Mundo

A Promessa e a Realidade

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Mundo, Política | 12 comentários

O mundo hoje é um lugar pior do que era há 10 anos. É triste constatar isso, já que o ideal seria seguirmos num processo de melhora coletiva como espécie, mas negar o óbvio é impossível: em todo o planeta, governos com viés nacionalista, xenofóbico e autoritário vêm assumindo o poder graças a campanhas consistentes de demonização do que é “diferente”. Insuflar o ódio é mais fácil do que estimular o afeto – o primeiro envolve apenas fechar os olhos para o próximo; o segundo, investir numa relação que reconheça o próximo como igual.

Relendo posts que publiquei no Facebook há muitos anos com o objetivo de ver o que valeria a pena arquivar neste espaço renascido, fui tomado por uma melancolia crescente ao perceber como os problemas sobre os quais escrevia em 2012 hoje soam quase triviais se comparados aos que passaram a nos atormentar. Se antes havia meia dúzia de criacionistas querendo ver dinossauros e homens convivendo em dioramas em museus de História Natural, agora há milhares de terraplanistas insistindo que a negação de sua “teoria” é resultado de uma conspiração global – e, sim, usam a palavra “global” sem aparentemente perceber a ironia da situação.

Em 2012, Bolsonaro era uma aberração vista como tal; hoje, é uma aberração que ocupa a cadeira de presidente da república. Onde erramos? Como este futuro distópico virou presente?

Particularmente, deposito parte da responsabilidade sobre as redes sociais. Há (vários) outros fatores, é claro, mas tenho convicção de que espaços como o Facebook e o Twitter tornaram possível a coordenação de narrativas falsas usadas para despertar e inflamar o medo de boa parte da população, já que este frequentemente é seguido pela raiva. Medo da “ditadura gayzista“, do comunismo (como se tivéssemos retornado à década de 50), das “feminazis” que querem destruir o patriarcado, das minorias dispostas a tomar tudo dos homens brancos cis heterossexuais.

Minha queixa não é contra a Internet em si, percebam; a democratização da informação e a facilidade na comunicação obviamente trouxeram avanços indiscutíveis – e por alguns anos gloriosos, entrar na rede representava a possibilidade de descobrir o mundo, fosse”visitando” o Louvre e apreciando suas obras, fosse pesquisando em bases de dados antes fora de alcance. Se havia um ponto negativo reconhecido universalmente, este residia no baixíssimo nível dos comentários publicados em portais e sites e que todos reconheciam como o esgoto da web.

Pois as redes sociais serviram justamente para transformar os comentários no centro da Internet.

A partir daí, todos aqueles que viviam isolados na escuridão de seus porões repletos de intolerância puderam descobrir seus pares, empoderando-se mutuamente e passando a vomitar sua irracionalidade sob a luz do dia. Aos poucos, a desinformação se tornou estratégia destes grupos e, com isso, a maior virtude da rede se perdeu à medida que a mentira passou a ocupar o mesmo espaço dos fatos. A era da pós-verdade se estabeleceu e, no meio de toda a confusão, tudo perdeu a credibilidade. E se ninguém é mais fidedigno, aqueles capazes de gritar mentiras em maior volume ganharão.

E estão ganhando.

Como conceito, a Internet era a promessa de um mundo melhor; na prática, contudo, comprovou apenas que não éramos evoluídos o bastante para lidarmos com o poder que trazia.

Acho que nunca seremos.

Somos humanos, não um canal de notícias

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Mundo | 29 comentários

Há alguns dias, um blogueiro famoso morreu precocemente em função de problemas crônicos de saúde. Eu não o conhecia e tampouco o lia, mas a reação à sua partida me chamou a atenção. Em um primeiro momento, dezenas (talvez centenas) de tweets se espalharam com palavras do tipo:

“Morreu FulanodeTal. Muito triste. #FulanodeTal #RIP”
“Arrasado com a morte de FulanodeTal. Descanse em paz! #FulanodeTal #RIP”

E assim por diante. O que mais me intrigou, no entanto, foi perceber que, minutos depois, aquelas mesmas pessoas seguiam suas mensagens de “arrasado” e “muito triste” com outras que diziam algo como

“Vazou o novo episódio de Glee!!!!!!”
“Ai, bati o dedão no sofá. PQP essa merda! rsrssrsrs”

Confesso que senti dificuldades em conciliar imagens tão contrastantes: a de alguém chateado com a morte de um jovem e a de uma pessoa excitada pelo lançamento do episódio semanal de uma série. Especialmente considerando a justaposição imediata destes sentimentos.

