Política

Carta Aberta a Quem Tem Menos de 25 Anos

postado em by Pablo Villaça em Política | 27 comentários

Uma Carta Aberta a Quem Tem Menos de 25 Anos Escrita por um Tio Preocupado (Não o “Tio” do Jornal Nacional, que é Daqueles Que te Constrangem nas Festas com um Papinho Preconceituoso, mas o Tio que Usa Tênis, Calça Jeans Puída e que te Constrange nas Festas Porque Insiste em Conversar com Seus Amigos Como se Fosse da Turma.)

Li esta semana que Aécio tem tido uma boa votação entre os jovens de 18 a 25 anos de idade e fiquei espantado. A juventude é a época do pensamento no coletivo, do idealismo, da generosidade. É a época em que tendemos a pensar mais no mundo do que no umbigo. É a época em que o sofrimento daquele mendigo pelo qual passamos na rua dói e sentimos o impulso de erguê-lo, de alimentá-lo, de agasalhá-lo. É só com o passar dos anos que começamos a tender a um foco mais individualista: pensamos nas nossas contas bancárias antes de fazermos uma doação. Nem todos passam por esta transformação (felizmente), mas a tendência geral é esta.

Assim, como é possível que tantos de nossos jovens já estejam iniciando a idade adulta com um pensamento tão conservador? O pensamento de que o “mercado” importa mais do que as pessoas? O pensamento de que o conteúdo do iPod é mais importante do que o conteúdo da alma (e uso alma como metáfora)? O pensamento de que poder escolher o tipo de iogurte é… nem sei como completar esta frase. Que tal… “minimamente relevante”?

E aí fiquei pensando. O que pode ter acontecido pra que esse conservadorismo aparente tivesse tomado conta da juventude? Seriam os novos jovens mais egoístas do que os da minha época?

Claro que não. A juventude respira generosidade se tiver permissão e contexto.

É isso. Faltam permissão e contexto.

Um tiquinho de paciência e já explico.

A falta de “permissão” vem da mídia e da despolitização. Os jovens abaixo de 25 anos cresceram com uma mídia cujo conservadorismo já resultou em críticas até do Reporters Without Borders (1) e que insiste em transformar qualquer denúncia, por menor que seja e por menos provas que tenha, em um escândalo inquestionável. Às vésperas da eleição de 1989, por exemplo, os jornais relacionaram o PT ao sequestro de Abílio Diniz, comprometendo a vitória da esquerda, mas mais recentemente, na última eleição presidencial, podemos encontrar um exemplo claro no caso Erenice Guerra, próxima de Dilma, que foi massacrada pela Globo e pelos jornais durante semanas, acusada de todo tipo de ato de corrupção imaginável. Erenice que depois foi, vejam só, inocentada. O mesmo ocorreu com o ex-ministro Orlando Silva. E com Luis Gushiken. E, ESTA SEMANA, com José Luis Dutra, que a Folha acusou numa matéria de ter sido “denunciado” por Paulo Costa apenas para, no dia seguinte, publicar uma pequena errata dizendo que haviam errado e que Dutra nada tinha a ver com o caso.

Com isso, a mídia criou uma impressão de corrupção generalizada – mas só do lado que a interessa, já que sempre ignora qualquer denúncia contra a direita (cartel do metrô em SP, falta de planejamento da SABESP, mensalão tucano, compra de votos da reeleição de FHC, máfia dos sanguessugas, etc.). Aliás, quando noticia algo, é pra aliviar a barra: esta semana, o Jornal Nacional anunciou que a Procuradoria Geral da República arquivou denúncias contra Aécio no caso do aeroporto em Cláudio – mas deixou convenientemente de informar que a PGR disse apenas que não havia indícios de ilícito em esfera FEDERAL e que, por isso, encaminhou a denúncia pra Procuradoria Geral do Estado por ver indícios de IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA por parte do governo de Aécio.(2)

Assim, como a juventude pode se sentir livre para defender o projeto do governo se este é constantemente rotulado pela mídia brasileira como “o mais corrupto da história”? Um governo que, vejam só, criou diversos mecanismos justamente para investigar, coibir e punir a corrupção? (3) Com isso, só resta a opção de defender a oposição, cujos desmandos são varridos para debaixo do tapete, embora sejam inúmeros, de vulto infinitamente maior e, ao contrário do que ocorre com o governo Dilma, JAMAIS investigados apropriadamente.(4)

Isto tem um nome: despolitização. A mídia atira termos como “bolivarianismo” e “Foro de São Paulo” na cabeça do público e passa a vê-lo reproduzi-los sem terem ideia do absurdo que dizem. Como aqueles que afirmam, sem hesitar, que o filho de Lula se tornou multimilionário e é dono da Friboi, duas mentiras que, de tanto serem repetidas, se tornaram mantra de vários eleitores da oposição.

Já o segundo elemento que torna nossa juventude conservadora é o contexto. Ou melhor: a falta de. Quem tem menos de 25 anos cresceu num país pós-Lula. E, assim, se acostumaram a um país com problemas infinitamente menores do que aqueles que eu vi ao crescer. É uma juventude que compreensivelmente quer melhorias constantes, mas à qual falta a compreensão de que 500 anos de injustiças não são corrigidos em apenas 12 anos. É uma juventude que nunca leu nas capas de jornal que a fome estava matando um número trágico de crianças, que não viu milhares de indivíduos com curso superior fazendo fila pra um concurso de gari numa época em que o Brasil era o 2o pais do mundo em DESEMPREGO, que não viu os juros dos bancos atingirem 79% ao ano, etc, etc, etc. (5)

Infelizmente, estes jovens não se lembram de como o Brasil era antes da era Lula-Dilma. Mas eu lembro. Lembro do Plano Cruzado com suas donas-de-casa fiscais de preço; do confisco da bolsa; dos apagões de FHC e sua dependência do FMI (6). Lembro de quando FHC obrigou o país a racionar luz (7). Lembro da falta de oportunidades na educação pública (8). Da falta de universidades (9) (que poderia ser pior; já que ele cogitou acabar com as públicas) (10). Lembro da inflação (que tantos dizem que FHC controlou, mas que na realidade subiu descontroladamente no seu mandato).(11) Lembro da compra de votos pra reeleição (200 mil/deputado). (12) Lembro dos grampos telefônicos na era FHC.(13) Lembro do Engavetador-Geral da União, que, ao contrário do que ocorre hoje, não permitia que as denúncias fossem investigadas.(14) Lembro do vexame da “festa” dos 500 anos.(15) Lembro do 1,6 BILHÃO que FHC deu ao Marka/FonteCindam (e lembro do Cacciola).(16) Lembro do filho de FHC e seu envolvimento com a EXPO 2000.(17) Lembro do massacre no Eldorado dos Carajás.(18) Lembro da dengue descontrolada.(19) Lembro dos reajustes de 580% na telefonia.(20) Lembro do PIB ridículo.(21) Lembro dos mais de 2 BILHÕES de fraude na SUDAM de FHC.(22) Lembro de FHC chamando aposentados de “vagabundos”.(23) E o povo brasileiro de “caipira“.(24). Lembro de como Aécio, ao contrário do que afirmou recentemente, votou contra o aumento real do salário mínimo.(25) Lembro de como Aécio sabotou CPI sobre a má gestão tucana da Petrobrás em 2001, que resultou no afundamento de uma plataforma.(26) Lembro de Armínio Fraga, que Aécio anunciou como seu ministro da Fazenda, dizendo que o salário mínimo está alto demais.(27) Lembro de quando Armínio era presidente do Banco Central e elevou os juros básicos de 37% para 45%.(28)

Lembro, enfim, muito bem de como era este país até 12 anos atrás. Esta é a questão: não falo tanto de política porque gosto. Ao contrário: me dá dor de cabeça, me faz perder leitores e me prejudica profissionalmente.

