Política

São Paulo, 13 de junho de 2013

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Política | 82 comentários

“Aquela noite escura teve estrelas:
as estrelas humanas,
as lâmpadas do povo.”

– “Dito no Pacaembu”, Pablo Neruda

De acordo com a Veja, “ação rigorosa da PM impediu depredação da Paulista”. Seu principal articulista, Reinaldo Azevedo, chamou manifestantes de “vagabundos“. Mais cedo, um editorial do Estado de São Paulo pedia que os PMs dessem “um basta” na ação dos “baderneiros”. Já a Superinteressante, outra publicação da Abril, atribuía a culpa da violência… à presidenta Dilma. Todos diminuíam a responsabilidade do governador Alckmin, do PSDB, e ressaltavam o silêncio do prefeito Haddad, do PT.

Mas foi a PM controlada pelo governo do estado que massacrou os manifestantes. Que, ao contrário do que inicialmente tentaram afirmar GloboNews, Foxlha, Veja, Estadão e demais cúmplices, agiam de maneira calma e pacífica mesmo diante da presença da tropa de choque. É profundamente comovente ver os cidadãos gritando “Sem violência! Sem violência” apenas para ver seus pedidos respondidos com o avanço impiedoso de uma polícia obviamente instruída a agredir, machucar e reprimir sem hesitação. Basta observar que, já nos primeiros segundos da ação policial, um criminoso de farda dispara uma bala de borracha nas costas da multidão em fuga.

Enquanto isso, a GloboNews informava que ninguém havia sido ferido e o UOL dava destaque a um pobre PM que supostamente fora obrigado a ouvir gritos de “Lincha, mata!”. Pobres tímpanos sensíveis.

A Internet, contudo, não permite mais tão facilmente a mentira da Velha Mídia. Em questão de minutos, surgia um tumblr dedicado exclusivamente a desmentir a informação de que não havia feridos. Logo, outros vídeos reveladores entregavam até mesmo a ação bandida de policiais para criar a impressão de que os manifestantes haviam promovido quebradeira:

Não é difícil imaginar o objetivo do policial que parte o vidro da própria viatura, é?

Por outro lado, não é fácil compreender o que se passa nas mentes de quatro homens fardados que não hesitam em espancar um fotógrafo desarmado:

Ou como alguém pode disparar um tiro de borracha contra um cidadão que se encontra deitado e indefeso no meio da rua:

Ou contra outros cidadãos que já se encontram com os braços erguidos:

A situação se tornou tão insustentável ao longo das horas seguintes que o apresentador Datena, em seu programa na Band, deu início a uma enquete cuja formulação visava escancaradamente influenciar a resposta dos espectadores: “Você é a favor de protesto com baderna?”.

Ora, se o qualificativo “com baderna” faz parte da pergunta, a tendência de qualquer cidadão é responder “não”. Observem que mesmo quem normalmente se mostraria favorável a manifestações teria a tendência de, levado pela estrutura maniqueísta da pergunta, a se mostrar contra a ideia.

E ainda assim, isto aconteceu:

A revolta dos espectadores diante das ações criminosas da PM foi tamanha que, “baderna” ou não, a maioria decidiu apoiar os manifestantes – e Datena, pensando na audiência, imediatamente mudou de opinião e passou a chamar a “baderna” de “show de democracia”.

E até mesmo a Veja, inundada no Twitter por protestos de internautas revoltados com a manchete citada no início deste post, alterou a chamada de “PM impede depredação da Paulista” para “PM impede tomada da Paulista”.

Pena que se esqueceram de mudar a URL da notícia.

Assim, este 13 de junho foi um dia vergonhoso para a imprensa brasileira (mais um), mas admirável pela ação dos manifestantes. Mais cedo, escrevi que as grandes mudanças na história da humanidade foram movidas pela Ciência, pela Arte e pela inquietude da juventude – e lamentei que as duas primeiras estivessem sendo cada vez mais podadas pela religião, ao passo que a terceira encontrava-se morta. Fico feliz por perceber que há exceções, mas triste ao vê-las apanhando nas ruas de São Paulo. E ainda mais arrasado ao ler tantas manifestações de apoio às ações da PM feitas por jovens – e creio nunca ter bloqueado tantas pessoas no Twitter e no Facebook como fui obrigado a fazer hoje em função das mensagens repletas de veneno reacionário e fascista que recebi. Temo por esta geração: se a juventude é a fase da rebelião e há tantos proto-fascistas em seu meio, imagino, assombrado, a quantidade de Bolsonaros que surgirão em 30 anos.