Isto me remeteu ao que ocorreu há cerca de um mês e meio, quando o crítico mineiro Marcelo Castilho Avellar faleceu. Chateado e surpreso com sua morte súbita, postei vários tweets, publiquei um post e comentei o ocorrido no Facebook (além, claro, de conversar com diversos amigos em comum pelo telefone). Mesmo em meio à mostra de SP, decidi não publicar qualquer outro tweet sobre os filmes daquele dia, já que não me senti à vontade para tanto – e, para meu espanto, não tardou até que começasse a receber mensagens de leitores através das redes sociais dizendo que “ok-já-haviam-entendido-que-eu-estava-chateado-com-a-morte-do-“sujeito”-e-será-que-por-favor-eu-poderia-mudar-de-assunto-antes-que-me-dessem-unfollow?”. Talvez eu não devesse me surpreender com este tipo de reação, mas a verdade é que não só me surpreendi como fiquei chocado. Quem eram aquelas pessoas? Que caráter monstruoso era esse?

A resposta, claro, é que eram pessoas comuns que provavelmente nada tinham de monstruosas. Eram apenas pessoas agindo com a frieza habitual da Internet.

Em um mundo no qual a comunicação se dá primordialmente através de toques num teclado dirigidos a nicks numa tela de computador, muitos acabam se esquecendo de que por trás daqueles apelidos há pessoas e que as palavras digitadas provocam efeitos reais sobre elas. De “sociais”, redes como Facebook e Twitter trazem apenas a característica de associação entre pessoas, mas é um erro crasso acreditar que esta ligação se dá em qualquer nível além do mais superficial. Há algum tempo, por exemplo, profundamente chateado com a informação que havia recebido de que Leon Cakoff estava à beira da morte, cometi o erro de ventilar o lamento no Facebook – mas como não seria certo divulgar o estado de saúde do criador da Mostra sem autorização de sua família, escrevi algo como “Muito chateado por saber que logo receberemos uma notícia trágica”. Em questão de segundos, uma leitora respondeu: “E aí? Vai fazer cu doce e não vai contar pra gente o que é?”.

Meu equívoco, claro, foi confundir contatos do Facebook com “amigos”; achar que se importariam com meu estado de espírito e não com o valor de fofoca da informação que eu tão “egoisticamente” negara a eles. Sim, há contatos que ainda se comportam como seres humanos, manifestam empatia, sensibilidade e calor humano, mas não são a regra. Além disso, há a impessoalidade implícita na própria natureza da comunicação virtual – algo que vem se disseminando, infelizmente, para o mundo real. 

Lembro-me, por exemplo, de quando a mãe de um amigo que reside em outro estado faleceu, há alguns meses, e liguei para manifestar meu pesar por sua perda. Depois de me ouvir, meu amigo disse: 

– Como é bom ouvir a voz de alguém dizendo isso.

Espantado, já que sabia como ele é uma figura querida e cheia de amigos, perguntei o que queria dizer:

– Recebi mensagens de texto pelo telefone a manhã inteira, mas só duas ou três pessoas me ligaram de verdade.

“De verdade” sendo a expressão-chave. Como alguém pode acreditar que enviar um SMS é o mesmo que buscar fazer uma conexão real com alguém? Sim, é mais cômodo – especialmente em situações potencialmente desconfortáveis como conversar com alguém que acabou de perder a mãe, mas gaguejar de forma desajeitada pelo telefone enquanto buscamos o que dizer é certamente melhor do que enviar uma mensagem eloquente sobre luto e perseverança frente à morte; um simples gaguejar diz mais sobre seu lamento diante do sofrimento do próximo do que a melhor das frases de efeito.

Às vezes, penso que estamos nos esquecendo de que somos humanos, não avatares. E certamente este “esquecimento” já se aplica à maneira com que enxergamos muitos dos que nos cercam. Somos invulneráveis no mundo virtual – e também frequentemente frios. Insultamos alguém e ameaçamos “cuspir em sua cara” se o “encontrarmos”, mas basta que a pessoa do outro lado se ofereça para um encontro real que o valente virtual alega não querer “perder tempo” – dedicando-se, em vez disso, a vandalizar a página do “inimigo” na wikipedia. (Sim, história verídica.)

É fácil ser cruel, altruísta, apaixonado, generoso ou ativista na Internet. Mas não vivemos na Internet, vivemos?

Antes nos permitíamos tempo para sentir. A morte de alguém querido ou admirado era abraçada como um sentimento digno de ser experimentado, processado, sentido. Hoje recebemos a notícia, a expurgamos num tweet e imediatamente nos entregamos a outro assunto. Se antes apenas o jornalismo vivia num ciclo contínuo de 24 horas, cuspindo trivialidades para preencher todos os espaços de sua programação, agora estamos nos transformando em indivíduos que seguem este mesmo ciclo, como se precisássemos de estímulos contínuos para nos sentirmos vivos e relevantes – e nem mesmo a morte, a mais definitiva das notícias, pode interromper este fluxo. Nossos corações podem estar partidos, mas nossas mentes parecem exibir aquelas legendas que percorrem a base das telas dos canais jornalísticos: “Morreu FulanoDeTal **** Nova foto de Anne Hathaway como Mulher-Gato sai na Internet **** Luana Piovani alfineta atriz global **** Mulher maltrata cachorro em vídeo no YouTube **** Ouça o novo hit de…”.