Eu falo tanto de política porque preciso. Tenho dois filhos. Não quero pra eles o Brasil no qual cresci. Não quero retrocesso. E é por esta razão, por saber que tenho tantos leitores jovens, que me sinto na obrigação de passar a eles um pouco do que vivi e testemunhei. Porque acredito na generosidade da juventude e acredito que, quando forem lembrados de como este país era e do que se tornou, votarão com a consciência de que, depois de 500 anos de miséria e fome, os últimos 12 anos viram uma redução de 75% na pobreza extrema (imaginem isso!)(29), viram o Brasil sair PELA PRIMEIRA VEZ do mapa da fome da Onu (30) e também viram nosso país ser premiado por três iniciativas públicas pela mesma ONU (31).

E trazer estas informações para nossos jovens, em vez de apenas bombardeá-los com factóides e denúncias que sempre parecem surgir magicamente nas vésperas da eleição, não é ativismo político; é apenas ser responsável como cidadão.

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FONTES:
1. http://articles.latimes.com/2013/mar/03/world/la-fg-brazil-hostile-media-20130304
2. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/10/pgr-arquiva-representacao-contra-aecio-por-construcao-de-aeroporto.html
3. https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/576172119154685
4. http://top10mais.org/top-10-maiores-crimes-de-corrupcao-no-brasil/
5. http://fhcnao.blogspot.pt/2014/10/como-era-o-brasil-no-governo-do-psdb.html
6.http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u53074.shtml
7.http://www.ailtonmedeiros.com.br/o-racionamento-de-energia-na-epoca-de-fhc-segundo-a-veja/2013/01/14/
8.http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Educacao-superior-em-Lula-x-FHC-a-prova-dos-numeros/13/16291
9.http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2014/05/governos-pt-criaram-18-universidades.html
10.http://www.conversaafiada.com.br/politica/2014/05/15/fim-da-universidade-publica-fhc-obedeceu-ao-fmi/
11.http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br//?p=3782
12.http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/palmeriodoria.html
13.http://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_grampo_do_BNDES
14.http://socialistamorena.cartacapital.com.br/nos-tempos-do-engavetador-geral-refrescando-henrique-cardoso/
15.http://ocarlismo.blogspot.com.br/2012/10/acm-e-o-vexame-da-festa-dos-500-anos.html
16.http://www.midiaindependente.org/pt/red/2012/11/513752.shtml
17.http://www.dgabc.com.br/Noticia/160639/fhc-diz-que-gasto-de-rs-10-mi-em-hannover-e-modesto-?referencia=navegacao-lateral-detalhe-noticia
18.http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Eldorado_dos_Caraj%C3%A1s
19.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff120101.htm
20.http://www.gazetadigital.com.br/conteudo/show/secao/60/materia/4561
21.http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/desconstruindo-fhc
22.https://www.dgabc.com.br/Noticia/182029/fhc-extingue-sudan-e-sudene-mas-investigacao-continua-?referencia=buscas-lista
23.http://www2.uol.com.br/JC/_1998/1205/br1205n.htm
24.http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=60989
25.http://www.viomundo.com.br/denuncias/maximiliano-garcez-aecio-votou-sim-contra-aumento-salario-minimo.html
26.http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/10/aecio-forca-campanha-com-petrobras-mas-abafou-cpi-do-naufragio-da-plataforma-p-36-5393.html
27.https://www.youtube.com/watch?v=kIiHuNM-jl0
28.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi05039906.htm
29.http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/09/16/brasil-reduz-a-pobreza-extrema-em-75-diz-fao.htm
30.http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/sair-do-mapa-de-fome-da-onu-e-historico-diz-governo
31.http://www.onu.org.br/tres-iniciativas-brasileiras-vencem-premio-global-da-onu-de-servico-publico/

A Democracia Particular de Aécio Neves (ou “Os 66”)

postado em by Pablo Villaça em Política | 64 comentários

Eu escrevo.

É o que sei fazer. É minha profissão, minha terapia, minha principal forma de expressão e também a maneira com que defendo meus ideais.

Há quem discurse. Há quem se candidate a cargos públicos. Há quem troque socos. Eu escrevo.

Não que escrever sobre política seja minha principal ocupação – ou mesmo secundária. Em número absoluto de palavras, o Cinema certamente domina meus textos – tanto na forma de críticas e posts, como também nos roteiros que escrevi e dirigi e no livro que publiquei. Em segundo lugar, vêm os contos. Só então, os textos nos quais busco discutir minhas posições políticas.

Tenho algumas regras, porém: não me importo com a vida pessoal de quem quer que seja. Não aceito dinheiro para defender uma causa (não que jamais tenham oferecido). Não separo sujeito de verbo (esta regra deveria ser seguida por mais pessoas, mas divago).

Assim, foi com surpresa que, neste domingo, me descobri numa lista de 66 tuiteiros que o candidato à Presidência da República, sr. Aécio Neves, quer ver calados. De acordo com o processo no. 1081839-36.2014.8.26.0100, Neves exige que o Twitter entregue a ele os dados pessoais e sigilosos de 66 pessoas que mantêm contas naquela rede social – e duvido que o objetivo final seja encaminhar flores ou chocolates para cada um. Em outras palavras: um senador da República, ex-governador de Minas Gerais e um dos três principais presidenciáveis do país (ok, ele é o terceiro) está buscando intimidar cidadãos que se atreveram a criticá-lo.

Caro senador, como diriam os Corleone, “não é pessoal; são apenas negócios”.

Nunca escrevi, por exemplo, sobre os insistentes boatos envolvendo o político e o consumo de drogas – boatos tão comuns que já inspiraram gritos de torcida em estádio e levaram até mesmo um aspirante a comediante notoriamente reacionário e que certamente enxerga a candidatura de Aécio com bons olhos a fazer piadas em seu stand up sobre a fama do senador. E sabem por que nunca escrevi? Porque nunca vi Aécio Neves consumir drogas e jamais li uma notícia que trouxesse evidências inquestionáveis sobre isso. Sim, ele já foi filmado embriagado, já foi parado por blitz e se recusou a fazer teste do bafômetro, tendo sua carteira apreendida, e também deu uma entrevista recente à TV Estadão no qual cambaleava, trazia um olhar perdido e falava com dicção incerta, mas, embora eu possa questionar o bom senso de um candidato a presidente que se deixa flagrar embriagado em ao menos duas ocasiões (a entrevista ao Estadão poderia ser fruto de, sei lá, um efeito de medicamento para alergia), jamais me ocorreria questionar sua corrida presidencial a partir disso. Álcool não é ilegal e cada um faz o que quiser em seu tempo livre.

Não. O que realmente me preocupa com relação a Aécio Neves – e que já me inspirou, aí, sim, a escrever sobre sua candidatura – é sua gestão em Minas Gerais, estado no qual nasci, cresci e ainda resido. Eu me preocupo, por exemplo, com o fato de MG ser, entre os 26 estados e o Distrito Federal, apenas o 24o. em termos de gastos com Educação num balanço publicado em 2011 (Aécio deixou o governo ao fim de 2010). Eu me preocupo que sejamos também o 24o. estado nos gastos com Saúde. Eu me preocupo com o fato de a dívida pública de MG ser a 2a. maior e uma das mais caras do país. Eu me preocupo com os 4,3 bilhões de reais desviados da Saúde em MG, seja Aécio Neves réu na ação ou não (era o governador, afinal). Eu me preocupo com o aeroporto em Cláudio e outras questões relacionadas a ele (inclusive a possibilidade de ser rota para o tráfico). Eu me preocupo com o fato de haver um jornalista preso em MG há meses, sendo que seus advogados enfrentaram dificuldades para ter acesso ao processo e que a justificativa da juíza para mantê-lo na cadeia tenha sido (pasmem) a possibilidade de que ele viesse a publicar mentiras em seu jornal (uma justificativa ao melhor estilo Minority Report). E, não menos importante, me preocupa muito os relatos constantes de tentativas frequentes de censura ou retaliação a jornalistas que ousam criticar o ex-governador (e, ao final deste post, incluirei um doc produzido por um canal estrangeiro sobre o assunto e que, numa comprovação de que desconhece o conceito de “ironia”, Aécio tentou censurar).

