Política

A Feiura Está nos Olhos de Quem Vê

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes, Política, Premiações e eventos | 2 comentários

“Há quanto tempo a gente não faz um bom filme no país?”, perguntou Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, em mais um ataque à indústria audiovisual da nação que deveria representar em vez de se preocupar apenas com os interesses e problemas de sua própria família cercada de acusações criminosas que vão de fraude a envolvimento com milicianos e assassinatos.

É uma boa pergunta. A resposta: provavelmente um ou dois dias, já que a produção cinematográfica brasileira vem atravessando um de seus melhores períodos – ao menos, até o momento, já que Bolsonaro parece determinado a destruí-la.

Mas posso ser mais específico. Só ESTE ANO, DOIS filmes brasileiros receberam prêmios importantes no mais prestigiado festival do mundo. Já no Festival de Brasília, que aconteceu no início do mês e no qual fiz parte do júri oficial, tivemos obras fantásticas como A Febre, Alice Junior, Rodantes, Um Filme de Verão, O Tempo que Resta e Batalha.

A indagação por sinal, fala tudo sobre Bolsonaro e nada sobre o Cinema brasileiro, que é um dos mais inventivos do mundo e reconhecido nos principais festivais. (Aliás, já tem filme nosso selecionado para a próxima Berlinale, que cobrirei.) Que um presidente ataque a produção cinematográfica do próprio país já é inacreditável; que demonstre uma ignorância tão grande quanto à qualidade desta, inaceitável e chocante. Bolsonaro é uma criatura orgulhosa da própria estupidez; sua tosquice está em seu DNA.

Já nosso Cinema tem puro talento no seu.

Aliás, uma pequena (e incompleta) lista de apenas alguns dos filmes brasileiros lançados em 2019 (no circuito ou em festivais) e que deveriam trazer orgulho a todos nós. Em ordem alfabética:

Alice Júnior
Anna
Bacurau
Batalha
Beco
Bixa Travesty
Breve Miragem de Sol
Chão
Chorão: Marginal Alado
A Cor Branca
Currais
Deslembro
A Febre
Fendas
Um Filme de Verão
Guerra de Algodão
Homem Livre
Indianara
No Coração do Mundo
Onde Quer Que Você Esteja
Organismo
Pacarrete
A Parte do Mundo que me Pertence
Pastor Cláudio
Rodantes
Siron – Tempo Sobre Tela
O Tempo que Resta
A Vida Invisível

Isso tudo EM 2019. Hollywood, que produz muito mais filmes anualmente, não gerou uma lista extensa, sólida e DIVERSIFICADA como esta. Mesmo. Vocês não vão encontrar dois filmes nesta lista que se pareçam um com o outro – estética ou tematicamente.

O Cinema brasileiro vai muitíssimo bem. Apesar dos nossos governantes.

Só não enxerga isso quem é muito vira-lata ou muito ignorante. Ou ambos.


A propósito: todos os gastos do Cinema em Cena com cobertura de festivais são bancados por mim mesmo – e o site também mantém colunistas remunerados, gerando empregos. Se quiser nos apoiar, agradeço imensamente; para saber mais, é só ir em http://www.catarse.me/cinemaemcena.

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Equívocos e Limites

postado em by Pablo Villaça em Política | 4 comentários

Há um buraco no meu peito com o formato do Brasil.

É um vazio opressivo, que me angustia e me torna uma fração do que já fui. Um espaço oco, mas pesado, que me arrasta para o fundo de mim mesmo, que me afoga na consciência do muito que foi perdido e do que tanto que ainda será. Cada notícia inacreditável sobre a crueldade, o egoísmo e a desumanidade deste governo de sádicos adiciona algumas toneladas à âncora que me puxa para baixo.

Eu queria ser mais forte, creiam. Extrair ânimo do desastre, energia de cada ataque sofrido. Mas temo ter atingido meu limite. Despertar todos os dias se tornou um processo de pré-pânico diante do que descobrirei assim que me conectar à Internet. Qual terá sido a nova declaração odiosa do presidente? Qual elemento de suporte social terá sido desmontado agora? Que medida destrutiva terá sido implementada? Qual absurdo terá sido dito por algum ministro? Que desmando coordenado por figuras que deveriam prezar a Lei terá sido revelado?

O pior, contudo, é constatar como a lógica de intolerância, raiva e violência típica da família Bolsonaro vem contaminando o país como uma epidemia de preconceito, ignorância e rancor: indivíduos que serão alguns dos mais prejudicados pelo desmonte do Estado vomitam estupidez enquanto aplaudem a destruição do próprio futuro, convencidos que estão de que os interesses dos poderosos se alinham aos seus, de que se ao menos desejarem com muita força e se esforçarem bastante um dia farão parte da “elite” – falhando em perceber que as regras impostas por esta criam um campo desnivelado que torna o jogo injusto e impossível de vencer. O “mercado” – sempre prometendo que seus ganhos se tornarão aqueles dos mais vulneráveis, mas sempre falhando de alguma forma em cumprir o acordo – tem natureza sociopática; seu interesse único é o do lucro cada vez maior e que, por assim ser, jamais repassou ou repassará para a ponta seus ganhos. “Se desregularem as companhias aéreas, a passagem ficará mais barata”, “se desregularem as petrolíferas, o combustível ficará mais barato”, “se desregularem a telefonia, a Internet ficará mais barata”. E de novo e de novo e de novo tudo se torna mais caro, com pior qualidade e com menos alternativas.

Enquanto isso, os mais prejudicados pelo capitalismo selvagem gritam com ódio contra os “comunistas” e reproduzem mentiras repetidas por uma mídia controlada por aqueles que, minoria numérica, dependem da alienação da sociedade para conseguirem os votos que elegerão os representantes que atenderão os interesses da elite. “Comunista quer que todos sejam pobres”, “comunista quer pegar o que pertence a quem trabalha para entregar a quem nada faz”, “comunista não quer que ninguém tenha Iphone”, comunista isso e comunista aquilo. Porque o capitalismo, como sabemos, é um sistema justo que quer o bem de todos.