Uma hashtag não substitui uma pessoa. Somos mais que nossos nicks.

A Garota no Chuveiro de Alfred Hitchcock

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Mundo, Variados | 10 comentários

Janet Leigh e Hitchcock afirmaram repetidas vezes, ao longo dos anos, que o corpo visto durante a clássica cena do chuveiro em Psicose pertencia mesmo à atriz e que nenhuma dublê de corpo fora usada. Com o passar do tempo e a repetição constante, a mentira acabou ganhando tom de verdade, mas o fato é que, sim, uma outra garota emprestou o corpo à cena em todos os planos nos quais o rosto de Leigh não podia ser visto: a ex-coelhinha da Playboy Marli Renfro.
 
Que morreu assassinada anos depois ao ser vitimada por um maluco obcecado por Psicose.
 
Tragédia no mínimo curiosa, certo? Ora, provavelmente um filme poderia ser feito somente a partir deste incidente, mas representaria mais uma mentira relacionada aos bastidores de Psicose. Não, a verdade é ainda mais fascinante: recentemente, um jornalista determinado a escrever um livro sobre o crime descobriu que Renfro se encontrava viva e completamente ignorante com relação à sua suposta morte – e que, na realidade, a vítima havia sido uma certa Myra Davis.
 
Que trabalhara como stand-in de Renfro no set de Psicose.
 
Em outras palavras: decidido a matar a dublê de corpo de Janet Leigh no clássico de Hitchcock, o assassino acabou vitimando por engano a stand-in da ex-coelhinha.
 
Agora a cereja do bolo: o jornalista que desvendou o caso foi Robert Graysmith – o mesmo que escreveu um livro sobre suas investigações relacionadas ao Zodíaco e que foi interpretado por Jake Gyllenhaal no filme de David Fincher. Com isso, dois grandes filmes sobre serial killers acabaram se tornando relacionados num caso sobre um assassino verdadeiro e vítimas com identidades trocadas. 
 
Contagem regressiva para o anúncio de um projeto baseado no livro de Graysmith (que dá título a este post): 10… 9… 8…
 
(Leia o artigo original aqui.)

A depressão como mecanismo evolutivo?

postado em by Pablo Villaça em Mundo | 19 comentários

Eu ia jogar esse link no Twitter, mas considerando a longa e interessante (e franca) discussão relativa à depressão que tomou conta desse blog há alguns dias, achei que valeria a pena postá-lo aqui para que possam debatê-lo.

Em resumo: dois cientistas estão defendendo, através de argumentos lógicos (com ou sem aspas, como preferirem) e de avaliações relativas a neurotransmissores e funções neurológicas, que a depressão é um mecanismo evolutivo moderno ao permitir que as pessoas se concentrem na resolução de problemas em vez de se distraírem com o convívio social, com o sexo e até mesmo com a alimentação.

É claro que, no processo, os dois estão desconsiderando um obstáculo óbvio ao seu raciocínio: a idéia de evolução gira em torno da capacidade que os indivíduos mais "adaptados" teriam de sobreviver e reproduzir – dois verbos que normalmente não relacionamos às vítimas da depressão crônica.

Ainda assim, vale a leitura deste artigo.

Obundagate (ou Série Jornalistas #26)

postado em by Pablo Villaça em Mundo, Série Jornalistas | 39 comentários

Barack Obama, Nicolas Sarkozy e a bunda de uma brasileira de 17 anos – é isto que interessa à imprensa mundial no momento. Não as resoluções do G8, mas a foto que traz Obama aparentemente olhando para a parte do corpo mais famosa no que diz respeito à anatomia das brasileiras. Isto permitiu, por exemplo, que o UOL publicasse uma foto que exibe uma das legendas mais elegantes de sua bela história: 

E antes que alguém diga que acabei de usar a palavra "bunda" no título deste post e na primeira frase do texto: isto é um blog pessoal, não um veículo jornalístico.

Para piorar, é bastante provável que este "escândalo" (ah, tempos pudicos miseráveis!) seja completamente fabricado, já que o vídeo divulgado pela ABC revela que Obama estava apenas descendo um degrau e ajudando a moça que se encontrava logo atrás a fazer o mesmo (por outro lado, Sarkozy até se inclina para continuar a ver a brasileira, o que é divertido e prova que nem mesmo o casamento com Carla Bruni pode garantir que um homem deixe de observar outras mulheres).