Não creio que, como cidadão, eu esteja abusando de meus direitos ao abordar estes assuntos. Não enxergo, sinceramente, qualquer justificativa para que o senador, ex-governador e agora presidenciável recorra à justiça para tentar me intimidar.

No processo, Aécio alega que os tuiteiros (detesto essa palavra, mas vá lá) são provavelmente “robôs” ou perfis “remunerados para veicular conteúdo ilícito”.

Não sou advogado, mas isto me parece calúnia. Depois de 20 anos de carreira e de ser publicado em português e inglês em veículos que vão do Cinema em Cena ao site de Roger Ebert (desde quando era hospedado pelo jornal Chicago Sun-Times), ser chamado de “robô” é algo inédito para mim – bom, isto se não contar a minha namorada de adolescência que me acusou de dançar como um andróide e me traumatizou para o resto da vida, me impedindo de voltar às pistas de dança e frustrando meu sonho de me profissionalizar usando o pseudônimo de “Tony Mineiro”.

Além disso, venho de uma família para a qual a política é assunto muito, muito sério. Como já escrevi em outras ocasiões, minha mãe e meus tios lutaram contra a Ditadura e tenho parentes que carregam até hoje as sequelas das torturas sofridas nos porões malditos do DOI-Codi. Milito politicamente desde os 18 anos – nunca profissionalmente, mas, sim, de forma contínua. Se não ocorre a Aécio que alguém possa defender ideais apenas por amor, sinto por ele, mas é o que faço. Como já escrevi antes, eu me preocupo com o Brasil no qual meus filhos irão crescer. Esta motivação é suficiente para me manter ativo.

Mas, como dito no início deste post, minha ferramenta é a escrita. Não tenho uma fortuna para investir em marketing pessoal ou para propagar minhas ideias. Não tenho poder político para influenciar legisladores ou quem quer que seja. Escrevo porque preciso, porque amo escrever e porque é minha maneira de tentar ser escutado e de compartilhar minhas preocupações. Depois de duas décadas escrevendo, tenho um número considerável de leitores e me orgulho não só disso, mas do carinho com que estes leitores me presenteiam continuamente.

Já Aécio tem, à sua disposição, armas como dinheiro e poder político. E é preocupante que, apenas por ser criticado (e é, afinal, uma pessoa pública que quer gerir o futuro do país), ele tente usar suas ferramentas para me impedir de usar a minha.

Retórica vazia, egoísmo completo

postado em by Pablo Villaça em Política | 30 comentários

Hoje, um ex-aluno e leitor veio dizer, no Twitter, que “não consegue confiar no governo federal” e que este “não fez nada em quatro anos que inspirasse confiança”. Pedi que fosse mais específico em suas críticas, já que é impossível esclarecer o que quer que seja quando alguém se entrega a generalizações. A resposta dele? “As jornadas de junho comprovam” e pronto.

Suspiro.

Pra piorar, mesmo não apresentando um único argumento que sustentasse sua posição, ele imediatamente disse que eu defendia “cegamente” o governo. É o tipo de retórica mais canalha que existe: você ataca, ataca, ataca (mesmo sem argumentos); quando o outro defende, ELE é o “radical”, o “cego”.

Sabem qual é o problema desses coxinhas? Eles não podem dizer o que querem de verdade: “O governo pensa mais nos pobres do que em mim!”, então precisam ficar inventando desculpa. “Podia estar melhor”, “O ‘mercado’ não quer Dilma”, blablabla. Não sabem o que foi viver no Brasil na era FHC. Não sabem o que era o desemprego que levava gente com curso superior a fazer prova pra gari. Não sabem o que é ter que escolher entre almoço e jantar – com sorte. O que é um moleque de 9 anos ter que trabalhar pra ajudar em casa. Nao sabem o que era estudar numa universidade federal sucateada e sob ameaça constante de privatização. Não sabem o que era viver de um salário mínimo que não dava pra comprar UMA cesta básica (hoje compra mais de duas). Então ficam no “blablajornadasdejunhoblablamensalãofoiopiorcasodecorrupçãodahistóriablabla”.

Sejam honestos, porra! Digam: “PENSO SÓ EM MIM”.

Não falem de corrupção pra atacar um governo que fez o que FHC e o PSDB não fizeram e não fazem: permitiu investigação. É MUITO FÁCIL bancar o honesto quando se mantém a imprensa amordaçada. Foi só sair de MG que os podres de Aécio começaram a surgir. Aliás, surgir FORA de Minas, porque aqui os principais jornais continuam calados.

Estou cansado de ter que rebater retórica vazia. Como seria bom ter uma oposição que pensasse, que permitisse debate de igual pra igual. Em vez disso, tenho que passar raiva ouvindo gente falar de “mensalão” e perguntando “quando PT vai devolver dinheiro público”. QUE DINHEIRO PÚBLICO? MESMO aceitando que mensalão foi compra de votos (e não foi; foi caixa 2), não houve dinheiro público envolvido. Dinheiro público foram os 100 BILHÕES que a privataria custou ao nosso patrimônio. Mas isso esses idiotas preferem ignorar.

Chega uma hora em que isso começa a cansar.

Ok, eu oferecerei alguns argumentos, mesmo que ele não tenha conseguido:

PIB em bilhões de reais
2002 – 1.477
2013 -4.837
Fonte IPEA

Falências requeridas
2002 -19.891
2013 – 1.758
Fonte IPEA

Inflação
2002 – 12,53%
2013 – 5,91%
Fonte IPEA

Desemprego % mês dezembro
2002 – 10,5
2013 – 4,3
Fonte IPEA

Juros selic
2002-24,9%
2013-11%
Fonte IPEA

Divida pública % do PIB
2002-60,4%
2013-33,8%
Fonte ANDIFES

Salário mínimo em reais
2002- 364,84
2014-724,00
Fonte IPEA

Taxa de pobreza %
2002-34%
2012-15%
Fonte IPEA

IDH
2000-0,669
2005-0,699
2012-0,730
Fonte Estadao

Reservas cambiais em bilhões
2002-38
2013-375
Fonte IPEA Banco mundial

Gastos públicos saúde
2002-28bi
2013-106bi
Fonte orçamento federal

Gastos públicos educação
2002-17bi
2013-94bi
Fonte orçamento federal

Risco Brasil
2002-1.446
2013-224
Fonte IPEA

Economia mundial
2002-14a economia mundial
2013-6a economia mundial.

E mais: como lembrou um leitor, entre 1994 e 2002, houve apenas 48 operações da Polícia Federal; entre 2003 e 2012, houve 1.273 operações, com mais de 15 MIL presos. Em 2003, a Justiça Federal tinha 100 varas pelo país; em 2010, já tinha 513.

Às vezes, penso que Lula e Dilma não deveriam ter dado independência à PF e à Procuradoria-geral. Parece que o pessoal preferia antes, quando nada era investigado e ninguém era punido.

Mas nem seria necessário citar todos esses dados. Como lembrou outro leitor, só por ter reduzido a miséria no Brasil PELA METADE este governo já foi revolucionário e mereceria todos os aplausos do mundo.

Em vez disso, porém, sou obrigado a escutar retórica vazia, sem base e calcada no preconceito e no mais intenso elitismo.

E – VEJAM QUE BELEZA – AINDA ME PREJUDICO PROFISSIONALMENTE, perdendo leitores.

“Eu gostaria mais do Pablo se ele falasse só de Cinema”.

E eu seria mais feliz se pudesse fazê-lo. Mas sou cidadão em primeiro lugar. E me recuso a ficar calado e contribuir, por inação, para que o país retroceda nas mãos daqueles que por décadas só se preocuparam em encher os próprios bolsos e em ignorar as necessidades de uma população que merece muito mais do que só uma refeição miserável ao dia.

