Cotidiano

Tristeza por mais um aluno

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Curso | 15 comentários

Há cerca de 18 meses, lamentei aqui a morte de um aluno de Porto Alegre, que se matou depois de romper com a namorada. Foi um baque, já que me lembrava claramente do jovem e de sua curiosidade durante o curso. É sempre um choque testemunhar o desperdício de uma vida cheia de potencial – e toda vida, especialmente em seu início, encerra em si um potencial magnífico -, mas quando este desperdício é autoinflingido, a sensação se torna particularmente angustiante.

Digo isso porque acabo de receber a notícia de que um outro aluno cometeu suicídio há alguns dias. A pedido da pessoa que me informou, não direi seu nome ou mesmo a edição do curso feita por ele a fim de evitar que alguém o identifique – mas vê-lo na foto de “formatura” do Teoria Linguagem e Crítica, com  sua juventude estampada no rosto, e pensar que já não existe é algo que… bom, dói.

Pode parecer absurdo dizer que depois de 1.060 alunos nos últimos dois anos me importo com o destino de um deles em específico, mas, sim, me importo. Na realidade, eu lamentaria a notícia mesmo que jamais tivesse cruzado seu caminho, mas saber que compartilhava um amor profundo pelo Cinema, que dividimos o mesmo espaço por uma semana e que de certa forma fiz parte de sua vida é algo que, confesso, me faz sentir… afetado pessoalmente. E, ao mesmo tempo, me faz desejar voltar no tempo, dar um cascudo em sua cabeça e dizer “Nem pense nisso. Há solução para tudo. E digo isso com a experiência de alguém que toma anti-depressivos há anos e que também já pensou em suicídio”.

“O suicídio é uma solução permanente para um problema temporário”, disse alguém – e concordo com isso em gênero, número e grau.

O lugar de um jovem não é sob a terra, mas correndo sobre esta a perseguir seus sonhos.

Queria poder ter dito isso ao meu aluno, mas faço isso agora para os outros 1.058. Vocês são únicos, lembrem-se disso – e, consequentemente, valiosíssimos.

Somos humanos, não um canal de notícias

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Mundo | 29 comentários

Há alguns dias, um blogueiro famoso morreu precocemente em função de problemas crônicos de saúde. Eu não o conhecia e tampouco o lia, mas a reação à sua partida me chamou a atenção. Em um primeiro momento, dezenas (talvez centenas) de tweets se espalharam com palavras do tipo:

“Morreu FulanodeTal. Muito triste. #FulanodeTal #RIP”
“Arrasado com a morte de FulanodeTal. Descanse em paz! #FulanodeTal #RIP”

E assim por diante. O que mais me intrigou, no entanto, foi perceber que, minutos depois, aquelas mesmas pessoas seguiam suas mensagens de “arrasado” e “muito triste” com outras que diziam algo como

“Vazou o novo episódio de Glee!!!!!!”
“Ai, bati o dedão no sofá. PQP essa merda! rsrssrsrs”

Confesso que senti dificuldades em conciliar imagens tão contrastantes: a de alguém chateado com a morte de um jovem e a de uma pessoa excitada pelo lançamento do episódio semanal de uma série. Especialmente considerando a justaposição imediata destes sentimentos.

Isto me remeteu ao que ocorreu há cerca de um mês e meio, quando o crítico mineiro Marcelo Castilho Avellar faleceu. Chateado e surpreso com sua morte súbita, postei vários tweets, publiquei um post e comentei o ocorrido no Facebook (além, claro, de conversar com diversos amigos em comum pelo telefone). Mesmo em meio à mostra de SP, decidi não publicar qualquer outro tweet sobre os filmes daquele dia, já que não me senti à vontade para tanto – e, para meu espanto, não tardou até que começasse a receber mensagens de leitores através das redes sociais dizendo que “ok-já-haviam-entendido-que-eu-estava-chateado-com-a-morte-do-“sujeito”-e-será-que-por-favor-eu-poderia-mudar-de-assunto-antes-que-me-dessem-unfollow?”. Talvez eu não devesse me surpreender com este tipo de reação, mas a verdade é que não só me surpreendi como fiquei chocado. Quem eram aquelas pessoas? Que caráter monstruoso era esse?