Além disso, as ações escancaradas da PM me fizeram sentir uma dor profunda ao constatar que, se estes policiais agem assim sob o escrutínio de centenas de câmeras, mal podemos conceber o que fazem rotineiramente quando se encontram anônimos e diante dos miseráveis de nosso país. Penso na humilhação, nas surras, nas feridas e nos mortos jamais registrados por câmeras de iPhone e flashes de jornalistas e percebo como nos encontramos cegos. Com nossa ignorância, somos cúmplices das mortes de um sem-número de índios, de sem-teto, sem-terra e sem-direitos ao redor do Brasil.

O que houve hoje em São Paulo é apenas uma espiadela apavorante por trás da cortina. E vai muito além de um protesto em função de 20 centavos. Acreditar nisso é mais do que alienação; é cegueira absoluta.

Bolsonaro no Cinema

postado em by Pablo Villaça em Brincadeiras, Política, Twitter | 27 comentários

Jair Bolsonaro entrou com um mandado de segurança para, acreditem ou não, ter o direito de pescar em uma estação ecológica. Se este sujeito fosse um vilão do Cinema, eu provavelmente o consideraria caricatural, undimensional demais para funcionar. Bom, ao menos ele é consistente: não tem respeito por nada nem ninguém, homem ou animal.

Sua visão de mundo é tão deturpada que acabei brincando no Twitter de imaginar sua percepção acerca de certos filmes e mesmo sua participação em alguns deles – e se quiserem deixar suas contribuições nos comentários abaixo, fiquem à vontade.

  • Bolsonaro, Malafaia e Feliciano teriam sido expulsos da Sonserina. “Há limite para tudo!”, protestariam os demais alunos.
  • Dizem que Sauron, ao receber a ficha de alistamento de Bolsonaro, a recusou por temer que ele trouxesse má fama ao seu exército de orcs.
  • Há alguns anos, Bolsonaro foi infectado pelo embrião do Alien. O bichinho morreu envenenado lá dentro.
  • Certa vez, Bolsonaro pediu uma audiência com o Imperador Palpatine. Após o encontro, este comentou com Vader: “Aquele cara é louco!”.
  • Bolsonaro ficou chateadíssimo quando os brinquedos foram resgatados da fornalha em Toy Story 3.
  • Até hoje Bolsonaro acha que A Lista de Schindler é uma comédia.
  • Bolsonaro desistiu de jogar Mario Bros quando descobriu que não havia a opção de selecionar o vilão Bowser como seu personagem.
  • Bolsonaro até hoje não entende por que Star Trek é narrado a partir do ponto de vista da Federação e não dos Borgs.
  • Bolsonaro acredita que Seven é um drama sobre um herói justiceiro perseguido por dois detetives psicopatas.
  • Bolsonaro acha que A Família Addams é um documentário sobre seus parentes.
  • Toda vez que Jason é morto ao final dos filmes Sexta-feira 13, Bolsonaro começa a chorar.
  • Uma vez, Freddy Krueger sonhou com Bolsonaro e molhou a cama.

 

Ashley Judd, uma ameaça para os Republicanos

postado em by Pablo Villaça em Política, Vídeos | 26 comentários

Entre 1997 e 2004, a atriz Ashley Judd viveu um breve período de estrelato absoluto: qualquer produtor que precisasse de uma protagonista para um suspense/policial colocava o nome da moça no topo da lista. No entanto, como ela insistia em apostar em obras formulaicas, seus resultados de bilheteria foram diminuindo e, consequentemente, seu nome foi descendo na lista – o que, associado ao fato de que Diane Lane competia basicamente pelos mesmos papéis e encarava cenas de sexo mais fortes, acabou transformando Judd em uma vaga memória na mente dos cinéfilos. Isto prova não só que o público tem, sim, paciência limitada no que diz respeito a atores que insistem em fazer o mesmo tipo de filme repetidamente como ainda deixa claro o sexismo de Hollywood – e Ashley Judd, que sempre se proclamou feminista, tem um histórico de se recusar a ficar nua em certas produções que ela sentia estarem apenas interessadas em explorá-la (e é sintomático que ela tenha recusado o papel de Mulher-Gato para se dedicar ao papel da forte Maggie numa montagem de “Gata em Teto de Zinco Quente” para a Broadway). Seja como for, sua carreira em Hollywood está em franca decadência há alguns anos.