Autópsia de um Boato

postado em by Pablo Villaça em Política, Variados | 99 comentários

Durante os últimos meses, a CBF (Central de Boataria do Facebook) espalhou imagens e textos apócrifos afirmando que o Brasil comprara a Copa como maneira de manter o povo artificialmente feliz e, assim, beneficiar (claro) a presidente Dilma Rousseff. Eram boatos patéticos, obviamente fabricados por uma direita que vem se especializando cada vez mais em disseminar o ódio e a desinformação através de perfis como “TV Revolta” e de uma rede de comentaristas pagos (informação da Foxlha de São Paulo) para povoar qualquer espaço interativo com ataques ao governo federal.

Pois bem: o Brasil perdeu. E feio. E agora?

Simples: espalhem boatos de que o Brasil vendeu a Copa. 

Nas últimas 24 horas, recebi o texto abaixo através de whatsapp, facebook e email. O mais inacreditável é que, em alguns casos, leitores me enviaram o texto perguntando se a “informação” ali contida poderia ser verdadeira. Por um lado, confesso que me espantei que alguém pudesse sequer cogitar que o texto fosse verídico, tamanha sua estupidez; por outro, preciso admirar o cuidado com que as informações foram construídas justamente para tentar convencer os mais ingênuos ao criar uma plausibilidade superficial e, principalmente, ao compreender os aspectos emocionais dos leitores-alvos – algo que analisarei logo abaixo apenas como um exercício para que possamos compreender melhor a lógica por trás deste gerador de boatos.

Primeiro, o texto:

“Talvez, isso explique a razão do jogador Maxwell ter declarado a seguinte frase: ‘Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas’.

Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por terem sido eliminados a Copa do Mundo de futebol, no Brasil. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.

Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa. Os jogadores titulares foram avisados, às 13:00 do dia 08 de Julho (dia do jogo contra o Alemanha), em uma reunião envolvendo o Sr. José Maria Marin (na única vez que o presidente da federação brasileira compareceu a uma preleção da seleção), o Técnico Scolari e o Presidente da FIFA, Joseph Blatter. Os jogadores reservas permaneceram em isolamento, em seus quartos ou no lobby do hotel. A princípio muito contrariados, os jogadores se recusaram a trocar o hexa-campeonato mundial por sediar a Copa do Mundo em 2022 novamente.

A aceitação veio através do pagamento total dos prêmios, US$700.000,00 para cada jogador, mais um bônus de US$400.000,00 para todos os jogadores e integrantes da comissão, num total de US$ 23.000.000,00 vinte e três milhões de dólares) através da FIFA. Além disso, os jogadores que aceitarem o contrato com a empresa FPAR nos próximos 4 anos, terão as mesmas bases de prêmios que os jogadores de elite da empresa, como Cristiano Ronaldo e Messi.

Mesmo assim, William se recusou a jogar, o que obrigou o técnico ‘Felipão’ a escalar o jogador Bernard, dizendo que havia escalado o jogador do Chelsea no treino apenas para confundir os jornalistas alemães.

A sua situação só foi resolvida após o representante da FPAR ameaçar retirar seu patrocínio vitalício ao jogador, avaliado em mais de US$90.000.000,00 (noventa milhões de dólares) ao longo da sua carreira.

Assim, combinou-se que o Brasil seria derrotado durante o segundo tempo, porém a apatia que se abateu sobre os jogadores titulares fez com que a Alemanha, que absolutamente não participou desta negociação, marcasse, em sete falhas simples do time do país sede da copa.

O Sr. Joseph Blatter, presidente da Fifa, cidadão franco-suíço, aplaudiu a colaboração da equipe brasileira, uma vez que o campeonato mundial trouxe equilíbrio à copa do mundo e evitou que o Brasil se distanciasse das demais seleções.

Garantiu que a seleção canarinho teria seu caminho facilitado para o hexa-campeonato de 2018. Por gentileza passem esta mensagem para o maior número possível de pessoas, para que todos possam conhecer a sujeira que ronda o futebol! Desde, já agradeço, Um abraço.

FONTE: Gunther Schweitzer Central Globo de Jornalismo.”

Ai, ai.

Em primeiro lugar, a pergunta óbvia: quem é Gunther Schweitzer? Ele existe? Trabalha para a Globo?

Sim, existe. Não, não trabalha.

O nome de Schweitzer é conhecido dos fãs de futebol por ter sido associado à denúncia sobre a final de 1998 em um email espalhado durante a Copa de 2002. Ora, então Schweitzer certamente é alguém que conhece os bastidores do futebol e já vem tentando expor seus podres há anos, correto? Errado. O sujeito é um simples personal trainer que, em 2002, recebeu um email apócrifo com a denúncia e a passou pra frente, cometendo o equívoco de deixar sua assinatura automática ao fim do texto – o que bastou para que se tornasse um funcionário da “Central Globo de Jornalismo” e fonte extremamente confiável daqueles que acreditam em conspirações. Aliás, quem conta isso é o próprio Schweitzer nesta entrevistaque levei exatamente três segundos para encontrar através do Google.

Muito bem: desmascarada a “fonte”, vamos ao texto em si para que possamos perceber como a manipulação traz uma certa “ciência” em sua construção narrativa.

Apostando já na desconfiança natural que todos temos com relação à CBF e à FIFA, o texto tem início com uma citação – um recurso dissertativo clássico para estabelecer desde o início um tom de verossimilhança: se alguém disse algo publicamente, deve ser verdade. Em outra busca rápida no Google, é fácil perceber, contudo, que a tal fala é atribuída a jogadores como Maxwell, Leonardo, Thiago Silva, Cafu, Roberto Carlos ou qualquer outro que se encontre mais célebre no momento. Mas as aspas trazem ao texto um suposto peso de denúncia por parte de quem sabe o que fala – e este é o objetivo.

A seguir, o autor usa um recurso psicológico e emocional tão básico que, confesso, me espanta que a maior parte dos leitores não perceba sua artificialidade: ao dizer que “Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por serem eliminados da Copa”, o propósito óbvio é estabelecer uma conexão, um vínculo, uma cumplicidade com o leitor. “Veja, estou triste como você. Sou brasileiro como você. Nossas emoções foram manipuladas; sofremos sem precisar, meu amigo!”. Com isso, o autor traz o leitor para perto de si, como se dividisse não só sua dor, mas fosse também uma vítima inocente que, por acaso, descobriu o que realmente aconteceu – uma informação que ele agora compartilhará, de amigo para amigo, com você, permitindo que descubra também o que se passa por trás das cortinas.

“O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.”

Aqui há um misto de esperteza e profunda tolice. A “esperteza” é citar órgãos de imprensa conhecidos e respeitados, conferindo credibilidade à confidência (tudo bem que “dello” é grafado incorretamente, mas ignoremos). A tolice é tentar convencer o leitor de que este lerá “em primeira mão” algo que está sendo “investigado”. Ora, o princípio mais básico de uma investigação jornalística é o sigilo: apure, comprove e depois publique. Acreditar que uma investigação tão grave quanto esta seria publicada em forma de denúncia “em primeira mão” exige não só ingenuidade, mas desconhecimento total de como o jornalismo opera.

Por outro lado, é preciso aplaudir a construção da frase “assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos”, já que esta planta, de maneira relativamente sutil, a ideia de que estamos lidando com fatos e de que é uma questão de tempo até que as “provas” os comprovem.

“Fato comprovado: O Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa.”

Afirmação veemente. Não duvide. Está escrito, então é verdade. (Vocês se surpreenderiam com o número de pessoas que aceitam algo como verdade apenas porque leram.)

A partir daí, a “denúncia” traz detalhes da negociação – e ao envolver nomes como os de Marin e Blatter, que já despertam suspeitas em função das várias denúncias reais ligadas às suas ações, o texto pega emprestada a credibilidade das investigações verídicas feitas sobre ambos. E isto é de uma imensa canalhice, já que, por tabela, acaba fragilizando-as com a própria mentira.

Os elementos que se seguem beiram o ridículo: os reservas foram mantidos à distância, os titulares inicialmente se mostraram “muito contrariados” e… ah! Jogada ao acaso, quase que como um detalhe, a motivação para que vendêssemos a Copa: a possibilidade de sediarmos o evento novamente em 2022. Novamente o texto usa um escândalo real (a possível manipulação na eleição do Qatar como sede) para seus próprios objetivos, o que, de novo, é profundamente desonesto e ainda compromete a percepção pública acerca de denúncias reais que mereciam ser levadas a sério.