A resposta, claro, é que eram pessoas comuns que provavelmente nada tinham de monstruosas. Eram apenas pessoas agindo com a frieza habitual da Internet.

Em um mundo no qual a comunicação se dá primordialmente através de toques num teclado dirigidos a nicks numa tela de computador, muitos acabam se esquecendo de que por trás daqueles apelidos há pessoas e que as palavras digitadas provocam efeitos reais sobre elas. De “sociais”, redes como Facebook e Twitter trazem apenas a característica de associação entre pessoas, mas é um erro crasso acreditar que esta ligação se dá em qualquer nível além do mais superficial. Há algum tempo, por exemplo, profundamente chateado com a informação que havia recebido de que Leon Cakoff estava à beira da morte, cometi o erro de ventilar o lamento no Facebook – mas como não seria certo divulgar o estado de saúde do criador da Mostra sem autorização de sua família, escrevi algo como “Muito chateado por saber que logo receberemos uma notícia trágica”. Em questão de segundos, uma leitora respondeu: “E aí? Vai fazer cu doce e não vai contar pra gente o que é?”.

Meu equívoco, claro, foi confundir contatos do Facebook com “amigos”; achar que se importariam com meu estado de espírito e não com o valor de fofoca da informação que eu tão “egoisticamente” negara a eles. Sim, há contatos que ainda se comportam como seres humanos, manifestam empatia, sensibilidade e calor humano, mas não são a regra. Além disso, há a impessoalidade implícita na própria natureza da comunicação virtual – algo que vem se disseminando, infelizmente, para o mundo real. 

Lembro-me, por exemplo, de quando a mãe de um amigo que reside em outro estado faleceu, há alguns meses, e liguei para manifestar meu pesar por sua perda. Depois de me ouvir, meu amigo disse: 

– Como é bom ouvir a voz de alguém dizendo isso.

Espantado, já que sabia como ele é uma figura querida e cheia de amigos, perguntei o que queria dizer:

– Recebi mensagens de texto pelo telefone a manhã inteira, mas só duas ou três pessoas me ligaram de verdade.

“De verdade” sendo a expressão-chave. Como alguém pode acreditar que enviar um SMS é o mesmo que buscar fazer uma conexão real com alguém? Sim, é mais cômodo – especialmente em situações potencialmente desconfortáveis como conversar com alguém que acabou de perder a mãe, mas gaguejar de forma desajeitada pelo telefone enquanto buscamos o que dizer é certamente melhor do que enviar uma mensagem eloquente sobre luto e perseverança frente à morte; um simples gaguejar diz mais sobre seu lamento diante do sofrimento do próximo do que a melhor das frases de efeito.

Às vezes, penso que estamos nos esquecendo de que somos humanos, não avatares. E certamente este “esquecimento” já se aplica à maneira com que enxergamos muitos dos que nos cercam. Somos invulneráveis no mundo virtual – e também frequentemente frios. Insultamos alguém e ameaçamos “cuspir em sua cara” se o “encontrarmos”, mas basta que a pessoa do outro lado se ofereça para um encontro real que o valente virtual alega não querer “perder tempo” – dedicando-se, em vez disso, a vandalizar a página do “inimigo” na wikipedia. (Sim, história verídica.)

É fácil ser cruel, altruísta, apaixonado, generoso ou ativista na Internet. Mas não vivemos na Internet, vivemos?

Antes nos permitíamos tempo para sentir. A morte de alguém querido ou admirado era abraçada como um sentimento digno de ser experimentado, processado, sentido. Hoje recebemos a notícia, a expurgamos num tweet e imediatamente nos entregamos a outro assunto. Se antes apenas o jornalismo vivia num ciclo contínuo de 24 horas, cuspindo trivialidades para preencher todos os espaços de sua programação, agora estamos nos transformando em indivíduos que seguem este mesmo ciclo, como se precisássemos de estímulos contínuos para nos sentirmos vivos e relevantes – e nem mesmo a morte, a mais definitiva das notícias, pode interromper este fluxo. Nossos corações podem estar partidos, mas nossas mentes parecem exibir aquelas legendas que percorrem a base das telas dos canais jornalísticos: “Morreu FulanoDeTal **** Nova foto de Anne Hathaway como Mulher-Gato sai na Internet **** Luana Piovani alfineta atriz global **** Mulher maltrata cachorro em vídeo no YouTube **** Ouça o novo hit de…”.