E é aí que a história fica mais interessante: em 2009, a atriz retornou à faculdade – Harvard! – e fez um mestrado em Administração Pública. A partir daí, começou a se envolver com ativismo político e, mesmo não abandonando Hollywood completamente, tornou-se uma defensora ardente de políticas públicas mais progressivas no que diz respeito ao meio ambiente, anunciando apoio entusiasmado à reeleição de Barack Obama.

Ah, mas a coisa fica melhor: como cresceu no estado de Kentucky, a atriz começou a considerar um ingresso formal na política da região – o que nos traz à corrida para o Senado em 2014. Desde 1984, o representante de Kentucky é o conservador Mitch McConnell, que durante a última eleição presidencial fez uma pesada campanha contra Obama através de mensagens que alegavam que este queria “tomar as armas da população”. Favorável à guerra do Iraque e defensor da manutenção de Guantanamo Bay, aquele pesadelo humanitário, McConnell atacou também o “Obamacare”. É, em suma, o representante perfeito de um estado conhecido por seu conservadorismo.

Assim, quem poderia derrotá-lo em 2014, considerando que ele permanece imbatível desde 1984?

Sim, os democratas parecem acreditar que Ashley Judd poderia realizar esta proeza – e nos últimos meses o nome da atriz passou a ser abertamente discutido pelo comitê eleitoral do partido. E querem saber a melhor parte? Os republicanos parecem realmente temê-la.

Como podemos ter certeza disso? Simples: a organização American Crossroads (um super PAC coordenado pelo perigoso e nojento Karl Rove, o cérebro por trás de Bush Jr.) acaba de lançar um vídeo de mais de um minuto que tem o único propósito de atacar Judd – antes mesmo que ela se torne um projeto de candidata. Trata-se de um comercial agressivo, baixo e que, honestamente, beira a paródia em seu maniqueísmo.

E que comprova que, caso realmente aceite a indicação, Ashley Judd pode se preparar para uma campanha muito, muito suja.

Triste mundo…

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Política | 9 comentários

… no qual o presidente de um país importante como os Estados Unidos precisa divulgar uma foto sua disparando uma espingarda para provar para os eleitores que gosta de armas, como se isto fosse uma virtude.

(Às vezes, o twitter faz falta. Só às vezes.)

O deputado e o ursinho

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 75 comentários

Tornou-se clichê usar o belo poema de Eduardo Alves da Costa, escrito como desabafo libertário diante da ditadura militar, mas é inevitável pensar neste trecho de “No Caminho com Maiakóvski” diante de certas manifestações de autoritarismo cultural que vêm acontecendo no Brasil com frequência cada vez mais alarmante:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Este é o problema em ser seletivo ao decidir quais batalhas se quer lutar em uma guerra – se você abandona umas e abraça outras, não está realmente defendendo seu lado; está comodamente lutando apenas em causa própria.

Pois minha causa é a de liberdade absoluta para a Arte, aprovando ou não seu conteúdo. Desprezei profundamente Um Filme Sérvio; isto não me impediu de defendê-lo a ponto de escrever sobre sua proibição, ajudar a organizar e participar de uma exibição pública e de um debate ao seu respeito. Considero Rafinha Bastos uma das piores coisas que o humor nacional já produziu, mas protestei quando seu DVD foi proibido pela justiça de São Paulo. O que me motivou a fazer tudo isso foi a certeza de que eram os primeiros passos para que a ideia de censura voltasse a circular aos poucos entre os brasileiros – e era apenas uma questão de tempo até que representantes eleitos democraticamente começassem a vomitar o desejo de proibir outras obras baseados puramente em seu gosto pessoal.

Entra Protógenes Queiroz, delegado da PF, deputado federal e um sujeito que, até então, vinha colhendo elogios por sua postura inabalável de combate à corrupção. Provando que o ser humano é a mais complexa das criaturas e que o mesmo homem que representa uma bandeira fundamental pode meter o pé em outra igualmente imprescindível, o deputado decidiu que era o momento de usar sua posição para defender a censura.