O texto, então, explica que cada jogador receberá 700 mil dólares para vender o jogo – e se considerarmos o salário médio da seleção, é divertido imaginar que os atletas aceitariam entregar a Copa por algo que, comparado aos seus ganhos normais, é quase uma esmola (daí a tentativa de tornar a coisa mais plausível através da oferta de um “contrato com a empresa FPAR”). O texto não se preocupa em explicar, porém, o que acontecerá com os jogadores que não “aceitarem o contrato”. Serão executados numa queima de arquivo?

Há, ainda, detalhes sobre uma possível recusa de William (jogando com a imagem de bom garoto que ele ganhou não só pela pouca idade, mas pelos comerciais de guaraná que narravam sua trajetória) e outras bobagens sobre como a “apatia” dos jogadores explicaria o placar final – o que, mais uma vez, é um recurso psicológico curioso ao trazer certo conforto aos torcedores inconformados com um resultado tão humilhante. “Claro que tinha que haver uma explicação para a goleada! O Brasil jamais perderia de sete a um!”.

A denúncia encerra com a “fonte” (cof-cof) e com um pedido para que as “informações” ali contidas sejam espalhadas. Não custa nada passar um email adiante, custa? Especialmente se este traz, no início, um “Será?” que indica que você não está comprando totalmente a ideia (claro que não! Você é um cético, é racional, questionador!), mas, como cidadão, acha importante repassar a denúncia.

O problema é que não é “importante”. Ao contrário: é extremamente prejudicial, tóxico, destrutivo. É contribuir para um clima de instabilidade que atrapalha o país como um todo, beneficiando apenas aqueles que têm a ganhar justamente com esta desestabilização. Ser cidadão não é “repassar denúncias”; é agir responsavelmente, como adulto, em vez de contribuir, através da própria apatia, para o projeto político de quem quer que seja.

E, na dúvida, vá ao Google. É fácil, te poupa do embaraço e te blinda contra a manipulação.

Passe esta mensagem para o maior número de pessoas. Desde já agradeço.

Fonte: Pablo Villaça, Cinema em Cena

A Taça Não é Nossa; a Copa, sim

postado em by Pablo Villaça em Política, Variados | 24 comentários

Difícil resistir a fazer um breve (mais ou menos) comentário sobre o jogo e suas absurdas repercussões. Em primeiro lugar, a reação de muitos no Facebook não foi de todo surpreendente, já que o perfil daquele espaço tende a ser mais conservador do que o do Twitter, por exemplo. Observo isso todos os dias: comentários idênticos feitos em um e outro são recebidos com apoio no Twitter e repúdio no Facebook e vice-versa.

Não, o que me espanta, de fato, é perceber um salto tão súbito na atitude de tanta gente. Pessoas que às 17h cantavam o hino e diziam ser brasileiras “com muito orgulho e muito amor”, que se mostravam orgulhosas da organização da Copa (que mostrou ao mundo inteiro nossa capacidade de sediar um evento deste porte), que balançavam bandeiras e celebravam o país e que, menos de duas horas depois surgiam queimando estas mesmas bandeiras enquanto afirmavam que era por vergonha da Educação, da Saúde, etc, etc.

O viralatismo surgiu com força em um texto medíocre, com toda pinta de ter sido escrito há muito tempo e estar apenas à espera de uma derrota, no qual o autor anônimo dizia que havíamos testemunhado a derrota da “malandragem” diante da “competência”. E que isto deveria ser uma lição para um país no qual a “malandragem” impera tanto que não é nem preciso “estudar para ser presidente”.

Vamos separar as coisas: a seleção brasileira perdeu. E feio. De forma vergonhosa. Houve, sim, despreparo. Até certa negligência. Mas estes meninos não são vilões – e nem mesmo Felipão ou Parreira são. Fracassaram. E envergonharam o país, mas não são vilões. Não merecem “repúdio”. E, acreditem, já estão se penalizando mais do que podemos imaginar. Dormirão hoje (se dormirem) com dor no peito e terão pesadelos – dos quais não acordarão pela manhã, que trará a consciência de que, sim, tudo aquilo aconteceu. Dito isso, compreendo a dor e a revolta como torcedor.

Mas como “brasileiro”? Ora, que revolta súbita é esta pela “Educação” que esperou convenientemente uma derrota da seleção para se manifestar? E é sério que querem usar como exemplo a Alemanha – onde o índice de analfabetismo é dez por cento e, portanto, bem maior que o do Brasil? (Até entendo: aprender aquela língua deve ser terrível!)

Ora, o Brasil acabou de aprovar uma medida para investir nada menos do que dez por cento do nosso PIB apenas em Educação! Apenas quatro outros países no mundo inteiro investem tanto – e nenhum tão grande quanto o Brasil.

E fora dos campos, o Brasil venceu a Copa. A imprensa internacional é unânime em dizer que esta é a melhor de toda a História – e as matérias não se limitam a falar dos jogos, mas da infra-estrutura, dos estádios, dos aeroportos que funcionaram (uma média de atrasos de 7,5% quando até 15% são considerados aceitáveis pela aviação em todo o mundo), da hospitalidade desse povo maravilhoso que se apaixonou pelos visitantes e inspirou a paixão destes.

A Copa foi tão bem sucedida que o próprio Aécio Neves, candidato da oposição, manifestou receio de que ela ajudasse a presidente nas eleições – e é justamente por isso que não fiquei surpreso ao perceber que Alvaro Dias, senador tucano, compartilhou o tal texto sobre nossa “malandragem”.

“MALANDRAGEM”? Fale por você, senador.

O Brasil não é perfeito e o governo federal tampouco. Mas não se esqueça de que o tal cara que foi eleito presidente “sem ter estudado” deixou o posto como o governante com a maior aprovação da História desse país. E que sua substituta gozava de igual aprovação até as manifestações de junho passado, que foram disparadas por um aumento nas passagens de ônibus que – vale lembrar – contavam com um subsídio do governo federal para que não fossem tão elevadas e que mesmo assim, por ganância das empresas, foram reajustadas.

Mas paro por aqui, pois sei que, nos dias de hoje, ninguém lê texto extenso ou que contenha dados que possam ser confirmados no Google. O texto que ganha compartilhamentos no Facebook e no Whatsapp é aquele curtinho, com ofensas e acusações sem prova e uma frase de efeito que, mesmo reduzindo o próprio leitor ao posto de “malandro”, é passado adiante pelo choque artificial que provoca.

Assim, publico este texto para mim mesmo. Como um lembrete de que, vergonhosos 7 a 1 à parte, essa Copa FOI DO CARALHO. AINDA ESTÁ SENDO.

E é um imenso motivo de orgulho para todos os brasileiros diante de todo o mundo. Mesmo para aqueles que, num impulso tolo e inexplicável, decidiram queimar a bandeira da pátria que lhes trouxe esse presente de Copa.

A Importância da História (ou “Eu Lembro”)

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 150 comentários

Em uma entrevista concedida há dois dias e cuja leitura recomendo fortemente, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, fez uma observação bastante interessante sobre a postura política de boa parte da população mais jovem:

“Imagina um jovem de 18 anos hoje. Ele não sabe o que foi a era pré-Lula. Até mais. 25 anos. Uma pessoa de 25 anos hoje, tinha 12, 13, quando o Lula tomou posse. O que eles sabem? Quer dizer, se colocou um desafio muito maior, mas temos de conversar com a população sobre o que se avançou. Até para se apropriar dessas conquistas, as pessoas têm de saber o que era o Brasil antes dessas oportunidades surgirem. É um desafio grande. Uma coisa é explicar para uma pessoa de 40 anos o que era o Brasil antes do Lula e outra para uma pessoa de 25, porque ela não viveu. Ela não viveu o desemprego, a inflação, o apagão, falta de oportunidade educacional.”