Uma hashtag não substitui uma pessoa. Somos mais que nossos nicks.

In memoriam

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 52 comentários

Quando descobri sua existência, você já estava morta há uma semana.

Foi ao folhear um jornal que vi seu rosto feliz e sorridente me cumprimentar. Bonita e com um brilho intenso nos olhos, você parecia repleta de vida, sonhos e energia – algo que contrastava tragicamente com a moldura que destacava sua foto e um convite à missa de Sétimo Dia organizada em sua memória.

Por alguma razão, não consegui desviar os olhos de seu retrato: como num transe, estudei cada traço, cada detalhe, cada elemento que pudesse me dar uma pista de quem você foi. Nascida em março de 1985, você tinha 26 anos de idade quando deixou de existir – um destino cruel que a sua versão alegre da foto fazia soar ainda mais injusto. Será que ao posar para aquela imagem com tamanha felicidade passou por sua mente a assustadora possibilidade de que ela ilustraria o pior dos convites? Em algum instante de sua juventude invencível você considerou que jamais chegaria a deixá-la para trás?

Fechei o jornal depois de alguns minutos, mas não conseguia parar de pensar em você. O que a teria tirado do mundo? Teria sofrido em função de alguma doença lenta e sádica? Teria partido depois de padecer por alguns dias graças a um mal inexplicável? Morrera sem nem se dar conta do que acontecera em um acidente de trânsito? 

Quem foi você?

Tomado por um impulso inexplicável e inédito, posto que sempre fujo da morte (mesmo de desconhecidos), corri à Internet para tentar descobrir o que havia perdido – ainda que jamais houvesse tido a chance de tê-la em primeiro lugar. Digitei seu nome no Google e encontrei 412 pegadas de sua breve existência. Uma rápida história de quem você foi e do que começou a construir: seu nome na lista de aprovados para o curso de Direito de uma boa universidade, em 2002 (imaginei seu salto de alegria ao descobrir-se naquela relação); o convite online para sua formatura, anos depois (uma conquista que você certamente celebrou mesmo com um leve receio acerca das responsabilidades que sua vida adulta lhe traria); clippings com autos de processos que traziam seu nome, ao lado do título de “advogada”, já no início de sua atuação profissional.

Mas vi também fotos suas em festas, cercada por amigos e parentes: aqui, erguia dois dedos num sinal de vitória enquanto abraçava uma colega; ali, surgia dançando com um rapaz loiro que a segurava pela cintura. As imagens me conduziram até seu álbum no Orkut, que, intitulado “2011!!!”, indicava sua recepção calorosa àquele que seria seu derradeiro ano e que figuraria ao lado do símbolo fatal que apontaria a data de sua morte – uma realidade que, a julgar por sua euforia nos retratos ali contidos, provavelmente lhe pareceria impossível, uma piada de mau gosto, apenas um pesadelo distante.

Continuei minha busca por quem você foi: no Facebook, sua foto do perfil já fora trocada pela reprodução do chamado à sua missa de sétimo dia – uma tarefa simples que deve ter provocado uma dor indizível naquele que a executou. Ali, entre seus “interesses e atividades”, uma página de apoio a Serra que me fez lembrar de que não deveria idealizá-la, que me forçou a constatação de que, viva fosse, talvez não aprovasse minha defesa da candidatura Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, como descobrir sua adoração por Alexandre Dumas pai, Asimov e Machado e não flertar com a ideia de que nossos gostos literários similares contornariam nossas divergências políticas?

Mas não: o aviso de que você estava “em um relacionamento sério” apontava que outro homem já sonhara com você e a alcançara de alguma maneira. Senti uma ponta de ciúme ao pensar que ele tivera a oportunidade de conhecê-la, de encantá-la, de fazê-la sorrir, mas também me compadeci da dor que ele agora sentia por não tê-la mais ao seu lado, arrancada de seus braços por uma tragédia que, independentemente de sua razão, não deveria ter lugar em uma vida que durara apenas 26 anos.

Ao final, não descobri o que a levou ou mesmo quem você foi de fato, mas sofri por sua partida.

E por saber que o que resta de você agora são apenas as memórias daqueles que te amaram e os poucos traços que a Internet conservou de sua breve trajetória no planeta.

