurecimento. E ainda assim, apenas um bipe na história do planeta. Por outro lado, se quantificarmos as dores, alegrias, amores e desapontamentos por eles colecionados, perceberemos, tocados, a riqueza de nossa espécie.

(Via meu amigo Scott Jordan Harris.)

Meu breve retorno ao teatro

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 12 comentários

Muitos de vocês provavelmente não saibam disso (mesmo os que me acompanham há algum tempo), mas sou ator profissional. Aposentado, digamos, mas com registro no SATED e na carteira de trabalho. Comecei nos palcos aos 14 anos e me mantive ativo no teatro até os 25 anos, quando uma série de fatores pessoais me levaram a um desencantamento progressivo com a atividade e a abandonei. Até então, vinha me envolvendo cada vez mais com a profissão, chegando a ganhar um prêmio SESC/SATED por uma peça infantil que escrevi e cuja assistência de direção assinei; em 1999, saí sem olhar para trás depois de participar por dois anos da montagem original daquela que se tornou a peça de maior sucesso da história do teatro mineiro: “Acredite, um Espírito Baixou em Mim”.

Ontem, vivi um flashback. Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, produtores e astros do Espírito, me convidaram para a leitura de mesa de um novo texto que estão cogitando montar. Não posso revelar o título, obviamente, mas é uma comédia divertidíssima que provocou risos e mais risos durante a leitura. Fiquei responsável por um personagem relativamente grande e muito bom: inocente, divertido, tapado e trágico ao mesmo tempo. Senti o velho prazer de buscar inflexões que servissem a cada fala (mesmo que já numa primeira leitura, sem qualquer preparação), em imaginar a postura do personagem em cada momento e também suas motivações de cena para cena.

Nunca me considerei um excelente ator, é verdade; era eficiente, mas não espetacular. No entanto, surpreendi-me ontem ao perceber como havia sentido falta de flexionar os músculos da interpretação.

Não sei se levarei isso adiante; foi apenas uma primeira leitura, o personagem é uns dez anos mais velho do que eu, é possível que o espetáculo não seja montado ou que meus compromissos profissionais me impeçam de participar da empreitada. Além disso, foi apenas uma leitura de mesa; não havia compromisso algum de estar no elenco. Foi uma brincadeira, um momento de leveza.

De todo modo, bateu uma nostalgia forte dos tempos em que eu ouvia, da coxia, os três sinais antes de cada espetáculo e entrava em cena para dar vida a uma ficção.