É uma reflexão fundamental. Como já apontei algumas vezes, tenho ficado chocado com a quantidade de jovens que vêm assumindo uma postura reacionária, claramente de Direita, enquanto regurgitam clichês retóricos típicos das classes economicamente dominantes. Mesmo quando tentam assumir uma postura apolítica (“Não existe mais diferença entre Esquerda e Direita no país”, “Não tenho partido; sou contra tudo que está aí”; “Todo político é ocrrupto”), fica fácil perceber que se trata apenas de uma fachada, já que todas as críticas que fazem dizem respeito ao governo federal – mesmo quando estão discutindo temas subordinados às administrações estaduais e municipais.

Mas, a partir do que ponderou Haddad, me vi movido a indagar se estes jovens são de fato reacionários (algo ainda mais estranho e triste na juventude) ou se apenas não se lembram de como era o Brasil pré-2002.

Porque eu lembro. Lembro do Plano Cruzado com suas donas-de-casa fiscais de preço; do confisco da bolsa; dos apagões de FHC e sua dependência do FMI. Lembro de quando FHC obrigou o país a racionar luz. Lembro da falta de oportunidades na educação pública. Da falta de universidades (que poderia ser pior; já que ele cogitou acabar com as públicas). Lembro da inflação (que tantos dizem que FHC controlou, mas que na realidade subiu descontroladamente no seu mandato).  Lembro da compra de votos pra reeleição (200 mil/deputado). Lembro dos grampos telefônicos na era FHC. Lembro do Engavetador-Geral da União, que, ao contrário do que ocorre hoje, não permitia que as denúncias fossem investigadas. Lembro do vexame da “festa” dos 500 anos. Lembro do 1,6 BILHÃO que FHC deu ao Marka/FonteCindam (e lembro do Cacciola). Lembro do filho de FHC e seu envolvimento com a EXPO 2000. Lembro do massacre no Eldorado dos Carajás. Lembro da dengue descontrolada. Lembro dos reajustes de 580% na telefonia. Lembro do PIB ridículo. Lembro dos mais de 2 BILHÕES de fraude na SUDAM de FHC. Lembro de FHC chamando aposentados de “vagabundos” E o povo brasileiro de “caipira“.

Lembro, enfim, muito bem de como era este país até 12 anos atrás. Esta é a questão: não falo tanto de política porque gosto. Ao contrário: me dá dor de cabeça, me faz perder leitores e me prejudica profissionalmente.

Eu falo tanto de política porque preciso. Tenho dois filhos. Não quero pra eles o Brasil no qual cresci. Não quero retrocesso. E é por esta razão, por saber que tenho tantos leitores jovens, que me sinto na obrigação de passar a eles um pouco do que vivi e testemunhei.

Isso não é ativismo político; é apenas ser responsável como cidadão.

 

Cronologia de um Demagogo

postado em by Pablo Villaça em Política | 90 comentários

01/12/2011: Ronaldo aceita cargo no Comitê Organizador Local da Copa.

20/10/2011: Ronaldo celebra Copa 2014 no Itaquerão.

20/03/2012: Ronaldo: “A Copa do Mundo da FIFA é de todo o Brasil”.

10/10/2012: Ronaldo garante Brasil pronto pra receber a Copa 2014.

30/01/2013: Ronaldo pede para imprensa abraçar a Copa do Mundo.

05/11/2013: Ronaldo defende Copa de “protestos inventados” e enaltece progresso.

19/12/2013: Ronaldo minimiza desconfianças e vê Brasil acreditar no projeto da Copa 2014.

07/01/2014: Ronaldo diz que Copa está trazendo muitos benefícios ao país.

21/02/2014: “Copa é um grande negócio para o país”, afirma Ronaldo.

30/03/2014: Ronaldo está animado para a Copa de 2014.

01/05/2014: Ronaldo posta foto de apoio à candidatura de Aécio Neves.

23/05/2014: Ronaldo se diz envergonhado com preparação da Copa.

A propósito: de acordo com a Ernst & Young e a Fundação Getúlio Vargas, entre 2010 e 2014, o Brasil deverá arrecadar 16 bilhões com impostos deixados pela FIFA no Brasil (entre valores dos ingressos e eventos relacionados) – um valor consideravelmente superior ao que o governo federal gastou na reforma dos estádios. Ou seja, a Copa dará lucro ao país. Que coisa.

Update: Estão tentando vender a ideia mentirosa de que o governo federal isentou a FIFA de impostos sobre os ingressos. Errado. A FIFA ganhou isenção ao IMPORTAR itens para a infra-estrutura dos jogos, como uniformes e ônibus. Mas não foi só ela. As televisões brasileiras também ganharam isenção para importar equipamentos necessários para televisionar o evento. Não caiam nas falácias dos reacionários; eles ganham espalhando inverdades.

A Culpa é do PT?

postado em by Pablo Villaça em Política | 208 comentários

Este será um ano difícil.

Anos eleitorais sempre são desgastantes para qualquer um que se importe com política, mas 2014 promete ser um período particularmente exaustivo. Considerando a virulência manifestada nas redes sociais por aqueles que se colocam contra o governo federal – e insisto em apontar que o tom e a agressividade dos argumentos por parte da esquerda nem chegam aos pés daqueles usados pela direita -, os próximos meses serão tomados por factóides, maniqueísmo midiático e baixarias.

Que a mídia há muito demoniza o governo federal enquanto higieniza todo e qualquer escândalo envolvendo a oposição é algo inquestionável. Basta ver o que ocorre agora em São Paulo, quando UOL, Foxlha, Veja e Estadão insistem em dizer que não haverá racionamento de água no estado, repetindo o discurso de Alckmin, quando um levantamento recente feito pelo Instituto Data Popular aponta que 23% da população já sofre com a falta de água – 35% só na capital. O mais revelador, contudo, é perceber que o problema afeta duas vezes mais as famílias de baixa renda: 12% dos que ganham mais de dez salários-mínimos contra 25% daqueles que recebem até um salário. Enquanto isso, denúncias envolvendo a Petrobrás (que, claro, devem ser investigadas) ocupam as páginas dos portais e dos jornais mesmo que o processo de apuração ainda se encontre em andamento. Ou seja: um fato é ignorado por prejudicar Alckmin; uma denúncia é amplamente discutida por prejudicar Dilma. Dois pesos e duas medidas.

Aliás, faço um desafio: entre no UOL todos os dias (mas não clique em nada; eles não merecem pageviews) e perceberá que sempre haverá uma manchete anti-governo em destaque. Se houver algo positivo, estará enterrado no pé da página. Por outro lado, chamadas envolvendo a oposição sempre ganham viés positivo. Não é à toa que, há algum tempo, o UOL mudou a manchete da mesma notícia em um curto espaço de tempo, transformando um fato positivo em negativo no espaço de apenas algumas horas. Da mesma maneira, é impossível esquecer a manchete da Foxlha, em novembro, que informava “Prefeito sabia de tudo, diz fiscal preso”, esquecendo-se convenientemente de observar que o prefeito em questão era o ex, Kassab, e não o atual, Haddad.

Este ataque diário já trouxe resultados: virou clichê – e até motivo de piada – notar como sempre há alguém culpando o PT por tudo que ocorre no mundo, desde questões municipais em cidades administradas por tucanos ou democratas até, pasmem, a derrota do Vasco no campeonato brasileiro (não é brincadeira; o técnico da equipe atribuiu a responsabilidade ao PT em entrevista pós-jogo). Enquanto isso, comentaristas de portal (o esgoto do esgoto da Internet) publicam ameaças/desejos de morte à presidente – sendo aplaudidos com “likes” pelos colegas -, contribuindo para o processo de desumanização da política e do debate sadio.