Simetria

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Vídeos | 8 comentários

Não me lembro quem recomendou este vídeo (identifique-se! foi meu amigo Bruno Carvalho, do Ligado em Série), mas… muito obrigado. 🙂

Preto Velho, modelo temperamental

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Fotos, Variados, Viagens | 49 comentários

Sempre que venho a Salvador, vou ao Pelourinho – e como tenho parentes por aqui, isto ocorre com certa freqüência. No entanto, jamais me canso daquele espaço histórico, maravilhoso, colorido, que combina a imponência dos séculos e a miséria absoluta. Faz parte da experiência de ir ao Pelourinho olhar para um lado e perder o fôlego diante da beleza castigada da região apenas para olhar na direção oposta e perder o fôlego diante da tristeza de ver um “sacizeiro” (como são chamadas aqui as crianças viciadas em crack) tentando descolar trocados para comprar mais uma pedra que contribuirá para mandá-lo jovem para debaixo da terra. É um espetáculo trágico ambientado num palco de cores belas.

Mas divago.

O fato é que todas as vezes que vou ao Pelourinho, sou atraído pela figura marcante de um senhor que, sempre sentado na mesma posição do lado de dentro de uma janela, parece observar a vida com uma indiferença (ou cansaço) curiosa, sem jamais se esforçar para vender o rapé que a placa diante de si anuncia com tamanha pompa. E considerando a insistência de todos os representantes do comércio local, só isto já seria o bastante para torná-lo ímpar. Mas há mais: sua própria figura parece exalar uma autoridade antiga de quem viu muito e sabe muito, transformando sua indiferença não em apatia, mas em uma espécie de exaustão vinda de alguém que já sabe há décadas que não há solução para a natureza humana.

Ou talvez eu esteja romantizando tudo e a simples verdade seja a de que ele tem um rosto muito bacana.

De todo modo, sempre que o via ali, sentia vontade de fotografá-lo. Em 2009, quando ainda tinha uma câmera fraquinha, arrisquei-me até a registrá-lo de longe, mas a qualidade da imagem, claro, era terrível. Assim, desta vez não pensei muito antes de me dirigir à ruela na qual sempre o encontrei – e à medida que me aproximava, senti o coração disparar com medo de não encontrá-lo mais ali. Talvez ainda não tivesse chegado. Talvez tivesse mudado de lugar. Talvez tivesse morrido.

Ele estava na mesma janela de sempre. E em sua aparentemente estatuesca posição. Respirei aliviado.

Comecei a pensar em como fotografá-lo. De modo geral, não gosto muito de fotografar pessoas, mas quando alguém me interessa, tento fazer um registro sem que o “modelo” perceba, já que detesto fotografias nas quais o retratado olha para a câmera de forma artificial. É o movimento natural do cotidiano que me atrai, fotógrafo amador que sou. Posteriormente, posso até me aproximar da pessoa e perguntar inocentemente se ela se importa que eu a fotografe (algo que raramente é negado, o que acho curioso) – e já com a autorização, simplesmente bato uma foto para atirá-la na lixeira digital, já que a imagem que me interessava já havia sido capturada.

Com isso em mente, entrei na loja em frente à janela do senhor, que se identificava na placa como “Preto Velho”, para tentar fotografá-lo sem que visse. Expliquei minha intenção para a vendedora, que me alertou:

– Então tome cuidado mesmo para que ele não veja, porque ele fica bravo quando tiram foto dele.

Era o que eu não queria ouvir. Porque agora, sabendo que ele não gostava de ser fotografado, eu não me sentia mais à vontade para tirar a foto sem permissão. A saída seria obter uma.

Aproximei-me do Preto Velho:

– Tudo bom com o senhor?

– Tudo.

– Bacana, a loja do senhor.

– …

– O senhor vende só rapé?

– E cigarro.

– Ah. Hum. (…) Vejo sempre o senhor por aqui. Está aqui há muito tempo, né?

– 95 anos.

E aí soltei uma expressão tipicamente mineira que, em retrospecto, foi um erro grotesco:

– Mentira!

– Por que eu iria mentir que tenho 95 anos? – respondeu ele, já irritado.

– Não… não foi isso… eu… não, não. É que… o que eu quis dizer é que o senhor não parece ter 95 anos. Eu… não daria mais de 70 para o senhor! É isso!