“Se o socialismo funciona, por que Cuba é pobre?”. E o Haiti é o quê? E por que metade da população mundial recebe menos do que 2,50 dólares/dia? (Aliás, 80% da população recebem menos de 10 dólares/dia.) Por que há cerca de um bilhão de crianças em situação de miséria no mundo? Por que um quarto da população mundial vive sem eletricidade? E mais de 800 milhões de pessoas passam fome?

E um dado curioso: entre 2002 e 2015, a desigualdade econômica no Brasil vinha caindo todos os anos, mas, de 2016 em diante (hum… o que será que aconteceu em 2016?), ela voltou a aumentar – e nos últimos dois anos, a renda da metade mais pobre da população caiu assustadoramente, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou consistentemente. Isso é sinal de que o capitalismo funciona?

(Só por desencargo de consciência, já que há muito desisti de dizer o óbvio, o socialismo não quer “tomar” dinheiro e propriedade de quem trabalha e nem quer que todos sejam igualmente pobres ou ricos – uma impossibilidade matemática. O que a esquerda deseja é diminuir a desigualdade a ponto de impedir que existam famintos, oferecer apoio à parcela da população que pouco tem (educação, saúde, infra-estrutura básicas) e criar condições para que alguém que nasceu na miséria possa sobreviver, estudar e melhorar de vida. A “meritocracia” é linda para quem nasceu com recursos, mas para quem se alimentou mal desde a infância e não podia estudar direito por estar desnutrido e doente, trata-se de um conceito de puro sadismo.)

Por que a esquerda se associa a pautas humanitárias enquanto a direita se preocupa com o “mercado”? Para mim, esta é a diferença ideológica essencial entre os dois campos – e aquela que me mantém lutando.

Ou tentando lutar. Porque estou, como já disse, no limite.

Ao contrário daqueles que vêm saltando do barco do bolsonarismo ou que saltaram do trem do ódio à esquerda depois de anos trabalhando para demonizá-la (e que agora se assustam diante do monstro da direita que criaram), minha batalha é antiga: fundei grêmio, dirigi D.A., militei em todas as eleições, me empenhei contra as canalhices de Aécio, lutei contra o golpe, fui às manifestações contra Bolsonaro, fiz campanha por candidatos de esquerda (de todos os partidos) e desde a vitória do cão venho me empenhando para denunciar seus horrores. Neste caminho, fui processado (por Aécio, inclusive), ameaçado, insultado e até mesmo atacado nominalmente pelo próprio presidente em todas as suas redes sociais. Comprometi minha carreira e minha saúde mental e física.

Antes que digam que estou tentando cantar minhas próprias virtudes, contudo, já me encarrego de dizer que é precisamente o contrário: se algo ficou claro é que minha jornada é de fracasso. Tudo isso para entregar aos meus filhos um mundo pior. Não sei como indivíduos tão medíocres intelectualmente conseguiram se sair vitoriosos, mas o fato é que Moro está aí, aparentemente imune a todas as evidências de suas ilegalidades reveladas pela VazaJato, e Bolsonaro segue demolindo o Estado, a democracia e a cultura apesar de já ter cometido diversos crimes de responsabilidade em apenas sete meses. A impotência diante de tudo isso não é uma sensação, mas uma realidade.

E se quem me acompanha sabe que sempre procuro encerrar meus textos com uma nota de otimismo, desta vez sinto em desapontá-las(os), mas o estoque aqui acabou. Nunca desistirei de lutar ou de denunciar o terror de Bolsonaro, mas já desisti de ter sucesso na empreitada.

Para ser sincero, mal estou conseguindo vencer o passar dos dias.

No entanto, mantenho os pés no chão e sigo caminhando. Por uma questão de sobrevivência, tento me convencer a me afastar um pouco do cotidiano do país e me concentrar no Cinema, mas me conheço o bastante para saber que esta é uma resolução que nunca dura muito tempo (se por consciência social ou por temperamento autodestrutivo, não sei).

De todo modo, peço desculpas se desaponto quem me lê. (Por outro lado, sou indiferente aos que celebram minha fragilidade; se há algo positivo em tudo isso, é que pareço ter finalmente aprendido a ignorar a opinião de canalhas.) Eu gostaria muito de ser mais resiliente, mas neste momento não consigo.

Se o Cinema antes era minha profissão, agora terá que ser meu salva-vidas. Por sorte, esta é uma função que a Arte sabe desempenhar bem.

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Update: se isto vai soar cínico ou oportunista, peço perdão e digo apenas para que ignorem, pois não é a intenção. Nunca adiciono essas coisas em meus textos, mas… enfim. CASO apreciem meu trabalho e o Cinema em Cena, convido a visitarem nossa página no Catarse em www.catarse.me/cinemaemcena. Mas caso prefiram ignorar isso, sem problema. Mesmo. Hesitei muito em acrescentar este “P.S.” e só o fiz algum tempo depois de publicar o texto porque… bom, sou assim.

Deepfakes (ou Estamos Todos Ferrados)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Vídeos | 4 comentários

Não é preciso muito para enganar os ingênuos nem aqueles que querem ser enganados. Nas últimas eleições, a mentira foi a plataforma eleitoral favorita dos vencedores – e, como é possível concluir pelo fato de terem vencido, uma estratégia eficaz. Mamadeiras com bicos em formato de pênis, kits gay, militares cubanos enviados para proteger Haddad, trouxinhas de maconha embaladas com a foto de Lula para arrecadar dinheiro para o PT… por mais absurda que fosse a mentira, não faltavam indivíduos dispostos a replicá-las usando montagens toscas, áudios amadores e imagens tiradas de contexto. Bastava uma rápida pesquisa no Google para desmascarar as farsas, mas a velocidade com que estas eram espalhadas pelo WhatsApp era imbatível.

Agora imaginem se, digamos, surgisse um vídeo no qual Lula (ou Ciro Gomes ou Marina Silva ou Boulos ou Haddad ou…) pudesse ser visto claramente dando um tapa em uma criança ou cheirando cocaína ou dizendo alguma barbaridade. Ora, se uma mera mensagem de texto já faz tantos estragos, o que um registro em áudio e vídeo poderia provocar?