O caso, porém, começa de forma patética, digna de umas das notícias falsas publicadas pelo Piauí Herald: depois de levar o filho de 11 anos de idade para assistir ao longa Ted, de Seth MacFarlane, Protógenes, chocado com o que viu, decidiu agir como um fã de Restart e xingar muito no Twitter:

Foi o primeiro passo de uma cruzada pessoal cuja etapa seguinte foi uma matéria no Estadão que, esta sim, parece ter saído do The Onion brasileiro: com o título “Deputado quer proibir filme de ursinho viciado” (ok, podem rir), o texto traz as seguintes pérolas:

“O deputado, também delegado da Polícia Federal, criticou os Ministérios da Justiça e da Cultura por terem liberado o filme para maiores de 16 anos. “Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas”, afirmou. Protógenes disse que, como deputado, pedirá explicações dos dois ministérios sobre a liberação do filme.”

Em primeiro lugar, o óbvio: depois de se ver numa situação constrangedora ao levar o filho de 11 anos para assistir a uma obra cuja classificação indicativa era “16 anos”, Protógenes resolveu descontar o embaraço que sentiu na própria democracia. Assumindo o papel de um juiz Dredd da moral e dos bons costumes, ele assistiu ao filme, avaliou o material e decidiu que ninguém mais deveria ter o direito de vê-lo. “Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma”, sentenciou do alto de sua visão megalomaníaca de mundo. E, dentro desta lógica, não hesitou em “pedir explicações” sobre a “liberação do filme”.

A explicação é simples, deputado: o Brasil voltou a ser uma democracia. Não temos mais, felizmente, um comitê central que decide arbitrariamente, a partir de critérios morais, religiosos e/ou ideológicos, o que o resto do país pode ou não ver. Para o bem ou para o mal, somos tratados como adultos pelo governo (ao menos neste aspecto), não como crianças que devem ser orientadas com relação ao que devem consumir culturalmente.

Mas Protógenes prossegue em seu show de embaraço ao alegar que o filme “instrui o espectador a não estudar e a não trabalhar”. Ora, mesmo que isto fosse verdade (e não é; o modo de vida de Ted e seu dono é claramente retratado como empecilho para o crescimento da dupla, demonstrando que o deputado não sabe sequer interpretar uma obra), que ideia absurda é esta de que um longa consegue “instruir” alguém a fazer algo? Se uma pessoa decide se tornar consumidora de drogas porque viu isto num filme, seu problema já antecedia a ida ao cinema; era uma questão de caráter, imaturidade ou insanidade, não de um longa-metragem perverso agindo sobre sua mente.

Porém, a experiência do parlamentar se torna realmente hilária quando ele relata:

“Protógenes disse que o filho perguntou se ele queria ir embora. “Respondi que não. Queria ver até onde ia aquele desrespeito.””

Recapitulemos: o filho de 11 anos de idade perguntou se ele queria ir embora. E ele disse “não”.

Mas a culpa é do filme, não de sua falha como pai.

A sessão de embaraço termina com este pequeno momento de surrealismo:

“Protógenes disse ainda que ficou indignado ao ver um herói de sua juventude – Flash Gordon – usando cocaína.”

E aí começo a entender a lógica (ou falta) de Protógenes: para alguém que aparentemente acredita que Flash Gordon é real e cocainômano, é realmente difícil estabelecer o limite entre ficção e realidade.

Insanidades à parte, porém, a postura do deputado é perigosíssima: muitos de vocês talvez não se lembrem, mas eu ainda me recordo de uma época em que obras de arte eram impedidas de chegar aos brasileiros por quaisquer motivos arbitrários alegados pela Censura – e não foi um período bonito, acreditem. A arrogância de Protógenes, aliás, é tamanha que ele não hesita em escrever como se estivesse de fato falando em nome de todos os brasileiros:

 A melhor parte para mim, claro, é o fato de ele protestar contra os “enlatados culturais americanos”… via twitter for iPad. 

Dito isso, o tempo verbal “Não aceitamos” é de uma arrogância assustadora – e preocupante. Assim como é alarmante perceber como Protógenes se encontra tão convencido de seu papel como juiz do que o povo brasileiro merece ou não ver que não se dá conta de contradições patentes em sua postura como “defensor da democracia”. Ora, no dia 23 de setembro, o deputado publicou o seguinte tweet:

“Não concordo com a restrição a (sic) liberdade de expressão”. Perfeito, Protógenes. Sua postura é admirável. Aliás, sabe para quem você deveria ensiná-la? Para o Protógenes 24 horas mais velho:

Espero que vocês se entendam, pois certamente parecem ter visões bastante conflitantes de mundo. A propósito: aproveite que irá conversar com ele e envie um recado por mim, por gentileza: diga a ele que a imagem que exibe no cabeçalho de seu blog pessoal é uma das mais honestas que já vi no espaço oficial de um parlamentar. Deprimente, claro, mas ainda assim honesta.