– …

– Meu nome é Pablo. – falei, estendendo a mão. Ele a apertou com preguiça.

– Meu nome é Domingos.

– Prazer em conhecê-lo, seu Domingos.

– …

– Então. O senhor… é… quanto é o rapé?

– 25 reais. – informou ele, pegando um vidrinho minúsculo. Por este preço, imaginei que o rapé fosse de ouro.

– 25 reais?

– É, mas isso aqui cura tudo.

Ele despejou o pó na palma da mão direita e, com dois dedos da mão esquerda, pegou um punhado do farelo e enfiou nas narinas. Em seguida, apanhou mais um bocado e estendeu a mão para enfiar o rapé no meu nariz. Pego de surpresa, recuei num susto.

Ele me olhou com indiferença.

– Eu… agradeço muito, seu Domingos, mas não cheiro rapé. Eu não cheiro nada, na verdade. Quer dizer… bom… nada, nada, não. Claro que cheiro outras coisas. Quero dizer… perfume, essas coisas. Eu tenho olfato, é o que eu quero dizer. Mas… hum.. rapé eu não… (suspiro exausto)

Desastre. Eu havia me transformado num idiota incoerente. Ele devia estar perdendo a fé nas gerações mais jovens num ritmo exponencial, agora.

Decidi me arriscar.

– Posso tirar uma foto do senhor?

– Não.

– (…) Por que, seu Domingos?

– Só se você comprar rapé. Aí eu te deixo tirar uma foto.

– Mas, seu Domingos, eu não cheiro rapé.

– Então sem foto.

– O senhor não tem nada mais barato aí, não?

– Não. Só rapé.

Pensei em desistir. Mas… 95 anos de idade. Eu não podia.

– E se eu pagar… não sei… dez reais para o senhor só para tirar uma foto?

Sem olhar na minha direção, ele respondeu imediatamente:

Uma foto.

Vitória.

– Errr… o senhor tem troco para vinte?

Ele me encarou com olhar assassino, mas me entregou uma nota de dez.

Afastei-me da janela tenso. Tentei encontrar a melhor posição, o melhor quadro, o melhor tudo rapidamente, antes que ele mudasse de idéia. Turistas e locais atravessavam na minha frente dificultando o trabalho. Ajustei a luz, a exposição, o quadro e disparei. Sem pensar, fiz o que qualquer um na minha posição faria automaticamente e me preparei para uma segunda foto.

– Não!

– Hein?

– Você já tirou a foto. Era uma só.

– Mas seu Domingos…

Mas ele já havia coberto o rosto com a mão e virado na outra direção. Sem se virar para mim, acenou um “vá embora”.

Derrotado e finalmente descobrindo como os fotógrafos que tentam trabalhar com Naomi Campbell se sentem, enfiei a câmera na bolsa e me afastei.

E descobri que, curiosamente, agora amava um pouco aquele velhinho.

Rio, 7 de Abril de 2011

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 1 comente

Um homem entra numa escola e dispara contra crianças. Mata ao menos 12 delas, fere outras 22 pessoas e, acuado pela polícia, tira a própria vida.

E ficamos todos em choque, buscando explicações. Mas não há explicações. Não há lógica. Não há razão que possa conferir sentido a algo assim. Como humanos que somos, ficamos desnorteados, confusos, desesperados por uma justificativa que nos acalme, que nos certifique de que somente algo absolutamente aleatório e absurdo poderia acontecer assim.

Algo que nos faça dormir à noite pensando que não, isto não voltará a acontecer. Foi um caso isolado, uma aberração. O sujeito era louco, “estranho”, estava influenciado por pensamentos religiosos fundamentalistas, era HIV positivo, ex-aluno da escola que atacou e possivelmente cultivava rancores com relação à instituição. Certamente uma conjunção de fatores como estes só ocorre uma vez. Respiremos aliviados.

Mas não podemos fazer isso, podemos? Porque não se trata de um caso isolado de fato. Atos aparentemente aleatórios de violência ocorrem todos os dias, em escalas maiores ou menores de brutalidade, movidos ou não por religião, política, futebol, sexo, dinheiro ou pela previsão do tempo. Somos uma matilha de sete bilhões de indivíduos – número mais do que suficiente para abrigar todo tipo de personalidade, das mais admiráveis às puramente sociopatas.