Até hoje, os recursos e conhecimentos necessários para produzir um vídeo falso tornavam este tipo de fraude difícil para o uso cotidiano em campanhas eleitorais, mas o avanço dos softwares dedicados a este tipo de trabalho tem sido tão rápido que, em breve, pessoas com experiência mínima em manipulação digital poderão produzir suas próprias montagens.

Estou falando de deepfake, uma tecnologia que emprega a inteligência artificial para mapear as áreas do rosto de alguém e substitui-las pelo de outra pessoa a partir de fotos de referência. Como comentei no twitter outro dia, ainda em estamos em 2019 e os resultados alcançados já são impressionantes; quando as próximas eleições chegarem, tudo estará pronto para uma campanha repleta de imundície.

Incluo, abaixo, alguns exemplos que me impressionaram bastante (e notem, no primeiro, como a transformação do rosto de Bill Hader no de Schwarzenegger é feita com uma fluidez espantosa):

E, abaixo, um breve vídeo explicando o processo:

E aí? Exagerei no título alternativo deste post?

A Promessa e a Realidade

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Mundo, Política | 12 comentários

O mundo hoje é um lugar pior do que era há 10 anos. É triste constatar isso, já que o ideal seria seguirmos num processo de melhora coletiva como espécie, mas negar o óbvio é impossível: em todo o planeta, governos com viés nacionalista, xenofóbico e autoritário vêm assumindo o poder graças a campanhas consistentes de demonização do que é “diferente”. Insuflar o ódio é mais fácil do que estimular o afeto – o primeiro envolve apenas fechar os olhos para o próximo; o segundo, investir numa relação que reconheça o próximo como igual.

Relendo posts que publiquei no Facebook há muitos anos com o objetivo de ver o que valeria a pena arquivar neste espaço renascido, fui tomado por uma melancolia crescente ao perceber como os problemas sobre os quais escrevia em 2012 hoje soam quase triviais se comparados aos que passaram a nos atormentar. Se antes havia meia dúzia de criacionistas querendo ver dinossauros e homens convivendo em dioramas em museus de História Natural, agora há milhares de terraplanistas insistindo que a negação de sua “teoria” é resultado de uma conspiração global – e, sim, usam a palavra “global” sem aparentemente perceber a ironia da situação.

Em 2012, Bolsonaro era uma aberração vista como tal; hoje, é uma aberração que ocupa a cadeira de presidente da república. Onde erramos? Como este futuro distópico virou presente?

Particularmente, deposito parte da responsabilidade sobre as redes sociais. Há (vários) outros fatores, é claro, mas tenho convicção de que espaços como o Facebook e o Twitter tornaram possível a coordenação de narrativas falsas usadas para despertar e inflamar o medo de boa parte da população, já que este frequentemente é seguido pela raiva. Medo da “ditadura gayzista“, do comunismo (como se tivéssemos retornado à década de 50), das “feminazis” que querem destruir o patriarcado, das minorias dispostas a tomar tudo dos homens brancos cis heterossexuais.

Minha queixa não é contra a Internet em si, percebam; a democratização da informação e a facilidade na comunicação obviamente trouxeram avanços indiscutíveis – e por alguns anos gloriosos, entrar na rede representava a possibilidade de descobrir o mundo, fosse”visitando” o Louvre e apreciando suas obras, fosse pesquisando em bases de dados antes fora de alcance. Se havia um ponto negativo reconhecido universalmente, este residia no baixíssimo nível dos comentários publicados em portais e sites e que todos reconheciam como o esgoto da web.

Pois as redes sociais serviram justamente para transformar os comentários no centro da Internet.

A partir daí, todos aqueles que viviam isolados na escuridão de seus porões repletos de intolerância puderam descobrir seus pares, empoderando-se mutuamente e passando a vomitar sua irracionalidade sob a luz do dia. Aos poucos, a desinformação se tornou estratégia destes grupos e, com isso, a maior virtude da rede se perdeu à medida que a mentira passou a ocupar o mesmo espaço dos fatos. A era da pós-verdade se estabeleceu e, no meio de toda a confusão, tudo perdeu a credibilidade. E se ninguém é mais fidedigno, aqueles capazes de gritar mentiras em maior volume ganharão.

E estão ganhando.

Como conceito, a Internet era a promessa de um mundo melhor; na prática, contudo, comprovou apenas que não éramos evoluídos o bastante para lidarmos com o poder que trazia.

Acho que nunca seremos.

A compaixão como tática

postado em by Pablo Villaça em Política | 2 comentários

“Vocês agem como se a esquerda tivesse o monopólio da virtude!”, costumam protestar alguns direitistas quando aponto que a inclusão social e pautas humanitárias que reforçam os direitos de minorias devem ser prioridade em qualquer governo que queira se dizer de esquerda.

Ok, é um protesto válido. Será que a direita também não poderia defender estas bandeiras?

Aparentemente, não a neodireita brasileira. Afinal, quando o ENEM incluiu uma questão sobre a violência contra a mulher, representantes desta neodireita imediatamente protestaram contra o que chamaram de “pregação ideológica esquerdista”, basicamente afirmando, eles mesmos, que a defesa dos direitos da mulher é (repito: de acordo com eles mesmos!) uma pauta de esquerda.

E o que esta mesma neodireita teve a dizer depois dos ataques em Paris?

Bom… basta apontar que “xenofobia” é uma palavra fraca para descrever as manifestações de boa parte destes perfis. Houve um “escritor” que chegou a defender AS CRUZADAS, enquanto outros diziam que o que ocorreu na França era mais uma razão “para derrubar a vaca da Dilma”. O consenso aparente entre estes indivíduos é o de que abrigar refugiados é beneficiar terroristas e que – como alguns até disseram nos comentários de meu post anterior aqui no FB (https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/739301856175043) – “praticamente todos os muçulmanos são terroristas ou apoiam o terrorismo”.

Ai, ai.

É esta a “virtude” que insistem possuir?