Isto, claro, não impediu o mundo "jornalístico" de parar tudo para gastar horas analisando o comportamento do presidente norte-americano.

Dia triste

postado em by Pablo Villaça em Mundo, Personalidades | 59 comentários

Cacetada. Farrah Fawcett e Michael Jackson, mortos com tão pouca idade. Que coisa.

Pixar, Humanidade, Emoções – Parte 2

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Mundo, Variados | 35 comentários

Em julho do ano passado, publiquei este post sobre a atitude da Pixar em valorizar a reação de uma fã à voz metálica de Wall-E – uma atitude que comprova que, apesar de ser um dos estúdios mais importantes de Hollywood (conseguindo se destacar independentemente mesmo fazendo parte da família Disney), a Pixar mantém o foco naquilo que realmente importa: a humanidade de seus fãs (e, conseqüentemente, de seus personagens).

Porém, se a história de Courtney já havia me emocionado, nada me preparou para este relato: tocados pelo desejo de um garotinha de 10 anos em fase terminal que queria assistir a Up, os responsáveis pela Pixar enviaram um funcionário do estúdio à casa da menina com um DVD do filme e presentes, já que ela estava fragilizada demais para ir ao cinema. Reparem que o filme já havia estreado, feito um imenso sucesso e que em nenhum momento a Pixar tentou explorar comercialmente sua boa ação (exatamente como no caso de Courtney). O estúdio quis apenas satisfazer o desejo de uma garotinha à beira da morte.

Que, de fato, morreu sete horas depois de ver o filme.

Podem me chamar de sentimental, mas, quanto mais descubro sobre a Pixar, mais me encanto com a empresa de John Lasseter.

Jovem à espera de um fígado

postado em by Pablo Villaça em Mundo, Variados | 16 comentários

O leitor Nilton Moura alertou, num comentário, sobre o caso triste da garota de 16 anos que está em coma, em BH, à espera de um fígado. Doação de órgãos é um troço fundamental: como é possível permitir que a terra coma os restos dos falecidos se estes ainda poderiam se despedir do mundo salvando uma ou mais vidas? É tocante e belo quando parentes próximos das milhares de pessoas que morrem diariamente conseguem enxergar além da dor.

Leiam.

Update: A garota recebeu o transplante, mas já estava fragilizada demais e não resistiu. Trágico, trágico, trágico. Meus mais profundos pêsames para toda sua família.

Update 2: Nos comentários abaixo, uma outra solicitação de ajuda relacionada a transplante.

Um último pensamento sobre a monarquia

postado em by Pablo Villaça em Mundo, Política | 65 comentários

E eis que, em pleno século 21, me encontro "lutando" contra a monarquia. Uau.

Isso me faz sentir um pouco como Benjamin Button: minha mãe e meus tios lutaram contra a Ditadura Militar, eu enfrento os monarquistas e meus filhos… o quê?… combaterão os dinossauros?

(Update: não se preocupem, pois não pretendo dar início a uma série de posts como aqueles contra a homofobia ou pastores preconceituosos. Por quê? Simples: ao contrário dos anteriores, os monarquistas não representam uma ameaça real. São apenas… divertidos.)

(Update 2: meu velho amigo Hélio Flores me alertou para o fato de que os monarquistas, num sentido literal, representam, sim, uma ameaça "real". Zing!) 

Reis da estupidez

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Mundo | 64 comentários

Lamento profundamente a morte de todos os passageiros da Air France (o Rob Schneider não estava no vôo*, estava?), mas essa mania da imprensa brasileira em se referir ao pobre Pedro Luiz como "príncipe" é irritante. Em matéria publicada hoje, a Folha ainda inclui a seguinte manchete: "Princesa quase embarca com o primo no vôo* 447".

Que princesa? O Brasil virou o castelo da Disney? Não temos princesas, príncipes, reis ou rainhas. O Brasil é, graças aos Céus, uma república. E já há alguns anos.

Mais adiante, na mesma matéria, o repórter escreve: "O príncipe é o quarto na linha de sucessão do trono real, caso o Brasil volte a adotar a monarquia –o primeiro é d. Luiz".

O que é isso? Uma versão "sistema de governo" da Síndrome de Estocolmo? Complexo de plebeu? 

E como assim, "caso o Brasil volte a adotar a monarquia"? Então tá: a partir de agora, sempre que alguém se referir a mim, quero que o seguinte esclarecimento seja incluído: "Pablo Villaça é o líder maligno indiscutível da Terra – caso o planeta adote sua proposta de se converter num Império Villaciano".

Tão plausível quanto.

 

* Enquanto a reforma ortográfica não se tornar obrigatória, recuso-me terminantemente a adotá-la.