A Foxlha quer Lacerda em BH

postado em by Pablo Villaça em Política | 31 comentários

Eu nem vou acrescentar nada à discussão. Normalmente, não posto links no blog sem comentá-los de alguma maneira, mas… desta vez, não julgo ser necessário: a imagem já grita por si mesma.

Para resumir: no dia 31 de agosto, Lula voltou aos palanques ao apoiar publicamente a eleição de Patrus em Belo Horizonte (uma mudança que considero fundamental, já que o higienista Márcio Lacerda é um dos piores prefeitos que esta cidade já enfrentou). No dia seguinte, sábado, a Foxlha publicou em sua capa uma foto de Lula e Patrus durante o comício. Porém, se você mora em Minas Gerais, viu, em vez disso, uma foto de Clint Eastwood e Obama (de costas!) – algo, convenhamos, absolutamente irrelevante para nossa realidade. O motivo? Como sempre buscando beneficiar os tucanos e ciente de que a eleição em BH é absurdamente importante para o PSDB, que está prestes a enfrentar uma derrota imensa em seu reduto tradicional, São Paulo, o jornal enviou uma versão alternativa para o estado de Aécio Neves, substituindo a emblemática imagem de Lula e Patrus pelas tolas fotos de Eastwood e Obama.

Teoria conspiratória? Ora, respondam: se havia um lugar no qual a notícia sobre Lula e Patrus seria incrivelmente relevante e até capaz de alavancar vendas do jornal, qual local seria este? E por que a Foxlha, ainda assim, optou por escolher Minas Gerais para lançar uma versão alternativa sem a imagem do ex-presidente com nosso ex (e, espero, futuro) prefeito?

(via Maria Fro)

18 de março de 2012…

postado em by Pablo Villaça em Política | 20 comentários

… PT fecha com reeleição de Márcio Lacerda e, como partido, morre para mim.

Desabafo de um secularista preocupado

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 82 comentários

Marcelo Crivella é o novo ministro de Dilma – e, com isso, a bancada evangélica ganha oficialmente um cargo importante no governo (ênfase no “oficialmente”). Não sei nem como expressar meu profundo desapontamento com a presidenta – e vocês sabem que poucos fizeram tanta campanha por ela como eu. Assim, me espanta que dilmistas fundamentalistas tentem justificar a nomeação de Crivella dizendo que “o Ministério da Pesca é irrelevante” ou que “Crivella não é Malafaia”. Ora, como bem apontou um leitor no Twitter, Crivella pode não ser espalhafatoso como seu colega “pastor”, mas foi igualmente instrumental na derrota da PLC 122, que buscava barrar a homofobia.

O fato é que a presença de Crivella fortalece os teocratas – e esta é uma ameaça real e crescente. A bancada evangélica vem comendo o poder pelas beiradas e muitos parecem não perceber a estratégia. Há dez anos, se alguém tentasse apresentar uma lei que tornasse a oração compulsória em escolas públicas, seria rechaçado ou encarado como louco. Hoje, em Ilhéus, isto já é realidade. Logo a obrigação se espalhará para outras cidades e, antes que percebamos, será federalizada. É assim que eles agem; apresentam hoje uma lei que é encarada como absurda (permitir que crianças sejam educadas em casa – o que impedirá que aprendam sobre Evolução e outros conceitos rechaçados pelos evangélicos -; legalizar a “cura” da homossexualidade) sabendo que enfrentarão protestos – mas cientes de que, ao voltarem a apresentá-las com pequenas modificações em algum tempo, serão recebidos com menores objeções. Com isso, aos poucos vão transformando seus dogmas e preconceitos em legislação. 

E é assim que nasce uma teocracia.

Mas a estratégia da bancada evangélica é ainda mais covarde: quando diante de protestos mais contundentes, imediatamente invoca a “liberdade religiosa” para defender suas posturas de intolerância e rematada ignorância, buscando atirar sobre seus oponentes um rótulo que descreve perfeitamente aquilo que eles mesmos fazem o tempo inteiro: o de preconceituosos e intolerantes. 