Na realidade, não sei o que me choca mais: a ignorância política e histórica ou a pura falta de empatia e compaixão.

Há 1,6 BILHÃO de muçulmanos no planeta. Eles respondem por quase UM QUARTO da população mundial. Se a “maioria” fosse terrorista ou apoiasse o terrorismo, poderíamos dar adeus à Humanidade. (Aliás, quando um sujeito afirmou, nos comentários, que nenhum muçulmano condenava os ataques, publiquei vários links que provavam o contrário, incluido este: http://qz.com/550104/muslims-around-the-world-condemn-terrorism-after-the-paris-attacks/). Já outros neodireitistas encaminharam links “comprovando” que o mundo islâmico era dominado por criminosos – e bastou uma rápida olhada em uma destas páginas para constatar que também atacava cotas raciais, tratava o aquecimento global como “fraude” e afirmava que o feminismo e o “gayzismo” querem “destruir a família”.

De novo: é esta a “virtude” que dizem possuir?

Não à toa, figuras como Malafaias não demoraram a postar ódio nas redes, basicamente afirmando que os cristãos representavam o “bem” e os muçulmanos, o “mal”.

Bom, como já escrevi há algum tempo, o simples conceito de religião me incomoda profundamente – especialmente quando esta tenta interferir no Estado. (“Ateu, não anti-Deus”: http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=2663) Porém, posicionamentos como estes, recheados de estupidez histórica, me obrigam quase a uma defesa do Islã, o que considero irônico de um ponto de vista pessoal. Em primeiro lugar, porque estas pessoas parecem ignorar as muitas contribuições de islâmicos ao desenvolvimento da ciência, por exemplo (e para o próprio MÉTODO científico de pesquisa, observação e experimentação) – e pergunte a qualquer astrônomo ou matemático sobre o papel de cientistas muçulmanos em suas áreas para ter uma ideia de sua importância.

Mas, mais do que isso, vem o absurdo do argumento de que apenas o islamismo deu origem a atos abomináveis. É preciso lembrar de grupos cristãos como a Ku Klux Klan? O IRA? É preciso lembrar do extermínio de povos indígenas? Da Inquisição? Cruzadas? É preciso lembrar como, no Brasil, líderes evangélicos pregam a intolerância? Reforçam o machismo e a homofobia?

Ou, saltando para outras religiões, é preciso lembrar como Israel está praticando sua própria versão do Holocausto na Palestina? (E os neodireitistas ficaram particularmente possessos com esta pergunta, sendo que até mesmo SOBREVIVENTES DO HOLOCAUSTO já fizeram a comparação: http://www.haaretz.com/israel-news/1.612072).

Aliás, nem os budistas escapam. Pesquisem o que monges budistas têm feito no Sri Lanka e em Myanmar e a ideia de que o budismo é apenas um poço de placidez irá se desfazer.

Em outras palavras: atos de crueldade indizível já foram perpetrados em nome de praticamente TODAS as denominações religiosas. Não é à toa que, como explico no texto que linkei mais acima, tenho tanta aversão ao conceito de religião organizada.

Para completar, há, como mencionei, a ignorância política: em fevereiro, o próprio ISIS, responsável pelos ataques em Paris, publicou um documento no qual afirmava que precisava acabar com a “zona cinzenta” composta por muçulmanos praticantes que condenavam o terrorismo. Para isso, a estratégia publicamente anunciada pelo próprio grupo era a de promover atos de terrorismo em países com refugiados islâmicos a fim de aumentar justamente o preconceito contra estes – que, atacados pelos ocidentais, finalmente teriam que se decidir entre abandonar a fé ou se unir aos fundamentalistas. (http://www.memrijttm.org/dabiq-vii-feature-article-there-is-no-longer-any-gray-zone-the-world-includes-only-two-camps-that-of-isis-and-that-of-its-enemies.html)

Em outras palavras: foi justamente para fugir destes malucos que os refugiados deixaram seus lares. Atacá-los, discriminá-los, odiá-los é fazer o jogo dos fundamentalistas.

Como bem lembrou meu amigo Matt Zoller Seitz, basta assistir a A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, para constatar como a opressão de fiéis pacíficos é uma maneira infalível de levá-los rumo ao extremismo.

Neste aspecto, demonstrar compaixão pelos refugiados não é só uma atitude humana, mas também a melhor estratégia a longo prazo.

E eu ficaria muito feliz se a esquerda não detivesse o “monopólio” sobre isso.
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Brasil Bizarro

postado em by Pablo Villaça em Política | 2 comentários

Que Brasil bizarro, este atual: políticos acusados de todo tipo de crime desejam reduzir a maioridade penal para “coibir a criminalidade” enquanto posam de bastiões da ética para acusar os oponentes. Jovens vão às ruas pedindo a volta dos militares. Torturadores são abordados em busca de selfies. A nata paulistana bate panela “contra a corrupção”, mas mantém os utensílios nos armários da cozinha sempre que os acusados são do partido que governa seu estado. Um sujeito com histórico de envolvimento em escândalos preside o mesmo Congresso que tenta levar adiante o impeachment de uma governante cuja honestidade é reconhecida até mesmo por seus oponentes mais ferrenhos.

Mas, para mim, o mais inacreditável é perceber que, hoje, a direita tenta derrubar um governo cujo modelo econômico segue a mais pura cartilha conservadora enquanto a esquerda tenta proteger a mesma gestão que se afasta a passos largos de qualquer identificação ideológica com seus valores.

A política não é mesmo para amadores (ou para pessoas que valorizam a ideologia mais do que o pragmatismo). Ao escrever sobre o segundo turno das eleições, lembro-me de comentar que a polarização que estava ocorrendo poderia ter duas consequências: ou Aécio venceria e o projeto tucano que vendeu o país para interesses estrangeiros retornaria com força total ou Dilma seria obrigada a dar uma guinada à esquerda para preservar o apoio dos movimentos sociais e, consequentemente, sua governabilidade.

Tolinho.