O mais irônico é que estes mesmos jornalistas e comentaristas de Internet insistem em afirmar que o governo é “censor”. Ora, se o governo Dilma realmente aplica a censura nos meios de comunicação, o censor oficial deveria ser imediatamente demitido, pois está fazendo um trabalho pavoroso, já que, como já dito, a presidente e sua gestão se encontram sob ataque constante. O curioso é que estes mesmo indivíduos que gritam “Censura!” nada comentam sobre a tentativa de Aécio Neves de censurar o Google ou sobre a postura do senador tucano Aloysio Nunes, que, ao ouvir uma pergunta feita por um sujeito, partiu para a agressão física e ainda conseguiu fazer o sujeito ser preso. Detalhe: em ambos os casos, tudo foi registrado pela Justiça ou em vídeo, tornando impossível negar o que ocorreu. Aliás, sabem como O Globo noticiou a agressão de Nunes? “Ex-assessor de deputada petista é preso por insultar senador”. Vejam o vídeo e reflitam se realmente foi isto que ocorreu.

MAS, ENTÃO, O QUE FAZER?

Ah, jovem padawan, esta é a questão central. Porque o que vem ocorrendo é que, acuados pela enxurrada de ataques por parte da mídia e comentaristas de portal, os militantes de esquerda, associados ou não a algum partido, parecem cada vez mais tímidos e intimidados. E é precisamente isto que a direita deseja: criar uma sensação de instabilidade e de insatisfação tamanhos até que a vitória das forças conservadoras se torne viável. Não é à toa que a aprovação de Dilma caiu – estranho seria se, com tantas manchetes contra seu governo, ela se mantivesse no mesmo lugar. No entanto, as perguntas mais importantes são: a queda da presidente reflete o estado das coisas? Estamos mesmo indo para o buraco sob a liderança de Dilma Rousseff? A presidente está destruindo o país? As coisas estão piorando?

Errr… não. Nem de perto. O desemprego nunca esteve tão baixo. 22 milhões de pessoas deixaram a situação de miséria. Educação e Saúde nunca receberam tantas verbas. O Bolsa Família, tão atacado pela direita, é visto com admiração pelo resto do mundo.

Não que a gestão Dilma seja perfeita. Particularmente, me irrito constantemente com o espaço que o governo confere aos fundamentalistas religiosos e à bancada ruralista. Movimentos sociais foram solenemente ignorados neste primeiro mandato e a aliança do PT que permitiu a ascensão de figuras como Márcio Lacerda em Belo Horizonte provocou danos profundos à minha querida cidade. (Reparem que não linkei nada para comprovar os aspectos negativos relacionados à Dilma, já que os conservadores não pedem fontes quando a informação é anti-governo e não protestarão.)

Mas não, mesmo considerando os problemas inquestionáveis do governo, o retrato de caos pintado pela mídia não corresponde à realidade.

“Mas a inflação está descontrolada!” “A Petrobrás está afundando!”

Ai, ai.

A inflação anual na gestão Dilma é menor que aquelas dos governos Lula e FHC.

Inflação anual sob Dilma: 6,08%.
Sob Lula: 7,53%.
Sob FHC: 12,4%.

“Ah, mas FHC pegou o país muito pior e, quando entregou a Lula, tudo já estava melhorando! Lula foi beneficiado por tudo que FHC fez.”

Hum… não. FHC, na verdade, quebrou o Brasil três vezes. Em seu segundo mandato, a inflação vinha subindo.

12anos

E a Petrobrás? Está mesmo afundando sob Dilma?

Vamos ver. Em 2002, a Petrobrás valia 15,5 bilhões de dólares. Em 2012? 126 bilhões. O lucro da Petrobrás em 2002: 8,1 bilhões. Em 2012? 21,2 bilhões. A receita da Petrobrás em 2002: 69,2 bilhões. Em 2012? 281,3 bilhões.

Uou.

Por outro lado, vale apontar que FHC tinha planos de privatizar a empresa (lembram da “Petrobrax”?); a impediu de buscar empréstimos no exterior; quebrou o monopólio sobre o petróleo com o objetivo de permitir que empresas estrangeiras explorassem nossas jazidas; entre outras ações pavorosas.

E Pasadena? Isto justifica um mau negócio? Bom, negócios são negócios; erros de avaliação ocorrem. Agora, se envolveram negligência e/ou corrupção, devem ser investigados e punidos. Se envolveram. Ainda assim, é importante apontar que a questão é complexa e que até mesmo o especialista convidado pela Globo News para opinar sobre o assunto mostrou-se favorável à maneira com que a Petrobrás vem sendo administrada.

OK, OK, MAS VOCÊ NÃO RESPONDEU O QUE DEVEMOS FAZER!

Verdade. Acabei me distraindo.

Bom, neste momento, já que a Comunicação do governo federal parece incapaz de se defender (este é um problema histórico das gestões Lula-Dilma; sofrem de Síndrome de Estocolmo e parecem gostar de apanhar da mídia, sempre sonhando em conquistá-la), cabe a você combater a campanha de desinformação da mídia. Sempre que ler (mais uma) manchete negativa no UOL, leia a matéria e suas entrelinhas. Ou melhor: busque outras fontes. Esqueça o UOL e a Abril de modo geral. Uma coisa é ter posição política; outra é maquiar/alterar/manipular informações.

Por sorte, temos os fatos do nosso lado e o Google existe para isso. O importante é não ficar calado – o silêncio dá a impressão de estarmos admitindo um fracasso que não existe. Estimulem seus amigos e seus familiares a pesquisarem. Quando vierem com um “a culpa é da Dilma!”, pergunte por quê. Peça fontes. Não tenha medo de ser atacado(a) – passo por isso todo dia nas redes sociais (e certamente acontecerá nos comentários deste post) e posso afirmar que não dói. Com o tempo, até passa a ser divertido, já que o desespero da oposição se torna evidente assim que é confrontada com os fatos.

Não podemos desanimar. Não podemos nos acovardar. Há um projeto muito bonito – mesmo que falho – em andamento. E se você se lembra de como o país era no período FHC (ou como é na gestão tucana em MG e SP), sabe que não podemos caminhar para trás.

A vantagem é que – de novo – os fatos e as estatísticas estão do nosso lado, mesmo que a oposição tente fazer o possível para desmerecê-los/questioná-los – desde manobras matemáticas absurdas e gritos de “Você está esquecendo o contexto!” até manipulações grosseiras como aquelas feitas nos gráficos exibidos nos telejornais da Globo, que magicamente transformam 5,91% em algo superior a 6,50%:

12anos

É uma batalha árdua, que exige esforço, dedicação e paciência.

Mas querem saber? Que vale muito a pena.

Em 1943, a Disney deu uma olhada 70 anos adiante

postado em by Pablo Villaça em Política, Vídeos | 20 comentários

A raposa publica jornais diários, revistas semanais e apresenta telejornal em horário nobre.

(Lembrança de Christian Heit)

E daqui, para onde vamos?

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Política | 435 comentários

Hoje participei da manifestação que ocorreu em Belo Horizonte e sinto-me à vontade para dizer algo: Geraldo Alckmin conseguiu o que queria e entrou para a História do Brasil. Não como sonhava entrar, mas seu nome já está garantido ao menos como nota de rodapé nos livros didáticos.

Explico: até a noite de quinta-feira, 13 de junho, o movimento que ocorria pontualmente ao redor do Brasil em protesto ao aumento das passagens de ônibus era algo relativamente difuso, sem muito potencial para crescimento. Havia duas opções de desfecho: as passagens seriam reduzidas (como ocorreu em Porto Alegre) e tudo voltaria ao normal ou eventualmente a negativa das empresas e do governo deixaria claro que nada poderia ser feito quanto à questão. No entanto, a partir do instante em que Alckmin agiu como Alckmin (e Serra) e ordenou que a PM reprimisse a manifestação popular com força desproporcional, catalisou um processo que talvez levasse um tempo infinitamente maior para se cristalizar. Ninguém gosta de um bully – e o governo tucano, como já havia se mostrado em tantas outras ocasiões (com professores da rede pública, estudantes da USP, habitantes do Pinheirinhos e até mesmo com a Polícia Civil), não hesita em se entregar ao bullying sempre que questionado.

Desta vez, porém, Alckmin errou feio seu cálculo e criou um monstro que se espalhou por todo o país. A partir de quinta-feira, a questão definitivamente já não girava mais em torno de 20 centavos ou mesmo do transporte público livre; era uma questão de cidadania. E, como tal, deixou também de ser algo contra o governo tucano ou a prefeitura petista, passando a ser um grito de revolta generalizado, um berro de “chega!”.