O perigo é crescente: os evangélicos são organizados politica e financeiramente (com direito a isenção de impostos), sendo beneficiados também por poderem contar com um pensamento de manada que move suas bases: os fiéis/eleitores. Acostumados a aceitar a palavra dos “pastores” (sempre entre aspas, por favor) como verdade absoluta e a Bíblia como manual de instruções da vida, estes seguidores representam um contingente eleitoral quase imbatível – e enquanto os secularistas (ou simplesmente aqueles que, mesmo religiosos, acreditam na separação entre Igreja e Estado) não se organizarem e perceberem que estamos travando uma batalha por nossa liberdade, estes religiosos continuarão a ganhar mais e mais poder político.

Se nao fizermos nada, em 10 anos viveremos num país em que a oração é obrigatória em todas as escolas, gays são internados pra tratamento “corretivo”, o criacionismo é ensinado nas escolas, filmes e séries com “mensagens satânicas” são banidos, as pesquisas cientificas são limitadas por dogmas religiosos e assim por diante. Acham exagero? Leiam os jornais e acompanhem a atuação da bancada evangélica e dos “pastores”. Tudo que descrevi é defendido por eles.

Quanto à tal “liberdade religiosa”, não se iludam: assim que os parlamentares evangélicos se fortalecerem o suficiente, descobriremos que “liberdade religiosa” significa abaixar a cabeça pra eles – e isto incluirá membros de inúmeras outras denominações religiosas, de católicos a espíritas. A imagem do “pastor” chutando a estátua de uma santa não deve ser esquecida; os “pastores” evangélicos tratam os demais credos como aberrações. E sei que logo surgirão fiéis dizendo que não são assim, que estou me referindo a exceções em sua religião, mas o fato é que estas “exceções” são justamente os líderes de suas organizações – e não é possível dizer que um grupo é inocente quando praticamente todos os seus cabeças têm sangue nas mãos.

Acreditem: lamento muito não conseguir ficar calado diante desta ameaça real. Profissionalmente, seria muito mais inteligente me abster. Perco leitores ao me manifestar – não só evangelicos não fanáticos, mas outros que queriam apenas ler sobre cinema. Sei disso. E repito: sinto por isso. Mas antes de tudo, sou cidadão. E antes de ser cidadão, sou pai. E não quero ver meus filhos crescendo numa teocracia.

Caminhamos pra isso.

A situação na Bahia

postado em by Pablo Villaça em Política | 89 comentários

A greve faz parte das ferramentas democráticas de pressão trabalhista. É um recurso extremo, claro, mas legítimo. E também é fato que os policiais brasileiros historicamente recebem mal em uma profissão que exige muito – e mesmo que estejamos falando de uma categoria imprescindível para o bom funcionamento da sociedade, negar a eles o direito de greve é absurdo. O ideal, obviamente, é que um acordo seja alcançado através de negociações, mas impedi-los de usar um recurso tradicional do sindicalismo mundial seria inaceitável.

Dito isso, não se faz greve com armas na mão. Da mesma maneira que os PMs têm o direito de greve, têm também que seguir as regras que valem para todos – e qualquer grevista que disparasse tiros para o alto seria imediatamente preso.

Não é possível exigir que o governador da Bahia, petista ou não, negocie com manifestantes armados. E é preciso, também, avaliar o histórico do movimento dos PMs para entender o que está acontecendo agora no estado governado por Jacques Wagner: há um movimento nacional dos PMs para equiparar os salários em todo o país àqueles praticados em Brasília (a PEC 300). A Bahia não foi o primeiro palco de manifestações neste sentido – e todos os envolvidos nos procedimentos sabem que o Rio de Janeiro provavelmente será o alvo seguinte dos manifestantes. Mais do que isso: bombeiros e outros integrantes da PM de outros estados já foram identificados nas manifestações na Bahia, o que comprova a ideia de um movimento conjunto amplo e ambicioso. Isto não é problema – quanto mais organizada for uma classe, melhor.

O problema é a maneira como a greve foi iniciada e conduzida.