O que eu não esperava é que Dilma vencesse e imediatamente passasse a adotar uma postura que os eleitores de Aécio certamente aplaudiriam caso não estivessem cegos de ódio. Já de cara trouxe figuras como Kátia Abreu para o governo, entregou a condução econômica do país ao diretor de um banco e passou a ignorar os mesmos movimentos de esquerda que foram decisivos em sua eleição.

A postura conciliatória de fazer acenos à direita (na realidade, uma flexão quase completa do ponto de vista econômico) não trouxe qualquer efeito para sua aceitação pelas elites e pelo tal rei Mercado. Ao contrário: a polarização se acentuou, manifestações de ódio se proliferaram e a irracionalidade se tornou parte recorrente do debate político.

“Treze anos de PT arruinaram o Brasil!”, dizem eles, ignorando que este período marcou a maior diminuição da desigualdade na História do país, a retirada do Brasil do mapa da fome, um crescimento econômico que trouxe investimentos de todo o mundo, que elevou o país à posição de 7ª maior economia do mundo (éramos a 13ª quando FHC deixou o governo) e que sobreviveu até mesmo à crise mundial de 2008, uma das piores de todos os tempos. (E isto é só o começo:http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=4418)

“O PT quer implementar uma ditadura comunista!”, dizem eles, ignorando que a tal “ditadura” aparentemente nunca chega – mesmo depois de 13 anos e sucessivas vitórias nas urnas – e que chamar de “comunista” um governo cuja política econômica é conduzida por um banqueiro é um sinal de profunda ignorância ou de puro mau caratismo.

“Esse é o governo mais corrupto de todos os tempos”, dizem eles, ignorando que os maiores escândalos de corrupção (em termos de escala, de efeitos e de dinheiro envolvido) ocorreram nos anos FHC e que, ao contrário do que ocorre agora, nada foi apurado, ninguém foi julgado e muito menos punido. Aliás, este é o mesmo padrão ainda hoje: as mesmas empreiteiras que doaram dinheiro para a campanha de Dilma, levando sua campanha a ser investigada, doaram ainda MAIS à campanha de Aécio – mas aí, tudo bem, nada de errado. (Recentemente, ao ter mais uma irregularidade de suas contas de campanhas apontada, o PSDB alegou ter se “esquecido” de incluir um dado – e, de novo, tudo bem, nada de errado.)

Mas estas são as mesmas pessoas que insistem em falar da “fortuna” de Lulinha, que repetem o que sai na VEJA (a do boimate, do “racismo acabou” e da conta de Romário na Suíça) como verdade absoluta. São as mesmas que condenam Paulo Freire, reconhecido por todo o mundo, mas amam Mises, que escreveu que o luxo dos ricos e a desigualdade econômica são necessários para a evolução da sociedade.

São as mesmas pessoas que acusam o governo de ter impulsos ditatoriais, mas agem de forma fascista ao agredirem quem veste a cor vermelha, se diz de esquerda ou defende a manutenção da ordem democrática – e quando chamadas de “fascistas”, contrapõem dizendo que isto é ridículo, já que “fascismo só pode ser de esquerda”, numa demonstração tão profunda de ignorância histórica que a discussão se torna impossível.

No entanto, querem saber a pior parte? É constatar que boa parte do que eles gostariam de ver acontecendo num governo tucano já está acontecendo no governo Dilma. Claro que eles não enxergam isso, já que por trás do discurso “anti-corrupção” esconde-se a verdadeira razão para que gritem tanto ódio: a repulsa pelo PT (não por ser um partido de “corruptos”, mas por ser um partido nascido da esquerda) e por quaisquer ideais que preguem inclusão social.

Mas nós, da esquerda, enxergamos a diferença. (Ao menos aqueles que não estão igualmente cegos pela própria retórica.) E o que vemos é o abandono de um projeto que trouxe resultados tão importantes nos últimos doze anos. Quando um governo de esquerda começa a pregar “austeridade”, arrocho, cortes em programas sociais e de educação e nem sequer discute a taxação de grandes fortunas… bom, é porque não é mais de esquerda.

Há algum tempo, escrevi que, embora a economia apresentasse problemas, estávamos longe da crise que a mídia anunciava em suas manchetes. E apontava, também, que esta crise poderia se tornar uma profecia auto realizada caso levasse o país a absorver uma narrativa de recessão, passando a agir de acordo com esta crença. Soma-se a isto uma política econômica que – seguindo os padrões históricos – decide punir da classe média para baixo em vez de exigir que os donos das grandes fortunas façam sua parte para combater o problema.

Repatriar bilhões sonegados? Não. Implementar a CPMF, que realmente impactaria apenas os que realizam transações de vulto? Não. (Aqui o governo até começou a tentar, mas desistiu em função de sua inépcia ao lidar com figuras como Cunha.) Aumentar impostos a partir de um certo patamar de patrimônio? Não. Taxar as igrejas? Claro que não. (Ao contrário: o Congresso de Cunha aumenta as isenções destas mesmas igrejas, que – vejam só – constantemente usam esta falta de taxação para sonegar impostos ao oferecer “bônus” para pastores ou atuar na lavagem de dinheiro. Um estratagema do qual o próprio Cunha é acusado de se beneficiar.)

A cada novo corte que o governo Dilma faz no social, me afasto mais. E realmente não consigo compreender como a presidenta pode caminhar na contramão do bom-senso, afastando os que a defendem e entregando seu governo nas mãos dos que a desprezam.

Quero um governo de esquerda – e, infelizmente, este não é o governo Dilma.

Porém – e aí reside o verdadeiro conceito de democracia – eu defenderei intensamente seu direito de chegar até o fim de seu mandato. Discordar de um governo (ou mesmo sentir-se traído ideologicamente por este) não é base para impeachment. Aliás, nem mesmo a mais pura incompetência serviria como justificativa para retirá-la do poder (não, não chego ser tão severo quanto sua competência).

Independentemente do que dizem os fascistas de plantão, que chamam o golpe de 64 de “Revolução” e apelidam Bolsonaro de “Bolsomito”, gente demais sacrificou a própria vida para trazer a democracia de volta. Respeitá-la é o mínimo que podemos fazer em troca.