Não há razão para o que ocorreu. Há apenas doze crianças mortas, doze famílias destruídas e outras tantas que jamais se recuperarão completamente do que viveram hoje.

E há também as dezenas, centenas, milhares de pessoas que, vivendo no Rio ou a fronteiras de distância, buscam ajudar através de mensagens de apoio, de retuítes de informações sobre doações de sangue ou mesmo carregando as crianças ensanguentadas em direção ao hospital.

Somos uma raça estranha, mas de natureza essencialmente bondosa. Acredito nisso. Se não acreditasse, não teria tido filhos. Tragédias como a de hoje nos fazem desesperançosos e estimulam a hipérbole pessimista, mas o impiedoso assassino que nos devastou hoje não pode – e não merece – ter o poder de se estabelecer como retrato da espécie humana. Em vez disso, concentremo-nos na ação dos que buscam confortar e auxiliar aqueles que ele atingiu em corpo ou espírito (e falo aqui simbolicamente) e lamentemos e honremos as doze jovens vidas que ele tirou e que representam uma perda irreparável.

Estas crianças merecem ser lembradas pelo que foram e pelo que prometiam ser, não pelo indivíduo que as impediu que fossem.

Rio, 07 de Abril de 2011

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados | 62 comentários

Um homem entra numa escola e dispara contra crianças. Mata ao menos 12 delas, fere outras 22 pessoas e, acuado pela polícia, tira a própria vida.

E ficamos todos em choque, buscando explicações. Mas não há explicações. Não há lógica. Não há razão que possa conferir sentido a algo assim. Como humanos que somos, ficamos desnorteados, confusos, desesperados por uma justificativa que nos acalme, que nos certifique de que somente algo absolutamente aleatório e absurdo poderia acontecer assim.

Algo que nos faça dormir à noite pensando que não, isto não voltará a acontecer. Foi um caso isolado, uma aberração. O sujeito era louco, “estranho”, estava influenciado por pensamentos religiosos fundamentalistas, era HIV positivo, ex-aluno da escola que atacou e possivelmente cultivava rancores com relação à instituição. Certamente uma conjunção de fatores como estes só ocorre uma vez. Respiremos aliviados.

Mas não podemos fazer isso, podemos? Porque não se trata de um caso isolado de fato. Atos aparentemente aleatórios de violência ocorrem todos os dias, em escalas maiores ou menores de brutalidade, movidos ou não por religião, política, futebol, sexo, dinheiro ou pela previsão do tempo. Somos uma matilha de sete bilhões de indivíduos – número mais do que suficiente para abrigar todo tipo de personalidade, das mais admiráveis às puramente sociopatas.

Não há razão para o que ocorreu. Há apenas doze crianças mortas, doze famílias destruídas e outras tantas que jamais se recuperarão completamente do que viveram hoje.

E há também as dezenas, centenas, milhares de pessoas que, vivendo no Rio ou a fronteiras de distância, buscam ajudar através de mensagens de apoio, de retuítes de informações sobre doações de sangue ou mesmo carregando as crianças ensanguentadas em direção ao hospital.

Somos uma raça estranha, mas de natureza essencialmente bondosa. Acredito nisso. Se não acreditasse, não teria tido filhos. Tragédias como a de hoje nos fazem desesperançosos e estimulam a hipérbole pessimista, mas o impiedoso assassino que nos devastou hoje não pode – e não merece – ter o poder de se estabelecer como retrato da espécie humana. Em vez disso, concentremo-nos na ação dos que buscam confortar e auxiliar aqueles que ele atingiu em corpo ou espírito (e falo aqui simbolicamente) e lamentemos e honremos as doze jovens vidas que ele tirou e que representam uma perda irreparável.

Estas crianças merecem ser lembradas pelo que foram e pelo que prometiam ser, não pelo indivíduo que as impediu que fossem.

A diferença que 10 segundos fazem

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina | 22 comentários

Hoje eu estava subindo uma longa rua do Caiçara, um bairro de Belo Horizonte, para buscar Luca na casa de um amiguinho. Devia estar a uns 50-60 km/h – não muito devagar, mas tampouco correndo -, quando um carro que se encontrava estacionado a uns 30 metros adiante arrancou subitamente e entrou na minha frente. Como não estava tão próximo assim, reduzi rapidamente a velocidade e nem sequer passei um susto.