A associação comandada por Marco Prisco (ASPRA) não é a única representação dos militares – e possivelmente nem mesmo a mais significativa. Além disso, Prisco tem um histórico de confusões, não sendo acaso o fato de ter sido expulso da PM em 2001, entrando com processo para ser reincorporado (algo que, salvo engano, continua em andamento). Para piorar, há fortes indícios de que Prisco esteja usando a causa dos militares com propósitos partidários (ele é filiado, vejam bem, ao PSDB) – e estes indícios estão diretamente relacionados à maneira com que a greve foi iniciada: na última terça-feira, os representantes da ASPRA foram à governadoria e apresentaram oficialmente sua pauta de reinvidicações para a classe. Ótimo. A etapa seguinte seria a abertura de negociações sob a ameaça de uma greve caso as exigências não fossem atendidas.

No entanto, assim que saíram da governadoria, os representantes foram para a Assembleia Legislativa e a ocuparam.

Opa, há algo errado aí, não? Como é possível que a associação apresente suas reinvidicações num instante para, no minuto seguinte, iniciar uma greve com direito à ocupação de um prédio público? Onde está o tempo para que o governo avalie o que foi exigido e negocie com a classe? E como um movimento pode iniciar suas ações já ocupando um prédio público, sem qualquer tipo de ação prévia?

Para piorar, os ocupantes encontravam-se armados, o que é impensável e inaceitável. 

E foi aí que começaram ações aparentemente aleatórias de terror público: homens encapuzados invadindo e tomando ônibus para atravessá-los em via pública e disparando tiros contra vidraças de bancos e lojas.

Que assaltante ou bandido faz isso? Como pode ser que mercadinhos no subúrbio sejam incendiados (sempre por homens encapuzados) e nada seja roubado? Sim, há muitos indícios de que elementos ligados à manifestação sejam os responsáveis por estas ações – evidências tão fortes, aliás, que o governo decretou a prisão de 12 destes indíviduos. 

E agora Prisco e seus seguidores exigem a anistia destes homens (e não à toa, já que o próprio Prisco é um dos que tiveram sua prisão preventiva declarada). Mas como um governador poderia: 1) negociar com grevistas armados e 2) anistiar homens que atiraram em vidraça de banco? Só o precedente que seria aberto já comprometeria qualquer negociação durante os próximos cem anos.

Não é à toa, aliás, que a maioria dos policiais militares baianos não aderiu ao movimento. E tampouco é acaso que o governo federal tenha se envolvido imediatamente a pedido de Wagner – se as estratégias criminosas de Prisco funcionarem na Bahia serão exportadas para todo o país (e não se iludam quanto a isso), a começar pelo Rio de Janeiro. 

Não há como justificar um movimento que usa crianças como escudo humano, dispara tiros para o alto durante ato de greve e que tem como cabeça um indivíduo politicamente motivado e que não hesita em ameaçar o terror em interesse próprio.

Vale lembrar, ainda, que as PMs de Jequié e Ilhéus fizeram manifestações recentemente, mas com respeito ao patrimônio público, à ordem e à Lei. O que está acontecendo na Bahia, então, não é indicativo de um comportamento generalizado da corporação, mas de algumas centenas de policiais que parecem seguir cegamente o líder errado. 

Um líder que, com seus 800 companheiros armados, tornou-se o general de um pequeno exército. E não é assim que uma manifestação trabalhista deve funcionar numa democracia moderna como a nossa.

Democracia é mais do que uma simples questão de gosto

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 28 comentários

Não gosto de Rafinha Bastos. Não como pessoa, pois não o conheço (embora, pelo estilo de suas piadas, tampouco queira conhecer), mas como humorista. Considero-o dono de um humor óbvio, juvenil (no pior sentido) e que aposta no simples choque para provocar o riso – e escrevi sobre isso há algum tempo neste post. Assim, vê-lo sem espaço na televisão, confesso, me agradou. Não por um sentimento cínico de “revanche”, mas porque é sempre bom ver alguém medíocre perdendo espaço na mídia (e agora resta apenas torcer pelo fim do Zorra Total, do BBB, do… desisto.)

Hoje, porém, li a notícia de que o novo DVD do comediante havia sido “proibido pela Justiça de São Paulo”. O motivo: piadas (ou, conhecendo Bastos, “piadas”) feitas sobre deficientes físicos e mentais.

Em primeiro lugar, não é surpresa que estes sejam os alvos do “humorista”: Rafinha Bastos notoriamente prefere ridicularizar alvos fáceis. Como se não bastasse, suas tiradas frequentemente confundem ofensa e humor, já que ele parece acreditar que ser “politicamente incorreto” é o bastante para ser relevante e inteligente. Não é; o que importa é como você expressa esta natureza “politicamente incorreta”. 