O Mercado Não Vale Mais que Nossas Vidas

postado em by Pablo Villaça em Política | 13 comentários

Em vários estados dos Estados Unidos, os fabricantes de móveis são obrigados a aplicar anti-inflamáveis em tudo que produzem. No entanto, a maioria dos estudos indica que estes produtos não possuem resultado prático algum e que – o pior – provocam diversas doenças graves que vão desde infecções respiratórias até diversos tipos de câncer, tornando crianças particularmente vulneráveis aos seus efeitos.

E por que o uso destes produtos se tornou obrigatório? Simples: nas décadas anteriores à proibição de se fumar em lugares fechados, vários incêndios eram provocados por guimbas deixadas acesas enquanto os fumantes dormiam. Pressionadas a modificar os cigarros para que estes se apagassem rapidamente quando não estivessem sendo fumados, as corporações que os fabricavam contrataram empresas de publicidade e lobistas para que vendessem ao público que a responsabilidade era dos móveis que pegavam fogo, não do produto que INICIAVA os incêndios. A estratégia funcionou e virou lei.

Corta para a década passada. Com os estudos que comprovavam que os anti-inflamáveis provocavam doenças graves e não evitavam incêndios, advogados representando a sociedade civil entraram com processos para que as leis obrigando sua utilização fossem revogadas. Na audiência final, depois do depoimento de vários cientistas, um cirurgião plástico foi chamado para depor e relatou como havia atendido um bebê que, vitimado pelo fogo que tomou conta de seu berço quando sua mãe deixou uma vela acesa ao seu lado, morreu depois de agonizar por semanas.

O depoimento tocante e chocante foi o bastante para que a lei fosse mantida.

Em primeiro lugar, o tal depoimento não tinha qualquer valor científico, apenas apelo emocional. Mas este nem era o problema mais grave: dois jornalistas do Chicago Tribune descobriram que o tal médico havia repetido o mesmo depoimento, com mudanças significativas, em várias audiências similares. Questionado sobre isso, ele revelou que não acontecera de fato, tratando-se apenas de uma “anedota”. Como se não bastasse, ele havia sido pago para depor por um certo “Citizens for Fire Safety”  que vivia combatendo a iniciativa de se retirar anti-inflamáveis dos móveis.

Mais alguma investigação revelou que o tal instituto era financiado pelos três maiores fabricantes de anti-inflamáveis dos Estados Unidos.

Este caso, narrado no excelente documentário “Merchants of Doubt”, é um exemplo ilustrativo da principal estratégia das grandes corporações: com o objetivo de conseguirem o que desejam, elas aprenderam a usar a propaganda para trazer a opinião pública para o seu lado. No entanto, como não podem ganhar as pessoas com base em seus argumentos, já que estes são frágeis e incorretos, plantam dúvida, medo e conceitos genéricos como “liberdade” ou outros absurdos como “ambientalistas são comunistas disfarçados” na mente da opinião pública.

Outro exemplo presente no filme envolve a questão do aquecimento global: embora 99,9% dos cientistas que estudam o clima apontem que o aquecimento é provocado pelo homem e que deve ser combatido de forma urgente, as grandes empresas que trabalham com exploração de petróleo e carvão conseguiram levar parte da população a negar esta conclusão através de – mais uma vez – confusão, conceitos genéricos e preconceito. Criaram um documento assinado por 31.400 cientistas que “discordavam” do diagnóstico – e muitos jornalistas reproduziram esta discordância sem investigar os nomes dos tais cientistas, que incluíam “Charles Darwin”, personagens da ficção e “experts” que NUNCA haviam praticado ciência. A lista era tão fajuta que foi publicamente rechaçada pela mais importante instituição científica dos Estados Unidos.

Mas o estrago já estava feito: para estes vermes, vencer a batalha é algo impossível – e eles sabem disso -, então buscam apenas adiar qualquer tipo de lei que limite a poluição que criam. Enquanto isso, a Terra caminha para um ponto sem volta.

Como disse Noam Chomsky em seu artigo “Democracia de Mercado em uma Ordem Neoliberal”, para as corporações, “o lucro deve ser privatizado, mas o custo e os riscos devem ser socializados”.

Esta é a lógica da direita, que prega um mercado sem regulamentação (ou cuja parca regulamentação possa ser manipulada por lobistas) ) e privatização sem limites – e alguns podem até dizer que isto é mera questão de ideologia, mas prefiro acreditar se tratar de uma questão de simples falta de humanidade.

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UPDATE: De maneira previsível, alguns “libertários” (mais sobre este termo daqui a pouco) vieram defender a necessidade de se deixar o mercado livre, sem regulamentação, usando o caso dos antiinflamáveis como exemplo. O que convenientemente ignoram é que esta legislação foi colocada em prática JUSTAMENTE em função do esforço da indústria de tabaco para NÃO ser regulamentada.

Se fossem deixadas sem regulamentação, as corporações agiriam apenas com o instinto sociopata que as domina e que determina o lucro acima de tudo.

Quanto ao “libertário”, é interessante notar como defendem liberdade para o mercado às custas dos indivíduos – e não é à toa que um dos discursos genéricos que fazem para mover a população é precisamente o de que o Estado quer tirar a “liberdade” da sociedade ao tentar regular as empresas. Exatamente como é ilustrado por “Merchants of Doubt”.

Ao menos esses caras se mostram coerentes em sua falta de humanidade.

Jon Stewart fala sobre a mídia e a oposição brasileir… norte-americanas

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 3 comentários

Comentando a reação dos comentaristas da direita (Rush Limbaugh, equipe da Fox News, etc) sobre sua decisão de sair do The Daily Show, o comediante Jon Stewart exibiu uma série de clipes nas quais estes o acusavam de sistematicamente “mentir” sobre a direita, tirando o que diziam de contexto. Depois de mostrar um clipe no qual 50 mentiras ditas pela Fox News eram expostas, Stewart deu início a um monólogo que poderia perfeitamente ter sido dirigido à mídia reacionária brasileira e ao tipo de oposição que temos por aqui:

“Uma espécie de consenso sobre este programa tomou conta da direita: um pensamento com o qual se mostram tão confortáveis que nem se sentem na obrigação de oferecer evidências para comprová-lo: o de que distorcemos e mentimos o tempo todo para que fiquem parecendo ruins. Algo que pode ser resumido por esse cara aqui:

[CLIPE DE RUSH LIMBAUGH:] Jon Stewart ajudou a polarizar o país ao envenenar a marca Republicana.