Porém, comecei a pensar: “Porra, precisava entrar assim na frente? É óbvio que ele me viu pelo retrovisor e percebeu que eu estava me aproximando com relativa rapidez. Pra que entrar na frente assim só para não me deixar passar? Que cara fominha. Bom, mas talvez ele esteja com pressa pra chegar em algum lugar. E não me custou nada, diminuir um pouco. E nem estou com pressa ou atrasado, então… e daí que tive que diminuir? Faria alguma diferença chegar 10 ou 20 segundos antes lá? Não faria. Então ficar nervoso pra quê? Besteira minha”.

E foi exatamente neste momento que um carro desrespeitou todas as regras de trânsito, placas de “Pare”, leis de preferência e o bom senso ao simplesmente atravessar  sem aviso a rua que subíamos bem à nossa frente, obrigando o motorista que havia arrancado na minha frente a frear bruscamente para não bater.

Em outras palavras: caso ele tivesse me deixado passar – e considerando a velocidade na qual eu me encontrava -, eu provavelmente estaria passando justamente naquele cruzamento no momento em que o outro motorista irresponsável/inconseqüente/criminoso atravessasse por ali sem aviso, atingindo com violência o meu lado do carro.

Sem saber, o “fominha” evitara que eu sofresse um acidente e me machucasse provavelmente com seriedade.

10 segundos e a história seria outra.

Obrigado, fominha.

No táxi

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano | 27 comentários

Estava em um táxi indo ao shopping Gávea, no Rio, quando um executivo de cerca de 45-50 anos, bem vestido e carregando uma bela pasta, fez sinal para o motorista. Coincidentemente, o trânsito parou neste momento e o veículo acabou encostando perto do sujeito, que, depois de iniciar o movimento para abrir a porta do carro, me viu a bordo. Com irritação, exclamou:

– Não é possível! Esses caras ocupam os táxis todos!

Como ele havia praticamente berrado aquilo na minha cara, me inclinei na direção da janela e perguntei:

– O senhor quer que eu desça pra que possa subir?

Ele me olhou espantado, sem saber o que dizer. Por um segundo, pareceu mesmo considerar a possibilidade, mas, então, talvez percebendo que eu havia sido irônico (e aqui ressalto o “talvez”), deu um passo para trás, de volta para a calçada, e respondeu:

– Não… hum. Não precisa. Eu pego outro táxi.

Fiquei comovido com sua generosidade. Mas ainda assim, passei o resto do dia me perguntando quem seriam “esses caras” entre os quais me incluo.

Tristeza por um ex-aluno

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Curso | 33 comentários
De janeiro de 2009 até agora, 450 alunos (sim, número redondo) passaram pelo meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica. Não posso afirmar que me lembro de todos, logicamente, mas posso garantir que gravei a maior parte deles na memória. 
 
Acabo de receber a notícia que um deles cometeu suicídio ontem. Um dos integrantes da inesquecível turma de Porto Alegre. Não vou expor seu nome neste espaço por não saber como sua família reagiria a isso (creio que desaprovariam), mas lembro-me dele como um menino (20 anos) quieto, tímido (ao menos na sala de aula) e que veio conversar comigo praticamente ao fim de todas as aulas para tirar algumas dúvidas ou fazer comentários referentes ao que havíamos acabado de discutir. Lembro-me de brincar com ele por achá-lo muito diferente da foto que exibia no twitter e também por julgar que seu nick não condizia com sua idade. E também lembro-me de que, no último dia de aula, ele chegou com os cabelos completamente alterados em relação aos dias anteriores, o que me levou a brincar com a mudança.
 
20 anos não é idade para morrer. Especialmente desta forma. 
 
É claro que, com tantos alunos, eventualmente eu "perderia" algum. Mas ainda assim permaneço chocado. E entristecido. Muito. Mantenho um carinho imenso por muitas das pessoas que conheci nestes últimos dois anos – e ver uma delas partindo assim é algo que me faz sacudir a cabeça em incredulidade e certa desilusão.
 
Há muito para se viver. Há muito a se descobrir. Nada é tão terrível que não possa ser contornado. Não quando se tem saúde, juventude e amigos.
 
Meu amor vai pra ele e sua família.