Mas o objetivo aqui não é analisar as razões por trás da mediocridade de Bastos, mas a proibição da venda de seus DVDs. Pois, gostando ou não do comediante (não), simplesmente não posso aprovar uma medida dessas. Ninguém deveria.

Iniciada pelo secretário municipal Marco Belizário, responsável por uma pasta que pretende defender os interesses dos deficientes, a ação confunde responsabilidade legal e censura. Na primeira, qualquer um deve ser responsabilizado pelas besteiras que diz ou faz, sendo passível de consequências legais; na segunda, um grupo reduzido de pessoas define o que é aceitável ou não para toda a sociedade e interfere com a postura arrogante de impedir que julguemos por nós mesmos.

De acordo com Belizário, “humor tem que ter limite; não pode ser uma coisa nojenta”.

Ok, duas considerações, cara-pálida:

1) Quem define estes limites? Quais são os critérios objetivos para traçá-los? Porque o humor frequentemente tende a ser julgado segundo o gosto pessoal – e o que é inaceitável ou “sem graça” para um, não é para outro. Sim, há declarações (ou piadas) que se encaixam na definição de difamação e/ou injúria, mas a lei já cobre estes casos, prevendo punições. Como, então, defender que alguém avalie previamente algum material, julgando se ele deve ou não ser exposto para o público em geral? Aliás, sabe a frase anterior, sr. Belizário? Pois é, ela poderia ser a definição de “censura”.

2) É claro que o humor pode ser “uma coisa nojenta”. Não vou nem entrar na discussão sobre o que é “nojento” ou não, já que (novamente) isto seria algo absolutamente subjetivo, mas mesmo algo reconhecidamente nojento pode, claro, representar um válido esforço humorístico. Há quem consideraria o nascimento de Macunaíma uma cena “nojenta”, mas poucos negariam se tratar de algo genial – e se definirmos que o humor “nojento” merece ser proibido, não demorará muito até que Quem Vai Ficar com Mary? seja retirado das lojas em todo o Brasil, já que ver Cameron Diaz usando um gel de esperma não é visão das mais agradáveis (embora, novamente, seja algo hilário).

A decisão da justiça de São Paulo (“justiça” com minúsculas) casa-se com aquela do Rio sobre Um Filme Sérvio: juntas, formam não só precedentes perigosíssimos, mas – o pior – começam a estabelecer um padrão. E isto, sinceramente, me apavora: estamos em 2012 e dois produtos culturais (ambos de qualidade no mínimo questionável, mas isto não importa) foram proibidos por uns poucos de chegarem ao alcance de muitos a partir da alegação de que são “ofensivos”. 

Mas a Justiça (agora, sim, com maiúsculas) não serve para isso? Para punir excessos? Rafinha Bastos não foi processado por Wanessa Camargo por ofendê-la em rede nacional e perdeu? Maravilha: justiça feita. Falou uma imbecilidade e foi punido por isto. Ninguém o censurou; ninguém exigiu que a piada fosse retirada de onde quer que seja – e se Bastos foi demitido da Band, isto é simplesmente a atitude de uma empresa procurando defender os próprios interesses. 

O que ocorreu agora, porém, é completamente diferente: se você quiser ouvir as piadas de Bastos, não conseguirá (ao menos, não legalmente). Vivemos numa sociedade democrática que, depois do período sombrio da Ditadura, aprendeu a defender a liberdade de expressão – e não há “limites” para a “liberdade de expressão”, sr. Belizário, pois isto seria um paradoxo legal. O que há, repito, é a possibilidade de punir excessos, o que é completamente diferente de impedir a expressão.

Não, Rafinha Bastos não torna fácil a tarefa de defendê-lo. É arrogante, tolo e reage como um adolescente ao comentar o caso – e tampouco foi fácil defender o péssimo Um Filme Sérvio, mas não acredito que meu dever, como cidadão, seja defender apenas aquilo que aprovo e condenar o que desprezo. Ser cidadão é abraçar uma sociedade livre na qual meus fihos possam crescer certos de que têm responsabilidade sobre o que dizem, mas também liberdade para se manifestar. E me choca terrivelmente ver colunistas e blogueiros liberais, sempre dispostos a defender boas causas, celebrando a censura a Rafinha Bastos apenas porque o sujeito é um babaca. 

Não se iludam: o que aconteceu hoje, meus amigos, não é motivo de riso para absolutamente ninguém.