“Envenenar a marca republicana?” Você está falando desta marca aqui?

[CLIPES DE VÁRIOS SEGMENTOS DO PROGRAMA DE LIMBAUGH NO QUAL ATACA FEMINISTAS, MINORIAS ÉTNICAS E ATÉ MESMO MICHAEL J. FOX POR EXIBIR SINTOMAS DE PARKINSON. ENTRE AS FALAS, A INACREDITÁVEL “SE HÁ UMA RAÇA QUE NÃO DEVERIA SENTIR QUALQUER CULPA PELA ESCRAVIDÃO, É A DE CAUCASIANOS”.]

Nós envenenamos… esta marca? Como se envenena uma fábrica de cianureto?

Mas o joguinho que eles praticam aqui é “a única razão pela qual a Direita tem má fama é porque esses caras são injustos conosco”. Nós não mentimos; não distorcemos. A questão é que a Direita gosta de fingir que nossa honestidade é o que mais importa para eles – o que, ironicamente, não é verdade. O que importa para a Direita é desacreditar qualquer coisa que eles acreditem prejudicar o seu lado. (…) Esta missão dirige seus ataques contra todas as instituições que formam a base do país que eles alegam amar tanto.

[CLIPES DA FOX NEWS ATACANDO TUDO QUE DIZ RESPEITO AO GOVERNO OBAMA E PINTANDO UM RETRATO DE QUE TUDO ESTÁ ERRADO, DE QUE O PAÍS ESTÁ VIVENDO UM CAOS COMPLETO E DE QUE O DESASTRE SE APROXIMA A QUALQUER MOMENTO GRAÇAS À GESTÃO DOS DEMOCRATAS, QUE SÃO CHAMADOS DE “LIBERAIS”, “ESQUERDISTAS” E MESMO “COMUNISTAS”.]

Todas as instituições sofrendo do “mal do liberalismo” e o que pode ser feito? Esta é a genialidade deles. Eles alegam querer “consertar” as coisas, mas os conservadores não querem fazer a Educação se tornar mais rigorosa e informativa ou a Ciência se tornar mais empírica e confiável ou os votos se tornarem mais representativos ou o governo se tornar mais eficiente… eles querem apenas que todas essas coisas reforcem seu ponto de vista partidário, ideológico e conservador.

Porque na mente deles, o oposto de “ruim” não é “bom”; o oposto de “ruim” é “conservador”. O oposto de “errada” não é “direita”, é… bom… vocês entenderam o que eu quero dizer. Eles julgam apenas pelo nível de conteúdo conservador. Em tudo. É seu único teste determinante. Mesmo coisas estúpidas.

[CLIPE DE APRESENTADORA DA FOX NEWS CONDENANDO O LIBERALISMO DE HOLLYWOOD POR NÃO DAR O OSCAR DE MELHOR FILME A “SNIPER AMERICANO” POR ESTE TER SIDO DIRIGIDO PELO REPUBLICANO CLINT EASTWOOD.]

Clint Eastwood é um ícone conservador há anos. Ele já venceu o Oscar de Melhor Diretor e de Melhor Filme neste meio tempo. Os “lunáticos esquerdistas” de Hollywood fizeram o filme, pra começo de conversa, e o indicaram a Melhor Filme!

E sabem qual é a parte mais triste disso tudo? Os republicanos e conservadores são tão incansáveis em seu impulso por pureza ideológica que as instituições sobre a qual eles reclamam continuam a ceder a eles. Pela mesma razão, acho, que você sempre vai ao restaurante escolhido por sua filha de quatro anos de idade: “Tá bom, nós vamos lá de novo! Só pare de chorar!”.

Quinze estados aprovaram leis novas sobre identidade de eleitores sem que houvesse qualquer evidência de fraude eleitoral; um comitê estadual em Oklahoma votou pra banir uma disciplina de História por não suavizar a escravidão o suficiente; “abstinência” foi aprovada como parte de “educação sexual”; e fatos científicos não são mais informados, mas debatidos.

Então vamos parar de fingir que essas concessões à Direita irão, em algum momento, saciar a fome da Besta.

[CLIPE DE SARAH PALIN CRITICANDO O PAPA POR SUAS DECLARAÇÕES LIBERAIS.]

O papa não é conservador o bastante pra essas pessoas. Então vamos parar de ceder a eles. Sua guerra cronicamente raivosa por pureza ideológica, em que todos os aspectos da vida se tornam uma batalha bidimensional pela alma do país, nos envelhece.

Só de assistir a ela, estou morrendo.”

A Arte Em Luta

postado em by Pablo Villaça em Política, religião, Variados | 6 comentários

Quando Diderot e d’Alembert editaram a Encyclopédie, na segunda metade do século 18, incluíram em seus mais de 30 volumes o que consideravam todo o conhecimento acumulado da Humanidade, transformando a obra na culminância do movimento iluminista que, um século antes, começara a defender a razão e o conhecimento como elementos motores da espécie, enfrentando a dominância opressiva e obscurante da religião. A França confirmava, assim, o posto de centro do Iluminismo, plantando, em seu território, um farol cujos fachos lançavam curiosidade, iniciativa intelectual e o interesse pelo debate como formas de melhorar o planeta.

Em 2015, a mesma França viu doze de seus habitantes – incluindo cinco cartunistas – abatidos pelo fogo da mesma ignorância religiosa que começou a enfrentar há mais de 350 anos.