Mas “chega” o quê?

E foi esta pergunta que vi tantos jovens se fazendo durante o manifesto em BH – mesmo que não percebessem o questionamento. Assim, voltei para casa feliz por testemunhar o despertar de uma juventude repleta de potencial, mas também inquieto por perceber claramente que ela não tem ainda uma ideia muito clara do que está fazendo ou de como prosseguir.

O que resulta numa combinação muito, muito perigosa.

(Aqui peço licença para um breve flashback pessoal para estabelecer por que me julgo detentor de certa experiência para discutir a questão: em 1992, depois de fundar e presidir por dois anos o grêmio do colégio no qual estudava – Promove Savassi -, fui eleito em assembleia estudantil como líder do movimento secundarista no Fora Collor. Como tal, participei da organização das manifestações em Belo Horizonte, discursei em carro de som na Praça da Liberdade e na Praça Sete e fui o rosto de meus colegas sempre que uma entrevista à imprensa era necessária – e certamente há fitas embaraçosas nas emissoras mineiras que trazem meu rosto moleque tentando parecer sério enquanto discute os motivos que tornavam necessária a saída do Presidente. Na época, fui um dos estrategistas do movimento em Minas, ajudando a decidir datas, locais e focos de protesto – e mais tarde presidiria o DA da faculdade até abandonar o movimento estudantil ao perceber que precisava me focar nos estudos. Não sou, portanto, um mero palpiteiro, creio eu. Fim do flashback.)

Ao caminhar entre a multidão de milhares de pessoas neste sábado, percebi duas coisas muito óbvias: uma imensa empolgação e uma preocupante falta de foco.

A primeira é fácil compreender: há anos a juventude não ia às ruas – e, como toda geração, eventualmente era inevitável que ela se questionasse acerca de sua própria revolução. A geração anterior teve o “Fora Collor!”; antes dessa, houve a luta contra a Ditadura. O que a geração pós-anos 90 tinha para protestar, porém? Quando e como poderia extravasar o impulso rebelde que faz parte do DNA jovem e que é algo tão belo e fundamental para o avanço da Humanidade?

Os últimos dias trouxeram esta oportunidade – e não é à toa que um jovem amigo pelo qual tenho imenso carinho me enviou uma mensagem por telefone na qual dizia, em parte, “estar em êxtase” após a passeata. Como não estaria? Lembro-me de meus dias de líder estudantil e ainda sinto o calor nostálgico da sensação de dever cumprido: como tantos antes de mim, eu estava deixando minha marca na História.

É um sentimento lindo, único, precioso. E sinto-me privilegiado por ter testemunhado o brilho que este trouxe aos olhos de tantos jovens hoje em Belo Horizonte. Eu olhava ao meu redor e via este êxtase em todos os rostos lisos que me cercavam – e sentia a vontade de abraçá-los com força e dizer: “Eu sei. É lindo, não é?”.

Sim, é lindo.

Mas eu também me sentia inquieto ao observar que, ao lado da euforia, havia uma clara dispersão de objetivos. Assim, puxei papo com vários jovens e observei atentamente os cartazes que carregavam.

“Pela humanização das prostitutas!”

“O corpo é meu! Legalizem o aborto!”

“Fora, Lacerda!”

“Viva o casamento gay!”

“Passe Livre já!”

“Passagem a 2,80 é assalto!”

“Pelo fim da PM no Brasil!”

“Cadê a Dilma da guerrilha?”

“Fuck you, PSTU!”

“Aécio NEVER!”

“Não à Copa no Brasil!”

E por aí afora. Era um festival desconjuntado de causas, ideologias e revoltas. Os cartazes tratavam dos sintomas, não da doença – e ao berrarem os sintomas pelas ruas de BH em vez de identificarem a patologia que os provocavam, aqueles jovens pareciam felizes, sim, mas também um pouco perdidos.

Passei a caminhar silencioso pela multidão. Sentia a energia gostosa, positiva, da ação juvenil, mas mergulhava cada vez mais em uma reflexão preocupada sobre o que via. Seria apenas um sinal dos tempos? Uma revolução do tempo das redes sociais, nas quais você pode “curtir” uma mensagem, uma causa, a cada segundo? Havia, sim, um componente de hiperlink até nos bordões cantados pela massa: um refrão sobre os ônibus levava a outro sobre a PM que levava a outro sobre a Copa que levava a outro sobre Lacerda que levava a outro sobre…

… sobre o quê?

Ao chegar em casa, manifestei esta dúvida no Twitter e alguns jovens imediatamente responderam: “Ninguém nos representa!” e “Sim, estamos contra tudo!”.

Mas “estar contra tudo” não é ideologia.

E sem ideologia não há movimento que se sustente. Ou, no mínimo, que se sustente de maneira consistente – o que abre espaço para a manipulação.

Foi isto, enfim, que me angustiou profundamente.

Vivemos em tempos perigosos: a direita religiosa se torna cada vez mais influente e as grandes empresas da mídia já perceberam que o PSDB não é uma oposição viável – e, assim, decidiram ser elas mesmas a Oposição. Não é à toa que, contradizendo todos os índices econômicos divulgados por órgãos independentes, a Globo, a Foxlha, a Veja e o Estadão vêm pintando um quadro de instabilidade crescente: inflação alta, dólar alto, PIB decrescente e por aí afora, pintando um país em crise que, sejamos honestos, não corresponde ao que vemos todos os dias nas ruas.

Enquanto isso, o aliado histórico dos movimentos populares, o PT, parece ter se esquecido de suas origens: tímido em sua resposta à brutalidade da PM, Haddad apenas embaraçou-se ao relativizar os excessos da polícia – e sua proposta de se reunir com as lideranças do movimento Passe Livre vem tardio, já que estas já não representam mais as massas na rua. Enquanto isso, Dilma é vaiada num estádio lotado por representar o poder – mesmo que, há pouco tempo, tenha oferecido subsídios justamente para diminuir as passagens de ônibus que, ironicamente, serviram como estopim da revolta.

Ora, se o PT não é visto mais como representante popular pelos manifestantes (e nem tem projeto que o aproxime da juventude) e o PSDB é claramente a mão pesada da repressão, para onde os jovens podem se voltar? Além disso, como não têm uma causa específica a defender, estes empolgados rapazes e moças criam um problema impossível, já que não há solução viável que os acalme. Como resultado, surge apenas um clima imponderável de insatisfação política generalizada – um clima complexo, intenso, raivoso e insolúvel.

É deste tipo de contexto que nascem os golpes.

E esta não seria uma solução que desagradaria os barões da mídia – lembrem-se das manchetes dO Globo pós-golpe em 64.

Claro que esta não é a única resolução possível para o quadro que se desenha. Uma revolução sem foco é uma revolução em busca de um líder, de um emblema, de uma figura messiânica. E não há, hoje, uma estrutura política mais equipada para preencher este vácuo que a direita religiosa.

A guinada reacionário-fascista, portanto, é uma possibilidade nada absurda para este movimento que nasce tão bem intencionado.

Isto, aliás, é que me deixa tão preocupado: os jovens que vi hoje na rua eram… lindos. Lindos. Felizes em seu papel democrático, acreditavam estar desempenhando uma função histórica fundamental. E estão. Mas se não surgir um foco para esta embrionária revolução, o perigo para que ela se desvirtue e seja cooptada pelo que temos de mais reacionário, conservador, atrasado e estúpido é real e imediato.

E veríamos, então, a destruição dos resultados trazidos por dez anos de um projeto político voltado de forma inédita para o crescimento social dos miseráveis. Ninguém duvida que, do ponto de vista social, o Brasil de 2013 seja infinitamente melhor que o de 2003. Mas se esta massa juvenil maravilhosa não encontrar o foco necessário, corremos um grande risco de regressarmos a 1993.

Foi isto, afinal, que me deixou tão triste após uma tarde de alegria ao lado daqueles admiráveis jovens.