Não sou um grande fã de religiões de modo geral. Como disse o físico Steve Weinberg, “com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém, para que uma pessoa boa faça uma coisa má, é preciso religião”. Ainda assim, usar o que ocorreu hoje em Paris como desculpa para atacar o islamismo é injusto e tolo. Seria o mesmo que julgar toda a Comédia por Danilo Gentili ou todos os roqueiros por Lobão e Roger. Não: a atrocidade cometida hoje tem a religião como desculpa, mas a sociopatia como razão. A mesma sociopatia que, por exemplo, levou o norueguês Anders Breivik a tirar a vida de 77 pessoas em nome de uma ideologia islamofóbica, pró-sionista e antifeminista.

Não é coincidência, portanto, que grupos fundamentalistas costumem atrair tipos mentalmente desequilibrados; o trágico é que há milhares destes à disposição ao redor do mundo esperando apenas uma ideologia, um credo ou um bordão qualquer que justifique sua propensão à violência.

Já do outro lado das metralhadoras encontravam-se artistas. Indivíduos que ganhavam a vida apontando o ridículo do radicalismo, da cegueira religiosa, da estupidez que leva irmãos de espécie à mútua e desnecessária destruição. Indivíduos que rebatiam às ameaças com piadas, com o humor, com o intelecto.

Com desenhos.

Viam as barbaridades cometidas ao redor do planeta em nome desta ou daquela religião e as criticavam com traços que cortavam na carne da hipocrisia e iam direto ao coração apodrecido dos interesses vis, particulares, egomaníacos e sociopatas de seus líderes. Golpes certeiros, claro, mas simbólicos, racionais e que permitiam que seus alvos permanecessem íntegros e pudessem responder.

Este é um dos papeis fundamentais da Arte, que pode funcionar como uma arma poderosa, mas essencialmente pacífica – e rebatê-la com violência é tática de covardes que reconhecem a fragilidade dos próprios argumentos. Por isto me desagrada tanto a máxima de que “a pena é mais forte do que a espada”: a comparação é tola e desigual. A primeira busca desafiar, argumentar, debater; a segunda quer apenas calar.

Mas calar uma ideia é impossível – e, não por acaso, a morte dos cartunistas do “Charlie Hebdo” imediatamente deu origem a dezenas de cartuns enlutados, além de comprovar a acurácia dos trabalhos dos artistas mortos, que obviamente atingiram os pontos fracos dos terroristas que, em retorno, decidiram simplesmente abater aqueles que os haviam desmascarado.

E assim, no berço do Iluminismo mais uma sombra se abateu sobre a Humanidade em um ano que, brincamos todos na virada, simbolizava o futuro colorido da trilogia estrelada por Michael J. Fox. Mas que, na prática, se aproxima bem mais da distopia pessimista e totalitária de O Planeta dos Macacos.

Analisando imagens e a diferença entre números e pessoas

postado em by Pablo Villaça em Política | 5 comentários

Como alguém que vive de analisar imagens, devo dizer que fiquei profundamente encantado com duas delas que vi nos últimos dias. A primeira aconteceu durante uma entrevista que Lula deu a Mino Carta: enquanto falava sobre como aqueles que antes só podiam viajar de ônibus agora conseguem pagar passagem de avião, Lula leva as mãos à cabeça numa empolgação tão grande, quase infantil, que expõe uma felicidade incontida diante da constatação. Isto me encantou especialmente porque sei como é raro (muito raro) ver alguém com a trajetória e a experiência dele ainda se mostrando capaz de se empolgar tanto com a alegria do homem do povo. (O momento está aos 8:35: https://www.facebook.com/video.php?v=709568759129502)

Já a imagem de Dilma foi uma foto na qual, durante um ato público, ela surge abraçada por uma senhora no meio da multidão. Aliás, “abraçada” não é o termo exato: a senhora em questão praticamente dá uma chave de braço em Dilma enquanto, com a mão livre, segura um celular para tirar uma “rousselfie”. (Quando vi a foto no Twitter, a legenda brincalhona dizia: “EU PAGO MEUS IMPOSTOS E A SENHORITA VAI TIRAR FOTO COMIGO SIM!!!”)

O que me cantou nesta foto (http://i.imgur.com/D4KERhj.jpg), aliás, nem foi a proximidade da presidenta com o povo – uma proximidade que vocês não vêm na outra candidatura -, mas um fato muito revelador: enquanto toma a chave de braço, Dilma… sorri. Não há medo ou desconforto em seu rosto, mas um sorriso por estar recebendo aquele gesto tão… firme… de carinho.

E são esses detalhes, que surgem na espontaneidade e no calor do momento, que revelam muito sobre Lula e Dilma e o tipo de líderes que são.

O que me traz a um segundo ponto.

Como alguns de vocês talvez saibam, sou filho e sobrinho de pessoas que lutaram contra a Ditadura. Cresci ouvindo as histórias das barbaridades cometidas naquele período contra jovens que lutaram para que hoje outros jovens tivessem a liberdade, inclusive, de ofender a presidenta usando termos incrivelmente baixos. Cresci vendo pessoas que eu amava carregando sequelas físicas, psicológicas e emocionais das torturas. E cresci também num país de desigualdades que trazia capas de jornais falando da fome, que era considerado um problema insolúvel, e exibindo fotos de crianças subnutridas e à beira da morte.

E lembro de minha mãe discutindo aquelas questões comigo e me ensinando algo que nunca esqueci: que, ao ler notícias falando de “milhares ou milhões de miseráveis e famintos”, nunca me esquecesse de que aquelas estatísticas representavam pessoas. Ela me ensinou que muitas vezes, quando a imprensa traz estes números, tendemos a nos esquecer de não são só números,

E é por isso que quando li a notícia de que o Brasil havia saído do Mapa da Fome da ONU pela primeira vez, chorei.

Chorei de alegria por saber que aquela não era mais a realidade de milhões e milhões de pessoas.

Chorei por saber que meus filhos vão crescer num país melhor do que aquele no qual cresci.

E chorei porque lembrei do que minha mãe me ensinou e percebi que se o Brasil mudou é porque finalmente tivemos, em Lula e Dilma, presidentes que sabem que por trás de cada estatística e de cada número há uma vida, uma pessoa, um brasileiro.